TUDO SOBRE MONGES BUDISTAS - ACHISMOS PODCAST #57

Portuguese-language podcast episode in which monk Hondaku Shaku (guest) and host Maurício Meirelles discuss Buddhism: common stereotypes about monks, what it means to be a monk versus a Buddha, life and teachings of Buda Shakyamuni (biography, ascetic period, 49 days to enlightenment), Buddhist cosmology (six realms, rebirth/karma), symbols and images (origins of the seated/fat Buddha and swastika), and practical ethical issues (marriage, sex, possessions, compassion). The tone is informal, clarifying misconceptions and relating traditional teachings to modern life.
Questions this video answers
About 2,600 years ago.
29 years old.
Five years.
49 days.
Ordained eight years ago by the Shinshu Otani order (Kyoto, Japan).
Chapters
O budismo não prega que você tem que ser o cara, aquele bicho preguiça, em coma, falando devagarzinho. Não, cara. O budismo diz o seguinte, te conhece primeiro. Descobre quem você é.
Senhoras e senhores, eu vou falar pra você, fica aqui, vai ser muito bom. Porque assim, quando eu chamei, eu falei assim, eu vou chamar um monge. Monge budista, muito achismo. Escrevi uma cacetada de pergunta aqui, mas eu não vou nem usar direito porque eu já fiquei muito surpreso no começo, que assim que você chegou, você chegou de camisa social e chegou meio... Eu achei que você ia falar, olá, achei que você tinha uma voz de maconheiro. Eu tenho esse achismo. que o monge é um cara boa tarde, vamos falar de Dalai Lama. E não, porque que as pessoas acham que vocês tem que ser, a primeira pergunta pro meu querido Maurício Chará, já vou falar quem é ele pra você ficar aqui no vídeo, porque que as pessoas acreditam que o monge tem que ser um cara extremamente pacífico, que fala num tom que dura 4 horas o vídeo?
Pô Mau, é o seguinte, eu acho que isso daí é, bom, primeiro que eu acho que as pessoas se confundem entre ser budista e ser um buda. É coisas bem diferentes. É a mesma coisa entre você ser cristão e ser um cristo. Você é cristão, você não é cristo. Nós somos budistas, não somos budas. Aliás, se fôssemos budas, nem precisávamos ser budistas. Porque nós já tínhamos chegado onde a gente queria, todo mundo iluminado, então não precisava ser buda.
Mas o buda, segundo os relatos, ele era tranquilão assim, igual todo mundo?
Se você vai ler as escrituras, Nem tanto. Tem algumas passagens das escrituras, que eu já comento com você, que mostrava que era uma pessoa muito direta, objetiva, zelosa e que saía desse estereótipo. Então a gente tem esse estereótipo de achar que, como nós temos um foco em práticas que te levam a você sentar em silêncio, a você praticar o bem, o que toda religião prevê, não é só uma questão budista, você leva isso para a sua vida 100%. O que é um grande erro. Você pode ser um grande meditador, toma uma fechada do trânsito, vai ver se você não vai abaixar o vídeo.
Você acha que Buda em São Paulo, ele seria um pouco estressado?
Olha, cara... Ele demorou 49 dias pra se iluminar. Eu acho que em São Paulo ele demorou um pouquinho mais, cara, entendeu? Porque foram 49 dias numa floresta debaixo de uma figueira sem ninguém preencher o saco dele, entendeu? Aqui eu acho que a coisa ia ficar muito mais eloquente pra ele, né? Eu tive uma mestra uma vez que ela disse o seguinte, uma lama, que ela falou assim, olha, meditar aqui no centro budista é muito fácil. Aqui todo mundo consegue. Agora eu quero ver se é bom mesmo. com criança assim na sua frente. Mãe, mãe, o que que tem pra almoçar? Mãe, me leva na escola? Mãe, não sei o que, televisão, ônibus passando, buzina. Aí é que a gente vê quem é que faz isso.
Quer dizer, o monge que tem filho, ele é muito mais iluminado do que.
