O que você NÃO SABE sobre o Budismo - com Monge Hondaku

Monge Hondaku, who studied Zen from age 15 and ordained in the Pure Land school, explains what Buddhism actually is: non-theistic, built on four seals including dukkha and anatta, and nothing like the Hindu atman concept. He clears up why Putai isn't Buddha and how the religion spread via the Silk Road.
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Bem-vindos ao Fiapo de Manga. Hoje vamos falar sobre Budismo, uma religião fascinante que nos ensina sobre paciência, sabedoria e impermanência. E, ironicamente, todo dia é uma oportunidade para aprender sobre paciência, não é mesmo? O que aconteceu é que eu perdi o arquivo anterior da gravação e eu tinha trazido aqui um convidado para falar sobre o assunto. Mas não se preocupem, porque estamos aqui novamente e comigo está ele, o Monge Rondaco, que gentilmente concordou em repetir a entrevista. Boa tarde, Monge.
Olá, Salu, boa tarde a você, boa tarde aos ouvintes do Fiapos de Manga. É um prazer estar aqui de novo, embora eu conclua a primeira entrevista, mas já valeu a pena pra gente ensaiar pra essa daqui, os assuntos que a gente vai fazer aqui hoje. É um prazer falar com vocês, estou à disposição de vocês.
Aqui é boa tarde, aí também é boa tarde ou já é boa noite?
Aqui já são... já estamos na transição. Aqui na Espanha são seis da tarde e ainda é considerado tarde. Até sete da noite a gente ainda fala boa tarde. Depois das sete da noite é que a gente começa a dar boa noite. Então é uma coisa engraçada. Então muita gente fala assim, a gente se vê hoje à tarde. Aí você tá esperando que alguém vai marcar as duas da tarde. Tá, então às sete. Às dezenove horas. Você fala assim, mas 19 não é tarde.
Mas começando aqui, eu vou apresentar uma pequena biografia bem resumida do monge. Ele é o monge Rondaku, que tem 54 anos, e é um monge budista com uma extensa jornada dentro do estudo e da prática dessa tradição espiritual. Ele estuda filosofia budista desde os 15 anos, quando ele começou a se interessar pelo Zen Budismo, e ele foi ordenado monge em 2013. Ele ajudou também a construir o portal budista Dharmanet, ele foi professor também de budismo no templo Zolai da escola Chan. Também fez artigos para a revista Tricycle, que é uma revista de Nova York. E o monge Rondaku é do Yogacara, que é uma filosofia da tradição budista que se dedica ao estudo da consciência, percepção e cognição através de práticas meditativas. Bom, não dá para resumir em poucas linhas o que é um monge em 40 anos, mas é uma história de muito tempo.
É, comecei faz tempo, na época... É que a gente não tinha nem internet, a gente tinha que se basear em livros e poucos livros disponíveis aqui no Brasil, aí no Brasil, não tinha muita coisa disponível. Então a gente, até templos não tinha muita coisa disponível. Tanto que atualmente, você mencionou que eu me ordenei há 13 anos, o que é verdade, mas eu me ordenei pela Escola da Terra Pura, mas eu me desliguei no início desse ano da Escola da Terra Pura, e atualmente a minha condição é de postulante a monge na comunidade da ICEM. Então eu vou renovar meus votos em breve. Eu estou como postulante a monge na Comunidade Daisen, que é, não erro em dizer que é a maior comunidade budista hoje no Brasil, onde nós temos vários centros de meditação e também vários monges. Estou muito feliz de estar fazendo parte desse grupo agora.
É aqui ou aí na Espanha? a comunidade da ICEN.
Então, a nossa sede é no Brasil, em Florianópolis, no da ICENDI, mas agora eu estou aqui na Espanha coordenando as atividades na Europa. Então, nós temos praticantes aqui em Portugal, aqui na Espanha, na Alemanha, na França, na Dinamarca. Então, nós estamos congregando esses praticantes agora por aqui.
Monge, hondaku significa compromisso verdadeiro, que é dado o nome a um monge, né, unicamente. Você teve esse nome já desde quando você foi ordenado monge ou foi durante o seu processo até lá?
