História da Arte em 28 dias Aula 06 | Arte da Grécia arcaica | Vídeo 02 de 02

Nesta aula do curso “História da Arte em 28 Dias”, o professor Fábio San Juan traça a evolução da arte grega desde a Idade das Trevas até o fim da fase arcaica, explicando como os gregos passaram de representações esquemáticas a esculturas realistas que encantaram o mundo. Ele descreve a transição histórica (colapso micênico, migrações dórica, eólica e jônia, Magna Grécia), o surgimento da cerâmica geométrica e dos vasos Dipylon como os primeiros desenhos figurativos, e a progressiva sofisticação da figura humana – do “stickman” ao “Apolo de Mantiklos”. O professor analisa as primeiras esculturas arcaicas (korai femininas e kouroi masculinos), destacando a forte influência egípcia (postura, contrapposto) e as diferenças de representação de gênero (homens nus, mulheres vestidas). Ele discute ainda o uso de motivos mitológicos como a Medusa, a decoração dos frontões dos templos e a experimentação de novas poses. Por fim, relaciona esses desenvolvimentos ao ethos grego de valorização da ação, da competição e da observação detalhada do corpo, explicando por que a arte arcaica chegou a um nível de realismo que inspirou lendas como a de Pigmalião. A aula encerra preparando o estudante para a arte clássica do século V a.C.
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Como os gregos deixaram de fazer estátuas assim para fazer estátuas assim? O que os tornou especiais a ponto de fazer uma arte que encantou o mundo antigo e todas as épocas que vieram depois? Bem-vindo à aula 6 do curso História da Arte em 28 Dias. Arte da Grécia Arcaica, Parte 2. Mas antes da glória, os gregos passaram pela época turbulenta e embrutecida chamada Idade das Trevas grega. Ela é marcada pela destruição da civilização micênica pelos dórios, por volta do século XII a.C. Um pouco depois, Eólios e Jônios, as outras duas tribos formadoras dos gregos, vieram do leste e se integraram às populações locais de forma mais harmônica, sem guerras. Provavelmente é nessa época que acontecem as guerras que deram origem às histórias sobre a Guerra de Troia. Bem mais tarde, entre os séculos VIII e VI a.C., Dórios e Jônios ocuparam o território da Itália, principalmente na parte sul, formando o que os próprios gregos chamavam de "a Grande Grécia", que é hoje chamada pelos historiadores de Magna Grécia. Entre os séculos X e VIII começam a aparecer mais exemplos de escultura e arquitetura no território grego. Nesta época já existe procura por cerâmicas decoradas. Esse é um sinal que somente a cerâmica lisa não era mais suficiente. É a primeira fase da cerâmica grega, que chamamos de geométrica. Existiram vasos muito elaborados, como esse, e outros mais simples, mas todos mostram a vontade de embelezar as superfícies dessas cerâmicas. Esse exemplo em particular, de vasos com figuras abstratas geométricas, Não lembra você as cerâmicas cretenses? Os mais curiosos exemplos dessa época são os vasos encontrados no cemitério da cidade de Atenas, o Dipylon, nome que tornou-se também o nome do estilo dessas cerâmicas. São os primeiros desenhos figurativos, que mostram figuras e não só elementos geométricos, da arte grega que possuímos. Esses vasos não tinham função de armazenar nenhum conteúdo, e sim marcar o local onde tinham sido sepultados os membros de uma família. Por isso, o tema das pinturas é sempre de pessoas lamentando o falecido, num velório. As figuras são muito esquemáticas, ainda bastante abstratas. Lembram as figuras pré-históricas, que não tinham a preocupação de mostrar uma pessoa em particular, e sim mostrar somente que eram seres humanos executando uma determinada ação. É exatamente o que acontece aqui. O artista estava preocupado em mostrar pessoas chorando, se lamentando pelo morto ou pela morta. A preocupação principal é que as figuras fossem reconhecidas como humanas. A outra preocupação é que a cena fosse reconhecível como um velório. E notem que não há preocupação em representar vida após a morte. É porque os gregos não tinham uma ideia muito precisa sobre o assunto. A figura de palitos, o "stickman", é como um esqueleto da figura humana. É a partir desse desenho, o esquema mais simples para representar uma pessoa, que recebe acréscimos, aperfeiçoamentos, ao longo dos séculos, até chegarmos nas representações clássicas. Veja, por exemplo, a estatueta chamada "Apolo de Mantículos". Mântiklos é a pessoa que ofereceu a escultura para o deus Apolo, pedindo uma graça. O seu nome está gravado nas pernas da estatueta em grego arcaico. A compreensão do esquema básico do ser humano aqui é evidente. O