A história do Monge Hondaku e do Dharmanet

Hondaku Shaku talks about discovering Buddhism and building Dharmanet, a project to preserve authentic Buddhist teachings online. He explains why keeping the tradition intact while sharing it digitally has been harder than expected.
Chapters
Você pode começar contando para nós como surgiu o seu interesse pelo budismo?
O meu interesse pelo budismo vem de há muito tempo. Desde que eu me conheço por gente, eu sempre fui interessado em coisas orientais, em assuntos de artes marciais e cultura. Eu costumo lembrar que eu tinha talvez uns 4, 5, 6 anos de idade. E aí eu via duas coisas interessantes na televisão. Eu adorava os filmes do Akira Kurosawa, que geralmente passava na Sessão da Tarde. Ainda tinha a Sessão da... Não sei se existe ainda a Sessão da Tarde. E tinha um programa que se chamava Japão Pop Show, que era um programa de música, de música popular japonesa, chamado Enka. e passava, acho que era de domingo de manhã, e eu lembro que eu acordava cedinho pra assistir esse negócio, ficava assistindo. Eu sempre tive essa conexão. E também sempre tive uma conexão mais espiritual, sempre gostei de coisas ocultas, do espiritual, do oculto, do místico, e eu sempre me interessei por isso. Tanto que, na adolescência, eu me enveredei pela igreja católica, fui fazer parte de um encontro de jovens católicos e tal, Mas sempre fui uma pessoa muito crítica, muito, muito crítica. E um dia eu comprei um livro. Comprei um livro do Suzuki, A Introdução ao Zen Budismo. Acho que eu tinha uns 14 anos, 15 anos. E aí não parei mais. Entendi muito pouco do livro. Eu até brinco. Eu preciso reler esse livro pra ver se eu entendo alguma coisa dele ainda. Mas naquela época eu não entendi muita coisa. Mas a única coisa que eu entendi foi que ele falava sobre o karma. E ele falava que tudo depende de nós, tudo tem uma causa e um efeito, e não existe um Deus, não existe nada, um demiurgo que influencie nossas vidas. E isso me tocou bastante, e eu resolvi explorar mais. E aí não parei. Não parei por volta... Mas não fazia ideia de onde achar um tempo, nada disso, então eu ficava comprando livros. E aí, já com uns 20 e poucos anos, eu terminei... Do lado de casa tinha o Gompa, do Chagdut, que está aí atrás de você, tem uma foto do grande Chagdud. E eu comecei a frequentar o budismo tibetano. Fiquei lá durante muito tempo, lá eu conheci o Elton, que estava com um projeto, a internet no Brasil estava caminhando, engatinhando, e a gente criou o Dharmanet, que era um portal de budismo que eu e o Elton, a gente ficava comprando livro e ficava digitando livro nas nossas horas vagas para colocar no site. E aí foi por aí. E aí eu tomei refúgio no budismo tibetano. Depois eu terminei, eu conheci o pessoal do Zulai, eu conheci a reverenda Sinceridade do Zulai, que era uma tradição terra pura chinesa, e eu me encantei com ela e terminei indo ajudar e dar a um auxílio para ela, dando aula de budismo para ela lá, porque ela não falava português. Ela dava aula só de meditação e eu comecei a dar aula de budismo teórico para ela. Recebi um título de professor de dharma lá do Zulay e aí depois eu terminei enveredando para o budismo Shin, que é o terra pura japonês, e aí me ordenei há oito anos já. Oi Nandu-san, Nandu-san passando aqui, só dando um oi aqui. Oi, bom te ver aqui na live também. Então foi isso, foi uma coisa de começar por livros e depois ir para a prática mesmo, ao vivo. E aí, sei lá, as causas e condições me levaram até a ordenação.
A senhora falou do Dharma.net. Eu fiquei super impressionado, não sabia que você era um dos responsáveis. Foi o meu primeiro contato com o budismo. Num dado dia, bateu alguma coisa em mim. Nossa, eu quero saber mais sobre o budismo. E foi o primeiro site que eu achei. Aí eu comecei a olhar o site. Primeira vez que eu olhei, na verdade, que eu lia a história do Buda, um príncipe. Aí, que bobagem. Fechei o portal e desisti. Mas uns 15, 20 dias depois eu voltei. Então, no começo, foi a primeira fonte de busca, de leitura. Eu lembro que tinha bastante ativismo do Lama Santay também lá.
