In this lecture, the speaker examines two large allegorical canvases by Stephen (Stephan) Kessler, housed in the Pinacoteca do Estado de São Paulo, that depict imagined visions of the Americas and Africa for a 17th‑century European audience. He first defines allegory as a symbolic condensation of multiple ideas, not a literal historical record, and explains how European artists, lacking direct experience, relied on travelers’ reports, other artworks, and their own imagination. The analysis of the “Allegoria da América” highlights the mixture of disparate indigenous peoples, fantastical fauna (e.g., a blue‑eyed monkey, oddly shaped caiman), depictions of monogamous families, a central cannibalism scene inspired by Hans Staden, and background figures suggesting forced labor. The “Allegoria da África” is compared, showing a tribal chief, monogamous couples, and a central scene of slave capture and trade, again rendered through a European exotic lens. The speaker argues that such fantastical representations shaped European perceptions of these continents for three centuries, until the 19th‑century naturalist expeditions (e.g., Langsdorff’s expedition with Rugendas) began to demand more accurate lighting and realistic detail. The lecture underscores the lasting impact of imaginative, second‑hand imagery on the visual culture of the exotic.
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Alegorias da América e da África, por Stephen Kessler. Essas duas grandes telas que estão na Pinacoteca do Estado de São Paulo são alegorias. O que é uma alegoria? Uma alegoria é uma imagem que condensa várias ideias, conceitos, sentimentos em figuras simbólicas. A intenção não é apresentar uma cena histórica ou ainda fazer retrato de pessoas conhecidas. Numa alegoria você pode ver muitas vezes várias cenas condensadas em uma só para mostrar vários conceitos. É o caso dessas alegorias da América e da África. A intenção é mostrar como seria a vida na América, para um europeu do século XVII. Então nós vemos algo que muito provavelmente não estaria acontecendo tanta coisa num só momento. A ideia é ilustrar os costumes, as pessoas, os animais, a vegetação da América, desse novo continente ainda desconhecido dos europeus. No entanto, naquela época, pela dificuldade das viagens, muitas vezes esses artistas não iam até o local, eles faziam essas imagens a partir a partir das imagens de outros artistas que muitas vezes também recebiam notícias de viajantes e faziam de acordo com a sua imaginação essas imagens. Nós vemos nessa Alegoria da América então uma mostra dos habitantes desse novo continente, os nativos americanos. Se você notar bem, existem nativos de várias tribos diferentes. Nós vemos animais a partir de uma descrição, mas com detalhes que denunciam a ausência desse artista no local original. Por exemplo, esse macaco que está bem no centro da composição, abaixo, ele tem olhos azuis. O jacaré também, que olha para o macaco, o formato dele é bastante estranho comparado com o jacaré real. Assim nós podemos dizer também das palmeiras, da vegetação, que são iguais às da alegoria da África. Notem o casal em primeiro plano, que parece dizer: existe monogamia na América. Que os casais são monogâmicos. Mas ao mesmo tempo, comparem, a mulher está segurando uma criança pela mão que olha uma macaquinha com um filhote no colo. Mais ao fundo, para demonstrar costume de dormir em redes, nós vemos uma mulher também amamentando uma criança numa rede. Vocês veem aqui, tem um triângulo de mães com seus filhos. Por que a comparação com macaco? Talvez para enfatizar a questão da proximidade da natureza com esses nativos. O que chama bastante atenção, e o que certamente chamou a atenção dos europeus que viram essa imagem, é a cena de canibalismo que está no centro do quadro, em que está havendo um churrasco e estão sendo levados corpos para serem assados. Nós lembramos da referência bastante forte do Hans Staden, que publicou um livro no século XVI já falando sobre o canibalismo entre os índios do Brasil. Nós vemos também a relação dos índios com os europeus. Você vê lá ao fundo o que talvez seja uma indicação de trabalho escravo, em que os homens estão fazendo um trabalho ali em fila. Enfim, e é uma paisagem pintada da maneira europeia, quer dizer, não existe nenhuma preocupação Não existe nenhuma exigência, inclusive do consumidor, da pessoa que vai comprar esse quadro, de que haja uma luz local. Essa preocupação da luz, que é diferente na América, na África e na Europa, só começa a ser observada no século XIX. Na Alegoria da África, nós vemos a mesma relação fantasiosa, a mesma imaginação em cima desses elementos, Nós vemos aqui um chefe, que provavelmente é um rei de uma tribo africana, numa tenda ou uma cabana, aqui em segundo plano. Nós vemos um casal em primeiro plano, como na outra alegoria, também como se amostrar a relação monogâmica entre os casais e também com os filhos. A cena principal, ao contrário da cena de canibalismo da alegoria da América, É a questão do aprisionamento de escravos, que é feita próximo do centro da composição, que era feita, como se sabe, pelas próprias populações da África nesse momento para fazer esse comércio de escravos com os europeus. Então, nós vemos essa relação com os europeus, essa relação de comércio também mostrada de uma forma exótica, estranha, diferente, europeia e com muita fantasia, muita imaginação. Essa visão fantasiosa, a partir da imaginação mais do que do testemunho presencial do artista, ela vai condicionar a produção de outras imagens sobre esses lugares exóticos para os europeus, a ponto de somente no século 19 haver uma preocupação de se tentar retratar mais fielmente, mais de acordo com a realidade visível, essas paisagens, esses costumes, do que foi feito ao longo de 3 séculos. Somente com as expedições naturalistas, como por exemplo a Expedição Langsdorff, da qual Rugendas fez parte, é que se aí haverá registros mais fiéis, mas ainda condicionados por essa visão do exótico.