Neste vídeo‑aula, o narrador examina o painel da Ressurreição do Retábulo de Isenheim, criado por Matthias Grünewald por volta de 1515. Ele contextualiza a obra dentro da tradição da arte sacra, explicando que o retábulo, composto por nove painéis, foi concebido para um hospital que atendia pacientes de epidemias, buscando milagres de cura. A análise descreve a escolha de Grünewald por representar Cristo levitando sobre o túmulo, ao contrário da tradicional figura de Cristo em pé, e detalha os elementos visuais: o corpo de luz branca, a auréola em forma de mandorla, o sol que irradia do próprio Cristo, os tecidos em movimento e os guardas caídos. O narrador relaciona esses recursos à simbologia bíblica – Passover (Pesach), a Estrela da Manhã do Apocalipse – e à distinção entre a abordagem mística e simbólica do norte da Europa e o realismo clássico do Renascimento italiano. Por fim, ele interpreta a cena como uma mensagem de esperança, comparando a luz que nasce na madrugada com a necessidade contemporânea de esperança em tempos sombrios.
Chapters
Ressurreição do Retábulo de Isenheim, de Matthias Grunwald. Páscoa vem do hebraico Pesach, que significa passagem. No cristianismo, é Jesus Cristo fazendo a passagem da morte para a vida. É a vitória do bem, que morre, mas renasce e vence a luta contra o mal. O cristianismo coloca essa luta e essa vitória no centro da sua teologia. A cena da ressurreição de Cristo teve um desenvolvimento em sua representação desde os primeiros séculos depois de Cristo, mas vamos nos deter na arte italiana entre os séculos XIV e XVI, até chegar na arte alemã que a obra de hoje representa. A grosso modo, observamos duas formas principais: a do Cristo vitorioso em pé, saindo do túmulo, mas apoiado no solo, e a outra do Cristo pairando, levitando sobre o sepulcro. Este último é o caminho que Matthias Grunewald seguiu para mostrar o Cristo ressuscitado no retábulo de Isenheim. Esse retábulo, confeccionado por volta de 1515, possui 9 painéis e é uma das obras-primas do Renascimento alemão. A Ressurreição é um desses 9 painéis. Para nós é interessante saber que a principal função desse retábulo foi pedir a cura através de um milagre para os doentes das epidemias e pestes que assolaram a Europa de tempos em tempos, desde o século XI, no hospital em que o retábulo foi colocado. Na imagem, o Cristo levita sobre o túmulo aberto. É uma sepultura estilo europeu e não cavada na rocha, com uma pedra tampando a entrada, como descrita nos Evangelhos. A rocha ao fundo é mais um cenário do que uma tentativa de reconstituição histórica. O artista quis imprimir movimento ao ressuscitado, estendendo os tecidos que o envolviam enquanto morto saindo de dentro da sepultura, como estivessem se desenrolando em torno de seu corpo. Grundwald mostra Jesus com o corpo numa cor impossível, um branco de alvura luminosa, transparente. Embora seja madrugada e o céu ainda esteja estrelado, não é o círculo da lua que aparece atrás do Cristo, muito menos de um sol que nasce, e sim de um sol que irradia do próprio ressuscitado. O contraste entre o amarelo, o laranja e o azul mostra uma luz para nós estranha, que estamos mais acostumados às imagens do Renascimento italiano. Mas é uma forma de simbolizar Cristo como um novo sol transcendente que ilumina a todos de forma visível e invisível. Também é uma referência ao livro do Apocalipse, onde Cristo refere-se a si mesmo como a Estrela da Manhã, que ressuscita na madrugada do sábado para o domingo. A luz amarela do centro do sol é tão intensa que inunda a parte superior do seu corpo, a ponto de discernirmos somente alguns traços do contorno do seu rosto. Esse círculo luminoso também é uma referência às mandorlas, que na arte sacra cristã A aura é um recurso visual muito comum que mostra uma auréola de corpo inteiro e não somente na cabeça. A ação de Jesus sair do túmulo levitando, parece que ele acabou de sair, os tecidos estão tremulando, as franjas flutuando, nos dá a impressão que causou a abertura da tampa do sepulcro e a queda dos guardas. Parece mesmo que essa ascensão foi tão rápida e impetuosa que os fez cair violentamente. Ou eles estariam no chão por conta de uma luta, talvez com anjos. A arte de Grunewald realiza o que o Renascimento italiano já havia alcançado: unir o realismo da arte da antiguidade greco-romana, o ponto de vista humano, com a mensagem cristã, o ponto de vista divino. Mas nas imagens do retábulo de Isenheim, e mais especificamente neste painel da ressurreição, ele mostra a visão mais mística do norte da Europa, menos realista e mais simbólica. Que esta imagem do Cristo glorioso renascendo no meio de uma luz estranha, no fim da noite, anunciando um novo dia para a humanidade, seja mais uma mensagem de esperança em meio à noite escura que vivemos agora.