Na verdade, todo mundo que oficialmente se torna budista recebe um nome budista, como se entrasse para a nossa irmandade, como se todos nos tornássemos irmãos. Então nós recebemos um nome quando entramos para esta nova família. Então esse meu nome já era um nome leigo que eu recebi a mesma tradução, mas com uma pronúncia diferente no Zulai, que era Banjó, que quer dizer a mesma coisa, compromisso verdadeiro, e quando eu fui para o terra pura eu pedi para manter o nome só convertendo ele em japonês. Mas algumas tradições você você vai adicionando nomes conforme você vai caminhando, né? Então, às vezes, você tem, por exemplo, tem uma escola Jodoshu, por exemplo, você pode ter dezenas de nomes, porque conforme você vai caminhando, vai recebendo algum reconhecimento, se adiciona um nome seu. Mas, geralmente, a gente é conhecido por um ou dois nomes que a gente recebe quando é leigo e depois alguma adição que recebe quando se torna monge. Na escola na qual eu me ordenei isso não é comum, então você mantém o nome, mas no ZEN é comum você ter a adição de um segundo nome quando você é ordenado monge.
Quando a gente ainda fala sobre leigo, vamos falar sobre outros nomes de monges e de budistas que, normalmente, as pessoas acham já que é o nome próprio da pessoa. Por exemplo, Dalai Lama. Não é Daila Lama. Dalai Lama.
Não, Dalai Lama é um título, né? Dalai Lama é um título. O nome dele tem zingyatsu, mas é um título que é dado ao líder das escolas tibetanas, né? Então, não é o nome da pessoa também.
Monge, você pode explicar a diferença de Siddhartha Gautama para Shakyamuni Buda?
Bom, é a mesma pessoa, mas aí nós estamos falando entre a diferença de um nome e de um epíteto que ele recebe, né? Então, Siddhartha Gautama é o nome de batismo, assim, vamos dizer. Não tinha batismo naquela época, mas é o nome de registro do príncipe, filho do rei Sudodana e da rainha Maya, que um dia se ilumina, e aí ele passa a ser chamado de Shakyamuni. Shakyamuni quer dizer sábio, Shakya era o nome da tribo, do país aonde ele nasceu, então ele era referido pelas outras pessoas como o sábio do Shakyas. Porque ele mesmo, a partir da hora que ele se ilumina, ele para de se identificar com qualquer nome. E ele passa sempre a se referir a si próprio, na terceira pessoa, e ele usava a palavra Tathagata. Tatágata é mais ou menos, é uma tradução difícil, mas é mais ou menos, diz mais ou menos aquele que é. Ele deixou de usar o pronome eu e sempre se referia a si próprio na terceira pessoa, como se falasse de alguém nominado Tathagata. O Buda teve vários epítetos. Ele era chamado como o grande leão do Dharma, o grande sábio, o sábio dos shakyas. Você vê nas escrituras ele sendo aclamado de maneiras diferentes.
E o que define uma religião? Porque, para a surpresa de algumas pessoas, o budismo é uma religião não-teísta.
Bom, isso é verdade. Para você ter uma religião, você não é obrigado a ter um demiurgo, um ser criador e regulador das atividades humanas. Essa definição, essa necessidade de um criador, essa necessidade de uma entidade supramundana é um conceito mais aristotélico de religião, mas ele não é abrangente. Hoje em dia não é mais um conceito aceito. Um dos conceitos mais aceitos é o de Macróbio, por exemplo, que foi um filósofo também, no início do primeiro milênio, e ele designava que a palavra religião não vem de religare, não é uma questão de religação entre o mundano, o profano e o divino. Na verdade, etimologicamente, você não sai de religare e chega em religião, mas você sai de religio, de relógio, para chegar em religião. Ou seja, aquilo que é uma tradição, aquilo que é praticado constantemente. Praticado de forma religiosamente. Isso vem mais do ponto de vista de religios do que de religare. Religare é uma forçada desnecessária. Mas o budismo é uma religião sim, porque ele é uma filosofia na prática e ele tem um sistema filosófico por trás. Aliás, ele tem praticamente três ou quatro sistemas filosóficos por trás. Um deles você menciona quando me apresenta, que é o Yogacara, objeto do meu estudo nos últimos anos. Mas você tem o Madhyamika, você tem o Abhidharma, o Avatamsaka, que são variações filosóficas que você tem. Então as escolas budistas são escolas religiosas com embasamento filosófico. O que nós temos, infelizmente, é um conhecimento raso da população em geral, que fica achando que filosofia é fazer o bem. Ah, não, para mim o budismo é mais uma filosofia de fazer o bem. Qual é a religião que não prega fazer o bem? Todas as religiões pregam fazer o bem. E fazer o bem não é uma filosofia de vida. fazer o bem é uma ação, é uma prática. E ela está presente em todas as religiões do mundo. Então não dá para você associar o budismo exclusivamente a uma filosofia, porque existem vários sistemas filosóficos dentro do budismo. E outra, ele tem práticas, rituais, objetos de adoração, e tudo isso são itens que caracterizam uma religião.
