É hora de mudar de carreira?

Elisa Tosi and Mariana Polli talk with coach Mônica Barroso and recruiter Rafael Souto about when to switch careers. They outline a three-step approach: list what bothers you, talk to trusted people, then test small actions before jumping. Common mistakes include underestimating how the market sees you and leaping too far without planning.
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Olá, sejam bem-vindos ao Rádio Peão, podcast semanal da revista Você SA. Eu sou Elisa Tosi.
E eu sou Mariana Polli. No podcast de hoje, nós vamos falar sobre um assunto que já deve ter passado pela sua cabeça, transição de carreira.
Esse tema está tão presente no nosso imaginário que, de acordo com uma pesquisa feita pela Herbalife Nutrition e pela OnePool, com 23.500 pessoas em 24 países, dois em cada três profissionais sonham em pedir demissão para trabalhar com outra coisa.
É isso aí. Muita gente quer mudar de vida. Por isso, esse é o tema do quarto episódio do Rádio Peão. No primeiro bloco, vamos falar sobre as movimentações para fazer uma mudança de carreira e quais são os desafios que os profissionais terão que superar quando vivem um momento desse tipo.
E no segundo bloco, nós vamos mostrar quais são os principais erros que as pessoas cometem quando enfrentam essa situação e explicar como se preparar para a transição de acordo com diferentes momentos de carreira.
Para esse bate-papo, nós convidamos a consultora e coach Mônica Barroso, que é professora da School of Life, e Rafael Souto, CEO da Produtive, consultoria de recrutamento e carreira.
Mônica, Rafael, muito obrigada pela presença de vocês hoje. Eu queria começar a nossa conversa com uma pergunta até simples, assim. Mas que eu acho que é importante pra gente iniciar esse assunto de transição de carreira. Como é que a gente sabe que tá na hora de mudar de carreira?
Obrigada pelo convite, é um prazer estar aqui com vocês. Parece simples, mas não é essa a pergunta. Porque, no fundo, a gente acaba caindo nas nossas próprias armadilhas, quando vem uma sensação de insatisfação, de angústia, de questionamento em relação à nossa carreira. Então, o que eu costumo dizer é que quando chega essa sensação, essa vontade, esse sonho de pedir demissão, de mudar de vida, É importante dar um passo para trás e nos voltarmos para essa nossa segunda natureza, que é o que a gente chama da inteligência emocional na The School of Life, que é desconfiar um pouquinho dos nossos instintos naturais, aquele impulso inicial que chega. Mas, de fato, esse primeiro sinal, que é um sentimento de angústia do que eu tô fazendo aqui, o que eu tô fazendo com a minha vida, é muito importante, mas ainda não suficiente a ponto de começar a fazer uma transição. A gente convida uma reflexão, voltar, voltar-se para si mesmo e fazer um trabalho de introspecção para entender realmente a origem dessa insatisfação, que pode às vezes não estar necessariamente no trabalho, na empresa ou na carreira, pode estar em outro aspecto da vida, que a gente não está enxergando naquele momento.
E Rafael, como é que você enxerga esse tipo de sentimento?
Pois é, então é um prazer estar com vocês. Transição de carreira, considerando essa mudança, a gente chama de uma transição opt-out, ou seja, fazer uma mudança para fora daquilo que a pessoa fazia, ela exige essa reflexão prévia, porque o que eu observo conversando com pessoas que relatam esse desejo de mudança, é que muitas vezes uma mudança profunda de carreira não precisa ser feita de uma maneira abrupta, porque ela está baseada no momento, numa insatisfação com o chefe, com uma insatisfação no momento da companhia. Então, a primeira recomendação é fazer uma investigação mais profunda, seguindo um pouco do que a Mônica comentou, que é essa investigação da origem dessa insatisfação no trabalho que está levando ao desejo de mudança. E também poder separar um pouquinho o que é uma insatisfação com a função que eu faço, que pode determinar uma mudança de empresa, pode determinar uma mudança que não é uma mudança total da área, e também separar um pouco o que são as atividades. Tem muitas pessoas que relatam, cansei da minha carreira, por exemplo, como o controller de uma empresa. Mas, no fundo, ele tá cansado é daquela empresa, é de algumas atividades que ele faz, e não da carreira inteira dele em contabilidade ou controladoria. Então é fazer uma investigação pra ver realmente qual é a origem dessa insatisfação e a partir disso começar a pensar com calma o movimento de mudança. E um outro ponto pra adicionar na reflexão é que uma mudança dessa mais estrutural, mais profunda, uma transição de área, ela é uma transição que não é rápida, ela precisa ser construída. Muitas vezes se é uma mudança de uma área, Ela pode ser feita dentro da empresa que está trabalhando e eu preciso organizar minha rede dentro da empresa para fazer. Então, se é uma mudança que exige ir para um negócio próprio, porque eu cansei de ser empregado e quero montar o meu negócio, eu preciso fazer um planejamento. Então, acho que o primeiro ponto para a gente iniciar a conversa é fazer uma reflexão da origem e se a decisão realmente é a mudança, começar a fazer isso com calma e de forma planejada.
E existem técnicas? Como é que você faz isso de maneira estruturada e organizada para que você não tire conclusões erradas também, né?
É, porque às vezes, ainda mais nesse momento de dificuldades econômicas que a gente está enfrentando, as empresas acabam exigindo muito dos funcionários. E ali, às vezes, é um momento de que não é necessariamente a sua carreira, como o Rafael colocou, que tá ruim. É o momento da empresa. Como é que a gente identifica os sinais, assim, com o que eu estou insatisfeito?
