Romero Rodrigues Buscapé Foras de Série #63

This is a first-person interview with Romero Rodrigues describing his path from early fascination with computing to founding Buscapé. He recounts falling in love with programming, early entrepreneurial experiments, the origin of Buscapé (initially called Quanto Custa), pivoting to crawl online prices, early retailer resistance and a landmark moment proving pay-per-click advertising as a business model, use of personal network to fill early operational gaps, alignment with investors, and broader reflections on ideas, ecosystem dynamics, and hiring during crises. A short external speaker commentary praises Romero's foresight and impact on Brazil’s digital market.
Questions this video answers
June 1999.
2002 (breakeven target by December 2002).
Chapters
Eu acho que eu sou um otimista, eu gosto de trabalhar e eu sou muito focado, eu diria que eu sou quase neurótico, paranoico quando eu tô apaixonado por uma ideia. O meu maior drive é paixão, tesão, paixão, estar envolvido com alguma coisa que eu acredite. Eu lembro até hoje quando eu tive o primeiro contato com computação, foi na oitava série no Porto Seguro e era o ano todo uma aula por semana, o primeiro semestre era o Works, que é uma versão do Office. tosca, verde, só tela, e achei aquilo degradante. Falei, puta, isso aqui não tem nada de intelectual, computador é isso, tipo, isso aqui é uma máquina de escrever no fim do dia, que faz umas continhas, porque tinha lá um equivalente de um Excel. No segundo semestre foi Basic, GW Basic, e eu me apaixonei. Eu convenci meu pai a comprar um computador Afanei o livro de Basic da biblioteca do Porto Seguro e mergulhei naquilo. Lembro de uma matéria da Veja, que a Páginas Amarelas, a matéria era sobre Stanford e a Páginas Amarelas era uma entrevista com Bill Gates, que a Microsoft tinha atingido um valor absurdo de market cap, acho que 6 ou 7 bi, né? Porque já era um valor trondoso. E eu falei, pô, eu quero isso. Vou trabalhar com isso, vou montar uma empresa que vai desenvolver software. E eu sempre quis empreender, meu pai tinha empreendido, mas eu sempre esbarrava quando eu conversava com meu pai no plano de ter um capital inicial para começar o negócio. E estava ali um negócio que eu era apaixonado, eu podia começar e o capital inicial era capital intelectual. Então eu falei, não tem o que discutir, é aqui que eu vou. E tinha tentado diferentes negócios em computação antes, que não era nem computação, a primeira coisa que eu lembro que eu brinquei, ainda no colegial, foi pegar impressora, que era matricial, ainda para fazer panfleto e fazer uma empresa de editoração eletrônica com o Victor, um amigo meu. Eu sempre tive a pegada mais empresarial. Meu plano B seria acabar em consultoria ou banco. Meu plano A, desde que eu prestei o vestibular, sempre foi começar um negócio. Eu acho que como qualquer empreendedor, quando você se apaixona pela ideia, não tem mais nada. Então, os primeiros 10 anos do Buscapé, e as ex-namoradas da época não me deixam mentir, não tinha fim de semana. Era fim de semana, às vezes eu ia almoçar num domingo com a namorada, a família dela, à tarde eu já voltava para trabalhar. Não só eu, todos os fundadores e boa parte do time. A gente tinha, no escritório da Vila Olímpica, a gente tinha beliche dentro do escritório, que a galera não queria perder tempo, queria dormir lá pra continuar trabalhando, inclusive os desenvolvedores. Eu não acredito muito no momento Eureka, eu acho que é um exercício, você tem que estar buscando. Até que um dia o Rodrigo estava procurando uma impressora, falou, você sabe algum site? Procuramos, Alta Vista não tinha uma sessão de produto preço, Excite não tinha, Laicos não tinha, Google não existia, no Brasil existia o Cadê, ele tinha uma sessão de livros mais ou menos, Minto não tinha, o Miner do Uol tinha uma sessão de livros mais ou menos. A gente falou, vamos fazer um site de busca, só que vai buscar só produto e preço, só pra compra. Tanto que a ideia original, o nome era Quanto Custa, porque Cadê era o grande site de busca brasileiro e a gente ia dizer, não onde estava, mas quanto custava. O que foi diferente do Buscapé é que a ideia quebrava um paradigma grande, que é o varejo fornecer preço. E a ideia original não era digital, não era online, não era preço de comércio eletrônico, era preço de loja de rua. E quando a gente começou a bater nas primeiras lojas, os caras falaram, você está louco, eu não dou preço para o telefone, não existe isso. Então, os caras falaram, não faz sentido nenhum, ele falou, vou dar o meu preço para o consumidor que está vindo aqui e não vir. Mas tem o cara que nem te conhece. Ele falou, não, você está louco. Internet não custa R$4,00 por minuto? Eu falei, é, custa. Estou fora. A empresa deu uma morridinha. E a gente deu uma ressuscitada depois de umas duas, três semanas, sei lá, não lembro o