A aula 3 do curso “História da Arte em 28 Dias”, apresentada por Fábio San Juan, oferece uma visão panorâmica da arte mesopotâmica, desde suas origens no Neolítico até seu legado nas civilizações posteriores. O professor começa contextualizando a região entre os rios Eufrates e Tigre, explicando que a palavra “Mesopotâmia” é de origem grega. Ele destaca as primeiras tecnologias – cerâmica e metalurgia – exemplificando com vasos de Susa (c. 6000 a.C.) e esculturas de leões encontradas perto de Bagdá, mostrando a continuidade de motivos animais da arte pré‑histórica. O foco recai então sobre os sumérios, considerados a base cultural da região, cujas práticas artísticas incluíam instrumentos decorados (lira de Ur), ourivesaria sofisticada e a invenção da construção em tijolos de barro. Essa técnica permitiu a criação dos igurates (templos) e dos ziggurats, estruturas em forma de montanha artificial que influenciaram as primeiras pirâmides egípcias e a narrativa bíblica da Torre de Babel. A descoberta da cerâmica esmaltada gerou os famosos tijolos coloridos da Porta de Ishtar em Babilônia. O professor explora ainda a noção de representação: estátuas de adoradores que substituíam a presença divina e os primeiros retratos reais de reis (Gudea, Sargão II, Assurbanipal), enfatizando o hieratismo – a rigidez formal que transmite autoridade. A arte animal, sobretudo a caça ao leão, revela a mudança de reverência pré‑histórica para domínio real. Por fim, são apresentados os seres mitológicos híbridos (sirruxes, lamassus, shedus), que influenciaram grifos, esfinges e outras criaturas nas culturas egípcia, grega, hebraica e islâmica. A aula encerra ressaltando a duradoura influência da arte mesopotâmica nas civilizações subsequentes.
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Você provavelmente já ouviu falar da Mesopotâmia, mas não conhece muita coisa da arte que os povos desse local do mundo produziram. Quem foram essas pessoas? A arte que fizeram é bonita? É interessante? Vale a pena ser vista? Basta dizer que os egípcios e os gregos tiveram influência desses povos, e os mesopotâmicos também influenciaram muito um povo chamado de hebreus, que escreveram um livro que você já deve ter ouvido falar: a Bíblia. Bem-vindo à aula 3 do curso História da Arte em 28 Dias. Arte da Mesopotâmia. Mas os povos da Mesopotâmia não conheciam essa palavra. Mesopotâmia é uma palavra grega que quer dizer "entre rios", no caso, entre os rios Eufrates e Tigre, um local que seria um deserto se não fosse por eles. Hoje o local está parte no Irã, parte no Iraque. Mas a influência cultural desses povos abrangeu todo o Oriente Médio. Nós vimos no final da aula 2 que no fim do Neolítico, a agricultura possibilitou ao ser humano fixar-se na terra. Várias técnicas, ferramentas e procedimentos surgiram nessa época. Uma delas foi a arquitetura. Outra foi a cerâmica. O que é a cerâmica? Ela surgiu como uma técnica de fazer recipientes de argila, barro, para armazenar, cozinhar e manipular alimentos. Depois foi estendida para outros usos, mas o uso principal é para potes, vasilhas, pratos, para guardar alimentos que sobram das colheitas, para serem usados nas épocas do ano em que não há alimento. Eu chamo a sua atenção para essas cerâmicas de 6.000 anos encontradas numa cidade chamada Susa. Você viu os desenhos que decoram o vaso e o prato? O jeito de desenhar os animais não lembra a arte pré-histórica que vimos na outra aula? Veja agora essa escultura. É uma leoa encontrada perto da atual Bagdá. Alguma semelhança com a escultura pré-histórica de 40.000 anos? Ou mesmo com as pinturas de Chauvet? Várias outras semelhanças, como o uso de animais como touros, cervos, mas principalmente leões, mostram que alguns elementos das culturas pré-históricas permaneceram nos primeiros povos civilizados. O primeiro povo que nos chama a atenção na Mesopotâmia são os sumérios. Eles forneceram a base cultural de todos os