Bom, eu diria que existem várias possíveis estratégias para fazer essa investigação e tentar separar aquilo que a gente acha que está acontecendo do que realmente está acontecendo. Existem técnicas ou estratégias, por exemplo, voltadas ao autoconhecimento. Então, a gente vai ao longo da vida vestindo tantas roupagens, tantas camadas e de repente a gente não sabe mais quem a gente é. quais são os meus valores, de onde eu vim, para onde eu vou. Então esse trabalho de introspecção, de autoconhecimento, que a pessoa pode fazer sozinha, através de leituras, buscando ajuda externa também, fazendo cursos ou processos de atendimento individual, que ajudam você a se despir um pouquinho dessas roupagens todas que a gente vai vestindo primeiro na família, depois na escola, na profissão, na faculdade, depois no mundo do trabalho. Pra conseguir entender se eu estou mirando expectativas que realmente são minhas, mas que são mais ditadas pelo contexto e eu acabei assumindo como minhas, né. Então existe esse estágio inicial que é de identificar realmente quais são meus interesses, meus anseios, minhas paixões. E mesmo quando a gente tem já um vislumbre disso, mesmo assim a tarefa não é fácil. Mesmo quando eu já tenho uma ideia do que eu gostaria de fazer, de quais são os meus valores naquele momento, tem obstáculos, muitos obstáculos que aparecem nessa jornada e para essa etapa do fazer acontecer também existem várias estratégias que acho que a gente vai poder aprofundar um pouquinho mais e não só obstáculos de ordem prática, que são muitos, idade, formação, dinheiro, família, contexto, conjuntura, mas muitos obstáculos emocionais também, que é o nosso principal foco na The School of Life.
Eu tentaria dividir em três passos para ajudar nessa reflexão. O primeiro é listar de uma maneira mais estruturada quais são esses fatores de insatisfação, porque a gente está falando de uma transição mais profunda, uma mudança de carreira. Então, listar o que é isso, organizar as ideias para que ele possa refletir o que é algo situacional e que daqui a pouco passa, é o momento, o que é algo mais profundo que indica realmente uma mudança de carreira, de área, de empresa. O segundo passo, buscar conversar com pessoas que ele tenha confiança e que possam trocar ideia sobre o tema. Tem vários estudos que mostram que os insights de carreira, as reflexões de carreira, quando são feitas sozinhas, e elas podem ser feitas de maneira sozinha, autoconhecimento é importante, mas elas têm uma limitação. O insight de carreira apoiado por alguém de confiança, um profissional especializado na área, pode ajudar a fazer uma reflexão mais profunda, até para dividir aquelas questões que nós falamos no início, o que é do momento, o que é realmente uma decisão de mudança de área e ajudar a organizar as ideias. E o terceiro passo é refletir, a partir dessa lista que ele fez no início e as conversas, definir algumas ações, porque parte da insatisfação pode ser resolvida com algumas ações simples. Então, listar algumas ações práticas, por exemplo, eu estou muito insatisfeito porque não gosto mais de boa parte do que eu faço. Ok. Quais seriam outras atividades que eu gostaria de fazer? Eu preciso exercitar, pesquisar, exercitar a minha curiosidade. Então, a partir das duas primeiras, listar algumas ações práticas pra checar se aquilo que ele tá dizendo que quer mudar de fato faz sentido, porque daqui a pouco ele se dá conta que ele tá imaginando uma mudança muito profunda que nem é possível. E aí também a gente tem que ter uma responsabilidade no mercado de trabalho que não é fácil de também não fazer uma mudança de maneira impensada, pouco estratégica, que pode comprometer a própria sequência da carreira. Então, lista dos principais pontos de insatisfação, discussão com pessoas de confiança e que possam ajudar a amadurecer essa reflexão, e pequenas ações, passinhos de bebê, pequenas ações para refletir quais seriam as ações práticas para ajudar a evoluir um pouco esse plano.
Legal, vocês falaram um pouco de emoções, né? E existe um peso emocional muito grande quando a gente faz uma transição de carreira. Tem até alguns estudiosos que falam que a dor é tão grande ou até maior do que a de uma separação conjugal. Como é que a gente faz para lidar com as nossas emoções nesse momento?
Eu acho que a gente tem muitas expectativas e que muitas vezes entram nesse campo emocional. É claro que a gente traz uma bagagem emocional da infância, das influências todas que nos levaram a fazer as escolhas que a gente fez e que é importante revisitá-las, essas vozes internas todas que vivem dentro da gente e que ou nos censuram ou nos incentivam nesse momento de desejo de mudança. Mas existe uma questão muito importante que a gente trata bastante na escola, não só em relação à carreira, mas em relação a relacionamentos, a várias outras áreas da vida, que é o quanto que as nossas expectativas estão também causando ainda mais sofrimento do que deveriam causar. tem até a fórmula da felicidade, do bem-estar, da autoestima, que foi desenvolvida por um psicólogo e filósofo, William James, que diz o seguinte, que a felicidade ou o grau de bem-estar, de autoestima, está nessa relação direta entre a expectativa e o resultado. Então, se a gente coloca as expectativas num patamar muito fora do possível ou do realizável naquele momento, a chance de a gente conseguir alcançar uma sensação de bem-estar e de menos menos dor naquele momento, acaba sendo bastante influenciada por isso, pela expectativa que se estabelece. E a gente traz um conceito do suficientemente bom também, porque estar bem no trabalho ou na vida não é conquistar tudo. mas é conquistar aquilo de que a gente se sente capaz, alcançar aquele lugar. O Nietzsche, o filósofo alemão, dizia que o grande objetivo da vida é nos tornarmos quem realmente somos. E quem realmente somos não inclui absolutamente tudo, em termos de status, em termos de realização, mas é aquilo de que a gente se sente capaz. E muitas vezes a gente acumula tantas ambições que, de repente, não se tornam realistas e ficamos perdidos. E quando a gente considera que, de repente, precisamos abrir mão de algumas ambições, até coisas importantes para a gente, aquilo alivia bastante e nos coloca dentro de um foco e colocando uma expectativa E não no sentido de, ah, vou abrir mão de sonhos, porque é quase contra-intuitivo isso. A gente vive numa época que nos convida o tempo inteiro, siga a sua paixão, vá atrás dos seus sonhos, não se trata disso. Mas peraí, quantos sonhos a gente consegue alcançar? Será que todos ao mesmo tempo, ou um de cada vez? A vida é tão longa hoje, a gente tem a possibilidade de ter tantas carreiras, tantas fases diferentes, mas um senso de urgência acaba fazendo com que a gente sinta que que precisa alcançar tudo ao mesmo tempo e isso atrapalha bastante nesse processo de lidar com as emoções num momento de transição. Então diminuir, reduzir sem abrir mão daquilo que é realmente importante naquela fase da vida. A gente sempre vai estar fazendo algum tipo de sacrifício, não existe essa ideia na nossa visão de que Algum dia teremos tudo.