E como que é, monge, contar para as pessoas que a religião budista é uma religião de ateus? Imagina que ele teve muita surpresa, né? É engraçado, né?
Porque todo mundo acha o Dalai Lama fofinho, né? Todo mundo acha o Dalai Lama fofinho, aí eu brinco assim, ó, sabia que ele é ateu, ele não acredita em Deus.
Imagina o choque, né? Porque o ateu tem um estereótipo do ateu, né?
É, sabe, Salu, o pior é que não é você dizer para as pessoas que não existe a figura de Deus no budismo. O pior é as pessoas tentarem enfiar a figura de Deus no budismo e não tem como encaixar. E eu vou te dar uma explicação muito simples para isso. O que define uma pessoa ser budista? São o que a gente chama dos quatro selos do Dharma. O primeiro selo do Dharma é de que o sofrimento existe e o sofrimento deve ser extinto. Dukkha. Ou seja, o sofrimento existe ou o desequilíbrio na vida existe. Esse é o primeiro selo do Dharma. O segundo selo do Dharma é Shunyata, de que todos os fenômenos são vazios, todos os fenômenos são interligados, interdependentes, nada nasce do acaso. Então sempre há uma origem, sempre há uma originação dependente, sempre há uma causa e várias condições. O terceiro selo do Dharma é Anatta, que é justamente a ausência de uma alma, a ausência de uma identidade própria das pessoas. Ou seja, nós não somos... Nós somos um agregado de coisas que nos tornam quem nós somos. Mas assim que esses agregados se dissolvem, você não é mais você, você não tem mais, não existe nada dentro de você tatuado o seu nome, dizendo que você é essa pessoa e você vai continuar sendo essa pessoa. Para entender melhor isso, a gente teria que entrar lá no sistema filosófico védico, pré-budismo, mais um dia a gente fala sobre isso. E a quarto selo do Dharma é o Nirvana. E o Nirvana é quando você tem a ausência de sofrimento e encontra a paz duradoura. Então quando você olha esses quatro selos do Dharma e tenta encaixar uma figura demiúrgica nele, não encaixa. Porque a primeira coisa que você vai falar é o seguinte, você vai analisar o segundo selo, que é a Shunyata, de que tudo tem uma origem. Qual é a origem de Deus? Qual é a origem dessa pessoa? Quem criou ela? O que criou? Quais foram as causas e condições que criaram? E aí quem acredita em Deus não permite essas questões, porque Deus é nipotente, onisciente, e aí por diante. Então, se ele não é absoluto, ele não tem espaço dentro do budismo. É muito simples. Agora, tentar martelar, tentar marretar esse conceito em cima do budismo é um erro. é um eu doutrinário e filosófico. Não tem, não tem, simplesmente não tem. O budismo é uma religião individual, ela não é individualista, mas é uma religião individual, onde depende da sua própria prática e não depende de nenhum ser externo pra te ajudar.
Bom, por mais que seja meio óbvia a pergunta e também a resposta, né, porque a gente já ouviu ela, mas é importante pra gente entender também uma outra relação, que é o budismo com o hinduísmo. Algumas pessoas ainda fazem uma analogia, uma falsa relação, né, dos deuses hindus com o budismo. Provavelmente, né, porque ela veio da Índia, mas você pode explicar sobre a origem do budismo e como ele chegou em outros países como Japão, a China e a Coreia?