artista vai um pouco além do básico. Ele está um passo além da figura do Dipylon. Vemos que alguns refinamentos, como um delineamento inicial dos músculos, como os peitorais, o queixo na figura e a articulação do braço, além do penteado bastante detalhado, mostram que existe já um aperfeiçoamento do esquema básico. A compreensão do contorno da figura de um ser humano, que se mostra bastante evidente no pescoço, nos ombros no quadril, já é um avanço em relação a uma arte mais realista. Mas esse é apenas o começo de uma caminhada em direção a uma arte mais realista, mais representativa dos detalhes que pertencem a uma figura de um ser humano. Na arquitetura, os exemplos são muito pobres. Os templos são pequenos, refletem a ideia que esteve na religião grega até o fim de que cada templo era a casa do deus ou deusa. Os templos gregos dedicados à deusa Hera, uma das deusas-mãe, um eco das figuras de fertilidade como as Vênus pré-históricas, eram acanhados. Provavelmente cabia somente uma pessoa em seu interior, o sacerdote ou a sacerdotisa. Esse costume leva à tradição grega, que persiste até a Era Clássica, que não permitia que os fiéis entrassem no templo. Então, quando nós chegamos ao século VI, nós percebemos que a arte grega desenvolveu-se de uma forma notável. O maior contato dos gregos com os egípcios e os persas através do comércio, que aumenta no Mediterrâneo, e a redescoberta de antigas pinturas e objetos de arte micênicos e talvez até minóicos, avivou nos gregos o espírito da competition, muito próprio deles, aliás, além, é claro, do desejo de beleza, que também lhes era muito particular. Veja essas duas estátuas representando mulheres. A estátua feminina dessa época é chamada pelos especialistas de "koré", que quer dizer "moça" em grego, pois não representam em particular nenhuma deusa, o que seria comum mais tarde. Eram estátuas ou estatuetas votivas, como o Apolo de Mantículos, para serem oferecidas nos templos para fazer ou pagar promessas. A primeira estátua é chamada de Hera de Samos. Embora sua cabeça tenha sido perdida, o que sobrou mostra muito bem a concepção do artista. Parece que a figura foi talhada a partir de um bloco cortado como uma coluna. Pode mesmo ter sido usada com essa função. A beleza está nas estrias que representam o caimento do tecido do vestido. O corte na altura da cintura e os pés que aparecem por baixo do vestido. A segunda estátua é a chamada Dama de Auxerre. A moça apresenta no rosto um sorriso discreto, o penteado muito elaborado, os sulcos no vestido, além do delineamento do corpo feminino elaborado com vestido cinturado e a capa que desce dos ombros de forma muito hábil e sutil. É a obra de um artista dotado de uma grande delicadeza, ainda distante do ideal realista, é verdade, mas é única em seu gênero. O que há de comum entre as duas obras é a inspiração egípcia. Na Era de Samos, a mão no braço esticado ao lado do corpo é representada da mesma forma que seus modelos no Egito. A versão masculina das estátuas é chamada de couros. Moço em grego. Também é no Egito que os escultores vão se basear para fazer seu trabalho. A estátua hoje conhecida como Kouros de Nova York tem as mesmas proporções que essa estátua egípcia que você está vendo na tela. Notem que a posição das pernas uma à frente da outra, o que os especialistas chamam de contraposto, ou seja, contrapeso em italiano, É uma forma que os egípcios encontraram de mostrar as duas pernas separadas, além de equilibrar a estátua em pé sozinha, sem outro tipo de apoio. O contraposto é a postura de todos os couros até o século V a.C. Veja essa comparação entre as estátuas, desde a confeccionada em 700 a.C. até a de 480 a.C. Embora a diferença entre o Kouros de Nova York seja notável em relação ao Polo de Mantiklos, é impossível não notarmos uma diferença brutal até mesmo entre o Kouros de Anavissos, de 525 a.C., e o último da série, o Kouros de Critios, de 480 a.C. O que muda quando observamos a série de homens esculpidos num tempo de apenas 220 anos? Os gregos saem de um esquema quase inteiramente abstrato e pré-histórico para uma observação detalhada do corpo humano. Pode ser que o couro de Nova York seja quase que uma cópia da escultura egípcia, mas é uma adaptação para os objetivos gregos, pois elas não são absolutamente idênticas. Os gregos são o primeiro povo na antiguidade que tem uma atenção Tão especial para o ser humano que até os seus deuses são muito mais humanos e terrenos do que os deuses de outros povos, que pertencem a uma esfera tão misteriosa e distante que só podem ser representados como diferentes humanos, ou nem podem ser