Não.
Algum sacrifício a gente vai estar sempre fazendo. Então a pergunta é um pouco de qual sacrifício eu não estou disposto a abrir mão nesse momento. Porque a gente acaba trocando um sacrifício pelo outro quando a gente faz novas escolhas.
Legal.
Mônica, você falou sobre expectativas e sonhos, mas hoje em dia também o propósito e os valores são muito importantes na hora de decidir por um emprego, principalmente para os jovens. Tanto que uma pesquisa da Fundação Estudar revelou que 81% deles acreditam que é possível ter uma carreira com propósito em qualquer área de atuação.
E tem outra pesquisa, uma da Harvard, vocês já devem ter visto que ela é um pouco famosa, que mostra que 9 em cada 10 pessoas trocariam uma porcentagem do ganho financeiro por um trabalho com mais propósito. Então, encontrar propósito é o segredo pra satisfação, pra menos angústia?
Eu queria conectar essa resposta com aquela fala anterior das emoções, porque tá tudo relacionado aqui. O desafio da transição, da escolha de carreira, sem dúvida, passa por refletir sobre o que a gente chama desse pilar da carreira, que é a satisfação. E eu acho que nós evoluímos nos últimos anos nessa direção, né? Até 1994 o Brasil sequer tinha uma moeda. O plano real, a estabilidade econômica permitiu que as pessoas começassem a pensar mais na sua carreira, porque até então a gente vivia no modo de sobrevivência, não era trabalhar no que queria, nem discutir propósito, era trabalhar no que dava. Então, as novas relações de trabalho e esse novo mundo permite mais espaço para essa discussão, o que eu acho que é um ganho super relevante e as novas gerações surfam de maneira muito positiva esse espaço. E essa é uma reflexão chave, sem dúvida. Quando nós falamos em aconselhamento de carreira, seja para lidar com uma transição, seja para iniciar uma carreira, a base é o pilar de satisfação e propósito, que começa com auto-reflexão. desde coisas simples, que são as atividades que me interessam, desde os interesses que eu tenho para a vida. E um dos maiores desafios que nós temos quando a gente lida com as organizações é estimular líderes que permitam esse espaço, que não pensem a carreira das pessoas nos seus times, no modelo de comando e controle e de carreira linear, em que todos tinham que fazer a mesma coisa e que a referência de sucesso era a referência de ser executivo e gestor. E talvez para ajudar nessa reflexão, a gente pode dizer o novo conceito de carreira. Porque a carreira no passado era a sequência de cargos que eu ia ocupando ao longo da minha trajetória, num conceito linear. E hoje a gente diz que a carreira é uma sequência de experiências significativas para o indivíduo. E o que é a experiência significativa para cada um? É o que faz sentido, é o propósito, são os meus interesses, aquilo que me move, aquilo que me dá realização. E isso pode significar, como eu vi esses dias numa empresa, um senhor já com 70 e poucos anos de idade ainda trabalhando e dizendo, olha, eu sou muito feliz no que eu faço há mais de 20 anos nessa posição e me realizo. E aquilo chocava um pouco a organização, que olha, mas daqui a pouco não tem ambição, deveria fazer outras coisas, o que conecta com essa fala, que o início de qualquer trabalho de reflexão de carreira é essa compreensão dos interesses e dos motivadores. E talvez uma das questões também de apoio pra gente refletir, é que nessa questão da longevidade, essa dinâmica da satisfação, do propósito, dos interesses, vai mudando. Enquanto naquele conceito antigo, a gente tinha a carreira definida como se fosse uma foto analógica, olha, a pessoa é isso, ela diz que quer ser gestor, o objetivo dela é esse, fica assim. Hoje a gente entende que isso vai se transformando, é dinâmico. Então, parte do protagonismo da carreira, da reflexão da carreira é esse olhar permanente sobre interesses e motivações que vai ao longo da vida se transformando. E ela é a base de uma carreira bem sucedida.
Sobre o propósito ainda, como esse componente tão importante dentro das nossas escolhas profissionais, tem um fator interessante, que quando a gente olha lá atrás na história, antes da Revolução Industrial, 300 anos atrás, até então o grande objetivo era sobreviver. A relação do homem com o trabalho tinha muito essa conotação, fazer o que O que dá para sobreviver. Quem não precisava não trabalhava. Os senhores feudais, os nobres, tinham quem trabalhasse para eles. Então, tinha um único objetivo. Existia um objetivo em relação ao trabalho. Ganhar dinheiro, sobreviver. Hoje, nós temos dois objetivos. Ganhar dinheiro, continua sendo importante, mas também me realizar. me realizar como indivíduo, colocar meus interesses e paixões ali a serviço também daquele trabalho. Em termos evolutivos, isso é um grande avanço, porque significa que o ser humano está ali numa busca mais espiritual, enfim, pela sua individualidade. Mas, em termos psicológicos, isso acrescenta um desafio enorme, porque é mais difícil, é mais complexa essa conjunção de fatores. E não é à toa que tem sido um tema tão tratado e tão buscado por tantas pessoas e tantos profissionais, inclusive novos campos de trabalho. nessa direção.
