In this video recorded at the Centro Cultural Banco do Brasil during the São Paulo International Art Biennial, the hosts discuss Giorgio Morandi’s still‑lifes and landscapes. They highlight Morandi’s characteristic low‑tonal palette, the tremulous quality of his brushstrokes, and the way his paintings resemble black‑and‑white photographs. The commentary explains how Morandi’s work creates an “illusory realism”: up close the image dissolves, but from a distance the composition resolves into a unified, memory‑like impression. Specific visual elements are examined – the dominance of shadow, the subtle interplay of light, the off‑center placement of objects, and the faint, almost invisible outlines that give the sense of a fleeting glance or a recollection. The speakers argue that Morandi’s art invites prolonged contemplation, silence, and a meditative stillness that contrasts with contemporary “loud” color and motion. References to a 1924 water‑print and to the overall program of the Biennial provide contextual grounding.
E aqui estou no Centro Cultural Banco do Brasil para ver a exposição do Jorge Morenghi, o legado de Morenghi. Faz parte da programação da Bienal Internacional de Artes de São Paulo.
As naturezas mortas do Morandi, assim como algumas paisagens, elas têm uma dependência do visível, então elas são observações do que nós podemos ver, ou seja, são realistas, mas não no sentido acadêmico. Você tem uma qualidade fantasmagórica histórica nessas naturezas mortas por conta desse tremular dos contornos, por conta dessa luz em alto contraste em alguns pontos e esses tons muito baixos, por conta desse tremular dos contornos, o tremular da própria cor, tremular dos volumes e os tons baixos se assemelham a fotografias preto e branco. Podemos ver aqui nessa paisagem o que eu disse a respeito da qualidade fantasmagórica desse tremular, a ideia que não é descrever exatamente o que está sendo visto, é como se ele tivesse uma lente própria, uma própria lente que ele faz como se fosse a lente dos próprios olhos, em que ele escolhe aquilo que ele quer mostrar, mas com essa qualidade de tremulação, como se estivesse tremendo, o pincel para pintar, como se fosse uma impressão fugidia, uma impressão rápida, algo que é muito rápido, como se fosse uma lembrança, uma memória. Vem ver aqui, os contornos dessa paisagem estão mais definidos. Mas ainda tem essa— se você se aproximar de alguns pontos, pode ver que a ilusão começa a desfazer, a ilusão daquilo que é real. Então você só consegue ver mesmo de longe, assim como na outra paisagem, voltando aqui, né? Se você se aproximar muito de alguns pontos, você não vai ser como uma foto em alta definição, que você consegue ver detalhes. Você só tem sentido ver ver tudo de uma vez, aí sim como uma cena completa. Aqui uma gravura, uma água forte do Morendi, 1924. Nós temos aqui uma água forte Água forte, mais uma água forte de Giorgio Morandi. E é um registro bastante leve, uma impressão leve. E vemos essa qualidade da tremulação, como se esses objetos estivessem com uma lente distorcida, talvez, ou embaixo d'água, ou com ondulações, como se o ar tivesse ondulações. Mais uma um traço muito fino, um traço muito leve, que mal delineia as formas. Os volumes são delineados pelas sombras e você consegue discernir os traços, mas a luz e a sombra é muito Levi. Essa natureza morta de tons muito baixos, como se tivesse a luz apagada, a luz bastante baixa, uma penumbra forte. Objetos que mal podem ser discernidos, com objetos mal se podem discernir. A sombra aqui é a protagonista. Aqui não importa muito a cor, mas sim os tons, ou seja, qualidade de luz e sombra das cores. Mais do que aquela qualidade do matiz da cor, né? Não é o vermelho, o azul identificáveis, mas sim esse marrom, esse acinzentado, o preto quase negro da garrafa à esquerda. É um estudo magistral. Sobre luz e sombra, na quase ausência da luz. Uma "aparición", é como se fosse uma aparição, essas garrafas, essa lâmpada, esse jarro, em meio a esse cinza, esse marrom, esses tons baixos, como se como se abríssemos os olhos depois de tê-los fechados muito tempo e fôssemos ofuscados por uma luz. E essas luzes, esses fachos de luz contrastados com essas zonas de sombra são aparições que nessa composição se lançam para cima como se fossem chamas de uma vela. Essa composição parece que tá deslocada. Normalmente nós pensaria— imaginaríamos uma composição em que esse ramalhete de flores estaria no centro, mas ele está bem deslocado para o canto inferior, pendendo para a direita.
Será que isso é um clarão de luz?
Será que isso é uma memória, uma lembrança? Essas flores que, claro, se tornam abstratas por conta das manchas, como se fosse realmente um jogo de adivinhação, se dissesse: "O que será que são essas manchas?" O que será que são essas flores de morango?
Uma natureza morta de Morandi, raramente ou quase nunca vai ter algo que foi vivo. O artista parece buscar na composição, ou seja, na desculpa, no motivo motivo que esses objetos possam trazer para ele em termos de linha, de ocupação de espaço e algumas relações cromáticas, relações de cor muito tênues, em tons muito baixos que, como eu já disse, remetem à fotografia preto e branco, uma fotografia bicromática no máximo, como era comum no começo do século 20 ainda, é algo que nos convida, nos convida a uma meditação demorada, uma contemplação que a gente faça em cima não só das cores e das formas, na maneira como o artista preenche essas cores e essas formas, essas pinceladas do do fundo, o fundo que se confunde com os elementos da frente, do, da figura, das figuras que são assunto. Na verdade, o assunto para Morandi é tudo, toda a composição está chamando a nossa atenção, chamando a nossa contemplação para que fiquemos um bom tempo em frente a ela, nós possamos penetrar nesse mundo misterioso, para nós misterioso, nós que modernos que estamos tão acostumados às cores berrantes, ao movimento. Morandi nos convida ao silêncio, nos convida à contemplação, a imobilidade e a uma serenidade.