A aula 2 do curso “História da Arte em 28 Dias” explora a arte da Pré‑História, destacando a representação como recurso fundamental da arte desde os primeiros desenhos de “stickmen”. O professor inicia explicando por que, há 40 mil anos, os primeiros artistas retrataram quase exclusivamente animais nas paredes das cavernas, enquanto as representações humanas são escassas. São analisadas as pinturas rupestres mais famosas – Chauvet (França), com animais de grande realismo; Altamira (Espanha), onde mãos são impressas ao lado dos animais, possivelmente como magia de caça; e Lascaux (França), que apresenta figuras de grande escala e a enigmática “Figura do Homem‑Pássaro”. O método de produção é descrito: incisão com ferramenta pontiaguda seguida de preenchimento com pigmentos à base de carvão, sangue, terra ou plantas, aplicados com pincéis, dedos ou sopro. A aula então aborda as exceções escultóricas: o “Homem‑Leão” de Hohlenstein‑Stadel (Alemanha) e as pequenas estatuetas femininas chamadas Vênus (Hohlenfels, Willendorf), interpretadas como amuletos de fertilidade. São discutidas as possíveis funções simbólicas da arte paleolítica – magia de caça, expressão de fertilidade, identidade de grupo – e a ausência de representações humanas completas, atribuída à falta de atributos físicos extraordinários nos humanos. Segue-se a transição para o Neolítico, quando a invenção da agricultura fixa populações, permitindo o surgimento da arquitetura, monumentos de pedra como Stonehenge e, eventualmente, cidades, escrita e civilização, marcando o fim da Pré‑História. O professor conclui ligando a capacidade de representação dos primeiros artistas à nossa própria prática de desenhar stickmen, reforçando que a arte começou na Pré‑História e prepara o terreno para a próxima aula sobre a civilização da Mesopotâmia.
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O que tem em comum um artista da pré-história e nós que sabemos só desenhar um boneco de palito? Os dois usam o mesmo recurso para mostrar um ser humano. Esse é um dos principais recursos da arte até hoje: a representação. Seja bem-vindo! Esta é a aula 2 do curso "História da Arte em 28 Dias". Arte da Pré-História. Mas, quando há 40 mil anos, no Paleolítico, apareceram as primeiras obras de arte, não foram bonecos de palito que o homem desenhou na parede das cavernas, e sim animais. Por que animais? Mesmo uma criança hoje, quando começa a desenhar, começa desenhando uma cabeça e um corpo, os chamados girinos. Por que então os homens pré-históricos desenharam durante milhares de anos somente animais? Por que a única marca que o ser humano deixou por muito tempo foram suas mãos? Vamos investigar essa questão contemplando as pinturas mais famosas das cavernas pré-históricas, a chamada arte rupestre. Arte rupestre é a arte feita em paredes, tetos ou blocos de pedra, em cavernas ou mesmo ao ar livre. As pinturas rupestres mais antigas são as da caverna de Chauvet, na França, que chegam até 40 mil anos de idade. As pinturas mostram animais de várias espécies. Estão presentes leões, ursos, leopardos, cavalos, animais parecidos com bois e outros. As pinturas ocupam várias cavernas e não passam do tamanho natural. Aqui parte do enigma: aparecem as mãos nas paredes. O outro sinal de representação de ser humano é a representação de uma genitália feminina. Nenhuma representação de um rosto, ou de um corpo humano completo. Em Altamira, na Espanha, acontece algo que quase não existe em Chauvet: mãos ao lado de animais. Os especialistas supõem que as mãos ao lado dos animais podem ser um ritual de magia para favorecer a sua caça, como se as mãos impressas na parede ao lado do animal fosse pegá-lo. Mas os desenhos mais realistas são, sem sombra de dúvida, os de animais. As pinturas são principalmente feitas no teto das cavernas. Por isso, Altamira já foi chamada de "Capela Sistina da pré-história". Em Lascaux, também