povos que vieram depois. A forma de vida, economia, política, mitos e lendas, religião e arte. Eles desempenham o mesmo papel para a Mesopotâmia que os gregos na nossa cultura ocidental. Como esses povos ainda estavam muito próximos da natureza, não é de se estranhar que os animais desempenham um papel fundamental na sua arte. Vejam esses objetos encontrados na cidade de Ur. Esta é uma lira, um instrumento musical de cordas decorada com a cabeça de um touro. E esse bode com os chifres enroscados num arbusto? São peças feitas há 5.000 anos que mostram uma técnica muito sofisticada de trabalhar com metais, pedra e madeira, a técnica da ourivesaria. Lembra-se da arquitetura, a arte de fazer casas para os homens e para os deuses? Pois é, o povo que construiu Stonehenge trabalhou com pedras. Na Mesopotâmia não havia pedras em quantidade suficiente, já que o lugar era um imenso lamaçal, um brejo imenso, por causa dos dois rios. Isso era muito bom porque favoreceu a agricultura, mas para fazer casas ou monumentos para os deuses de pedra era muito mais difícil. Então, o que fizeram os sumérios? Deram um jeito de usar o barro para fazer casas, assim como fizeram com o barro para fazer recipientes de alimentos. Nasceram os tijolos. É com os tijolos de barro que os sumérios constroem os igurates, as casas dos seus deuses. Supõe-se que a forma dos igurates imitem uma montanha, que era o local sagrado dos deuses. Montanhas eram muito distantes da Mesopotâmia, o local era, e ainda é, uma imensa planície, um terreno plano. Então, para ter os deuses mais próximos em sua cidade, o jeito foi fazer montanhas artificiais, os ziggurats. O formato deles, pirâmides de degraus, deram a ideia para as primeiras pirâmides no Egito, que eram quase a mesma coisa, embora tivessem outra finalidade. A de abrigar os pertences e o corpo do faraó falecido. São os igurates que provavelmente deram origem à história da Torre de Babel, que está na Bíblia. Babel é outra palavra para Babilônia, uma das cidades visualmente mais deslumbrantes da antiguidade. Quando os mesopotâmicos descobriram que misturar pigmentos, substâncias que dão cor às tintas, ao barro, E depois queimar os tijolos feitos dessa forma num forno, resultava em algo assim: os tijolos esmaltados, que depois deram origem aos azulejos. E aí decoraram paredes com essa técnica. A porta de Ishtar, que fazia parte da muralha que protegia a cidade da Babilônia, é um exemplo belíssimo do uso desses tijolos. Lembram-se também da ideia da representação? A imagem que substitui um objeto ou um ser real e que nos traz à memória, à recordação de algo? Pois aqui na Suméria um outro uso é dado para essa ideia. Vejam essas estatuetas. São representações de pessoas que rezam no templo. Era costume dos sumérios que no templo a imagem do deus não ficasse sozinha. Era necessário que 24 horas por dia ele estivesse acompanhado por um orante. O que as pessoas responsáveis por esse serviço tiveram a ideia? De colocar um representante no seu lugar. Daí a ligação entre a palavra "representação" e "representante". Uma estatueta que representasse a pessoa. Pronto! Estava lançada a ideia do retrato, uma imagem que representa uma pessoa. Pois os sumérios utilizaram essa ideia, e todos os povos que se seguiram. Acádios, Assírios, Babilônios, Persas, foram refinando essa ideia, principalmente as pessoas de poder, sacerdotes e governantes. Vejam aqui então um rei sumério, um rei acádio e um rei assírio, de épocas diferentes. O rei da cidade de Lagash, Gudea, não tem nenhum traço fisionômico ou corporal particular, As proporções são de uma criança ou de um anão, mas isso não quer dizer que a estátua esteja retratando um governante infantil ou anão. Ainda não há preocupação ou habilidade de fazer um retrato fotográfico de Gudea. Basta mostrar que é um ser humano, no qual não falte nenhuma parte. Conferimos e vemos que tudo está ali: mãos, pernas, tronco, cabeça com