In this episode of the series “Pinceladas”, speakers A and B examine Tarsila do Amaral’s iconic 1928 painting Abaporu, explaining why it has become a central symbol of Brazilian identity. They begin by noting the literal meaning of the title – “man who eats human flesh” in Tupi – and describe the striking visual contrast of the figure’s tiny head and oversized feet, interpreting the head as the intellectual, thinker‑like aspect of the Brazilian and the large hands and feet as a celebration of manual labor. The discussion links the pose to Rodin’s The Thinker, reinforcing the duality of mind and body. The surrounding arid landscape, with a blazing sun, blue sky and cactus, is presented as a specifically Brazilian setting that grounds the work in the country’s semi‑arid regions. The speakers argue that Abaporu embodies the tension between modernist European avant‑garde influences and native Brazilian tradition, a tension that recurs throughout Tarsila’s oeuvre. Finally, they situate the painting within the broader project of defining a Brazilian cultural identity in the early 20th century, highlighting the modernist concept of “anthropophagy” – the deliberate “cannibalization” of foreign cultural forms (jazz, concrete art, rock) to create a uniquely Brazilian expression such as bossa nova, neoconcretism and tropicalismo. The analysis underscores how Abaporu functions as an archetype of the Brazilian people: a native, intellectual, laborer, and cultural cannibal all at once.
O Abaporu de Tarsila do Amaral.
Por que o Abaporu é tão representativo da nossa identidade brasileira? O Abaporu é uma obra de Tarsila do Amaral, uma das mais importantes artistas brasileiras de todos os tempos. Abaporu é um presente de aniversário da Tarsila para o Oswald de Andrade. Abaporu quer dizer "homem que come carne humana" em tupi. Olhando a imagem do Abaporu, o que nós podemos notar de forma muito evidente à primeira vista? O grande contraste entre a cabeça e os pés. Será que nós temos aqui uma questão de perspectiva, de estarmos olhando de baixo para cima? Ou esse ser tem mesmo a cabeça pequena e os pés grandes? Quanto à cabeça, já foi analisado como uma das faces do brasileiro, que seria o brasileiro pensador, a parte intelectual do brasileiro. Já foi até feita a relação da postura em que está o Abaporu com a postura do Pensador de Rodin. Por outro lado, a mão e os pés grandes seriam uma forma de enfatizar o trabalho braçal do brasileiro, o trabalho pesado, dentro da linguagem bastante sintética do quadro. Além da personagem principal, a paisagem brasileira, do sol bastante forte e do cacto, que remetem para a questão do árido. Tarsila mostra o céu de um clima seco, de um clima árido, que remeteria mais a um ambiente brasileiro do que os quadros acadêmicos. O Abapuru junta a questão moderna com a questão da tradição. Nós vemos em outros quadros da Tarsila essa dicotomia, essa ambiguidade que mostra nós, brasileiros, entre esse desejo de modernidade E o pé na tradição, o pé nas nossas raízes, que é muito bem mostrado no Abaporu.
O Abaporu atende muito bem ainda a nossa necessidade nessa primeira metade do século 20 de definirmos nossa identidade cultural brasileira, ou seja, o que nos diferencia das outras nações, o que temos de nosso, uma identidade que iniciou a ser construída com o romantismo, com as narrativas sobre os índios, depois com os caipiras de Almeida Júnior, o mestiço de Portinari, os imigrantes de Antônio Rocco e a negra, feita também por Tarsila. Enfim, o Abaporu traduz em uma imagem o arquétipo do brasileiro, um ícone da nossa identidade. Um nativo brasileiro, um antropófago, que ao mesmo tempo é um intelectual numa postura pensativa,, mas também tem os membros enormes, enfatizando o trabalho com as mãos, o trabalho pesado que executa. Tendo ao fundo uma paisagem do semiárido, que caracteriza uma boa parte do nosso território, com um sol forte, um céu azul de clima quente sem nuvens. Um cacto que é um companheiro do nativo, similar a ele nas estruturas tubulares dos seus membros. A modernidade das formas, das cores, da anatomia, em tudo diferente da arte acadêmica até então preferida no país e atendendo às novas exigências das vanguardas europeias, junta-se ao desejo de utilizar a cultura popular com suas cores vibrantes e a desobediência à arte erudita, com formas distorcidas. E, principalmente, inaugura um forte estereótipo do brasileiro como o ser que se alimenta da cultura estrangeira e devolve-a ao mundo como cultura brasileira. Um antropófago, um canibal, que come a carne do estrangeiro para adquirir seu espírito, a sua força, comendo jazz para devolver bossa nova, arte concreta para devolver neoconcretismo e rock and roll para devolver tropicalismo.