A gente começou com muita coisa tibetana, porque eu e o Elton éramos do budismo tibetano na época. Mas aí também esse negócio de internet começou a juntar muitos dos monges hoje, que estão aqui, dessa geração, começaram a ir com a gente. Então você pega o Gensho-sensei. Além do Darmanete, o Ricardo Sasaki, que era do Nalanda, lá em Belo Horizonte, ele tinha as listas, umas listas de budismo, lista de e-mail. Talvez as pessoas nem saibam o que é lista de e-mail, mas a gente tinha a lista de e-mails, e a gente começou a se conhecer ali. Então era uma lista que chamava Budismo L, E ali você tinha o pessoal Teravada, que era o Ricardo, aí entrou o Petrúcio, o Gensho-sensei, que pra mim é Petrúcio, Petrúcio Zan, entrou lá, ele tava enveredando pelo Zen ainda, ainda tava lá sob os ofícios do mestre Tokuda, aí entrou o Wagner Bronzeri lá do Shin, entrou o Ricardo Mário Gonçalves, que foi o primeiro monge brasileiro a ser ordenado, E aí todo esse grupo, entrou o Tartim, Tartim lá do Karma Kadyupa, e a gente acompanhou, na verdade na época ele era o Orlando ainda, a gente acompanhou a ordenação dele, então essa geração de monges que está aqui hoje consolidada, começou nessa época, nessa época ali, cara, eu tô falando do que? 2000, 1998, 1999, nessas listas, e aí eles começaram a contribuir com o Darmanet, então a gente começou a abrir o Darmanet com Theravada, Budismo Tibetano, Budismo Xin, Budismo Zen, e cada um desses contribuindo com informações. Mas era basicamente eu e o Elton ali carregando. O darmanet.com.br está no meu nome, inclusive, esse domínio.
E por que ele terminou?
Ele terminou porque é o seguinte, nós tínhamos, e temos até hoje, uma defesa do Dharma correto. Então, para nós, nós não admitíamos de maneira nenhuma difusão de monges falsos e nem de seitas travestidas de budismo. Então, a gente procurava, como a gente sabia que era praticamente a única fonte segura de budismo, a gente não deixava entrar ali, a gente não divulgava nada que fosse de qualquer escola espúria ou de monges espúrios ou de pessoas auto-ordenadas. Você imagina que hoje já tem um monte disso aqui, ordens espúrias, ordens inteiras espúrias, escolas inventadas do nada, naquela época já tinha. Então já tinha gente aí que se vestia de monge, dizia que era monge, dava o nome de lama e não tinha formação nenhuma, Você tem aí algumas instituições que se dizem budistas, mas não estão listadas como empresas, não são reconhecidas como budistas. Ah, mas nós temos aqui milhões de adeptos. Tá, tudo bem, mas vocês não são budistas. Vocês não reconhecem, vocês não têm os princípios, tudo isso. Você não está reconhecido no Japão, por exemplo, como uma ordem budista. E a gente bloqueava, a gente era muito chato com isso. A gente bloqueava porque a gente não queria que as pessoas acessassem o errado, só o Dharma correto. Só que a gente começou a receber ameaças, por incrível que pareça. A gente começou a receber ameaças desses grupos. E teve um grupo tibetano que nos ameaçou, ameaçou de processo, ameaçou de várias coisas, um grupo espúrio. Infelizmente, essa pessoa faleceu no ano passado, no começo desse ano, e continuou espúrio a vida toda. E aí um dia o Elton, que era o meu sócio, os pais já eram de idade, já tinham idade, e um dia o advogado dessa Esse grupo escuro ligou na casa do Elton e falou com os pais dele, dizendo que ia processá-los, ia processar o Elton, que o Elton ia ser preso, que ia ter que pagar indenização, um monte de coisa. E os pais ficaram muito mal, ficaram mal de saúde, o negócio complicou muito. E aí nós achamos por bem, então, parar. porque não era o objetivo do site, não era gerar sofrimento, era acabar com o sofrimento. Então a partir da hora que o site estava gerando sofrimento para pessoas que não tinham nada a ver com ele, que não era nem eu, nem ele, a gente achou então que era melhor parar porque não estava mais cumprindo o objetivo. E justamente na mão de pessoas espúrias, pessoas que se apropriam do Dharma para proveito próprio e infelizmente foi isso que aconteceu.
Nossa, não imaginava isso, eu só vi que o site saiu do ar Mas fica o meu agradecimento, porque de coração foi a minha primeira fonte de consulta, foi o meu primeiro contato com o Dharma. E talvez eu não tivesse seguido o caminho se não fosse pelo site. E imagino que muitas outras pessoas que não tem nem essa oportunidade de poder sentar e agradecer.
Temos projetos para um dia ele renascer. Então temos projetos para isso. Se você olhar aí no Instagram, tem um Darmanet escondidinho aí que você pode seguir, tem um site ali, tem um blogzinho aberto ali só pra ver. A gente tá trabalhando nos bastidores aqui, porque a gente tem todo aquele conteúdo ainda, aquele conteúdo tá aqui nos nossos computadores, então dá pra gente, quem sabe uma hora dessa aí ele aparece de novo aí, renascido.