Com prazer, com prazer. Essa é uma confusão muito comum e eu já vou te explicar porquê. Primeiro que a tríade védica, a tríade bramânica, que é Brahma, Vishnu e Shiva, não tem lugar no budismo, não são representados no budismo, e a gente não fala sobre eles, e o Buda era extremamente crítico a essa tríade. Ganesha tampouco tem lugar no budismo, o que você tem é algum sincretismo em alguns templos, que termina tendo uma mistura entre o vedanta e o budismo, mas as filosofias não se encaixam por esse selo do dharma. Quando eu falo nesses quatro selos do dharma e você tenta pegar o vedanta e encaixar dentro desses quatro selos do dharma, ele também não encaixa, por quê? A base do budismo é o anatman. A base do Vedanta é o atman. É o extremo oposto do budismo. É o extremo oposto. Não encaixa. E o Buda sempre foi muito crítico a essa ideia de atman do Vedanta. Então assim, pra começar aí já não encaixa. Então não adianta querer marretar o budismo dentro do hinduísmo. uma justificativa que erroneamente se usa. Ah, mas é que o Buda teve três mestres hindus, hindus não, né? Védicos, né? Três brâmanes originários quando ele foi pra floresta. Então, o que ele desenvolveu, ele desenvolveu a partir do conceito do Vedanta. Não foi isso. Sim, ele teve contato com o Vedanta porque ele nasceu dentro de uma organização védica, dentro de uma sociedade védica e aquilo inundou a vida dele. Sim, ele foi ter com esses mestres nas florestas e ele rompeu com tudo isso. Ele rompeu. Chegou um dia que ele falou, nada disso aqui me interessa mais, nada disso aqui faz sentido pra mim. E ele desenvolveu uma coisa completamente oposta ao Vedanta. Começando com a ideia de anatma, de que não há uma alma e que não há uma alma que se dissolve no Brahma. E o nirvana é um conceito completamente diferente do conceito védico de nirvana. O conceito de karma também é distinto. O conceito de karma budista não tem nada a ver com o conceito de karma do vedântico ou rita védico. Então, como eu falo, o conhecimento é raso. Então, quando a gente quer afirmar alguma coisa, a gente precisa descer um pouco mais no conhecimento, estudar as origens védicas. e entender como é que essas coisas se transformaram. Mas você não tem essa conexão direta. Ah, mas ele veio da Índia. Tá, tá bom, veio da Índia. Aí depois, com a morte do Buda, ele dá uma ordem no seu leito de morte para que os monges se dissipassem. Que os monges próximos a ele se dissipassem e levassem o Dharma aonde puderem. Então você tem ali o Dharma chegando. no Sudeste Asiático, Sri Lanka, Tailândia, Birmânia. A Rota da Seda ajuda muito essa disseminação, então a Rota da Seda, principalmente passando ali por Gandhara, que ficava... fica, porque ainda essa região existe, fica ali a noroeste de onde o Buda nasceu, a noroeste de Lumbini, fica a região de Gandhara, no Afeganistão. Ali você tem uma convergência da Rota da Seda muito forte, trocas de informação entre os europeus e os asiáticos. Então ali nascem as primeiras oficinas de tradução, bancadas pelo governo chinês, e o Afeganistão vira uma grande polo budista e as principais traduções do sânscrito para o chinês ocorrem ali. E aí o budismo sobe para a China, e depois da China, a Coreia, da Coreia para o Japão. E naturalmente da China para o Tibete também, mas na verdade levado por Padmasambhava, que era indiano, ele leva para o Tibete o budismo, e depois o budismo chega no Japão através da Coreia. um imperador coreano leva os primeiros textos budistas para o Japão e dá de presente para o imperador, e ali nasce o interesse dele sobre isso. E aí você tem, então, do Japão, da China, do Tibete e do Sudeste Asiático, uma migração para dentro do Ocidente, através da Europa. É dito que o primeiro O primeiro monge ocidental que se tem registro foi um alemão no final do século XIX, e chega ao Brasil com as comunidades japonesas, tendo o professor, o monge professor, doutor Ricardo Mário Gonçalves como o primeiro brasileiro a se ordenar monge na história do Brasil. E agora você tem uma tendência de retorno às origens, porque no Brasil hoje você tem uma prática budista muito mais assídua do que você tem nos países orientais, infelizmente.
Uma outra confusão que é muito recorrente também é sobre a representação de Buda em imagens, né? Inclusive, muita gente acha que o monge Putai é um Buda. Mas, provavelmente, eles estão levando em consideração que é o Buda, Buda Shakyamuni, com esse monge Putai.
