
This content was created by Fábio San Juan. This content was uploaded by Fábio San Juan. This is a Portuguese YouTube lecture titled "Visita virtual Capela Sistina | Vídeo 03 de 04" (created 2020-04-02) in which Fábio San Juan presents a virtual guided visit to the Sistine Chapel. It is the third of a four-video series and consists of a single-speaker, educational monologue analyzing Michelangelo's work on the Sistine Chapel ceiling (commissioned by Pope Julius II, contract 1508, executed c.1508–1512). The speaker explains the original brief, Michelangelo's reluctance, the program of Genesis panels, the presence of prophets and sibyls, the inudı/nude figures, lunettes and pendentives, trompe-l'œil effects, Renaissance humanism and the fusion of classical and Christian iconography, and notes the later Last Judgment fresco to be discussed in the next video. Metadata: YouTube video, thumbnail provided, created_time 2020-04-02, language Portuguese.
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Olá, eu sou Fábio San Juan, professor de história da arte, e nessa sequência de 4 vídeos eu estou fazendo uma visita virtual à Capela Sistina junto com você, explicando a sua decoração. Se você chegou aqui direto e não viu os 2 primeiros vídeos, clique nos links da descrição e aí você acessa lá e depois fala pra gente o que achou, tá bom? Então nesse vídeo, nesse terceiro vídeo, nós vamos analisar especificamente o trabalho do Michelangelo na Capela Sistina. Bom, na época em que a equipe do Perugino, que veio de Florença, como expliquei no outro vídeo, veio para pintar, para fazer a decoração pictórica, pintura da Capela Sistina, o teto no fim ele acabou ficando azul, pintado de azul com estrelas, que era um tipo de representação do céu, que era uma tradição medieval, né? Você tem várias igrejas estilo gótico pintadas dessa forma, né? A Sainte-Chapelle em Paris é uma delas. A outra é a Capela Scroveni, como já falei, uma inspiração bastante forte. A Capela Scroveni de Padova, que foi pintado pelo Giotto, foi uma inspiração muito forte para a decoração da Capela Sistina. Em 1508, quando o Papa Júlio II, que era sobrinho do Sisto IV— lógico que o Sisto IV já tinha falecido— ele encomendou ao Michelangelo a pintura do teto, ele pediu que ele fizesse os 12 Apóstolos no lugar Então, do céu estrelado, fizesse os 12 apóstolos para fazer uma concordância e uma continuação, né? Tinha colocado já a história do Moisés, tinha a história da salvação com Cristo, e depois seria a continuidade lógica, que é os 12 apóstolos. Mas enfim, depois o Michelangelo acabou fazendo outra proposta e o Papa acabou aceitando fazer um projeto bem mais ambicioso. Eu não sei se você conhece a história que o Michelangelo recusou, no começo ele recusou pegar encomenda. Por quê? Porque ele estava em Roma desde 1505, ou seja, fazia 3 anos que ele estava em Roma para fazer o túmulo, o mausoléu do Papa Júlio II. E o mausoléu do Papa Júlio II era todo feito com esculturas. E, enfim, por conta disso, ele não queria sair do projeto do túmulo, porque aquele túmulo era a obra que ia firmar a reputação do Michelangelo como um grande escultor. Ele ia realizar várias ideias que ele tinha, e ele acabou alegando, então, falou: Eu não sou escultor, eu não sou pintor, eu sou escultor, não vou pegar um trabalho de pintura. Mas enfim, o Papa sabia evidentemente que o Michelangelo era um pintor também, sabia pintar, né? Você tinha o Tom do Doni, né, que é uma Sagrada Família que o Michelangelo fez, que é uma obra-prima também, é uma São pouquíssimas pinturas do Michelangelo feitas em tela. Enfim, então ele sabia o que ele estava fazendo. Então o Papa acabou praticamente forçando Michelangelo a aceitar, até porque o motivo dele estar em Roma era fazer o túmulo dele, e ele falou: "Para de fazer o meu túmulo e você vai decorar a Capela Sistina, que é mais urgente", né? Ele chegou até a ameaçar entregar a encomenda para o Rafael, que era um jovenzinho, e o Michelangelo acabou achando que isso seria uma humilhação, ele fazer, ele entregar essa encomenda para um jovem. Enfim, então ele acabou concordando pegar a encomenda. Uma das exigências que o Michelangelo fez foi que ele pintasse tudo sozinho. Teto sozinho, que levou 3 anos para ser feito. A outra exigência é que ninguém