Os impactos da tecnologia na geração de emprego - Jornal da Cultura

Transcrição de trecho de entrevista (Jornal da Cultura, 18/01/2017) sobre como avanços tecnológicos (IA, robótica, biotecnologia, veículos autônomos) afetam o mercado de trabalho no Brasil. Cita relatórios (Fórum Econômico Mundial e OIT) prevendo perda e deslocamento de postos de trabalho e discute estratégias individuais e institucionais—qualificação contínua, planejamento de carreira/vida, educação financeira, diversificação de fontes de renda e redes de contato—para aumentar a empregabilidade e ‘trabalhabilidade’.
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O Brasil poderá ter este ano a terceira maior população de desempregados entre as 20 maiores economias do mundo. Para piorar esse cenário, milhões de empregos podem simplesmente desaparecer. Inteligência artificial, genética e microbiologia, robótica e veículos autônomos eram coisas de filmes de ficção científico de um futuro distante. Mas esse futuro já chegou e as novas tecnologias mexem com os empregos. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, no relatório The Future Jobs, as alterações no mercado devem acabar com mais de 5 milhões de postos de trabalho. Ao mesmo tempo, devem ser recuperados 2 milhões de empregos que vão ser deslocados para categorias profissionais nas áreas relacionadas à informática, matemática, arquitetura e engenharia. As áreas mais afetadas negativamente vão ser de escritório e administrativo, construção e extração, negócios, jurídico e financeiro. O relatório avaliou a situação em 15 países. Além dos dados do relatório Future Jobs, um estudo divulgado ontem pela Organização Internacional do Trabalho Afirma que até 2018, mais de 13 milhões de brasileiros vão estar desempregados no país. Segundo a OIT, o Brasil vai ter o maior aumento de desemprego entre os países do G20. E muitos de nós vão ter que se reinventar para se manter no mercado de trabalho. A gente fala mais sobre esse assunto ao vivo com o consultor de carreiras, Francis Nakada. Boa noite, muito obrigada pela sua presença.
Boa noite, obrigada.
Queria começar perguntando quem é mais afetado por essa mudança?
Bom, Gabriela, na verdade todos nós somos afetados, seja no mercado executivo, no mercado formal, na base da pirâmide, independentemente da estrutura, do organograma que esse profissional esteja, como também o meio empreendedor.
Agora, para essas profissões, a gente falou aí de algumas áreas mais promissoras, são postos que exigem alta qualificação.
Sim, esse é um dos pontos fundamentais hoje em dia, a atualização constante, o estudo. Quanto mais o profissional, quanto mais a pessoa tiver essa atenção com relação à sua carreira, essa perspectiva, mais facilmente ele será absorvido pelo mercado. Seja mercado, novamente, empreendedor ou mercado executivo do emprego formal.
Agora, não só para conseguir um posto, para se manter também, porque eu imagino que os profissionais se tornem obsoletos mais rápido também.
Não só para se manter, mas também pensando e se desenvolver na própria empresa que ele está. É fundamental o trabalho sempre três frentes. O primeiro ponto, o autoconhecimento, onde aquela pessoa quer chegar, para que ela possa estar estruturando esse plano de desenvolvimento de carreira. Segundo ponto, o entendimento sobre o contexto do trabalho. Ou seja, a movimentação. A gente percebe que já há algumas décadas o Brasil sofre com a desindustrialização. Nos anos 70, a indústria era responsável por 30% dos empregados no Brasil. Hoje, essa mesma indústria emprega 10%. Como o profissional absorvido mediante esse panorama. E o terceiro ponto são essas tendências. Ou seja, quais são as perspectivas daqui pra frente para o mercado de trabalho.
Ou seja, aqui no Brasil, a gente tá falando de alta qualificação, mas pra gente chegar lá, a gente tem que resolver muitas etapas antes, né? Porque a gente não tem igualdade de oportunidades na educação nem na escola aqui, então a gente tem que resolver o que vem antes.
É, aí eu trago dois aspectos, Gabriela. O conceito da empregabilidade, é o quanto que o profissional é atrativo para o emprego e o conceito da trabalhabilidade. Esse conceito não é tão usual hoje no mercado, ou seja, como se relacionar de outras formas com o mercado para que eu me mantenha competitivo, não somente o emprego, mas que eu tenha receitas que posso estar compondo os meus ganhos.
Então a gente tem que aprender educação financeira também.
Educação financeira é um dos pontos, é uma série de fatores, não existe uma receita de bolo. Então é fundamental a gente ter sim um planejamento financeiro, ter um plano de carreira e um plano de vida, porque precisa estar em linha nessas três frentes.
É, e o país precisa se organizar pra isso, né? Senão fica parecendo que é culpa das pessoas, que as pessoas não conseguem se qualificar quando não há uma estrutura, né?
É, esse ponto é interessante. Eu trabalho com transição, apoiando executivos profissionais na recolocação do mercado. 95% dessas pessoas que são desligadas, são desligadas por motivos que transcendem a sua responsabilidade. questões econômicas, questões que contemplam o próprio negócio, ou seja, não estão atrelados a um aspecto de competência ou resultado, não. São fatores ali que vão além da sua responsabilidade. Esse ponto é muito importante frisar.
E que dicas a gente pode deixar para as pessoas, já que a perspectiva é que o país tem um número alto de desempregados?
Um ponto importante fundamental estabelecer fontes alternativas de receita, ter plano A, plano B, plano C. Hoje a relação do empregado com a empresa é muito frágil, então não posso estabelecer esse vínculo de uma maneira específica. Eu preciso ter outras alternativas. Por quê? Porque eu não tenho controle sobre o emprego hoje. Então é fundamental que a pessoa possa estar construindo em paralelo as suas atividades profissionais, dentro da sua empresa, dentro do seu emprego, dentro do seu trabalho, outras atividades para que eu não estabeleça essa relação de dependência com o emprego. Esse é um ponto. Outro ponto, fomentar rede de contatos, e não somente conhecer, mas trabalhar a manutenção dessa rede. Pessoas com quem você estudou, com quem você trabalhou, e sempre estabelecendo uma relação de troca, apoiando quando necessário, para quando houver necessidade também ser ajudado aí no momento de movimentação profissional. Um outro ponto também interessante, está atrelado ao aspecto da atualização, estudar sempre, seja idiomas, o inglês sim é importante, a gente percebe que o espanhol cada vez toma mais importância dentro do contexto geográfico da América Latina, na medida que o Brasil é o único país de língua portuguesa, estudos dentro da sua área, esse ponto é importante, Gabriela. Como a economia não está economicamente ativa, as empresas querem resultado a curto prazo. Então, quanto mais específico for aquele conhecimento, a hiperespecialização de carreira melhora.
Tá ótimo. Muito obrigada pelas dicas, por nos ajudar aqui a dar uma luz.
Foi um prazer.
Até a próxima.
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