Caipira Picando Fumo, de Almeida Júnior | Arte brasileira

This content was created by Fábio San Juan. This content was uploaded by Fábio San Juan. This is a Portuguese-language YouTube video (title: "Caipira Picando Fumo, de Almeida Júnior | Arte brasileira", published 2016-11-03) from the series "Fundamental." It features professor Fábio San Juan (SPEAKER A) as the host and a second speaker/narrator (SPEAKER B). The content is an art-historical discussion of Almeida Júnior's painting "Caipira Picando Fumo": the artist's biography and career, the socio-historical context of São Paulo and the caipira figure, a close visual description of the painting, and various possible interpretations. The video closes with Fábio thanking viewers, referring to a previous episode on Van Gogh, and asking for likes/shares.
Olá, eu sou o professor Fábio San Juan e este é o Fundamental, um programa sobre obras de arte que você precisa conhecer.
Se você já prestou atenção em capas de DVD, programas de TV ou qualquer material visual referente à música sertaneja, já deve ter visto a figura desse caipira na porta de uma casa rústica, picando fumo com uma faca comprida. Essa imagem é o símbolo mais conhecido e mais forte da figura do caipira, esse personagem tipicamente brasileiro e que o pintor Almeida Júnior ajudou a fixar na cultura nacional. Como isso aconteceu? Quando pintou o Caipira Picando Fumo, José Ferraz de Almeida Júnior já era um artista consagrado. Estava com 43 anos de idade. Era formado na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e na Academia Imperial de Belas Artes de Paris. Possuía uma extensa carteira de clientes particulares, principalmente os fazendeiros produtores de café e profissionais liberais paulistas, a maioria republicanos. Mantinha seu ateliê em São Paulo, longe do Rio de Janeiro, capital da recém-proclamada República, e atendia a clientes particulares, algo muito, muito incomum na época. O que o pintor mais produzia desde que tinha voltado da França em 1882, onde tinha estudado, eram retratos e encomendas para esses clientes. Ele tinha apoiado o movimento republicano, embora sua bolsa de estudos tenha sido financiada do próprio bolso do imperador Dom Pedro II. Percebendo a oportunidade de ter amigos influentes, políticos como Prudente de Moraes e Benjamin Constant, fazendeiros de café, engenheiros, advogados e técnicos do governo, a maioria republicanos, o pintor ituano colocou-se à disposição dessas pessoas e acabou por transformar-se no pintor mais requisitado do grupo que tornou-se governante do país a partir da Proclamação da República em 1889. O seu sustento, portanto, estava garantido com essas encomendas. Almeida Júnior nasceu e cresceu na cidade de Itu, no interior de São Paulo. Talvez pelo amor que sentia pela gente humilde de sua região, talvez por enxergar no caipira e seus costumes um tema que não tinha sido explorado pelos pintores brasileiros, ele pintou o caipira desde o início de sua carreira. A sua primeira tela que chamou a atenção do público nacional foi O Derrubador Brasileiro, selecionada para o Salon des Artistes Français em 1879. Um derrubador, uma pessoa que derruba as árvores e o mato para abrir terreno à plantação, é o personagem tema. Almeida Júnior inaugura o tema em sua carreira com uma tela forte que nos conta visualmente sobre o trabalhador do campo brasileiro no final do século 19. Até realizar sua obra seguinte com camponeses, Almeida Júnior alterna retratos com pinturas de gênero ao gosto de sua clientela, como Descanso da Modelo, de 1882, uma cena de interior doméstico com muita influência do holandês Johannes Vermeer, pintor do século XVII. Antes do quadro Caipira Picando Fumo, ele pintou em 1888 Caipiras Negaciando, que mostra uma cena de caipiras caçando. Vê-se por aí que o artista não pintava somente o que lhe dava vontade, mas juntava sua preferência pessoal com o possível mercado que pudesse comprar sua produção. Somente em 