Isso é mais um exemplo, Salu, é mais um exemplo do que a gente vê a crendice popular sobrepujando a história. Então o Putay, o famoso Buda gordinho, que toda avó tem em casa, em cima de um pote de arroz com moeda virada. Ele não é Buda, ele é uma representação de um monge que existiu, que tinha aquelas características físicas. Mas no budismo chinês, ele é usado como representação de Miroko, ou Maitreya, que seria o próximo Buda. Então, quando você vê essa representação dentro de um templo, ele está representando o próximo Buda. Mas acho que vale a pena a gente colocar aqui que não adianta você pôr ele em cima do arroz com moedinhas embaixo para te trazer dinheiro, porque isso além de ofensivo para o budista, isso não vai te levar a lugar nenhum, porque só tem duas maneiras de você conseguir dinheiro. Três, achando, trabalhando ou recebendo uma herança. Então alguém fala, mas roubando traz sofrimento, então isso aí a gente descarta porque você pode perder. Então a única maneira que a gente tem de ganhar dinheiro é achar, trabalhar ou ganhar uma herança. Então não faz isso, não coloca os budas dessa forma não, porque é falta de respeito.
Mas ainda sobre o budismo ser não teísta, muita gente também relaciona o Buda como um deus no budismo.
Sim, se relaciona. E vou te dizer que até no Japão isso acontece. Principalmente nas escolas um pouco mais esotéricas, ou mesmo nas escolas terra pura, de onde eu vim, você tinha uma relação sobrenatural com o Buda. Então, assim, você ainda vê... Muita gente antiga, muita gente idosa pedindo coisas ao Buda ou suplicando coisas ao Buda. Então você tem mesmo, até mesmo dentro do budismo mais tradicional, como você tem um sincretismo muito forte, essa ideia. Mas não, o Buda foi um ser humano. O Buda foi um ser humano igual a nós. Ele é um grande exemplo pra nós, né? Mas ele não é um deus. Ele não criou nada, ele não destruiu nada. Pode pedir o que você quiser pra ele e ele vai fazer. Então assim, ele não regula a sua vida, ele não regula a vida de ninguém, ele não fica bravo, não fica feliz, você não precisa rezar pra ele pra nada, você não precisa deixar ele tranquilo. Então assim, ele é um ser humano, ele é um grande exemplo que tá ali, que surgiu, que renasceu aqui pra nos trazer o Dharma e pronto. E é curioso, o Salô, que o budismo não depende da figura do Buda. não é como o cristianismo, como o islamismo, que você depende da figura do profeta, ou você depende da figura de Jesus, ou você depende da figura de Maomé. A tua fé está baseada naqueles personagens. No budismo, não. Se você não tivesse o Buda, mas tivesse alguma maneira de entender o Dharma sem a figura do Buda, o Dharma é muito mais importante. Então, a sabedoria, o conhecimento, Ele é muito mais importante do que a figura do Buda. Mesmo porque existiram vários outros Budas, e vão existir outros tantos, né? E a função dos Budas é nos trazer o Dharma. Então o Dharma é importante. O Buda não é importante. Tanto que tem uma tem uma frase muito célebre de um monge Zen, que é mal interpretada, que ele fala para um aluno, se você encontrar o Buda macho, né? Embora pareça um negócio violento levado ao pé da letra, ele simplesmente está dizendo exatamente numa frase o que eu acabei de dizer. O Buda, ele é importante como um exemplo, mas o mais importante ainda é a prática, é o Dharma.
Aqui em São Paulo, a gente tem alguns templos que são considerados sempre budistas, né? Que é o templo Zulai ou de Saoling, que fica em Cotia. E temos também templos como o Kuan Yin, o Enkoji e o templo de Sanling. E muita gente confunde achando que todos esses templos são budistas e sempre da mesma escola, né?