O monge... Olha, eu acho que o monge que tem filho, é casado e tem filho, inserido na sociedade maluca que a gente vive, é um cara que tem muito mais desafio.
E o monge de São Paulo, então, ele é um monge muito mais monge que o monge do Tibete. Seria mais ou menos isso. Você falou pra mim assim, agora eu vou falar quem que eu tô aqui ó, olha o maluco aqui que é, Maurício Rondaku. Rondaku?
Rondaku.
O terceira série. Não, Rondaku. Não teve piada, desculpa aí, já tem pessoal me criticando. Monge budista ordenado há oito anos pela ordem budista Shinshu Otani, de Kyoto, Japão. Isso que eu queria entender com você. Necessariamente uma pessoa que segue a religião budista, ela é automaticamente um monge? Como se torna um monge? Dá pra ser budista e não ser monge? Dá pra ser monge e não ser budista?
O monge é um padre, um pastor, equivalente a outras religiões. Você seguir o budismo ou praticar o budismo, como a gente gosta de usar mais, é prática, né? era para qualquer pessoa, mas você não precisa entrar no sacerdócio para isso. Antigamente, claro, na época do Buda, há 2.600 anos, na época que o Buda Shakyamuni viveu nessa terra, ele, sim, quem seguia se tornava monge. Mas depois, ao longo do tempo, isso foi sendo flexibilizado e hoje você tem um grupo monástico de sacerdotes e um grupo de praticantes. Um praticante pode ser um sacerdote? Pode. E um sacerdote é um praticante que já andou um pouco mais e que quer explicar, que quer passar o seu exemplo, quer explicar, quer ensinar para aqueles que estão vindo antes. Perfeito. Na nossa ordem, inclusive, a gente usa um termo muito legal para o monge, que é... o apelido do monge é chamado de bom amigo. Porque o bom amigo não é aquele que tá lá num trono sentado lá em cima e dizendo, ó, vem aqui que eu vou explicar pra vocês o que tá acontecendo. Não Felipe Neto.
Falaram, todos estão errados, todos estão certos.
É o cara que tá aqui do seu lado. É o cara que tá aqui do seu lado.
É horizontal, não é vertical.
É horizontal, não tem essa hierarquia. Então a gente tá do lado, a gente caminha junto. Talvez a gente olhe um pouquinho mais ali, olha o que tem lá na frente e volta pra contar.
Mas é aquela coisa meio guru, estou com uma dúvida. Aí você fala, olha, você vai para a figueira. É meio isso assim?
É mais ou menos... Cara, é o seguinte, o cara vem com uma dúvida, você fala o seguinte, olha, o Buda, na escritura tal, terminou dizendo isso, isso e isso, o que quer dizer que é desta forma. A gente sempre se baseia no que o Buda disse, no que a gente chama de Dharma, que é o conhecimento, a sabedoria, que foi escrita em vários volumes chamados Sutras. Então, o que a gente fala é o seguinte, na dúvida, recorra aos Sutras. E é lá nesses sutras que responde a primeira pergunta que você me fez, se o Buda não era um cara calminho. Mas você encontra lá alguns sutras, e eu vou dar o exemplo de um, por exemplo. Tinha lá um sutra chamado Sutra de Uposhasta. Uposhasta é um dia do mês, que é o dia da lua cheia, onde o Buda fazia um ritual especial. E naquele dia, todos os monges reunidos e o Buda ficou em silêncio. E criou-se ali uma... um desconforto, né? E o Buda não começava. E o Buda não começava. Até que um dos monges chegou, abençoado. Ele é chamado de abençoado? É abençoado. Podemos começar os ritos de Uposhastra? Ele fala, não, porque a nossa Assembleia está impura. Assembleia. Quem estava ali tinha alguma coisa errada com a Assembleia dos monges ali. E esse monge pergunta pra ele, mas qual é a causa dessa impureza? Ele fala, um entre nós não é quem deveria ser. Ou seja, tinha um impostor ali. Tinha um cara vestido de monge que não era monge. E esse monge então, que estava ali, assessor do Buda, virou e falou, por favor, quem for monge e não for parte dessa assembleia, que se retire. E a pessoa não sai. E eles eram 1.500 monges, mas ele se conheceu, logo ficou evidente quem era. Imagina, 1.500 pessoas, careca, todo mundo vestido de laranja, é difícil você identificar assim. Pô, é todo mundo com a mesma cara, né? E aí identificaram o cara, pediram pra ele sair, ele não saiu. O Buda falou, então, por favor, retirem ele daqui. Cataram o cara e... Buda meitou essa?
