2. Vestibular – Cinquenta Pensamentos Sobre Futuros

A spoken reflection by Tiago Mattos recounting his father’s advice during his 1997 university entrance (vestibular) that his future profession did not yet exist, which shaped a non-linear view of careers and permission to invent professions. He describes helping build two Brazilian markets (free schools and futures literacy/futurism), cites Futures Literacy’s 2007 origin article by Howard Miller, and emphasizes adaptability and experimentation across roles.
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E diz o seguinte.
Quando fiz vestibular em 1997, perguntei ao meu pai. Em qual curso você acha que tenho mais chances de me dar bem? Administração, jornalismo ou publicidade? A sua resposta, que seria brilhante hoje, foi ainda mais para a época. Tanto faz, a sua profissão não existe ainda.
Essa é uma história real. Eu sei que muito professor, muito palestrante, muito consultor floreia o seu passado para deixar o storytelling da apresentação mais interessante, mas essa é uma história totalmente real que moldou muito o meu caráter.
Eu sempre vi no meu pai uma figura de sucesso profissional e de muita clareza profissional.
Eu acho que o meu pai é o verdadeiro futurista da minha família. Eu lembro, por exemplo, que um, dois anos antes, ele foi convidado para o meu colégio para dar recomendações sobre a jornada profissional e ele comentou que a gente precisava dominar duas linguagens. Duas línguas, dois idiomas.
E o primeiro, todo mundo gritou no auditório, inglês, inglês, inglês. Ele falou, é, vai ser muito importante vocês saberem inglês, uma vez que a internet, que estava naquele momento nascendo do ponto de vista comercial aqui no Brasil, uma vez que a internet vai estar na sua... maior camada em inglês, vai ser importante vocês dominar o inglês para terem acesso a essa informação. Mas qual é a segunda? E o pessoal começou a falar espanhol, japonês, russo, as mais diversas línguas e ele falou, não, a segunda língua é a língua.
Que ele deve ter usado um termo como programação, talvez um termo mais datado como da informática, mas eu lembro bem do que ele estava querendo dizer, que era dominar essa linguagem de troca com.
Seja a interface de hardware, seja com a interface de software. E eu acho que ele foi muito feliz nessa colocação, assim.
Como ele foi muito feliz quando me recomendou essa frase, quando ele disse, Thiago, tanto faz porque a sua profissão não existe ainda. O que ele estava me dando era um salvo conduto para que eu fosse quem eu quisesse ser e para que eu entendesse que o futuro do trabalho era bem menos linear, bem menos aquela ideia de entrar numa organização com 18, 19, 20 anos, me formar nessa organização e sair dessa organização em um alto cargo de diretor, de VP, talvez sócio da organização. Essa ideia de plano de carreira numa única organização, ela tem muito do industrial. Nos coloca muito numa posição de produto. A gente vira um produto de uma esteira, a gente entra lá no início da esteira com poucos elementos e essa esteira profissional, esse plano de carreira vai nos levando até um final onde eu sou igual a todo mundo.
Quando meu pai disse isso, ele me ajudou a entender que eu poderia me experimentar em várias diferentes empresas dentro de um mesmo mercado, como foi publicidade, a faculdade que eu acabei fazendo, mas que eu também poderia ter múltiplos mercados.
Dentro da minha jornada profissional, que eu poderia ser um profissional de comunicação, mas também ser um profissional de educação e também ser um escritor e também fazer, por exemplo, algo que eu e o Vini, que está aqui atrás das câmeras e vocês não estão vendo, recém fizemos, que foi uma minissérie animada. Ele deu esse senso de permissão para que eu não precisasse me colocar em nenhuma gavetinha e para que, a partir do meu interesse, da minha capacidade, eu pudesse me experimentar como um profissional em diferentes lugares. Ele também me deu um senso de permissão para construir a minha própria profissão, porque se a minha carreira ainda não existe, Quem sabe eu não ajudo a construir esse mercado.
E eu falo com bastante orgulho e bastante confiança de que eu acho que eu ajudei a construir, ao lado de muitos e muitos parceiros, pelo menos dois mercados no Brasil. Um foi o das escolas livres. com o advento da perestroika, que não foi a primeira, mas foi certamente a mais representativa naquele período histórico.
E que, nas palavras do Adriano Silva, do Projeto Draft, que certa vez estava dando uma palestra, onde eu não estava presente, mas um amigo meu gravou.
O Adriano repercute a trajetória da perestroika e fala que Ela pavimentou um mercado para que muitas novas escolas surgissem, para que escolas de fora do Brasil também viessem aqui e pudessem aproveitar um mercado que estava maduro.
Mas eu sempre acho perigoso quando a gente é uma banda de um hit só, quando a gente é uma banda de um sucesso só, quando a gente é uma banda que o público vai no nosso show por causa que a gente acertou daquela vez e nunca mais.
Então, acho que dentro de mim sempre houve uma vontade de construir ou ajudar a construir um segundo mercado. E a partir de 2012, esse lugar de futuros que já existia no Brasil, mas mais ligado à pesquisa de tendências, à cool hunting, foi pavimentado novamente para esse universo chamado futurismo e que depois, na nossa visão, evoluiu para futures literacy.
Eu me sinto muito grato por ter participado desses dois processos. Não sei se um dia eu vou ter a oportunidade de participar de um terceiro, mas confesso a vocês que o simples fato de ter conseguido fazer isso mais de uma vez.
Foi muito importante para a minha autoestima e para vencer muitas das minhas inseguranças. Meu pai estava certo no final das contas. A profissão que eu tenho hoje não existia em 96, 97, 98, aquela época onde eu estava saindo do colégio e entrando na faculdade. Futures Literacy, que é a temática na qual eu estou debruçado atualmente, nasceu a partir de um artigo do Howard Miller, que foi jogado ao mundo em 2007. Então seria impossível, naquele momento da história, eu decidir o que queria fazer se a escola de pensamento que deu origem ao lugar onde eu estou nem existia ainda. Uma das coisas que eu tiro dessa história é como eu vou me relacionar com o meu filho, como eu vou conversar com o meu filho sobre a sua atividade profissional lá na frente.
E eu espero que eu tenha a clareza, a grandeza e a sabedoria que meu pai teve para poder dar uma resposta que anteveja o futuro como ele também deu a mim.
Acho que, no fundo, a gente sempre busca na trajetória profissional um misto de felicidade, paixão, aquela recompensa por estar fazendo algo que se gosta.
Algum tipo de compensação financeira, algum tipo de tranquilidade financeira que nos permita ter uma vida plena.
Mas também a segurança de que a gente está fazendo algo para mudar o mundo. Com 16, 17 anos, era impossível eu ter consciência de tudo isso. Mas a frase do meu pai, ela foi bastante libertadora.
E eu digo isso porque eu acho que a carreira.
Tem que nos permitir a liberdade da gente ser quem a gente ainda não sabe que é, quem a gente ainda não sabe que virá a ser. Toda vez que eu penso nessa trajetória muito linear, é como se eu tivesse preso num duto que vai me conduzir a uma condição na qual eu não tenho tanta escolha. É uma esteira que me carrega em direção ao futuro único, ao futuro fatalístico e ao futuro que não me dá muita escolha. Então, se eu pudesse voltar no tempo, agradeceria muito meu pai por ter me dado esse senso de como seria o mercado de trabalho com essa ideia mais fluida, mais... por plugs, esse modelo mais leve.
Agradeceria muito meu pai por ter me permitido construir a minha profissão pelo menos duas vezes e agradeceria o meu pai por ter me dado a chance de ser quem eu acho que eu sou de verdade.
Foi!
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