entrasse na capela enquanto o trabalho não tivesse terminado. Então a ideia é que ficasse 3 anos enquanto não terminasse, ele ficaria ali sozinho, só seria revelado mesmo quando terminasse todo o trabalho, né. Enfim, o Papa acabou aceitando, sabia que ia valer a pena, tava confiando nisso. E o contrato foi assinado então em 1508. Para fazer todo esse programa extenso, complexo, enfim, nós vamos ver um esboço na verdade aqui, né, por conta de tudo, mas é da complexidade, nós supomos hoje que o Michelangelo teve ajuda de teólogos do Vaticano, da Santa Sé, porque o conjunto é muito complexo Ele tem uma série de cruzamentos entre o Antigo Testamento e o Novo Testamento, além de citações a figuras da Antiguidade Clássica, os inude, os nus, as sibilas, que fazem essa referência à Antiguidade Clássica. Enfim, então vamos fazer um esquema geral para você entender como é que funciona. À primeira vista, a gente olha para o teto Fábio San Juan, nossa, quanta coisa, né? Muita informação mesmo, e é difícil de você entender se você não tem essas referências. Então vamos lá fazer esse guia para você, para você entender o que está acontecendo aí no meio de toda essa aparente confusão, certo? São mais ou menos 300 figuras e divididas em grupos, né? Então vamos lá. Aqui nesse, aqui no eixo central, essa parte do meio, nós temos 6 painéis representando os acontecimentos do livro do Gênesis, mas da criação do mundo. Então nós temos aqui Deus separando a luz da escuridão. Deus criando o sol e a lua, Deus separando a terra da água, embora não apareça muito bem, mas é isso que está acontecendo. A criação do homem, né, Adão, por Deus, uma cena famosíssima, tão famosa quanto a Mona Lisa. E Deus criando Eva a partir da costela de Adão. Em cima nós temos aqui a narrativa, como eu falei, duas imagens no mesmo painel, contando no mesmo painel duas fases da mesma história. Aqui Adão e Eva Adão e Eva recebendo o fruto proibido de Satanás, enrolado aqui na árvore, na árvore como uma serpente, mas com corpo humano. E na outra metade do painel, um anjo expulsando Adão e Eva do paraíso. Aí em seguida nós temos 3 painéis contando a história de Moisés. Aqui não vai ter como mostrar pra vocês, na verdade, muito perto, porque só consegue mostrar de perto se eu virar de ponta-cabeça, o que fica meio difícil de ver. Depois eu insiro aqui na edição uma tomada mais perto. Então aqui nós temos a Nós temos a Arca de Noé, a construção da Arca de Noé, Noé e seus filhos, a inundação, o dilúvio, né, começo do dilúvio universal, e por último a embriaguez de Noé. Em volta desses painéis nós temos essas figuras que são chamadas de "Innudi", são os "nus" italianos da época, que são figuras que remetem às figuras da Antiguidade Clássica. Essas figuras, elas estão apoiadas sobre esses elementos arquitetônicos ilusionísticos, de uma forma ilusionista, segurando esses escudos, esses medalhões que mostram cenas do Antigo Testamento. Nos pêndiculos, pêndiculos são esses intervalos, esses intervalos entre essas estruturas triangulares que são os injuntes. Então aqui os Essa parte, os pendículos, esse aqui são os injuntes. Vamos girar aqui para a gente ver. São nos pendículos, nós temos 12 figuras proféticas, são 12 pendículos, 12 figuras proféticas. Nós temos 7 profetas do Antigo Testamento e 5 sibilas. O que é mais interessante, né? Cê vê os nomes aqui das figuras: Profeta Ezequiel, né, Profeta Jeremias, mas temos as Sibilas também, Sibila Pérsica, a Sibila Eritreia, bom, Profeta Isaías, aqui Profeta Zacarias, E do outro lado, perto de Jesus no juízo final, nós temos o profeta Jonas, né? As Sibilas. Por que as Sibilas, né? Essas figuras pagãs são figuras pagãs no meio de uma representação cristã. Isso é bastante interessante. A Sibila líbica, o profeta Daniel, a Sibila de Cumas, né, falar um pouco dela como uma representante das outras, né. Porque essa junção da história cristã com a Sibila pagã, né, da religião pagã politeísta, porque estamos em pleno Renascimento, os renascentistas, né, completando o que os professores de cursinhos falam do Renascimento, nessa época que não é só uma substituição de Deus pelo homem, mas é uma revalorização do ser humano, mas os renascentistas se viam como retomando a cultura da antiguidade pagã greco-romana, com a revelação cristã. Então, figuras