na França, as pinturas são um pouco mais recentes, 17.000 anos. Lá existem pinturas de animais com estilos diferentes, uns mais, outros menos realistas, mas em tamanho muito maior que o natural. No Salão dos Touros, por exemplo, os animais podem chegar até 5 metros de comprimento. E em Lascaux existe também uma honrosa exceção a tudo isso que eu venho falando: uma figura que pode ser um ser humano. Não se tem certeza, mas essa figura chamada de "O Homem Pássaro de Lascaux" é uma figura com forma humana, com braços, pernas, membros, enfim. Mas com uma cabeça de pássaro. Vocês podem ver claramente que é um bico na cabeça. A cena é desse homem-pássaro sendo atacado por um bisão. Embaixo, à esquerda, vocês podem ver um pássaro que tem uma haste embaixo do corpo, que pode ser tanto uma perna comprida como um cajado, ou seja, a haste de um cajado. Não temos certeza. Todas essas pinturas eram feitas primeiro com uma incisão, uma escavação com um instrumento pontudo, ou seja, o desenho primeiramente era gravado e depois preenchido com a tinta, que podia ser feita com carvão moído misturado com gordura, ou sangue, ou outras cores feitas com terras ou plantas moídas. Essas tintas eram aplicadas com pincéis, com os dedos ou até mesmo assoprando em ossos ocos, como canudos. Existem muitíssimas outras cavernas no mundo inteiro, mas todas elas, até perto de 15.000 anos antes de Cristo, não apresentam desenhos de seres humanos completos, com exceção das mãos da Vênus de Chauvet e do Homem-Pássaro de Lascaux, cuja figura não temos certeza se é um homem ou se é uma figura mitológica ou mítica? Será mesmo que as representações de seres humanos no Paleolítico não eram comuns? Será que não temos outras manifestações artísticas com seres humanos? Um dos motivos que os cientistas supõem que tenha sido assim é porque os animais eram tudo aquilo que o ser humano não era: fortes, rápidos, Tinham asas e podiam voar, tinham garras mortais. Nós, seres humanos, não tínhamos e não temos nada disso. Mas o homem tinha algumas coisas que esses animais não tinham: a capacidade de fazer ferramentas e, além disso, a linguagem falada, que possibilitou-nos ensinar aos nossos filhos como continuar fazendo essas ferramentas para continuar sobrevivendo. A linguagem falada é uma forma de simbolizar uma coisa através de sons. Se eu digo "sol", eu não preciso ver o sol para saber do que estamos falando. Isso é simbolizar: substituir a coisa real por um sinal, no caso, o som da palavra "sol". A mesma coisa o primeiro artista fez quando fez numa parede, com um pedaço de carvão, um rabisco que lembrava outra coisa. Talvez nem ele tenha percebido que aquilo trazia a memória de um bisão, ou de um leão, quem sabe outra pessoa tenha apontado e dito: "Olha, é um bisão!" Pois é isso que faz qualquer desenho, traz à nossa memória algo que não está presente ali fisicamente, mas somente na nossa cabeça, na nossa lembrança. E notem que, no caso das pinturas rupestres, para trazer essa memória da melhor forma, os desenhos são muito precisos, diríamos até muito realistas. Com uma riqueza de detalhes impressionante. Por isso, as pinturas pré-históricas ainda nos comovem e nos tocam milhares de anos depois que foram feitas. Mas a resposta à pergunta: "Existem representações de seres humanos na pré-história mais remota?" é: sim! "Mas, professor, você não disse que..." Sim, que não havia pinturas representando seres humanos, Mas havia esculturas. O porquê de haver esculturas e não haver pinturas, isso sim é um mistério. A escultura mais antiga que conhecemos é esta: Homem-Leão ou Mulher-Leão, encontrada em Hohlenstein-Stadel, na Alemanha. Ela tem a idade estimada entre 40.000 e 35.000 anos. Não por acaso é uma figura com cabeça de animal, mas com corpo humano, como o Homem-Pássaro de Lascaux. Mas as esculturas mais conhecidas são de figuras femininas, que os arqueólogos chamaram de Vênus, por