olhos, nariz, boca, orelhas. A roupa é a roupa de um governante da época, e os cidadãos de Lagash certamente reconheceram as roupas condizentes com a sua posição social. O suposto retrato de Sargão II usa a mesma ideia: uma imagem tridimensional, ou seja, um objeto, que fez lembrar aos acádios a figura de seu rei. Esta imagem, no entanto, aproxima-se mais de um guerreiro de sua época, e não do rei piedoso construtor de templos de uma cidade agrícola como Lagash. Há mais detalhes aqui, como se houvesse mais por lembrar. Talvez fosse mais importante trazer com mais detalhes a memória do rei ou impressionar pelo perfeccionismo da confecção da barba e do cabelo. Mas ainda não há correspondência exata, que nós chamamos de fotográfica, com a pessoa real. Assurbanipal é um rei que viveu mais ou menos 1.200 anos depois de Sargão II. Mas vemos aqui a mesma forma de representar. Embora alguns detalhes sejam diferentes, como o cabelo, não sentimos nesse retrato uma personalidade única, da mesma forma quando vemos o retrato de Sargão II. Sentimos sim pela pose séria, pela rigidez da posição do corpo, que seja uma pessoa que ocupa uma função importante, uma pessoa a quem devemos obedecer, alguém a quem só podemos nos dirigir de forma séria. Essa seriedade nós chamamos de hieratismo, uma forma de representação na arte que transmite severidade, passa a mensagem de que devemos levar aquela imagem a sério. O que era mais importante para os mesopotâmicos nesses retratos? Não era mostrar fielmente as feições de uma pessoa, e sim a ligação de uma pessoa real com uma imagem. Declarar que essa estátua representa o rei, na verdade, quer dizer: essa estátua está no lugar do rei, já que ele não pôde estar aqui neste momento. Era uma lembrança viva de que o rei mandava naquela cidade, e por isso era colocada em locais públicos. A mesma função dos retratos do presidente da república nas repartições públicas hoje em dia. Outro ponto curioso na arte mesopotâmica pelos séculos afora são suas figuras animais, as quais falamos já no início dessa aula. Uma ligação visual muito forte entre os animais das cavernas pré-históricas e a arte mesopotâmica é encontrada na representação da caça do rei aos leões. A caça aos leões era privilégio do rei E existem baixos relevos como este mostrando como era a caça. A diferença entre as duas épocas, a pré-histórica e a mesopotâmica, é a atitude. O homem pré-histórico mostra reverência e temor com os leões, a ponto de pintar esses animais em cavernas profundas, como se os animais representados estivessem aprisionados num lugar seguro para não escaparem. O mesopotâmico mostra total domínio e confiança na sua capacidade de matar esses animais. Não sabemos qual é a reação que a leoa ferida possa ter causado numa pessoa dessa época, mas hoje sentimos compaixão da dor de um animal abatido numa luta na qual não tinha a menor chance de sair vivo. Os deuses mesopotâmicos não eram animais misturados a seres humanos. Dizemos animais antropomórficos, como eram os deuses egípcios. Mas outros personagens mitológicos eram personagens como Sirruxes, Lamassus e Shedus. Misturavam animais diferentes e partes humanas num mesmo ser. Essas ideias religiosas e artísticas foram passadas adiante e nós chamamos os Sirruxes de grifos, dragões com garras de águia, pernas de felino, cabeça de chifre e língua de serpente. Os Lamasus e Shedus, seres com cabeça humana, corpo de leão e asas de águia, passaram aos egípcios e gregos como esfinges. Você viu rapidamente como os mesopotâmicos de todas as épocas expressaram-se em sua arte e tiveram ideias que foram desenvolvidas depois por outros povos bem diferentes, como os gregos, egípcios e hebreus. E a sua influência não acabou, pois a civilização que é herdeira direta da Mesopotâmia ainda existe: a civilização islâmica. Amanhã veremos a arte da civilização do Egito, cuja cultura durou tanto quanto a da Mesopotâmia. Pelo menos 5.000 anos. Muito obrigado e até lá!