Nesta aula 15 do curso “Apreciando a História da Arte”, o professor Fábio San Juan introduz a pintura chinesa ao longo de aproximadamente 700 anos, destacando a importância das quatro artes tradicionais (pintura, caligrafia, música e jogo de xadrez) como requisitos de um verdadeiro cavalheiro erudito na China. Ele explica que o gênero de paisagem (shanshui) era considerado o mais elevado, refletindo influências do budismo e taoismo que colocam o ser humano como parte insignificante de um cosmos maior. O professor descreve como artistas como K'uk'án, Shenzun e os quatro mestres da dinastia Ming formaram escolas e linhas de transmissão, e como a presença humana nas paisagens serve apenas como ponto de referência, enquanto a árvore ou a montanha dominam o peso visual. Uma ênfase central é a valorização do vazio e do silêncio – o papel ou seda não pintado – que contrasta com a tradição ocidental de horror vacui e preenchimento exuberante. Ele discute ainda a técnica monocromática de tinta diluída, exemplificada por Bada Shanlin, cujo estilo solto e quase abstrato antecipa abordagens ocidentais posteriores. Ao final, o professor celebra a “mágica” das manchas de tinta como expressão interior que comunica vida e mundo.
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Boa noite a todos, sejam bem-vindos à aula 15 do nosso curso Apreciando a História da Arte. Começamos a falar sobre pintura chinesa. A nossa capa da nossa aula de hoje são as 4 artes da educação acadêmica formal chinesa moderna, falando de modernidade na China. Estou falando de mais ou menos uns 700 anos. As 4 artes são o que um cavalheiro, um erudito, um membro da corte, um membro da burocracia estatal chinesa, inclusive, devia dominar para ser considerado o que, mal traduzindo, seria um cavalheiro, um gentleman. Uma pessoa culta na cultura chinesa. Mas aqui nós temos o K'uk'án, faz uma obra no estilo de paisagem muito apreciado, né? Eu mencionei também que as paisagens são o tipo de gênero de pintura que é mais apreciado e considerado mais alto, né? Dentre os quais, esses 4 mestres aqui. Esse aqui é um pequeno exemplo de um grupo de pintores. Assim como nós ocidentais acabamos chegando na ideia das escolas, ou seja, de escolas, movimentos, a gente até se organizou neles, né? "Nós vamos fazer um movimento e fazer um manifesto." como começou a acontecer na Europa no século 19, os chineses agrupam vários artistas de uma mesma época em vários desses grupos. Então, os 4 mestres da dinastia Ming são um dos exemplos. Aqui é uma forma de— o Shenzun, que é um dos mestres, não só no sentido de ser um grande artista, mas também de ser professor, de vários grandes artistas, na sua, mostrando esse estilo de paisagem que os chineses valorizam muito por conta da influência tanto do budismo quanto do taoísmo, que coloca que nós somos desimportantes no universo. Nós digo seres humanos. Então, embora haja o gênero do retrato, embora existam obras visuais retratando seres humanos, cenas que nós chamaríamos de cenas de gênero, no sentido de ser cenas de costumes, mostrando cenas do cotidiano, Por que que a paisagem, aquele gênero que em chinês nós chamamos de paisagem, eles chamam de água, água da montanha, água da montanha. Vocês veem que tem um ser humano aqui, você tem uma pessoa lendo, né? Mas o que que é mais importante aqui? Quanto ao peso visual, é a árvore, né? A árvore aqui, a paisagem é mais importante. Então o ser humano, ele está presente, não em todas as paisagens, mas em algumas paisagens ele não é o mais importante, ele é apenas um ponto dentro do universo. Isso tem a ver com a meditação taoísta e budista, no sentido de você não achar que as realizações humanas são dignas de nota ou de menção. Elas acontecem porque elas existem, mas elas estão inseridas num todo maior. Eu gostaria de enfatizar para vocês o quanto que a arte chinesa, não só a arte visual, mas a arte arte da literatura, a arte da música, coloca uma ênfase na pausa, no silêncio, no caso da arte visual, no papel em branco ou no suporte, né, na composição que não é pintada. Então vocês veem aqui o fundo, o fundo não é pintado, esse amarelo é por conta da passagem do tempo, né. Do amarelamento. Aqui eu não vou saber dizer para vocês se isso aqui é papel ou é seda, provavelmente é seda. Mas esse branco que corresponderia na música a um silêncio. Nós ocidentais damos muita ênfase à questão do preenchimento das coisas. Você tem movimentos ou períodos da história da arte ocidental em que tudo é preenchido de forma exuberante. Até existe uma expressão, né, horror vacui, ou seja, o horror ao vazio, do barroco, por exemplo, que não existe quase espaço vazio, né? Só no rococó que você vai ter um respiro de algumas áreas em branco, de algumas áreas que fazem contraste com as áreas que estão cheias, que são preenchidas. Na arte chinesa, que sempre existiu, né, essa ênfase nesse contraste que a gente poderia dizer até que tem a ver, poderia dizer não, tem muito a ver com o yin e o yang, né, com esses princípios feminino e masculino, do cheio e do vazio, né. Então é muito forte para eles, é muito presente essa coisa da pausa e da pausa musical. Do branco e do pintado, do traço. Nessa obra aqui vocês veem que o espaço em branco é muito importante, ele dá esse equilíbrio. O que talvez numa pintura ocidental estivesse preenchido com um céu pintado de azul ou de um cinzento borrascoso, tipo uma pintura holandesa, né? Não tô dizendo que uma é melhor ou pior que a outra, estou apontando diferença entre as duas. Aqui sim vocês veem uma obra de xiei muito forte, quase abstrata. Eu gostei muito de conhecer esse artista, o Bada Shanlin, que é muito solto, ele é um tipo de expressão artística que nós vamos ver no Ocidente muito tempo depois. Existe uma preocupação, a forma como ele aplica a tinta, a aguada, e aqui é monocromático mesmo, né? Só tem o fundo branco e a tinta preta aguada, ou seja, misturado com a água, muito, muito solto. É aquilo que eu gosto de chamar de milagre. Acho que Toda obra de arte é uma mágica, é algo mágico, e a obra-prima é algo milagroso. Como é que manchas de tinta sobre um papel ou sobre um tecido, né, pode lembrar coisas que nos comovem? São manchas de tinta, né, mas também são representações, são expressões do nosso do nosso interior e comentar sobre a vida e sobre o mundo.