3. Futuros No Plural – Cinquenta Pensamentos Sobre Futuros

Tiago Mattos argues for treating “futures” in the plural rather than a single deterministic future. Drawing on personal experiences at the Institute for the Future (Palo Alto) and a shift beginning around 2015, he explains that a single future fosters fatalism and mental colonization by single voices, whereas multiple futures better capture coexistence (e.g., synthetic vs organic food markets), diversity, and inclusion. He links the linguistic choice ("futuros" vs "futuro") to changes in mental models, cites influences like Singularity and the Institute for the Future, references the concept of "futures literacy," and notes that his organization (Aerolito) may have helped popularize the plural framing in professional events and conferences.
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Que é a página 1112. Então vamos lá.
Estudar uma única visão de futuro é tão perigoso quanto não estudar nenhuma. Ou você fica cego pela ignorância ou pela doutrinação. Quem assume uma única visão de futuro está, em suma, se deixando colonizar por outra mente. Prefira sempre futuros no plural.
Eu lembro a primeira vez que me veio a ideia de futuros no plural. Eu estava em Palo Alto, no Institute for the Future, e tive uma conversa com uma participante do programa que eu estava fazendo sobre a importância de futuros em todas as disciplinas da universidade. que essa devia ser uma cadeira, um grupo de cadeiras, em todos os cursos, porque Futuros não é uma vertical, ele é uma transversal.
E esse pensamento mexeu muito comigo.
Eu saí muito dessa ideia de futuro como um silo, que era algo inclusive que eu criticava nos outros mercados e passei a enxergar esses múltiplos futuros se desdobrando de formas diferentes em muitos lugares. Mas eu também comecei a entender que a ideia de futuros ela tinha outros efeitos colaterais na minha mente, porque o jeito que a gente articula a linguagem acaba sendo o jeito que a gente pensa, a gente muda a fala e a gente muda o pensar, a gente reestrutura o pensar. Então a escolha das palavras é muito importante para a escolha do nosso viés. E eu me dei conta de que futuro, no singular.
Ele trazia uma visão mais determinística, mais fatalística da vida. É como se tudo já tivesse pré-traçado, um roteiro pré-escrito, e eu não tivesse tanta interferência sobre o que iria acontecer. E se eu não tenho interferência, qual é o sentido do meu trabalho, da vida, dessa conversa aqui?
Futuro no singular? ele não entende o conceito de coexistência, porque quanto mais fui estudando futuros, mais fui entendendo que assim como existe todo um mercado que vai se desenvolver no futuro da alimentação sintética, também existe todo um mercado que vai se desenvolver no futuro da alimentação orgânica. Esses dois futuros, que são contraditórios e complementares.
Também têm que ser entendidos como coexistentes. E num futuro só, eu tenho que invariavelmente fazer uma escolha, o que não corresponde à realidade.
Futuro no singular, ele desidrata todo esse universo tão importante que A gente fala de diversidade, inclusão. Quando tem um único futuro, quem está decidindo esse futuro?
Aquele filme Coringa traz um trecho que mexeu muito comigo. Em determinado momento, o Joaquim Fênix está dando uma entrevista no talk show do Robert De Niro e ele diz com as suas palavras, quem decide o que é engraçado? Quem decide o que é futuro? se um pensador isoladamente decide o que é futuro, se uma pensadora decide isoladamente o que é futuro, a gente torna a conversa uma colonização das nossas mentes. É como se essa ideia fosse ao nosso cérebro, tomasse o nosso cérebro, e ela de certa forma se torna uma profecia autorrealizável, porque ao acreditar nesse guru, eu executo o futuro que esse guru me disse, e uma vez que esse futuro se torna realidade, ele vai dizer, não falei? Então, se a gente quer mais gente na conversa, precisa ser futuros no plural. E uma vez que a gente se conectou à ideia de futures literacy, que não é future literacy, é futures literacy, fez mais sentido ainda.
Eu me lembro disso ficar muito presente pra mim, assim, a partir de 2015.
E, na prática, foi também uma feliz coincidência, ou não, tudo isso ter acontecido quando eu estava no Institute for the Future. Porque a minha trajetória começou muito ligado à Singularity. Acho que não é segredo pra ninguém.
Mas muitas pessoas que fizeram uma trajetória semelhante à minha começaram e encerraram esse ciclo na Singularity. E eu entendi que a Singularity era só um dos muitos futuros possíveis, com os seus prós e contras, com os seus lados interessantes e outros com os quais eu não me identificava. Então houve uma jornada.
Em que eu visitei várias outras escolas para entender essas outras visões de futuros.
Mas parece que isso só ficou claro, esse conceito só ficou claro quando eu estive ali na minha quarta ou quinta incursão. Então vejam como a decisão de enxergar múltiplos mundos de ter múltiplas lentes sobre futuros foi exatamente o que me permitiu ter clareza sobre menos uma visão de futuro e mais de futuros no plural. E a partir daí eu comecei a inclusive investigar perspectivas de futuros onde o próprio futuro não existe. Há povos.
Vivendo na Amazônia, em que eles só conjugam os verbos no presente. E isso me fez pensar se não tinha nada para ser aprendido a partir daí.
A decisão de usar o termo futuros no plural foi uma das melhores decisões para mudar o meu modelo mental e o modelo mental da nossa organização, de maneira que a gente enxergue um cone de possibilidades e não uma linha reta em direção ao futuro. E eu digo aqui com...
Um sentimento muito positivo que eu sinto que o Aerolito pautou boa parte do mercado a começar a usar o termo futuros no plural. Há bem pouco tempo atrás eu via nos encontros em que eu sou convidado, aos congressos, às palestras, aos simpósios, muita gente usando o termo futuro, futuro, futuro.
Nas últimas edições, eu sinto muito mais gente falando futuros, futuros, futuros. Tenho certeza que a gente tem alguma influência em cima disso e me traz uma sensação muito boa imaginar que tem mais gente participando dessa conversa, porque se tem mais gente participando dessa conversa, talvez sejam futuros no plural.
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