História da Arte em 28 dias Aula 05 | Arte da Grécia arcaica | Vídeo 01 de 02

Nesta aula do curso “História da Arte em 28 Dias”, o professor Fábio San Juan apresenta a arte das civilizações que precederam a Grécia arcaica, focando nas culturas minóica (cretense) e micênica. Ele explica que os minóicos não eram etnicamente gregos, mas que sua arte, escrita e comércio marítimo influenciaram profundamente a cultura grega posterior. São descritos os traços distintivos da arte minóica – mobilidade marítima, uso de motivos marinhos, movimento, cores vivas, cerâmica decorada, murais de palácios (Knossos, Thera) e representações de touros e danças – bem como a sua religiosidade incerta, com estatuetas femininas e símbolos de fertilidade. O colapso da civilização minóica é atribuído à erupção do vulcão de Santorini, possivelmente ligada ao mito da Atlântida. Em seguida, a aula aborda a ascensão dos micênicos, que falavam um dialeto grego, eram guerreiros e construíram cidades fortificadas. São mostrados seus artefatos (espadas de bronze, adagas decoradas, máscara de ouro) e a continuidade estilística com a arte minóica, embora mais rígida e menos espontânea. Por fim, o professor descreve o colapso da Idade do Bronze, a invasão dórica e a transição para a Grécia arcaica, preparando o terreno para a próxima aula. O tom é instrutivo e analítico, com entusiasmo ao apresentar as obras de arte e as hipóteses históricas.
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Arcaico é uma palavra que vem do grego e significa antigo. Não é algo necessariamente ultrapassado, no sentido que nós utilizamos hoje. A expressão arte arcaica grega é utilizada quando falamos da arte feita pelos gregos dos tempos mais antigos. Nesta aula é da arte das civilizações formadoras dos gregos, mais antigas que eles, que trataremos: a arte cretense-minóica e a arte micênica. Bem-vindo à aula 5 do curso História da Arte em 28 Dias: Arte da Grécia Arcaica. Arte Minoica, Parte 1. Os cretenses minóicos não eram etnicamente gregos, não tinham a mesma origem que os gregos. Porém, parte da cultura grega, incluindo as artes visuais, origina-se da arte minóica. Minoica é o nome que damos à sua civilização hoje. O nome que eles mesmos se chamavam não o sabemos, pois não conhecemos a sua língua. Que deve ter sido bem diferente do grego, somente sua escrita, indecifrada até hoje. O testemunho dessa escrita torna os minóicos o primeiro povo letrado da Europa. Existem indícios de ocupação da ilha de Creta, o núcleo da sua cultura, desde 7.000 anos antes de Cristo. Eles também tinham a agricultura como atividade, mas não em grande escala como faziam egípcios e mesopotâmicos. O que molda o caráter da cultura minoica é a sua mobilidade. Tiraram proveito da sua proximidade com o Egito, a Mesopotâmia e o Império Hitita e tornaram-se hábeis navegantes e comerciantes, trocando mercadorias entre esses povos e enriquecendo sua pequena ilha. Com o tempo ocuparam várias outras ilhas no Mediterrâneo. Em todas, A sua cultura, arte e escrita estavam presentes. A arte minóica era mais descontraída que a egípcia e a mesopotâmica, artes mais rígidas, mais hieráticas, mais solenes. Será que isso tinha a ver com a mobilidade dos minóicos que atravessavam o Mediterrâneo com seus barcos, presentes em todos os portos de sua época? Será que esse contato com outros povos, esse conhecimento de outros pontos de vista, lhes dava uma sensibilidade mais flexível, uma mentalidade mais espontânea, e que é mostrada em sua arte? Não podemos afirmar com certeza, mas há indícios de que povos com menos necessidade de regras rígidas acabam preferindo uma arte mais leve. Os minóicos não precisavam de uma organização social tão rígida como a dos egípcios ou dos mesopotâmicos. Esses dois povos viviam em ambientes muito áridos, um pouco suavizados por seus rios, mas qualquer bola fora dos seus governantes ou dos seus cidadãos em plantações, colheitas, armazenagem de alimentos, criação de gado e tudo mais podia prejudicar a todos. O fato de muitas pessoas na sociedade cretense e minoica Ser ocupada com as viagens e comércio marítimo tornou os temas marinhos muito apreciados. O movimento é típico das viagens, o mar agitado, o movimento das ondas, as cores de muitas culturas em cada porto são elementos presentes na arte minoica e que contrasta com a estabilidade das artes egípcia e mesopotâmica. Uma estabilidade típica de culturas fixadas na terra. Porém, essas afirmações são impossíveis de serem provadas, mas são suposições que ajudam a explicar o caráter da arte minóica. Vamos então contemplar algumas das suas belas criações? A decoração de muitos vasos e recipientes de cerâmica mostra de forma exemplar o seu gosto