proféticas como as Sibilas, elas eram consideradas também, eram lidos alguns textos dessas Sibilas que sobraram, que chegaram até aquela época, como sendo profecias de Cristo. Como Cristo é considerado, tendo vindo tanto para pagãos enquanto para os judeus, eles são, então, se considerava que os profetas, profetisas pagãos, pagãs, também teriam profetizado a vinda de Cristo. Então a Sibila de Cumas, que é essa figura aqui, ela teria feito uma profecia do Messias, uma profecia messiânica que teria sido descrita pelo poeta romano Virgílio. Então, a Sibila de Cumas era considerada uma profetisa pagã que tinha predito a vinda de Jesus Cristo. Continuando, as janelas, nós temos as janelas em que há as lunetas. Essas lunetas são essas meia-luas em que você tem ancestrais, tem pintado ancestrais de Cristo. Nem sempre as figuras que aparecem aqui são necessariamente os ancestrais de Cristo. Às vezes você tem alguns nomes, às vezes não bate muito bem o que está mostrando, né? Mas a ideia é mostrar os ancestrais de Cristo através da linha paterna de São José, né, conforme conta o Evangelho segundo São Mateus. Sobre as lunetas, nós temos o que eu já falei, chamei dos injuntes. Os injuntes têm várias dessas figuras que não têm nome. Vocês veem que tem muitas figuras que têm os nomes, essas figuras não têm nome. Nós não sabemos exatamente até hoje qual a intenção do Michelangelo em colocar essas figuras dessa forma. Nós temos aqui, não, né, mas em vários desses, na maior parte desses enjuntes, nós temos figuras que nós não conseguimos identificar, não conseguimos fazer a relação com as histórias do Antigo Testamento, até ver talvez do Novo Testamento, certo? Nós temos somente uma das figuras, que é a Ana, que a Ana, que é a mãe de Samuel, que é um dos últimos dos juízes de Israel, que vai ungir Saul como primeiro rei de Israel. Enfim, essa figura é demonstra ela cortando um pedaço de roupa, o filho vendo ela cortar esse pedaço, e você tem um homem ao fundo misterioso usando chapéu, e você não sabe o que é, por que que está ali, né? Nós temos ainda 4 pendículos nos cantos da capela, então nós temos aqui 4 figuras Então, mostrando o castigo de Amã, a serpente de bronze, Moisés. Do outro lado da capela, nós temos outras duas, outros dois pendículos, que é a cena de Davi matando o gigante Golias e Judite e Holofernes. Judite corta a cabeça de Holofernes. Então você vê como é muito rico, né, muito rica a decoração. Ainda nós temos os putti, né, que são esses meninos, né, normalmente associados com anjinhos, hoje a gente chamaria em português, né, esses meninos que simulam como se fossem esculturas. Nós temos esses que seriam o quê? Anjos, talvez, anjos, ou talvez até demônios, né? Mas em alguns momentos você também tem anjos em outros locais. Então vocês têm vários elementos aí espalhados pela toda composição, que você pode ficar aqui muitas horas contemplando, né? Vocês veem que também tem essa essas cabeças de bode no topo, no cimo dos enjuntes. E você vê que toda essa simulação de elementos arquitetônicos, tudo isso é pintado, isso aqui não existe na verdade, isso aqui é pintado. Isso é uma antecipação, ou vamos dizer, uma criação do Michelangelo, que vai antecipar o trompe-l'œil, uma expressão francesa que a gente usa, quer dizer engano ao olho, que é um recurso de ilusionismo que vai ser usado no Barroco, muito, muito forte no Barroco. Bom, qual que é a diferença então da arte do Michelangelo que a gente vê aqui com a arte que vem antes? Por que ele é tão original? Por que ele é tão diferente? Então assim, no teto da Capela Sistina, depois do Juízo Final também, mas no teto da Capela Sistina pela primeira vez, se faz uma fusão entre a tradição cristã da Idade Média e a arte greco-romana, que é revolucionada no Renascimento. A mensagem cristã com as imagens que tem a inspiração direta na construção da figura humana das estátuas gregas, a valorização da musculatura do corpo humano, flexionada, usada de um jeito nunca visto antes. Como nós não temos exemplos de pintura da antiguidade, nós não temos como comparar, a não ser na estatuária, nas esculturas. Mas assim, o teto, então nós vemos o divino e o humano, né? A mensagem divina e o humano que mostra aí de forma realista ou verossímil, a gente vai dizer, né? Que nos