02 pinturas de Natal, de Georges de La Tour | Obras de arte sobre Natal

This content was created by Fábio San Juan. This content was uploaded by Fábio San Juan. This is a Portuguese-language YouTube art-lecture titled "02 pinturas de Natal, de Georges de La Tour | Obras de arte sobre Natal" (published Dec 24, 2016) in which Professor Fábio San Juan analyzes two mid-17th-century nativity paintings by Georges de La Tour. He situates the works in art-historical context (Byzantine and Renaissance nativity traditions, St. Francis’s presepio, examples like the Portinari Altarpiece and Botticelli), contrasts the richly populated Renaissance nativities with La Tour’s pared-down, intimate scenes, and explains the Caravaggesque use of strong light and shadow, symbolic elements (the lamb, Joseph, the midwife), and the contemplative, devotional effect. The talk closes with a meditation on the sacredness and human love of the Nativity and a Christmas greeting.
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Olá, eu sou o professor Fábio San Juan e este é o Fundamental de Natal. Por que você precisa conhecer estas duas pinturas de Georges de La Tour que falam sobre o Natal? As obras de arte representando o nascimento de Jesus Cristo, acontecimento chamado de Natal ou Natividade, existem desde o século IV d.C. Já na arte bizantina medieval, a cena do Natal tem como foco a adoração do Menino Jesus. Maria, mãe de Jesus, é representada deitada, postura lógica, já que ela deu à luz e está em repouso. Essa forma de representar o Natal foi adotada na Itália. Vemos aqui dois mestres: Duccio, em Siena, e Giotto, em Pádua, partindo da ideia bizantina com contribuições próprias. Em 1223, São Francisco de Assis desenvolve a ideia e inventa o presépio natalino, montado com atores, objetos e animais vivos em tamanho natural. O presépio populariza a cena natalina, acrescenta os elementos que conhecemos hoje e é levado para as representações em pintura e escultura. A cena do presépio é o momento da adoração do Menino Jesus, o bebê recém-nascido que é a encarnação de Deus, o esperado Salvador da humanidade, o Messias. Ele é adorado pelos seus pais, Maria e José, pelos anjos que entoam o cântico de louvor: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados", pelos pastores que são chamados à adoração e trazem consigo os animais, e os magos do Oriente que na tradição cristã viraram reis e são chamados Baltasar, Gaspar e Melquior, e que não estão presentes na noite de Natal na narrativa dos evangelhos, mas que aparecem na cena desde o século IV. Outro elemento muito tradicional é a representação de pessoas da própria época. Os presépios que mostram os adoradores com roupas atuais, fábricas e até automóveis, nada mais fazem que seguir uma ideia medieval de ambientar o presépio na época atual, de incluir principalmente quem estava pagando a confecção da obra de arte. Essa inclusão também se estendia aos santos padroeiros dos doadores. Vemos, por exemplo, nesse quadro renascentista muito famoso, o Retábulo Portinari, pintado pelo artista holandês Hugo van der Goy por volta de 1475, os doadores da obra, membros da família Portinari, representados juntamente com os personagens sagrados. Note que Santo Tomás de Aquino E Santo Antônio de Pádua estão presentes no painel da esquerda, por serem padroeiros da família Portinari. Temos também a Adoração dos Reis Magos, pintada por Sandro Botticelli, também em 1475, na qual os Reis Magos são membros da poderosa família Medici, governantes da cidade de Florença durante quase todo o Renascimento. Notem que ambos os quadros são representações muito ricas em detalhes, repletas de personagens. A maestria A maioria dos pintores é admirada pela sua capacidade em retratar esses detalhes com realismo, no jogo de transformarmos as manchas de tinta em seres reconhecíveis. Os dois quadros do pintor francês Georges de La Tour, realizados por volta de 1648, portanto quase 100 anos depois do Renascimento, são o oposto dessa mentalidade. Percebemos somente os elementos mínimos, para dizermos que cena é, ou nem isso. O quadro chamado de O Recém-Nascido é uma natividade na qual temos somente as duas mulheres e o menino. A pintura pode ser uma cena de uma mãe com seu bebê. Não há nenhum elemento das representações tradicionais da divindade de Jesus ou da santidade de Maria, como auréolas ou uma luz sobrenatural sobre os personagens. Na Adoração dos Pastores, se a mulher que identificamos com a mãe de Jesus não estivesse com as mãos postas em oração, talvez dissessemos que se trata de uma visita de parentes a um bebê recém-nascido. Mas o fato do bebê estar numa cama de palha sendo observado por um cordeirinho, um dos símbolos de Jesus Cristo, nos permite fazer a ligação com a cena sagrada. Essa aproximação da cena sagrada com o cotidiano é bem própria do período barroco, Principalmente entre os pintores que seguiram o estilo de Caravaggio, como é o caso de Georges de La Tour. Outra característica muito forte que identifica os artistas seguidores de Caravaggio é o uso da luz, que ilumina a cena como se fosse um palco de teatro. Há luz e sombra muito fortes. Os personagens normalmente estão atuando num fundo negro, com sombras. O alto contraste que os caravaggistas conseguiam com essa maneira de iluminar suas cenas foi levado por Georges de La Tour Delatour, tão longe que ele chegou ao resultado de moldar seus personagens como se fossem bonecos de madeira, com formas simplificadas. Acredita-se que é o uso intenso da luz, com contrastes muito marcados, que levou o pintor a essa forma tão inusitada de modelar figuras para a época. Georges Delatour, ao reduzir a cena do Natal a elementos tão mínimos, com o uso da luz e sombra de forma intensa, usando uma paleta de vermelhos, amarelos e marrons quentes, convida o espectador a fazer parte de uma cena íntima, ao invés de tomarmos parte numa adoração pública numa multidão, como são as natividades do Renascimento. É como se fizéssemos uma visita pessoal à Sagrada Família. Na Adoração dos Pastores, José, o pai adotivo de Jesus, é identificado com a figura que está de costas, representado como um senhor idoso. Note que ele segura a vela e ilumina o bebê. Na natividade menor, a outra figura feminina, além da mãe, pode ser a parteira, figura que aparece em algumas representações mais antigas do presépio. Num dos espaços, somos convidados a nos juntar aos pastores, que também foram convidados por um anjo a adorar o Salvador recém-nascido. Apesar disso, o conjunto conserva a interioridade, o silêncio. No outro estamos visitando o menino, sua mãe e a parteira. Receamos até fazer barulho, para não acordar o bebê, que dorme enrolado, protegido. Estamos mergulhados num espaço simbólico, sagrado, de meditação em silêncio, mas também de suprema emoção. Principalmente para quem acredita que Jesus é o Salvador e que no Natal ele é o Deus que desce à terra e junta-se à humanidade de corpo, alma e divindade. George de la Tour faz o papel do anjo quando este chamou os pastores: "Vinde, adorai!" Ele convida cada um de nós a entrar na cena e a contemplar o menino e sua mãe, sua fragilidade e sua grandeza, em renunciar aos poderes de um deus temporariamente para viver a vida de um ser humano. São duas obras de arte que nos trazem a meditação cristã que encerra o ano, celebrando não só o nascimento do fundador de uma religião, mas também o nascimento do Amor, com A maiúsculo, o amor que todos nós, seres humanos, buscamos. Muito obrigado pela sua audiência e um feliz Natal para você e a sua família.
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