causa da deusa romana do amor. Essas figuras são muito pequenas, não passam de 5 centímetros de altura, e eram usadas penduradas no pescoço, como um pingente. Eram feitas de pedra ou esculpidas em marfim. Provavelmente eram amuletos, objetos de devoção religiosa. A mais antiga é a Vênus de Hohlenfels. A mais conhecida É a Vênus de Willendorf. Mas aí você se pergunta: "E por que os seres humanos da pré-história inventaram a representação visual? Para ter a memória de animais e mulheres férteis?" As pinturas foram feitas por povos caçadores. Veja que ainda estamos milhares de anos antes da invenção da agricultura. Esses povos caçadores eram nômades, ou seja, andavam muito em busca das manadas de animais para caçar. Parece que as cavernas eram usadas como pontos de parada, de muitas tribos de caçadores e provavelmente eram como catedrais, pontos de peregrinação religiosa. Os caçadores iam até essas cavernas para contemplar os animais pintados, fazer rituais e pedir sorte nas suas caçadas. E provavelmente levavam os seus próprios caçadores-sacerdotes, que acrescentavam novos desenhos nas paredes já pintadas. No caso das Venus, vejam que ambas possuem as características físicas femininas muito exageradas. Os especialistas supõem que seja por causa de um desejo de fertilidade, pois os bebês morriam muito facilmente nessa época. Era desejável que as mulheres tivessem muitos filhos para que o grupo, a tribo, sobrevivesse. E essas figuras ou eram deusas da fertilidade, ou eram figuras que chamavam a fertilidade, bem ao estilo de amuletos da sorte, que chamam a sorte. Você percebeu que a Venus não tem rosto? A Vênus de Hollensfels nem cabeça tem, e sim um passador de cordão. A Vênus de Willendorf tem uma cabeça coberta com o que parece um penteado, mas não temos certeza se é isso. Por que isso? Será que é machismo? Não é. Para o ser humano nessa época, ainda não havia o que chamamos hoje de personalidade, ou seja, uma pessoa identificada como diferente da outra. O que importava era o grupo, E esse, sim, tinha uma identidade, algo em comum entre todos os membros do grupo, como um animal protetor ou totem. Somente no Neolítico, mais ou menos 10.000 anos antes de Cristo, aparecem as primeiras representações humanas como um sujeito ativo. Essas figuras humanas numa caçada já mostram a confiança que o homem tem na tecnologia de suas ferramentas, que possibilitam matar até grandes animais, e sua organização social, pois somente em grupos os humanos conseguem perseguir e encurralar animais para matá-los. Mas algo acontece nesse período que vai mudar a história do ser humano para todo o sempre: a invenção da agricultura. A fixação num só local devido à agricultura dá origem à arquitetura, uma nova arte que une uma utilidade, construir casas para os homens ou para os deuses, e a questão da beleza ou da disposição geométrica, destina algo agradável para os olhos e para o corpo. Ainda na pré-história, surgem monumentos de pedra como Stonehenge, cuja construção só foi possível porque o homem estava fixado no local e tinha uma organização social que permitia a divisão de tarefas. Com o tempo, a agricultura dá origem às cidades e as cidades dão origem à civilização, à cultura das cidades. A escrita, que surge na cultura das cidades, marca o fim da pré-história. Foram milhares de anos, porém, em que a humanidade surgiu e criou os importantes alicerces que nos fazem humanos: a família, a linguagem, a tecnologia, a religião e a arte. Por isso, na próxima vez que você desenhar um boneco de palito, um stickman, não sinta mais vergonha. Você é um ser humano com capacidade de representação. Pois qualquer um que ver o seu desenho irá reconhecer um ser humano, por mais simples que esse desenho seja. E lembre-se, tudo isso começou na pré-história. Na próxima aula começamos a ver a arte das primeiras civilizações. A primeira é a civilização da Mesopotâmia. Obrigado e até lá!