convence de uma forma muito impressionante, muito diferente de qualquer coisa que vem antes dele, né. Uma coisa que é bem interessante também de enfatizar é a questão da forma como o Michelangelo representa as figuras divinas, né. Ao contrário daquela distorção que se tinha do divino, na representação do divino na Idade Média, aqui como estou mostrando em close, né, Deus Pai, né, o Deus criador mostrado como um ser humano. Então essa coisa da imagem e semelhança de Deus, o homem ser feito à imagem e semelhança de Deus, então se é assim, então Deus pela lógica deve parecer um homem, né? Então isso acaba humanizando a divindade, né? Então assim, mesmo sendo numa escala muito grande, né? É maior que o natural, E essas pinturas estarem situadas no teto, ou seja, você tem que olhar para cima, é uma outra escala, mas ainda assim isso acaba humanizando a divindade. A outra questão que ajuda bastante nessa originalidade é a perspectiva. A perspectiva, essa profundidade que é usada pelo Michelangelo, não foi inventada por ele, mas ele usa sim para inventar esse recurso do ilusionismo, o trompe-l'œil, como eu falei, né, que ele aumenta o espaço e dá a ilusão que o espaço é maior. Então acaba trazendo o céu para dentro da capela. Lógico que isso ele vai fazer ainda mais, com mais felicidade, no Juízo Final, mas já teto ele já consegue ser feito, né? As pinturas da equipe do Perugino, no máximo, no máximo, a gente pode dizer que sejam janelas, né? Que é uma mentalidade bem próxima, bem característica do Renascimento, encarar as telas, as pinturas, como se fossem janelas. Você coloca uma tela pendurada numa parede, é como se ela fosse uma janela para algo que de forma ilusionista, estivesse mostrando a parte exterior, como se estivesse vendo por uma janela uma peça de teatro se desenrolando do lado de fora. O teto do Michelangelo abre essas janelas, você tem até uma moldura arquitetônica, vamos dizer assim, mas ele traz o espetáculo para dentro, então você vê essas figuras Essas figuras, como se elas tivessem vindo de fora, tivessem aí espalhadas no meio dessas, por cima dessas cornijas, por cima desses elementos. Nós vemos essas figuras gigantescas, né? O profeta Jonas, por exemplo, olha só que ele é enorme, né? Mas esses profetas, as sibilas, são todas enormes também. São grandes, mas elas estão ali sentadas, né, estão pousadas. Nós temos também essas figuras dos injuntes, as figuras das lunetas, elas estão ali em repouso, né, como se estivessem em nichos, em buracos na parede, ser veneradas, como se fosse uma espécie de contraponto aqui aos papas que estão de forma muito mais óbvia, de forma ilusionística, aqui dentro de nichos, pintados, mas de nichos. E os anjos também, os anjos putti, eles são elementos, eles são ali como se fosse uma brincadeira, uma brincadeira com o espaço. Como se estivesse se exibindo, né? E tudo isso exige uma imaginação, uma participação do espectador, né? Você tem que entrar nesse jogo ilusionístico para falar: olha só, que legal, né? Parece de verdade, né? Mas a gente sabe que não é de verdade porque você tem diferença de escala entre as figuras, Você tem essas figuras enormes, você tem as figuras menores, né? Enfim, tudo isso faz parte dessa grande brincadeira, dessa grande ludicidade que o Michelangelo propõe para o espectador, né? Então isso tudo acaba tornando a decoração da Capela Sistina, da parte do Michelangelo ao menos, uma referência de arte realista, uma referência de arte ilusionista e um uma série, um exemplo muito referencial de um conjunto de imagens que usa vários recursos da arte visual para compor uma narrativa, para contar uma narrativa, uma história, que é a história da salvação da humanidade segundo a doutrina católica. Enfim, esse conjunto todo de obras-primas, ou uma obra-prima só, Cristo, seja como queiram, foi pintada pelo Michelangelo entre 1508 e 1512, né. Você teve um ano no meio desse período que ele parou a pintura, mas foi mais ou menos o trabalho aí somando tudo 3 anos, né. Só depois de 22 anos, né, em 1535, que um outro Papa encomenda artista o que seria o arremate da decoração, cereja do bolo, né, da decoração da Capela Sistina, que é o afresco do Juízo Final. Nós vamos analisar no próximo vídeo, certo? Até lá!
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