Eu particularmente conheço todos, menos o Kuan Yin. O Kuan Yin, na verdade, é um templo taoísta, não é um templo budista. Mas eu conheci a minha trajetória budista praticante no Tsaoling, Tenho ótimas lembranças dessa época. Fui aluno em Lama Tsering. Tive a oportunidade de ouvir o grande Chagdud Rinpoche ao vivo várias vezes. Isso me deu uma base budista muito forte. Tenho uma conexão muito forte com o Aundi Sauling. Uma época que a gente se reunia lá na Vila Olímpia, não tinha nem o Templo de Cotia, a gente estava recebendo a doação ainda do Templo de Cotia. Depois, por causa do Darmanet, eu terminei conhecendo a Reverenda Sinceridade lá do Templo Zulay, e ela me convida para dar aula de budismo teórico lá no Zulay em português. Eu estive frequentando durante muito tempo lá, e depois eu fui para o Terra Pura, e agora estou no Zen. Mas são escolas diferentes. E por que existem escolas diferentes? Acho que essa é a grande pergunta. Olha, todas essas escolas, todos esses tempos, têm um único objetivo com seus praticantes, levar os seus praticantes à libertação. a iluminação, a libertação, escolha a palavra que você quiser. Se o budismo tem um objetivo, o objetivo é um só, é a iluminação do praticante, ponto. O resto que vem é corolário, são efeitos secundários. Todas as escolas budistas querem te levar para a iluminação. O método é que difere. O Buda deixou simbolicamente falando, 84 mil discursos, onde ele apresentava o Dharma de maneiras diferentes, com práticas diferentes, de acordo com o interlocutor dele. Então, as práticas budistas são diversas, e cada um acha a sua. E cada uma dessas escolas está embasada numa prática diferente. Essa é a grande diferença. Então, na escola Zen, nós temos Shikantaza, que é a meditação sentada. No budismo terra pura, a gente tem a recitação do nome do Buda. No budismo Nichiren, você tem a recitação do Daimoku. E aí por diante. Uma é melhor que a outra? Não. Na verdade, não. Nenhuma é melhor que a outra. Nenhuma é mais original que a outra. Nenhuma é mais importante que a outra. O que existe são métodos diferentes para pessoas diferentes. O ser humano vê a realidade de maneiras distintas. Ele percebe a realidade de maneiras distintas. E o Buda sabia disso. Nós somos seres duais. E ele nos deixou à disposição vários métodos que estão traduzidos em escolas budistas. Para que a gente possa atingir a nossa iluminação.
Monge, sobre essa meditação sentada que você mencionou, ela é a mesma para todas? É porque eu acho que ela tem um nome, chama Seiza, é isso?
Não, na verdade Seiza é o nome da posição. Posição de Seiza. A posição de Seiza é quando você fica ajoelhado. Essa é a posição de Seiza. Na verdade, o nome que se usa genericamente é Zazen. Mas na escola Soto Zenshu, na ordem Soto Zenshu, fundada por Dogen Zenji, ele propõe uma maneira, um método chamado Shikantaza. Você tem vários métodos, até você chegar no Shikantaza. Shikantaza quer dizer apenas sentar. Então é uma maneira de você meditar. Você tem, por exemplo, o Anapanasati, que é uma outra técnica onde você conta a sua respiração. Você tem a técnica do bambu, você tem a chamata. Então você tem várias técnicas meditativas que estão descritas num sutra. Satipatana, e ali é mais ou menos um manual de meditação. Só que Dogen traz da China esse método que ele chama de Shikantaza. Então você não precisa contar a respiração, você não precisa visualizar, prender a sua respiração, que é o método do bambu, você não precisa visualizar nada, você simplesmente senta e veja os seus, contemple os seus pensamentos passando sem se apegar aos seus pensamentos.
Tem uma convergência interessante, monges, do budismo com o estoicismo, e a terapia cognitivo comportamental na psicologia, né, que é a relação do controle do presente, pra evitar o sofrimento, principalmente quando ela fala mais sobre outro, né, e a gestão das emoções. A semelhança entre essas abordagens tem realmente uma abordagem proposital ou ela é só de princípios semelhantes mesmo?
