Budismo e Essencialismo com Monge Mauricio Hondaku

Portuguese interview with Monge Maurício Hondaku (Maurício Rondá) exploring how he combines a secular professional life (technology executive/CEO) with Buddhist monastic commitments. He has practiced Buddhism for 35 years and been a monk for 8 years, belongs to the Otani (Pure Land) order, and describes two administrative types of monks (full-time temple missionaries vs. secular-life monks). The conversation critiques shallow, commercialized appropriations of Buddhist practices (e.g., meditation as a quick wellness fix) and distinguishes genuine long-term transformative practice from immediateist trends.
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Olá, seja bem-vinda, bem-vindo ao canal Angeline. Hoje vamos falar sobre o Budismo e o Essencialismo. Quem conversa conosco é o monge Maurício Rondá. Ele é monge há 8 anos, mas pratica o Budismo há 35 anos. Você vai ver que ele é um monge diferente dos que você já conheceu. E antes de começar a nossa conversa, eu te faço aqui o convite de sempre. Se você ainda não se inscreveu, se inscreva aqui no canal Angeline, deixe seu like, compartilhe o vídeo e também nos ouça pelo Spotify. Colabore para disseminar cada vez mais a cultura do encontro e a cultura da paz. Monge Maurício Rondaco. É um prazer recebê-lo aqui no canal Angeline, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Eu que agradeço, Cris, é um prazer estar aqui com você, é um canal que eu já acompanho, com um material muito bom pra quem gosta de espiritualidade, pra quem quer se aprofundar e ouvir um pouco, né? Dessas pessoas que transmitem esses ensinamentos aí pelo nosso país. Parabéns pelo trabalho e um prazer estar aqui.
Obrigada. Monge, vamos começar da seguinte forma. O senhor é uma pessoa que há 35 anos segue um ramo do budismo, há 8 anos se tornou monge, é uma pessoa tão firme no budismo, que escreve para uma das revistas mais famosas do budismo no mundo, mas também gosta de rock'n'roll, gosta de platicar ciclismo de estrada, E como o senhor mesmo diz, totalmente fora dos estereótipos. Quando o senhor chega e diz, eu sou um monge budista, qual é a reação?
Eu coleciono dois tipos de reações quando eu falo isso. Uma é incredulidade, porque justamente eu tenho uma vida secular, como qualquer pessoa comum. eu trabalho, eu tenho um trabalho laico, eu tenho família, eu sou casado, eu tenho filhos, e tenho os meus hobbies, tenho os meus apazeres, né. Então, primeiro, e trabalho como executivo numa empresa internacional, então as pessoas começam a achar que tem um estereótipo de que você não pode estar inserido as ações mundanas, no cotidiano mundano, uma vez que você abraça a religiosidade, você abraça o sacerdócio. Então existe esse lado. Existe o outro lado, que parte também de uma incredulidade, mas mais no sentido de que jamais esperariam que uma pessoa como eu pudesse ser um monge também. Então, uma vez eu tava dando uma entrevista numa rádio e uma pessoa ligou e fez a seguinte pergunta, mas, poxa, você é um cara religioso, você é um cara espiritualizado, como é que você trabalha em empresas americanas, que são empresas que subam os funcionários, que são empresas que isso, que aquilo, né? Aí eu falei, bom, pessoas sãs não precisam de médicos, né? Então, a gente tem que tá inserido nesse nesse contexto até pra entender um pouco, entender um pouco não, pra entender o que é a vida, né? Entender o que é, o que são as fazelas da vida, né? Afinal, uma das perguntas que mais nos fazem, não só pra mim, mas pra outros monges, colegas, é como é que eu aplico o budismo no dia a dia? Então, se eu não sei com esse dia a dia, fica difícil de eu opinar, né?
O senhor tem uma atividade profissional, o senhor é CEO de uma empresa, essa empresa é de qual ramo?
Eu sempre trabalhei em tecnologia.
E ao mesmo tempo o senhor é monge, então assim, o senhor tem, eu não sei se esse é o termo, mas é assim, o senhor tem obrigações para com o budismo, eu digo obrigações sagradas, então De segunda a sexta o senhor trabalha e sábado e domingo o senhor pratica o budismo, eu digo no templo, eu quero dizer assim. Claro que a religião você pratica todos os dias, mas o que eu quero dizer é assim, as suas atividades como monge, elas se restringem ao final de semana? Como que é?
Eu sou membro da ordem Otani, de budismo, budismo da terra pura e na nossa ordem, isso difere de ordens pra ordens e de escolas pra escolas, não é? Nós temos o que eu poderia dizer, só pra resumir, dois tipos de monges, vamos assim dizer, do ponto de vista administrativo. Os dois tem as mesmas formações, tem as mesmas chances, tem o mesmo, o mesmo caminho, mas do ponto de vista administrativo, seriam dois tipos, um que seria o monge missionário que nós uma tradução que eu não gosto muito, mas o monge missionário é aquele monge que tem 100% de dedicação a um determinado templo. Ele não precisa morar no templo, mas muitos moram com suas famílias no templo e aí se dedicam, estão à disposição do templo o tempo é é vinte e quatro horas. Então, o templo, vamos dizer, sustenta essa família pra que esse monge tenha o seu lugar ali, a sua casa, as suas necessidades atendidas. E existe um outro tipo de monge, que é um monge que tem, é um tipo que tem, vem nascendo e vem se desenvolvendo cada vez mais e na minha muito humilde opinião, eu acho que é o que vai sobreviver daqui pra e vários outros monges brasileiros que que são meus colegas lá lá da ordem também que tem uma vida secular, tem um trabalho secular e em determinados tempos tem seus compromissos no no tempo. Eu, nós, por exemplo, eu tenho compromissos no aos finais de semana pra condução de alguns ritos lá e algumas práticas no tempo, não são todos finais de semana, porque a gente se reveza E agora, com a pandemia, estamos remotos, mas numa situação de normalidade, ou antigamente, né, já estamos falando antigamente, nós nos revezávamos nos tempos. E também nós temos algumas atividades durante a semana, mas uma ou duas vezes por mês, que é... porque eu faço parte de um instituto de tradução, Instituto de Pesquisa e Tradução Entrada do Tempo, e a gente se reúne, hoje em dia, remotamente, mas a gente se reúne uma vez por mês.