pelo movimento do mar, suas ondas e suas criaturas. Vejam as espirais e as curvas. Lembram a você o azul profundo das águas do mar, com a espuma esbranquiçada por cima? Ao mesmo tempo, são ornamentos que poderíamos dizer "abstratos", já que não há nenhuma figura reconhecível aqui. Vejam que curioso este vaso. Não sabemos muito bem Qual é a relação entre esse peixe e a rede? Ele foi capturado pela rede? Está cuspindo a rede? Ou será que essa rede não é uma rede? Notem as espirais contextualizando a cena. O contraste do fundo escuro com as figuras claras confere ao vaso uma grande beleza. O peixe em vermelho se destaca de tudo o mais, mostrando que ele é o personagem principal da cena. Neste vaso com o polvo utiliza-se do recurso contrário. O fundo é claro, da cor da argila, e o animal é pintado em negro. Os braços do polvo retorcendo-se brincam com o volume do vaso. Note que os dois vasos têm o movimento como principal recurso de composição. São animais que parecem se movimentar num desenho imóvel pintado sobre uma superfície. São quase desenhos animados. Contemplando outras imagens minóicas, notamos que a alegria de viver, a brincadeira, o lúdico eram elementos que eles prezavam muito. Veja essa estatueta, pequena, mas de uma vitalidade incrível, um montador de touros, um peão de boiadeiro, diríamos hoje. Originalmente era parte de um grupo maior de figuras, uma delas um touro sobre o qual ele está se agitando montado. Todo o movimento de um ritual antigo que envolvia o montar de touros bravos está representado em uma única figura que inflama a nossa imaginação, pensando nas diferenças e semelhanças entre os nossos peões de boiadeiro e esses peões cretenses de milênios atrás. Vamos ver esse gosto pelo movimento também nas pinturas murais presentes em vários edifícios minóicos, entre eles os murais de Tera, atual Santorini, e o mais conhecido deles, o chamado Palácio do Rei Minos, em Knossos, capital de Creta. Em Knossos, as pinturas murais do Palácio Real foram reconstituídas por um artista moderno por encomenda do arqueólogo inglês Sir Arthur Evans, que primeiro desenterrou as ruínas cretenses, no começo do século 20. Portanto, essas pinturas estão muito alteradas, mas dá para ter uma ideia de como teriam sido. Uma das pinturas chama a atenção pela alegria: "Mural com Golfinhos". Os golfinhos, conhecidos como "animais alegres" que seguem os barcos, deviam ser velhos conhecidos dos minóicos em suas viagens pelo Mediterrâneo. As cores são o elemento mais marcante, e que dá o tom brincalhão, além das curvas que dão a ideia de movimento. Vemos aqui o outro dos temas prediletos desse povo antigo em um painel enorme: as touradas. Não sabemos se a tourada minóica era um esporte ou um ritual religioso. Provavelmente tenha sido os dois. O personagem principal, o protagonista da cena, é o touro, O seu corpo traça uma grande curva pelo painel, contorcendo-se ao ser agarrado pelos chifres. A falta da representação do chão confere à cena ainda mais leveza e a impressão que o touro está voando. As figuras humanas são alongadas, delgadas, quase femininas. A figura da direita é um tanto mais rígida, parece ter um parentesco com as figuras egípcias, com seus braços esticados de forma dura. Mas as outras duas figuras são muito menos estáveis e têm pleno sucesso na função, como figuras bem articuladas. O peão que segura o touro pelos chifres o faz de maneira firme, com muita segurança. E o ápice do painel é a figura sobre o animal, um peão que tem a cor da sua pele diferente da dos outros dois, talvez para assinalar uma função honrosa, a de montar o touro, e o seu movimento retorcido é muito convincente, dá-nos a sensação do corcoveio agitado do animal enfurecido. Essa taça para vinho, em grego um riton, em forma de cabeça de touro, é outra peça que mostra o gosto minóico pelo tema. A inspiração é mesopotâmica, lembra-se da lira de Ur, mas a forma é totalmente minóica. Lembra um troféu de caça moderno, e talvez o triunfo do ser humano sobre o animal seja a inspiração presente nessa taça. A lembrança de um povo que gostava de touradas e touros talvez tenha inspirado os gregos mais tarde para a criação da lenda do Minotauro, e o palácio labiríntico de Knossos tenha originado a lenda do rei Minos e seu labirinto. Parece que é aqui em Creta que, pela primeira vez, Há pinturas que não têm preocupações políticas, representações de reis ou generais ou de deuses. A intenção de decorar, deixar uma parede mais bonita, fez os cretenses criarem as primeiras paisagens sem a presença de seres humanos. Também há cenas mostrando animais, como este macaco ou estes ibixis, um tipo de cervos, no Palácio de Thera, em Santorini. Ou ainda mulheres que, parece, estão