Pra fechar aqui o nosso bloco eu queria conectar uma pergunta com a fala de vocês. Vocês falaram de propósito e de ganhar dinheiro e de que talvez a gente esteja pensando sobre o propósito agora porque o Brasil Tá num momento econômico melhor do que estava no passado, antes do Plano Real e tudo mais. Mesmo assim, a gente tá num momento com 13 milhões de desempregados em média. Dá pra pensar em propósito numa situação tão complexa de desemprego, de trabalho informal crescendo? Como é que a gente faz esse equilíbrio entre o ganhar dinheiro, sobreviver e realmente se sentir satisfeito?
É, claro que num contexto econômico, e a gente tá falando que o Brasil melhorou do conceito macroeconômico de 94 pra cá, mas isso não afasta profundo a crise que a gente tá ainda tentando colocar o pescoço pra fora, né? O país ainda tem um nível de desemprego alto, um desemprego entre jovens muito alto, né? É difícil começar a carreira, e claro que isso afeta, mas eu acho que isso não afasta a necessidade de ter que pensar nessas questões. Porque, claro que, num momento de desemprego, o objetivo principal é retornar e, muitas vezes, a gente tem que abrir mão. A gente lida com transição de carreira no dia a dia e vê o quanto tem sido difícil a recolocação de pessoas, mesmo mais qualificadas, e que, muitas vezes, precisam abrir mão daquilo que gostariam para aquilo que surge e é necessário. Mas isso não afasta a necessidade de continuar a reflexão, até para buscar novos espaços dentro da organização que ele está, pra ver se em algum momento ele vai se reposicionar. Então, a resposta é claro que a crise econômica afeta a possibilidade de você conseguir aquela atividade que você gostaria. Mas isso não afasta a necessidade dessa reflexão permanente. Até porque todos os estudos mostram que a performance, o desenvolvimento da carreira, daqueles que conseguem conectar melhor a satisfação e a atividade, é um desempenho melhor. Então, independente da crise, a gente tem que fazer essa reflexão. Claro que pode ser mais difícil executar. Talvez eu tenha que abrir mão, no curto prazo, de uma atividade pra poder estar trabalhando. Talvez eu tenha que aceitar uma remuneração que não é a que eu queria, porque eu preciso voltar a trabalhar. Sem dúvida afeta, mas é uma reflexão permanente. E concordo com a discussão da Mônica, que a reflexão dela é sobre a complexidade que se elevou E porque, de fato, é complexo fazer uma reflexão mais profunda sobre interesses, motivações, propósitos, não é trivial. Por isso que isso é uma jornada permanente. Quando a gente fala no protagonismo, uma das atitudes do protagonismo de carreira, talvez a mais importante, é a consideração permanente sobre o futuro. Ele tem que estar sempre pensando os cenários, ele tem que estar sempre refletindo. É o contrário da teoria do deixa a vida me levar, não é deixa a vida me levar. eu tenho que assumir o controle e ficar pensando e construindo o cenário. Então a crise é um componente que adiciona dificuldade, mas ele não afasta a importância do tema.
Eu queria complementar, eu iria justamente nessa linha do Rafa também, que dá a sensação, quando a gente fala de dois objetivos, ganhar dinheiro e ao mesmo tempo encontrar propósito, dá a sensação de que o propósito é aquela cereja do bolo, um luxo, mas não é mais um luxo, é uma necessidade. E o mercado diz isso, justamente a qualidade da sua performance quando você está conectado com aquela atividade, quando você está feliz, quando você está ali ligado com interesses e paixões, a sua performance é vai ser muito melhor, de fato. Então, quando que isso aconteceu? Quando que as coisas começaram a se dividir? Provavelmente quando a gente passou da infância livre pra vida escolar, por exemplo, onde na infância a regra do prazer é a que rege. A criança vai em busca de prazer, vai fazer aquilo que ela gosta, que interessa, sem ter que fazer alguma coisa, achar que tem que fazer aquilo por alguém. Mas quando a gente entra na educação formal, vem a regra do dever, a você tem que, e que nos encaminha para o mercado de trabalho.
No primeiro bloco, nós falamos das motivações para uma transição de carreira. Agora, vamos entrar na parte prática e explicar qual é o passo a passo para a mudança.
Antes de a gente explicar o que deve ser feito, eu queria que vocês dissessem quais são os principais erros que os profissionais cometem durante uma transição de carreira. Não estar financeiramente preparado, por exemplo, é um deles. E o que mais é de deslize que se comete nesse momento?