tempo, mas veio a ideia de capturar os preços que já existiam na internet. E a gente identificou quatro ou cinco sites e começou a desenvolver a Spider para capturar esses preços. Nessa época o projeto era eu, o Rodrigo Ronaldo. Acho que a sociedade deu certo. A gente fala muito do projeto, da ideia, mas a sociedade deu certo por causa das pessoas, ponto. O resto deriva disso. Eu acho que todos nós, depois entrou o Mário na sociedade, nós quatro a gente tinha um objetivo comum de criar algo grande, algo que impactasse a vida das pessoas. A gente falava, imagina você criar um negócio que é tipo a Coca-Cola, todo mundo sabe o que é. Quando a gente colocou no ar, essa história até bem famosa, o telefone tocou pela primeira vez e tal, e era um varejista querendo que ele tirasse do ar os produtos dele, e a gente não podia tirar, só tinha 30 lojas, ele era a maior loja, um dos maiores varejistas até hoje do país, e sob ameaça de processar a gente. Sem nenhum motivo aparente, não estávamos fazendo nada errado, mas ele falou, ah, vou processar, vou dar trabalho pra vocês. A gente decidiu não tirar de longas discussões e tentar conversar com esse cara para explicar o modelo e tal. A gente nunca conseguiu conversar com ele, ele não aceitava nem receber a gente. Isso foi em junho de 99, quando a gente começou. Quando foi 2002, a gente precisava, de qualquer forma, atingir o ponto de equilíbrio, porque os investidores falaram, você não atinge o ponto de equilíbrio até dezembro, a gente vai fechar a empresa. E a gente começou a vender. e vender o programa de patrocínio, de publicidade, vai registrar em destaque, aparece a logomarca e vai pagar por clique. Às vezes o cara não queria pagar por clique, então paga uma mensalidade, mas se passar os cliques muda. Basicamente a gente colocou o modelo de clique funcionando no país. Aí quando chegou No meio do ano, mais ou menos, todos os grandes varejistas pagavam, com exceção desse cara que estava tentando processar gente, não estava tentando, mas ameaçava, tinha ameaçado processar gente, não tinha feito nada até então, não atendia o telefone e pior, geralmente ele contava para os outros varejistas, tinha um comitê de varejistas todo mês, que ele não estava pagando, que eles eram trouxas de estar pagando, que se ninguém pagasse isso não ia dar em nada e tal. A gente teve que tirar ele um dia, numa terça-feira a gente tirou ele do ar, na quarta-feira o site ficou terça-feira o dia todo fora, na quarta-feira o telefone tocou. Ele falou, eu vi que você me tirou, depois de três anos pedindo pra tirar, você finalmente me tirou. Então a gente percebeu, deu impacto aqui nas vendas. E é o seguinte, se não me colocar até o final do dia, eu vou te processar. Mas eu abrindo os olhos falei, meu, acabou essa palhaçada de que não vai dar mais preço. Pode ser que não seja o Buscapé que capture o valor disso, mas a gente conseguiu quebrar esse paradigma. O cara tá ligando, eu vou processar, se não ele está de volta. Ou seja, ele precisa dar preço agora. Não tem mais essa, não vou dar preço. Então, acho que aquele foi o primeiro momento do clique, do tipo, puta, deu certo, como modelo. Tinha ainda que dar certo como empresa. Quando a gente começou o Buscapé, não dava, não tinha como pagar advogado, não tinha como pagar assessoria de imprensa. Foi atrás dos amigos, dos brothers. Meu, porra, Igão, me ajuda a montar o primeiro contrato social nosso e tal. Igor ajudou. Tati, você faz aí NPI e tal, me ajuda a registrar a marca do Buscapé. Amigos até hoje, ela fala assim, eu quero registrar a marca do Buscapé. Pô, registrou, foi lá no INPI, cobrou só as taxas, por favor. O Alexandre, o Gellé, fizeram o primeiro release e eu falei, isso aqui não é um press release, cara. Eu falei, isso aqui é um texto publicitário, uma campanha de TV. Ele fez um press release, como se fosse uma notícia, revisou o press release, ajudou a gente. Como a gente falar com o jornalista, como não falar. Não tinha grana pra sua área de imprensa no começo. Então, bem no comecinho, a gente usou o network pessoal. Não precisa ser um netcore pessoal gigantesco, na verdade talvez você sendo menos popular você até conheça as pessoas que podem mais te ajudar. Depois eu acho que a gente sempre teve muita sorte nas pessoas que a gente trouxe para perto. Os colaboradores, a gente sempre trouxe colaborador pelo motivo certo. O Buscapé historicamente nunca ofereceu o melhor salário no mercado porque a gente Falava, olha, aqui você não vai ganhar mais porque você vai ter propósito, tá, que na América no tabaco não tem e num monte de lugar não tem. Aqui você vai ter autonomia e aqui você vai aprender. Então, se está num momento de vida que você precisa do melhor salário eu entendo, mas Não é agora, tem um momento aqui. Investidor, acho que o segredo é você alinhar muito bem o que aquele cara que está investindo você quer, quando que ele não vai mais