colhendo plantas ou flores, ou esses dois lutadores de boxe. Parece a você que as pessoas que contemplavam essas imagens estavam preocupadas em transmitir glória política ou religiosa? Para mim, eram pessoas que queriam ter prazer em olhar essas pinturas ou usar esses objetos. Isso faz a você ter a impressão que os cretenses não levassem nada a sério como a religião, por exemplo? Será que os cretenses minóicos não tinham religião? Com certeza tinham. Todos os povos da antiguidade tinham religião. Mas nós não conhecemos os deuses minóicos, nem temos certeza se alguns objetos que foram encontrados são imagens religiosas ou não. Foram encontradas estatuetas femininas com seios à mostra, segurando serpentes nas mãos. Nos palácios de Knossos e em outros sítios arqueológicos minóicos. Elas parecem ter alguma ligação com as estatuetas pré-históricas das deusas-mães, figuras da fertilidade, como a Vênus de Willendorf. Outra figura que pode ter sido objeto de veneração são os touros, já que foram encontrados altares com chifres em locais altos. Toda essa cultura brilhante acabou de forma estrondosa. Por volta de 1500 a.C., o vulcão adormecido da ilha de Santorini explodiu, entrando em erupção. A cinza e fumaça que jogou na atmosfera causou um impacto equivalente a um inverno nuclear. Alguns especialistas dizem que a explosão causou um tsunami gigantesco que cobriu todas as cidades minóicas das ilhas e da costa do Mediterrâneo. Elas foram destruídas e também suas plantações, criações de gado, navios e populações. Essa catástrofe que destruiu de uma vez só toda uma civilização talvez tenha originado a lenda da Atlântida, que foi registrada pela primeira vez por Platão, que ouviu a história através dos egípcios. Qualquer que tenha sido o motivo do fim da civilização minoica, as escavações arqueológicas mostram que o que se seguiu foi um período onde toda alegria que mostramos desapareceu da arte minóica. A graça e a delicadeza que haviam desapareceu por um bom tempo. A cor e a alegria da arte minóica voltam, mas de uma maneira um pouco diferente, séculos mais tarde, entre os habitantes de uma cidade do continente chamada Mycenas. Os micênicos tomaram o lugar dos cretenses minóicos no Mediterrâneo. Eles falavam um dialeto grego e hoje deduzimos que os Aqueus e Dánaos dos poemas de Homero, a Ilíada e a Odisseia, são os micênicos. Provavelmente vieram do leste, como as outras tribos gregas, e conquistaram as antigas cidades minóicas. Portanto, além de comerciantes, os micênicos também eram guerreiros, ao contrário dos minóicos. Quando eram os senhores do comércio mediterrâneo, Os minóicos quase não tinham armas ou cidades fortificadas. Os micênicos tinham muralhas em cada cidade sua, além de cultivarem a guerra como uma de suas tarefas. Encontramos armas nas tumbas de nobres micênicos, como espadas de bronze e essa adaga, uma faca curta cuja capa é decorada com uma cena de caça aos leões. Essa arma e sua capa mostram que os micênicos tinham uma técnica desenvolvida de olivesaria, a técnica minoica que utiliza metais preciosos para decoração de objetos. Não tão sofisticada, mas impressionante, é essa máscara de um rei ou nobre de Micenas, toda feita em ouro. Já as suas pinturas são totalmente inspiradas pela arte minoica. Supomos hoje que os artistas minoicos decoraram as cidades micênicas, mas as suas pinturas já não tinham a mesma graça que as antigas. Parecem muito mais rígidas, algo imobiliza as figuras. Estes artistas usaram as mesmas cores, o mesmo padrão de desenho das figuras minóicas, e, no entanto, temos a impressão que as figuras foram copiadas de algum manual de forma tosca. Falta a espontaneidade minóica, e algumas figuras lembram até mesmo figuras egípcias ou mesopotâmicas. Depois de 300 anos de seu domínio, Micenas entra em decadência. Começam os tempos chamados de Idade das Trevas. As populações que habitam as terras da costa do Mar Mediterrâneo passam pelo que os historiadores chamam de colapso da Idade do Bronze. Micênicos, hititas, egípcios e mesopotâmicos passam por crises e quedas de impérios, reinos e governos. O comércio no Mediterrâneo praticamente desapareceu. São tempos de crise, de pobreza material e de muitas vezes de fome. O que agravou o colapso da Idade do Bronze nos territórios micênicos foi a invasão de um povo bárbaro que também falava grego, os dórios. E assim começa a história da civilização grega propriamente dita. Na próxima aula iremos conhecer a Grécia Arcaica, como os gregos deixaram de ser apenas pastores de cabras saqueadores e agricultores pobres para construírem a cultura que se tornou a base da civilização ocidental. Muito obrigado e até lá!
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