É muito curioso você ter trazido isso, porque o estoicismo, e eu tenho discutido muito isso com um aluno que é professor de filosofia, É muito similar, é muito parecido. Principalmente o sistema Yogacara. Quando a gente olha para o Yogacara e vê o estoicismo e alguns textos estoicos, fica difícil você dizer que eles não tiveram algum contato com o budismo. Claro, não tenho nada que corrobore a minha frase aqui, é um sentimento. Eu não estou chegando a essa conclusão baseada em absolutamente nenhum texto, em nada acadêmico. Mas eu tenho textos aqui de Marco Aurélio, por exemplo, de que eu juro, você jura que é escrito por um mestre budista. Não tem como desvincular uma coisa da outra. Então, é muito legal. Eu acho que ambas as visões, por exemplo, tanto o budismo como o estoicismo, você tem uma ênfase muito grande na prática e na ética. Então o budismo tem uma ênfase na conduta ética, na meditação, na sabedoria, mas também o estoicismo tem uma prática forte, ele estimula a prática das virtudes, da justiça, da moderação, da sabedoria também. Então aí você já vê uma ponte grande. Outra coisa que é interessante, de ponte entre os dois, é como é vista a realidade. No budismo, você tem uma visão sobre o sofrimento, sobre a falta de dukkha, sobre a falta de equilíbrio na vida, e os estoicos também veem dessa forma, dizendo que tudo que é alheio a eles, alheio às pessoas, está totalmente fora do nosso controle, que a gente só pode controlar o que está dentro de nós. O desapego também é uma coisa que os estoicos terminam promovendo também, porque os estoicos tinham ali um desapego aos bens materiais e a todas circunstâncias externas. E também a interdependência, tanto os budistas como os estoicos sempre viram que tudo está interligado. Então os estoicos falavam de uma interconexão cósmica, usavam até um termo chamado simpatia universal, alguma coisa assim, que está muito relacionado com a interdependência no budismo. Então é muito interessante. Agora, TCC, eu não posso te dar muito detalhe, porque realmente foge da minha área de conhecimento. Eu não saberia te dizer aqui, mas o pouco que eu sei, eu sei da conexão que você tem do TCC com o Mindfulness, com a ideia de Mindfulness. que é nada mais nada menos que o sati, que no sânscrito chama-se de sati, no japonês chama-se de nen, que é atenção plena, que também está permeado, o budismo fala que todas as práticas meditativas estão baseadas na atenção plena.
Monge, sobre a morte do Buda, após a morte do Shakyamuni, teve um representante dele no budismo?
Olha, diferente do que aconteceu no catolicismo, onde Pedro é indicado como o sucessor de Jesus para construir a igreja, você não tem isso diretamente no budismo. Depois da morte do Buda, você tinha 500 monges próximos a ele que que o seguiam, que terminam criando, um ano depois da morte dele, o primeiro concílio budista para organizar os ensinamentos que foram dados por ele. Mas você não tem ali, não se elege um líder dentre eles. Então, assim, ele não teve um sucessor, justamente porque ele dá aquele comando para que os monges se dispersassem, que fossem levar o Dharma para outros lugares. Então, você não tem um descendente assim... Primeiro que você não tem um descendente hereditário, que continuou que o filho dele era um monge, o Rahula era um monge, mas não assume nenhuma posição após a morte dele. E aí os monges terminam aceitando e cada um vai peregrinar.
E um fato curioso é que o próprio Buda morreu de intoxicação alimentar, né?
Eu falo que ele morreu de diarreia, não tem nada mais humano. A gente estava discutindo se ele era um deus ou não, né? A gente não consegue imaginar um deus morrer de diarreia, né? Parece um negócio muito mundano, né? Então eu acho que essa é a maior prova da situação mundana e humana do Buda, ele morrer de congestão. intestinal e sofrendo dores incríveis. Tem um estudo interessante de um monge que é médico, eu não me lembro se ele é do Sri Lanka ou da Tailândia, mas eu tenho essa reportagem comigo aqui em algum lugar, e ele faz uma análise dos sutras, do Mahaparinirvana Sutra, onde descreve as dores e a situação física do Buda, e ele chega à conclusão de diagnóstico que ele teve uma gastroenterite muito forte. Então ele realmente morreu com dores muito fortes.
Monge, agora é um assunto que vai, talvez, ser difícil pra você. Mas a gente vai falar um pouco sobre karma. Ele tá conectado, né, sobre uma coisa muito presente no budismo, que é sobre reencarnação. Tudo que a gente vive hoje é resultado de escolhas, né, que a gente fez em outras vidas, ou até do que a gente faz agora. E por mais que a gente não tenha consciência delas, né. Você pode explicar pra gente, de maneira resumida, o que que é, assim, o karma?
Olha, a resumida vai ser dura pra dar uma boa explicação sobre karma, porque só pra você imaginar, o curso que eu dou no DAISEN sobre isso, sobre karma, ele tem quatro meses de aula toda semana, porque eu faço questão de explicar o karma do ponto de vista do Yogachara, porque é importante a gente entender como é que ele se materializa, como é que ele é criado, porque ele é muito simplificado, né? Então as pessoas simplificam demais o conceito de karma, e o conceito de karma é extremamente.