1893 Almeida Júnior voltou a pintar caipiras. Nesta época cresceu o interesse pela história de São Paulo e dos personagens que construíram a sociedade paulista. Em 1894 foi criado em São Paulo o Instituto Histórico Geográfico Paulista, o IHGSP, para organizar esse esforço. Nos estudos e livros que surgem a partir daí, uma das figuras do passado que é resgatada alcança o status de herói fundador, o Bandeirante, Outra figura que se modela nesse período é o caipira, o mestiço de índio e português que mora no campo, entre a civilização e a cultura indígena, uma figura humana tipicamente paulista. A abordagem do tema de pessoas do campo não era inédita. Almeida Júnior certamente viu na França muitos quadros cujo tema eram pessoas do campo, algo muito comum e até na moda quando era estudante. Outros artistas antes dele, como Félix Émile Tonnet, já tinham pintado a vida camponesa no Brasil. O artista enxergou na moda europeia de mostrar camponeses em quadros a possibilidade de tratar de um ambiente similar no Brasil, que ele conhecia muito bem, e encontrou aceitação entre seus clientes, ajudando de quebra na construção da cultura brasileira. Antes de pintar a tela de grandes dimensões que é Caipira Picando Fumo, 2 metros de altura por quase 1 metro 4,5, o artista pintou um estudo que também se encontra na Pinacoteca de São Paulo, de tamanho menor. Almeida Júnior foi buscar o caboclo Bento Antônio Pires, conhecido em Itu como Quatro Paus, como modelo da obra. Contemplando a cena, encontramos o caipira no momento de descanso, podemos dizer até de lazer. Ele está picando fumo, ou seja, tabaco seco, para colocá-lo dentro da palha que se encontra atrás da sua orelha esquerda e que irá enrolar em formato de cigarro para depois fumá-lo. Sentado de pés descalços, com a calça suja de terra, com a barra dobrada para cima, a camisa branca meio aberta, o rosto em postura de concentração, os degraus da casa, a trama da parede de pau a pique e sapé, as tábuas da porta e a sombra projetada da árvore, assim como a sombra da árvore no chão de terra no canto direito, tudo nos leva a uma tranquilidade, a uma estabilidade, que nos leva a uma interpretação de imobilidade, uma suspensão do tempo que representa momento de descanso. A linha diagonal da faca comprida que corta o pedaço de fumo é uma quebra dessa estabilidade. Os tons avermelhados da pele, da parede de pau-a-pique e a fresta da porta pela qual entrevemos uma luz que pode ser do fogo de um fogão a lenha, a própria luz branca estourada da camisa branca do caipira, tudo isso nos leva a começar a ver uma tensão que não tínhamos notado antes. As manchas avermelhadas na calça do caipira são mesmo de terra? Há um equilíbrio, portanto, entre o momento de descanso de uma vida no campo tranquila e o temperamento esquentado do caipira, aliás muito explorado nos filmes de Mazzaropi. Mas esta é somente a minha interpretação, uma das interpretações possíveis. O Caipira Picando Fumo é justamente considerado uma obra-prima por abrir a possibilidade de várias leituras, diferentes entre si. Cada estudioso que contemplou a obra com atenção e a comentou vê o seu caipira: o homem do povo brasileiro, um retrato da violência no campo, um tipo nacional que deve ser glorificado, um símbolo da ignorância, um retrato da simplicidade das pessoas humildes. E você, qual é a sua visão do caipira picando fumo?
Eu quero agradecer muito especialmente as pessoas que curtiram, comentaram e compartilharam o primeiro vídeo da nossa série fundamental, A Noite Estrelada, do Vincent van Gogh. Se você ainda não assistiu, clique aqui embaixo na descrição do vídeo. E aqueles que fizeram sugestões sobre os próximos vídeos, essas sugestões estão anotadas Já estão na lista e nós já estamos produzindo os vídeos, ok? E se você gostou desse vídeo, por favor, comente, curta, compartilhe com seus amigos, tá certo? Muito obrigado e até a próxima semana!
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