Bom, acho que tem algo que até já foi falado pelo Rafa anteriormente, que é o tamanho da mudança, o tamanho do passo. Muitas vezes, na ânsia de querer mudar, a gente acaba dando o passo maior do que a perna, sem se preparar para aquele salto. Isso inclui não só questões financeiras, mas também questões emocionais, questões de conhecimento e de uma transição que pode ser muito dolorosa se você faz de uma hora pra outra, mas é o cenário que a gente chama do cenário revolução. Ah, vou jogar tudo pro alto, chutar o balde, mas tem um cenário talvez um pouco menos glamuroso, mas mais comedido, que é o da evolução, de você dar pequenos passos, experimentar, testar, Não deu certo? Tudo bem. No começo de uma mudança, ninguém nem precisa ficar sabendo. Você pode encaixar, talvez, esses novos interesses no seu tempo livre, começar a conversar com pessoas, porque muitas vezes a gente acha que quer fazer alguma coisa, mas realmente não conhece os bastidores daquela nova atividade, daquela nova empresa. Então, existem tantos passos que a gente pode dar antes de se colocar numa situação para a qual a gente ainda não se sinta preparado, do ponto de vista prático, do ponto de vista emocional. Então, esse é um dos aspectos que é importante tomar um pouquinho de cuidado, porque a gente se apaixona pela ideia da mudança, mas muitas vezes... não tem ali o preparo suficiente para dar o passo daquele tamanho. E os pequenos passos vão também nos ensinando o que é, o que não é, e vão nos capacitando e nos dando mais confiança para dar os próximos passos, e que podem se tornando cada vez maiores, até uma mudança realmente acontecer.
Eu diria que o maior erro numa transição, vamos ler que aqui o contexto de transição que a gente está falando é uma mudança de área, uma mudança de atividade, um novo, é subestimar o funcionamento prático do mercado. Porque no fim do dia, uma transição dessa natureza esbarra em ser aceito ou não no mercado. Porque senão a gente fica numa fantasia do que eu gostaria e não ter resultado prático aumenta a frustração e as coisas não acontecem. E o mercado de trabalho, ele não é muito aberto ao novo. Tem muitas falas simpáticas dos recrutadores e muita moda da novidade, do entrepreendedorismo, da inovação, mas as empresas são super conservadoras para contratar. E considerando que nós vivemos imersos numa crise profunda, onde a margem de erro da empresa, portanto, para contratar tem que ser baixa, a possibilidade de eu contratar alguém que não faz aquilo que eu estou querendo contratar é pequena. Então, o primeiro erro que a gente tem que evitar é achar que porque eu desejo mudar e estou muito empenhado na mudança e me sinto até qualificado para isso, significa que os outros, leia-se mercado, vão comprar essa causa. E é pouco provável que cumpre da forma como eu estava imaginando. Portanto, uma transição dessa natureza que nós estamos aqui tratando, que é uma mudança mais estrutural da carreira, uma mudança diária, uma mudança mais profunda, ela precisa ser construída. E o maior erro é subestimar a leitura do mercado e o tempo para isso. Então, uma das recomendações que a gente dá para quem faz esse tipo de transição é que talvez a mudança inicial se ele quer se recolocar, se ele está mudando de empresa, seja naquilo que ele conhece. Ou seja, não é o novo, é o velho. Mas o velho é a sustentação e o foco para que ele busque o novo já na nova organização. É pouco provável, embora não seja simpático dizer isso, que alguém seja contratado uma nova empresa para fazer aquilo que nunca fez. porque é uma aposta no escuro. E essa história de, ah, vamos apostar no potencial, vamos apostar no que a pessoa poderia fazer, olhar o parabrisa e não o retrovisor, é retórica. O dia a dia das contratações é muito duro. Então, o erro e a frustração é subestimar essas forças de mercado. Eu escuto muito de gestores em transição que querem mudar e dizem assim, não, mas gestão é gestão. Eu era gestor de vendas, eu cansei de vendas, agora eu quero ir para finanças. Então, porque eu faço gestão de pessoas? O mercado não funciona assim. Então ele vai ter que se preparar pra uma transição, vai estudar a nova área, vai buscar, vai entrar na empresa, na área que ele conhece, e lá dentro fazer uma migração pra nova área que ele tem interesse. Então é subestimar o mercado, o erro, e a ausência de uma estratégia de médio e longo prazo. Esse tipo de transição não é da noite pro dia. Talvez algum ouvinte aqui diga assim, não, mas eu fiz uma mudança lá direta pra uma área nova. É exceção. E eu acho muito arriscado montar um plano de transição dessa natureza baseado na exceção. E o outro ponto, a gente falou um pouquinho aqui, é a organização financeira para isso. Se eu estou fora do mercado e quero fazer uma transição para uma área nova, o meu preparo financeiro para isso precisa ser muito mais robusto. Se eu vou fazer uma transição, uma mudança para um negócio próprio, que é uma transição de carreira de outra natureza, eu preciso ter um planejamento também muito importante para isso. Então a gente vê muitos erros em relação ao planejamento e a capacidade de ler o dia a dia de como o mercado funciona.
Vocês falaram sobre o tempo da mudança, às vezes é um tempo maior do que as pessoas gostariam que fosse e você acaba precisando ficar na sua posição atual antes de fazer essa transição. Como conciliar as duas coisas? Ao mesmo tempo em que a pessoa que está com esse desejo vai ter que procurar emprego, conversar com a rede de contatos, né, para entender se ela está indo no caminho certo, ela também talvez tenha que aprender, que estudar coisas novas. Como é que faz essa conciliação entre o emprego atual e o desejo da mudança de carreira?