representados, como o deus dos hebreus. Essa atenção ao ser humano permite aos gregos prestar atenção à observação do ser humano em seus mínimos detalhes. Na escultura, permite que cada geração de escultores melhore, a partir da anterior, essa observação, acrescentando mais detalhes à representação humana. Outro detalhe que favorece o realismo na arte grega é a valorização grega das ações e não das intenções. Nos poemas homéricos, que são para os gregos seus livros didáticos, são as ações dos guerreiros que conferem a eles a glória de ser imortal. Achilles, o herói da Ilíada, quer deixar um nome para a posteridade e para isso tem que ser lembrado pelos seus feitos. Portanto, é a ação que aparece externamente e não internamente que é valorizada. Ou seja, o externo, a aparência, a beleza exterior é importantíssima. Um cidadão é valorizado pela sua capacidade de realizar ações, de possuir habilidades, de ter uma formação cultural, tudo isso para ser aplicado coletivamente, externado em ações, como o corpo atlético é a forma externa de uma pessoa preparada para a guerra. Por isso os homens são representados nus, não só porque os gregos combatiam nas guerras com pouca ou nenhuma roupa, assim como competiam nos jogos atléticos, como os Jogos Olímpicos, nus, pois tinham orgulho de mostrar corpos dotados para a guerra, preparados para suas funções de cidadão. Ou prezavam estátuas de homens, nus, com um físico perfeito, como modelos a serem imitados. Ao contrário, as mulheres eram representadas vestidas, pois não era necessário, socialmente, representá-las nuas, pois o recato era mais valorizado entre elas. A beleza era valorizada, uma beleza recatada que se mostrava em belos rostos, belos penteados, belos vestidos. Uma mulher bem vestida era o modelo a ser imitado. As mulheres deviam guardar o corpo para o marido, por isso não eram mostradas nas estátuas. O contraponto maior a isso são as figuras mitológicas das górgonas, os monstros femininos, sendo que a mais famosa delas era a Medusa. A figura da Medusa esteve na moda nos tempos arcaicos e era usada como amuleto para espantar espíritos ou para afugentar inimigos. A Medusa era estampada em escudos supostamente para afugentar os inimigos pelo terror imposto pela figura horrorosa da Medusa. Outro ponto da escultura arcaica grega são os conjuntos de esculturas dos templos. Havia um espaço triangular nas fachadas dos seus templos chamado fronton, o que hoje chamamos de tesoura, e que fazia parte da estrutura do telhado. Os escultores gregos começaram a decorar esse espaço com grupos de esculturas. O desafio era ocupar o espaço com uma escultura em pé no centro, e depois ir até os cantos com figuras menores ou figuras dobradas, articuladas. A variação necessária em estátuas devido ao espaço reduzido que ocupavam deu a oportunidade aos artistas de desenvolver posições diferentes da postura em pé somente. Guerreiros deitados, ajoelhados, deuses e deusas inclinados, com o corpo torcido favoreceram a exploração de outras posições do corpo humano. Assim, chegamos às portas do século clássico grego, o século V a.C., chamado de século de ouro ou século de Pericles, o século da máxima glória da civilização grega e da democracia em Atenas. Mas até aqui surpreende-nos a caminhada artística dos gregos e o pouco tempo que levaram, comparados a egípcios, mesopotâmicos, cretenses e micênicos, para desenvolver uma arte realista e sofisticada a partir de uma arte simples, quase pré-histórica. Não é fácil explicar por que somente um povo, em toda a antiguidade ocidental, chegou a uma arte que foi admirada durante quase 3.000 anos e que ainda causa espanto. Não havia máquinas fotográficas, nem recursos de alta tecnologia, e no entanto os gregos alcançaram uma liberdade imensa na representação artística do ser humano, somente com seus olhos e ferramentas de baixa tecnologia. Chegaram ao ponto de simular em pedra a vida de um corpo humano que gerou até uma lenda, a de Pygmalion, que esculpiu uma estátua de uma mulher que era tão realista que se apaixonou por ela, chegando a orar a deusa Afrodite que concedesse vida à escultura. Sua oração foi atendida e Galateia, o nome da criatura, criou vida. Essa história é uma metáfora da arte grega muito feliz, pois se os escultores ao longo de séculos oraram aos seus deuses para que suas criações adquirissem vida, um dia foram atendidos e por isso suas criações, assim como os feitos de Aquiles, tornaram-se imortais. Na próxima aula, a arte grega chega ao seu período máximo, a arte clássica do século V a.C. Muito obrigado e até lá!
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