Nesta aula 16 do curso “Apreciando a História da Arte”, o professor Fábio San Juan explora a arte do Antigo Egito, destacando seu caráter utilitário – as imagens serviam a funções religiosas, funerárias ou de propaganda – e contrastando-a com a noção moderna de "arte pela arte". Ele descreve como os egípcios desenvolveram um rígido cânon de proporções baseado em unidades como o "dedo", garantindo que figuras humanas fossem reconhecíveis independentemente do tamanho da obra. O professor explica ainda a convenção egípcia de representar o corpo em perfil, mas com os olhos mostrados frontalmente, e como essas regras permaneceram quase inalteradas por milênios, influenciando a arte grega e, por extensão, a civilização ocidental. O conteúdo enfatiza a estabilidade dos sistemas de representação egípcios e sua importância como base para a arte posterior.
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Aula de número 16 do nosso curso Apreciando a História da Arte. E hoje nós começamos um dos assuntos mais fascinantes da história da arte, porque é a história da arte de uma das civilizações mais fascinantes, que é o Egito. A civilização egípcia foi a grande base, uma das grandes bases civilizacionais para civilização grega E portanto é uma das bases para nossa civilização ocidental e hoje da nossa civilização globalizada, que tem o Ocidente como um dos componentes fortes. E muito da arte, especificamente falando de arte, se originou de modelos egípcios. A arte, eu acho que já comentei isso em algum momento, mas a arte na antiguidade como um todo e não só no Egito, ela tinha fins utilitários. Na verdade, não existia a noção que a gente tem hoje, que começa lá no século 18, entre o século 17 e 18, no Ocidente, a questão da arte pela arte. O que é a arte pela arte? Você tem até um Na Europa se usava em latim a frase "Arts gratia artis", que você tem como um slogan no símbolo, no brasão da Metro-Goldwyn-Mayer, MGM, aquele estúdio de Hollywood. Você tem o leão lá rugindo e embaixo do leão tem escrita essa frase em latim. Arts gratia artis, arte pela arte. O que é arte pela arte? Você contemplar a arte unicamente para você ter prazer estético, para você ter uma contemplação. Não é uma arte que tem um fim utilitário, ou seja, uma imagem numa igreja católica de um santo, ele tem uma utilidade. A gente pode contemplar ela esteticamente, mas o fim primeiro dela é servir para devoção dos fiéis, assim como as estátuas gregas também tinham esse fim, para que houvesse sacrifícios, devoção, orações dos fiéis que acreditavam naquele deus, que tinham como padroeiro. Para os egípcios era a mesma coisa. A arte tinha função utilitária, ela tinha uma utilidade. A ilustração num papiro, num livro, como eles chamavam, para eles era o livro, aquela ilustração tinha o fim de ilustrar o que estava sendo dito no texto. As pinturas nos sarcófagos tinham a utilidade de ilustrar a vida do morto, da família do morto que estava ali sepultado. As estátuas do Faraó tinha a utilidade de mostrar para todos quem é que mandava, quem é que era o governante do país, e assim por diante. A partir do momento que se fixa uma forma de representar a figura humana, de uma forma que lhes pareça mais proporcional, eles se apegam a essa forma de representação e mudam muito pouco ao longo de milhares de anos. Vocês veem aqui uma grade de construção, cada tipo de figura tinha um sistema de proporções, né? E quando a gente fala em proporções, o que que é a proporção? Quando você vai desenhar uma figura humana, fala que ela tem que ser proporcional, ela tem que ter uma relação fixa, uma relação fixa entre as partes do corpo. Então ela é sempre relacional, ou seja, você sempre relaciona uma parte do corpo com a outra, e essa relação ela tem que ser sempre constante. Então não importa se você desenha a figura com 10 centímetros de altura ou você faz uma estátua de 5 metros de altura, a proporção, ou seja, a relação entre as partes do corpo são sempre as mesmas quando você tem um sistema de proporções que os gregos depois chamaram de canones. Os egípcios tinham os seus canones também, que mudaram muito pouco ao longo de milhares de anos. E vocês veem aqui que eles são— existia uma tabela, uma tabela de proporções do tipo do pescoço até a cintura do Faraó, ela tem que medir 10 dedos, 10 dedos indicadores. O dedo era uma das das unidades do sistema de medidas desse escalonômetro do Egito, que é a questão dos vários pontos de vista representados numa mesma figura. Isso na verdade mostra o quê? Mostra que os egípcios não tinham um sistema realista. Realmente era um sistema, alguém em algum momento, ou várias pessoas em vários momentos, foram colocando regras, foram conquistando a representação da figura humana de uma forma que as pessoas reconheciam o ser humano à medida que você ia acrescentando os elementos, até que chegou num ponto e falou: olha, para fazer um ser humano "Você precisa fazer desse jeito, que aí todo mundo vai reconhecer como ser humano." Então, chegou na fórmula, e é uma fórmula mesmo, de quando você representa as pessoas, é sempre representado de perfil, nunca é representado de frente. Eu tenho uma referência que existe uma única representação encontrada até hoje de um osso de frente, Quer dizer que eles sabiam fazer, mas eles escolheram fazer sempre de perfil por uma questão de reconhecimento. Só que o rosto de perfil tinha que apresentar os olhos como vistos de frente e não como vistos de perfil, como faria um grego na época clássica, por exemplo, num desenho.