É, pois é, acho que é aquela questão do sacrifício de novo e ter muita paciência, acho que tem muitas habilidades emocionais que ajudam nesse processo. Você conseguir segurar essa situação, o que muitas vezes é uma intersecção, mas encontrar o propósito também naquilo que você não está vendo mais tanto sentido, porque muitas vezes o propósito de estar naquele trabalho atual é justamente te ajudar a fazer a sua transição. Então você consegue lidar emocionalmente com aquela situação que você já não se conecta mais tanto ali do ponto de vista de conexão, de identificação, mas imaginando que aquilo está realmente te levando para o próximo passo. E acho que exige uma grande habilidade de organização, de priorização, entender realmente como você organiza o seu tempo com base naquilo que você está buscando, Enfim, acho que não diria que existam técnicas que sirvam para as pessoas de modo geral, mas é um momento que exige muita presença também. Aquele piloto automático do dia a dia não funciona nesses momentos, porque você precisa ser muito ágil, ao mesmo tempo entender o que realmente deve ser feito. O Peter Drucker, que tem aquela definição que eu gosto sobre eficácia e eficiência. Eficiência é fazer as coisas da maneira correta e eficácia é fazer as coisas certas. Então, é entender o que eu tenho que fazer. Então, nesse momento, acho que essa questão não só da gestão do tempo, porque às vezes a gestão do tempo também nos coloca numa armadilha de ter que dar conta de tudo e como que eu encaixo tudo aí na minha vida e que pode levar a situações muito estressantes, de ansiedade e de exaustão mesmo. Mas o abrir mão nesse momento das coisas certas é fundamental e exige uma uma grande sabedoria da nossa parte. E eu acho que tem uma armadilha, até complementando a fala anterior do Rafa, que é focar naquilo que tem mais chance realmente de nos atender na próxima etapa, porque muitas vezes investe-se muito numa suposta mudança, mas com base em ideias fixas. e de repente eu alimento um sonho, tenho uma ideia fixa sobre trabalhar numa determinada empresa, num determinado setor, porque eu imagino que lá eu vá encontrar aquilo que eu estou buscando nesse momento. Mas tanto as profissões como os setores ou as organizações, eles são como... são gaiolas um pouco, que talvez tenham algumas qualidades que você esteja buscando, mas será que somente naquela empresa eu vou encontrar aquelas qualidades, aquele ambiente, aquele tipo de realização? Então tem até um exercício que a gente propõe nos workshops de carreira que a gente oferece na The School of Life, de tentar fazer esse exercício do desprendimento das ideias fixas. Quais são as minhas ideias fixas? E que às vezes a gente Persegue, mas quando chega lá, vê que não era exatamente aquilo que a gente estava buscando. Então, de repente, uma pessoa decide sair do mundo acadêmico e ir para o mundo corporativo. E chega no mundo corporativo, descobre que aquilo que estava buscando poderia estar em muitos outros lugares, inclusive no meio acadêmico. Então, se voltar para aquilo que eu busco no meu novo ambiente, antes de colocar rótulos, nomes, setores, é muito importante porque abre o leque de opções também e ajuda você a fazer essas escolhas certas que vão caber melhor no seu tempo e aumentar as chances de você realmente fazer uma transição consciente.
E a enxergar mais possibilidades, né?
Exato.
Uma mudança dessa natureza, ela exige investimento. Então, como conciliar? Eu tenho que ter consciência que eu vou ter que investir na frente, eu tenho que fazer mais e exercer curiosidade. A curiosidade para aproveitar as oportunidades que surgem e favorecem esse movimento. Por exemplo, muitas empresas hoje abrem espaços para projetos dentro da organização em áreas diferentes. Só que ela não faz com que a pessoa abra mão da posição atual. Ela vai seguir fazendo o que ela faz e vai assumir um projeto complementar numa outra área. Isso é uma oportunidade que vai exigir mais trabalho. A mudança, a natureza dessa transição vai exigir um investimento maior de dedicação, tempo e energia no trabalho. E se a gente olha a evolução do trabalho, o novo mundo do trabalho, onde as arquiteturas estão mais flexíveis, tá se falando em hubs, squads, grupos de trabalho, pra sair dos cargos tradicionais, o primeiro movimento pra lidar com isso é entender que a minha contribuição tá além do cargo que eu ocupo. E eu preciso ocupar o meu tempo, muitas vezes, fazendo atividades novas. E o que a gente percebe é que se essas atividades novas trouxerem realização, a pessoa dá um jeito de encontrar o tempo, né? Que foi a sua pergunta. Como conciliar? É conectar, aproveitar oportunidades, e muitas vezes elas estão disponíveis, seja fazer um curso. seja participar de um projeto, seja fazer leituras, se envolver com novas atividades que favoreçam a desejo de mudança que ele tem. Porque se ele ficar na posição atual que ele está, esperando uma condição perfeita e um convite para fazer a mudança e não se movimentar e não investir antes, é pouco provável que isso aconteça. Transição exige investimento de tempo e, sem dúvida, vai dar mais trabalho. Trabalhar dá trabalho e fazer transição dá mais trabalho ainda.
Perfeito, Rafael. E ainda nessa questão do tempo, um fator importante para a gente discutir é o fator idade. Uma pesquisa do LinkedIn mostrou que nos Estados Unidos mais da metade dos profissionais de até 24 anos já tiveram no mínimo quatro empregos diferentes.
E talvez mudasse de um pouco mais simples quando a gente é jovem ou não, né? Como é que a idade e o momento de carreira influencia numa transição?