Agora, Monge, O budismo, o islamismo é hoje a religião que mais cresce no mundo. Mas o budismo também ganhou muitos adeptos. Muitas pessoas falam muito da meditação, muitas pessoas pensam em seguir o budismo. Muitas vezes o budismo também se confunde com o vegano, com o vegetariano, com tudo aquilo que é zen, com o incenso, com aquele mundo que você vive dentro de uma redoma. E parece que, cada vez mais, as pessoas estão mais estressadas, mais irritadas, e, ao mesmo tempo, o budismo cresce. Como é que o senhor explica isso?
Olha, eu não sei se o budismo cresce, mas as práticas relacionadas ao budismo têm uma tendência de crescimento, ponto de vista bastante raso, tá? A gente viu nascer nos anos, aqui agora, nos anos dois mil, dois mil e dez, né? O famoso movimento de isso é um bom exemplo, o movimento de que virou modinha no mercado, é um movimento com fundo de cem por cento budista, duzentos por cento budista, porque o conceito de é o conceito básico do mas dado de uma maneira extremamente rasa, quer dizer, de uma maneira comercial, onde você vai lá, paga por palestras, paga por um monte de bobagens, e acha que está tendo essa... está se transformando de alguma maneira. Então, esse é um bom exemplo. Outro exemplo é o próprio exemplo da meditação, que as pessoas meditam sem um acompanhamento, sem um aprofundamento, E também com o intuito, eu ouço muito essa palavra, eu vou buscar um equilíbrio através da meditação. Claro, esse é um efeito da meditação. Mas é interessante quando as pessoas buscam equilíbrio, e você aprofunda um pouco nessa história de equilíbrio, você vai ver que as pessoas não querem equilíbrio. É quando você tá no meio da balança, a balança tá no meio, não é? Isso é um equilíbrio. Então, pode ser a hora que você vai pender pra um lado, vamos dizer assim, pra um lado negativo, pra um lado estressante, e horas você vai pender pro outro lado. Mas na verdade você não quer isso, você quer o outro lado, você quer o lado sair do seu lado 100% estressado pro seu 100% não estressado. Isso não é um equilíbrio. é buscar uma radicalização de ambos os lados... e negar, inclusive, a própria existência humana... porque não existe uma situação onde você vai conseguir... uma situação de vida onde você vai conseguir encarar isso com... com maior tranquilidade. Vai lá, dá um pisão no pé do Dalai Lama... eu garanto que ele vai dar um grito e... provavelmente vai passar pela cabeça dele alguns palavrões... antes dele se recuperar e... externar qualquer tipo de compaixão. Então, eu acho que, na verdade, o que cresce são buscas rasas para soluções imediatistas dos problemas do cotidiano. Eu vejo dessa forma. Eu tive um aluno que é engraçadíssimo. Ele vai e volta do budismo. Então, ele sai do budismo, ele vai para o Kadamblé, ele volta. Aí ele vai para o Umbanda, ele volta. Ele vai para o kandercismo, ele volta. Ele vai para o islamismo, ele volta. Então, toda hora ele volta. Porque é sempre aquela ânsia, aquela necessidade de buscar algo que resolva a sua vida imediatamente. E não tem nada mais anti-budista do que isso. Nada mais anti-budista. Porque o Buda, Shakyamuni, ele nos apresenta um processo de transformação. E um processo que pode demorar várias vidas, não é só uma, né? Então, vai ser um processo A própria meditação em si, os vários tipos de meditação, são embasadas em teorias, são embasadas em práticas, são embasadas em um cânone de meditação. Então eu vejo muito dessa forma, porque embora eu veja muitas pessoas praticando o budismo, São poucas pessoas que assumem que são budistas e falam, não, eu larguei a minha religião original porque a gente talvez esteja vivendo a primeira geração de budistas aqui no Brasil. Minhas filhas nasceram budistas. Mas a maioria das pessoas são, vamos dizer, convertidas. Mas eu não vejo crescer exponencialmente da mesma forma. Pessoas que se declaram budistas e façam pelos rituais de vamos dizer assim, de conversão do budismo, né? Então, eu acho que o que existe é uma busca mais imediatista de soluções cotidianas e acho que não vai dar muito certo.
Porque, na verdade, eu só poderia agora aproveitar aqui e explicar um pouco esse fundamento do budismo, né? Quando uma pessoa diz assim, eu sou budista, ela tem uma série de práticas, né? Quais são essas práticas que ela faz?
A primeira curiosidade que eu geralmente falo para as pessoas, é que pouca gente sabe, é que o budismo é ateu. Então o budismo não acredita em Deus. Nós não acreditamos em Deus. Nós somos totalmente ateus. Então nós não acreditamos em um ser criador, em um ser regulador, nada disso. Então esse é o primeiro choque.