querer, por quê e ter isso alinhado. E essa jogada limpa é importante. Às vezes você fala, mas se eu falar isso, esse cara talvez não queira investir, esse cara quer escutar que eu quero vender o negócio daqui a cinco anos, então ele só vai pôr dinheiro se eu falar isso. Fala o que você está sentindo, porque senão você vai trazer o cara errado e vai ter uma ruptura. Quando os investidores começaram a pensar em investir em internet, a gente já tinha um plano de negócio, já tinha um produto pronto, já estava no ar e já estava no noticiário. Mas o nosso plano original, essa visão a gente não teve. O nosso plano original era, pô, eu vou vender clique para a loja, eu vou pegar esse clique e vou investir em divulgação, o produto é bom, vai ter boca a boca, vai vir mais gente, mais clique, eu pego mais dinheiro de clique, invisto mais. A gente estava montando a nossa confeitaria do mesmo jeito que o Pão de Açúcar começou com uma confeitaria. Só que uma confeitaria de três engenheiros é uma empresa de tecnologia, mas era a nossa confeitaria, não tinha capital de risco. E aí a gente foi pego de surpresa, vários investidores se aproximando, a gente falou, bom, se a gente não pegar investimento e alguém pegar com um projeto igual, a gente morre na praia. É parecido com dar aula, eu nunca dei aula de uma forma muito profissional, palestra, o que seja, você acha que você está entregando, mas você recebe muita coisa de volta. Se você olhar, Duas grandes setores, duas grandes indústrias que fizeram os Estados Unidos bombar após a Segunda Guerra, excluindo o fast food, foi Hollywood e tecnologia. O que essas duas indústrias têm em comum? Todo mundo que se forma volta para patrocinar os novos talentos. Os Clint Eastwoods estão patrocinando os Brad Pitts, que agora estão patrocinando os Matthew McConaughey, whatever. E a mesma coisa na tecnologia. Você tem a turma do PayPal, de eBay, de Yahoo. São os investidores no segundo ciclo, no Facebook, no Twitter e assim por diante. Mas você não via o Carnegie fazendo isso com siderurgia nos Estados Unidos. O Rockefeller queria matar qualquer um que chegasse perto de energia. Porque o mundo era de ativo antes. Eu tenho ativo, eu tenho a usina, eu tenho a mina, eu tenho a ferrovia. Você não é ninguém, eu vou te matar. Hoje o mundo é da ideia, não é do ativo. E a ideia você não prende ela. A ideia não tem como, não tem contrato que prenda a ideia. A ideia é do mundo. Você pode ser o cara que tá tocando aquela ideia pra frente, mas a ideia é do mundo. E não tem como eu fazer todas as ideias ou eu dominar as ideias. É isso que me deixa tão... excitado em relação ao empreendedorismo, é você poder voltar, não existe, não vai existir monopólio das ideias, então o que você tem que fazer, você tem que dar um jeito de participar no maior número de ideias e tudo isso te toca de alguma forma intelectualmente. Depois outra, você fica melhor, eu não jogo tênis, mas você fica melhor no tênis jogando com gente boa do outro lado e no boxe também, você precisa de um sparing bom, você está com empreendedores bons, é um bom sparing para o teu cérebro, para o teu intelecto. A crise faz as grandes empresas pararem de investir em inovação, pesquisa e desenvolvimento, marketing ou o que seja, pessoas criativas e brilhantes estão sendo jogadas no mercado de trabalho por corte de budget e as empresas não vão inovar a linha de produto. Isso cria para as startups duas oportunidades, poder contratar gente talentosa sem ter que disputar com a grande corporação. e ter mais chance do seu produto emplacar porque a grande corporação não vai criar um produto pra se defender desse startup que tá tentando fazer a desculptura de algum cara grande que tá por aí. Tem história, né? A gente brinca, uma analogia que eu gosto é de grandes esferas. Então você tem as grandes empresas, elas são grandes esferas. Na hora que elas se tocam, Ainda tem muito espaço embaixo dessa esfera pra você crescer, e mais, tem sombra embaixo dessas esferas. Na medida que você vai crescendo, você vai afastando essas esferas. Nunca foi tão propício pra você criar a tua startup embaixo dessas grandes sombras, dessas esferas.
A grande sacada do Romero foi ter visto, antes de todo mundo, que pessoas com mais informação, com mais argumentos, passam a comparar as coisas. E o Buscapé nasceu antes que a gente percebesse que ia precisar dele. A gente costuma achar que para entrar em grandes mercados precisa de muito dinheiro ou de uma marca muito forte. Mas, na verdade, o que faz a diferença é um propósito muito claro e um time engajado em mudar o mundo. Nada é maior que isso. O Romero é uma inspiração para todos nós empreendedores. Ele foi um dos caras que iniciou o mercado digital no Brasil. E, sem dúvida, isso vai ficar marcado na história para sempre. Ele se comporta assim, é por isso que ele é fora de sede.
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