A idade, eu percebo que tá mudando, porque as pessoas, o mercado tá se dando conta que aqueles paradigmas que a gente tinha lá nos anos 70, que uma pessoa com 40, 50 anos saiu pra se aposentar, isso mudou radicalmente pros aspectos de longevidade, isso tá evoluindo. Ainda existe, a gente não pode negar, em etapas mais avançadas da carreira, algumas dificuldades maiores pra transição. Isso é fato. A gente percebe, sim, ainda muito preconceito com essa questão da idade. O que significa dizer que uma pessoa que tem 55 anos de idade e quer fazer uma mudança, uma transição diária, vai encontrar mais dificuldades, sim. Mas eu acho que tá mais possível do que já foi. Acho que evoluiu, acho que tem muitas empresas que estão se dando conta que o nível de energia, disposição para o trabalho e capacidade de mudança não tem a ver necessariamente com a idade cronológica, tem muito mais a ver com o modelo mental e isso eu posso encontrar em qualquer faixa etária. Então, eu diria que a idade é um componente crítico, e acho que ao passar do tempo, a gente pra fazer esse tipo de mudança precisa ter mais consciência, precisa fazer uma mudança mais planejada. Uma pessoa que tá no início da carreira, aos vinte e poucos anos de idade, pode vai correr mais riscos, vai testar mais, vai fazer mudanças, vai buscar mais informações de áreas novas, pode mudar com mais frequência. Aos 50 anos de idade eu vou ter que fazer isso com mais planejamento, com mais ponderação, porque isso vai impactar de uma maneira mais profunda na minha transição. Eu acho que melhorou, é possível fazer. Nós atendemos diariamente pessoas com idades acima de 50 anos querendo fazer transições e começar algo novo. Ontem ainda eu conversei com um executivo, que é um diretor-geral de uma empresa, que tá fazendo uma mudança por satisfação. Ele quer fazer uma mudança de carreira. Ele disse, eu quero fazer algo novo, eu quero reunir as minhas experiências como diretor executivo, como CEO, e fazer algo novo numa organização e num setor que eu nunca fiz. E tem mais de 50 anos e quer fazer algo novo, é uma transição da natureza que a gente tá falando. Então é possível, só que exige aquilo que nós falamos antes, planejamento, uma reflexão do que é possível no mercado. Eu sempre acho que a gente tem que fazer um recorte, que eu chamo de zonas análogas, ou seja, se eu sou um profissional, que eu tô trabalhando em vendas, é muito difícil fazer uma transição, uma mudança para uma área de engenharia, produção, uma coisa completamente diferente que não usa as competências mínimas que eu adquiri ao longo da vida. Então, a gente também tem que modular essa transição com algo que tenha possibilidade prática. Então, ok, não é um setor completamente diferente, é um setor próximo. Quais são esses setores próximos? Investigar e fazer isso pode ser feito em qualquer faixa etária.
A gente vive numa época que, pela primeira vez na história, cinco gerações estão convivendo no mesmo espaço de trabalho, de mercado de trabalho. Então, isso é realmente algo inédito que apresenta suas limitações, como o Rafael trouxe. mas ao mesmo tempo muitas possibilidades, porque a gente quando olha para a relação com o trabalho por esse novo viés de propósito, de ser quem a gente realmente é, nós podemos ser muitas coisas também ao longo da nossa vida profissional por conta da longevidade e por conta do modelo do mercado de trabalho, das possibilidades que a tecnologia, por exemplo, tem trazido. Eu tenho uma amiga que já passou dos 60 anos e que está começando a... está criando um canal no Instagram para pessoas da idade dela, para influenciar e tudo mais. Então, existem tantas possibilidades, assim como os jovens, adolescentes também já estão entrando no mercado de trabalho da mesma maneira. Então, existe aí uma faixa muito mais ampla de possibilidades e o lado positivo positivo, a parte cheia do copo, é isso. Enquanto antigamente a gente tinha uma vida produtiva focada em apenas um tipo de atividade, em uma profissão, hoje a nossa vida profissional pode nos possibilitar ser muitas outras coisas, que faz parte da condição humana. A gente não nasceu para ser apenas uma coisa, a gente se transformou num trabalhador desde a Revolução Industrial, mas hoje isso está se revertendo.
Apesar de hoje em dia a gente ter tantas possibilidades, indo no sentido disso que você está dizendo, fazer uma transição de carreira ainda assim é uma coisa assustadora, porque a gente pode cometer erros. E a pergunta é se dá para experimentar antes de fazer a mudança e como.
Eu entendo que sim, é possível experimentar. Dentro da organização, vamos considerar alguém que está trabalhando, cada vez mais eu observo as empresas criando espaços que permitem essas movimentações laterais e que as pessoas façam coisas além da sua atividade tradicional. Mas aí a gente esbarra em dois aspectos. Primeiro, o indivíduo entender que isso também é carreira. Porque eu ainda escuto muitas pessoas dizendo, não, mas para aí, eu não vou ir pra esse projeto porque é só mais trabalho e eu não vou ganhar salário com isso. Então, não é carreira, é só mais trabalho e eu não quero. Então, o primeiro passo é mudar o modelo mental. Eu tenho que aproveitar essas oportunidades para fazer algo diferente e testar as mudanças, entendendo que isso faz parte da minha estratégia de carreira. Porque se não adianta, eu vim falar de novo mundo do trabalho vestido de dinossauro. Quer dizer, com uma fala muito moderna e no dia a dia onde eu tenho que investir mais e fazer algo diferente, eu voltar para aquela agenda antiga, dizendo que a empresa cuida da minha carreira, aquela agenda antiga de paternalismo. Então, eu acho que primeiro, para poder fazer esse teste funcionar, o indivíduo tem que estar com o modelo mental aberto e arejado para aproveitar as oportunidades dentro da empresa. E o segundo ponto, que eu acho que é uma discussão principalmente para aqueles que nos ouvem e são líderes, o líder tem um desafio muito importante nessa transformação do mundo do trabalho, porque ele precisa ser muito mais um ouvinte e um facilitador dessas descobertas de carreira da equipe dele, do que alguém que impunha, no modelo de comando e controle, o plano de carreira das pessoas como era no passado. Então, pra que esses testes aconteçam e que os movimentos tenham mais fluidez nas empresas, a gente precisa de indivíduos que apostem que isso é também uma estratégia de carreira e que faz parte do desenvolvimento dele, ele fazer esses movimentos, e uma organização representada pelos seus líderes que favoreça esse movimento, porque senão o jogo não acontece. Fica todo mundo no modelo tradicional, não tem espaço para esses testes, não tem espaço para movimento, e a gente segue no modelo antigo de carreira linear, comando e controle, organograma tradicional. Então, é possível sim, e isso exige esses dois movimentos, indivíduos abertos e líderes e organizações que favoreçam. E eu venho percebendo que as empresas caminham para essa direção de favorecer esses movimentos que testam novas habilidades e novos interesses. Eu tive uma organização há um tempo atrás que, através dessas conversas de carreira e testes, descobriram uma pessoa que estava na área de recursos humanos e que tinha um super interesse porque estava estudando comunicação, projetos, e essa pessoa hoje lidera um grupo de uma área de comunicação dentro da empresa a partir desses testes de movimentos laterais. E o teste também permite, vamos ler isso como um projeto, um movimento lateral, que a pessoa se dê conta que aquela transição imaginada não é bem o que ela queria. e ela se dá conta que aquela atividade, muitas vezes idealizada em uma fantasia que seria maravilhosa, não é bem a realidade do dia a dia. Então também isso é uma proteção para que a gente não faça um movimento muito abrupto, um movimento muito forte de carreira, sem antes testar o quanto esse movimento faz sentido para o indivíduo e para a organização.
