This content was created by Fábio San Juan. This content was uploaded by Fábio San Juan. This is a YouTube video (Pinceladas 16 | "Autorretrato com dois círculos, de Rembrandt | Barroco holandês") dated 2020-05-05 presenting a single-speaker lecture/voiceover in Portuguese about Rembrandt’s self-portraits. The narrator contextualizes how Rembrandt’s many self-portraits allow a biographical reading, describes examples from his youth, his confident portrait at ~34 (Baroque illusionism, patronage by the Prince of Orange), and his later, more honest self-portraits produced amid personal tragedy and financial decline (death of Saskia, son Titus, loss of mirrors and debt). The excerpt focuses on the late “Self-Portrait with Two Circles”: the sitter’s proud yet aged appearance, his painter’s tools and costume, and the mysterious meaning of the two circles (possible compositional aids, world maps, or unknown symbolism).
Chapters
Auto-retrato com dois círculos de Rembrandt. Para nós hoje, conhecer as obras de um artista é sinônimo de conhecer a sua vida, certo? Conhecer a obra de um artista é conhecer as suas emoções, correto? Hoje é a visão corrente que temos das obras artísticas e seus autores, mas nem sempre foi assim. Rembrandt talvez seja o primeiro grande artista o qual, através das suas obras, podemos traçar uma biografia. Ele pintou Pintou cerca de 100 autorretratos, ou 40, ou 30. Nós vemos aqui 3 autorretratos de 3 épocas diferentes de Rembrandt que mostram muito bem, de forma até comovente, o progresso da vida do artista. No primeiro, Rembrandt está no começo da sua carreira artística. Ele se autorretrata com um gorget, que é um tipo de gravata, uma insígnia militar e uma boina militar. Totalmente fantasioso, porque Rembrandt nunca serviu no exército. Enfim, nós vemos o jovem Rembrandt olhando como que espantado para o mundo, numa expressão de assombro, com os olhos vivos, a boca aberta e uma luz muito forte em seu rosto. Rembrandt jovem se coloca aqui com toda sua vida à frente, olhando o mundo com espanto. No autorretrato seguinte, o autorretrato com 34 anos, Rembrandt está no auge da sua carreira artística. Entre 1629 e 1646, holandês. Um dos seus clientes fixos era o príncipe de Orange, que era simplesmente o governador da República Holandesa. Rembrandt teve muita prosperidade, ele tinha encomendas de muitos clientes nobres, pessoas ricas, ganhou muito dinheiro. Lembremos que nós estamos na Holanda, um lugar muito próspero que tinha um comércio muito forte com o mundo inteiro. Era bem casado com a sua amada esposa Saskia. Enfim, nós vemos um autoconfiante Rembrandt olhando para o espectador como se estivesse numa janela. Notem que o braço saindo para fora da moldura da janela é um recurso de ilusionismo, bem ao gosto do Barroco dessa época. Na época em que Rembrandt faz esse autorretrato, ele não tinha como saber que alguns poucos anos depois sua amada Saskia faleceria, depois de ter dado à luz ao seu filho Titus, e que pouco a pouco ele iria perdendo o seu prestígio perdendo o seu dinheiro até chegar progressivamente à miséria. Os autorretratos que desde 1627 até 1669 foram pintados, eles têm uma lacuna entre 1645 e 1652. O espelho que Rembrandt possuía, ele teve que vender. Vamos lembrar que os autorretratos só são possíveis porque nós temos uma grande difusão dos espelhos nessa época. E só conseguiu comprar esse espelho novamente em 1647. E a retomada dos autorretratos se deve à compra desse novo espelho. Nós vemos aqui 3 autorretratos de Rembrandt já nessa fase final da sua vida, em que progressivamente ele perde o prestígio, perde as encomendas e vai se endividando cada vez mais. São autorretratos em que existe uma honestidade muito grande, uma sinceridade. Rembrandt não faz questão nenhuma de esconder suas rugas, de esconder sua face preocupada, de esconder o fato de estar mais gordo. Embora ele continue se vestindo com roupas às vezes fantasiosas, às vezes roupas que seus modelos vestiam para que ele pudesse pintá-los, quando nós o encontramos nesse autorretrato com os dois círculos, é algo muito curioso e misterioso. Nós vemos o pintor, apesar da sua idade, à mostra, de não esconder suas rugas, a sua idade, mas avançada, ele posa orgulhosamente como pintor. Ele posa com uma autoestima, uma consciência da sua grandeza muito presente. Então nós vemos com seus instrumentos, vestido com uma roupa, com uma boina branca, que aparece em vários dos seus retratos dessa época, e sua paleta, seus pincéis, o seu tento, que é essa haste com a bola na ponta, que é um instrumento de pintura também. E o mais misterioso, esses dois círculos no fundo, que nós não sabemos o que seja. Podem ser elementos para auxiliar na composição, para que haja um equilíbrio melhor entre as partes. Pode ser uma referência aos mapamundis que estampavam as paredes das casas holandesas mais abastadas nessa época. Podem ser várias simbologias que nós até hoje não temos nenhum indício do que seja o real significado. Nós vemos nesse trabalho um dos grandes trabalhos de Rembrandt, embora esteja inacabado. Nós estamos na presença de um dos maiores artistas de todos os tempos. Mesmo na miséria, mesmo tendo morrido em esquecimento e tendo sido somente resgatado depois, podemos interpretar várias expressões nesse rosto que podem ser desde angústia, tristeza ou Tudo isso junto, aliado a uma consciência da sua própria grandeza como artista.