Só um complemento, além dessas possibilidades de experimentação que existem cada vez mais dentro das empresas, as próprias metodologias ágeis requerem isso. As pessoas precisam experimentar diferentes papéis, diferentes formatos de equipe, de trabalho, etc. Acho que tem um aspecto fundamental que é a pessoa acreditar que ela tem mais opções do que ela imagina. O Sartre, um dos fundadores do movimento existencialista na França, ele dizia isso, a base do existencialismo é de que todos somos livres, mas não aquela liberdade ingênua de que todos podem fazer o que quiserem, que vai dar tudo certo, não, ele era muito mais sombrio do que isso, tem consequências. Mas o fato de terem consequências não elimina essa realidade de que todos nós temos muito mais opções do que nós imaginamos. Ele usava o exemplo de um garçom do restaurante que ele frequentava em Paris diariamente, que era, segundo ele, a pessoa mais insatisfeita que ele conhecia. Mas ele estava convencido de que ele não poderia ser nada além de um garçom. Então, no fundo, a gente precisa acreditar que a gente tem muito mais opções do que a gente imagina, mas acreditar genuinamente e estarmos prontos para assumir as consequências, porque por conta de um medo... Por que fica assustador? Porque a gente sabe que tem um caminho que vai nos exigir sair da zona de conforto, enfrentar angústias, abrir mão de coisas importantes. Então, muitas vezes a gente prefere nem percorrer aquele caminho, mas não significa que a gente não tenha a escolha, não tenha a opção.
E se a gente perceber, a gente foi lá, fez a transição, mudou de carreira, mudou de área, de atuação, o que quer que seja, e se perceber que foi um erro? Dá pra voltar atrás, começar tudo de novo?
Enquanto estivermos vivos, a vida sempre vai nos dar novas chances. Então, acho que uma das ideias também que pode ajudar a tornar essa mudança menos assustadora é exatamente pensar que nenhuma mudança é definitiva. não deu certo, e é claro que se você faz a mudança em passos menores, você pode descobrir mais cedo que não deu certo, e o tombo vai ser menor, e a capacidade de recuperação também vai ser menor, vai ser mais rápida.
Dá pra corrigir o erro, sim. E eu acho que o mercado tá mais aberto pra isso. Tinham regras antigas, né, que algumas empresas usavam. Olha, alguém que pediu demissão e foi pra uma coisa nova não é mais contratado, porque é um traidor, aquelas coisas antigas que a gente via. Hoje a gente vê empresas que entendem que uma pessoa que faz um movimento fez algo diferente e depois quer voltar, se isso fizer sentido, não tem problema nenhum. Eu acho que o mercado tá mais aberto pra esse tipo de mudança, que pode representar um erro, como você falou. E também a gente pode dar um novo contorno pro erro, né? Porque eu posso dizer que vivi uma experiência nova por um, dois anos e entendo que quero voltar praquela. Será que é um erro? De repente a gente rotula erro como um movimento de retorno e às vezes o movimento de retorno não é erro, é amadurecimento, foi uma experiência somada. Então eu diria que é possível sim mudar, é possível ter novas aspirações a partir dessa experiência vivida que talvez não tenha sido a ideal. Isso não significa fracasso, incompetência, fim de linha, nada disso, considerando tudo que a gente falou, né? Novo mundo do trabalho, longevidade, tem muito espaço pra testar e voltar. E claro que a gente tem que fazer isso de maneira muito refletida, planejamento. Eu acredito que educação sobre carreira é o grande tema que a gente tá falando aqui, né? Fazer uma transição com um bom planejamento, discutir isso dentro da minha organização, favorecer diálogos dentro da empresa, favorecer diálogos com pessoas que eu tenho confiança para que esses movimentos sejam feitos de maneira mais consciente ao longo da vida.
Bom, gente, o papo está ótimo, mas a gente vai chegando ao fim do quarto episódio do Rádio Peão, podcast semanal da VOC-SA sobre carreira, mercado de trabalho e economia, que a gente divulga toda quarta-feira pela manhã. Obrigada, Mônica e Rafael, pela presença de vocês. E obrigada a você, nosso ouvinte.
Obrigada, Rafael e Mônica. Foi um prazer tê-los aqui.
Esse podcast teve produção de Elizatose. A edição de som ficou por conta de Rafael Bertazzi. E a trilha sonora é de Chico Labels.
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Semana que vem tem mais. Até lá, pessoal.
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