Olha, mano, não imaginava Buda assim. Achei que o Buda era tranquilão.
Então, tiram o cara daí, porque é um impostor, não devia estar aqui. Que tiram o cara, convidam o cara a se retirar. E aí ele fala, bom, agora a Assembleia está pura, vamos continuar a coisa.
Cara, não tem como iniciar, continuar esse papo sem ter uma explicação básica do que é Buda. Porque assim, pelo que você tá me falando da história, me dá a impressão que Buda foi um Jesus da religião. Ó, tô falando o meu achismo. E você que não entendeu ainda o projeto, o achismo é um projeto onde eu revelo toda a minha ignorância num mundo onde todo mundo tem muitas certezas. Então assim, por exemplo, eu como cristão que fui batizado, aquela coisa toda, embora eu não exerça tanto a função, o que eu estudo? Que a gente teve uma religião, uma religião cristã, Cristo, nosso Jesus no caso, ele era um cara que também tinha um Judas, que foi esse caso aí que você contou, e ele era o cara que fez essa religião acontecer. Digamos assim, Buda seria o Jesus dessa religião? Veio antes de Jesus? Jesus tinha lugar no Budismo? Quem era Buda?
O Buda Shakyamuni, que é esse que a gente conhece, que viveu nesta terra e foi o último a renascer nesta terra aqui, ele viveu há 2.600 anos.
Antes de Jesus, logicamente.
Sim, antes de Jesus, né? 2.600 anos. Antes da Era Moderna, vamos assim dizer, antes de Cristo. E aí ele nasceu no Nordeste da Índia, no que seria alguma coisa ali entre a Índia e o Nepal, no pé do Himalaia. O Louro José, você vai ficar falando, nossa, complicado.
E aí, ó, como é que tu faz?
As pessoas te xingam que tu interrompe.
Peraí, velho, deixa eu ver o cara aqui.
E aí, óbvio, o negócio muito antes de Jesus, quer dizer, 600 anos antes de Jesus. Então, nada a ver com Jesus. Mas ele também não foi um profeta. Não foi um cara que veio pra cá pra anunciar uma boa nova, nada disso. Ele renasceu nessa terra. como outros Budas antes dele renasceram também. Então ele não foi o único, ele foi o último. O Buda desta época, o Buda Shakyamuni. Você tem outros Budas, você tem Buda Amitabha, Ratnasambhava, Amoghasiddhi, e aí vai, você.
Tem milhares de Budas. E todos eram parecidos assim?
Não, é difícil dizer, porque a gente não sabe como é que o Buda era. Porque era proibido você reproduzir a imagem do Buda. E hoje eu vou te contar daqui a pouco uma história muito legal sobre como é essa imagem do Buda hoje, que pouca gente sabe isso. Então, quando ele renasce, e ele renasce como um nobre, um príncipe, príncipe Sidarta, Sidarta Gautama, numa família nobre, dentro de uma casta guerreira dos chátreas, e numa região onde eram pequenos reinos, eram pequenos reinos democráticos que tinham ali no nordeste da Índia, no reino de Shakia. Então, ele... ele tem esse Dharma, essa sabedoria despertada nele durante um período no qual... com 29 anos, ele abandona a vida dele palaciana e vai pra floresta ter com sábios da floresta. Só que eram sábios que...
Mas ele não tinha uma vida religiosa? Um pai, uma mãe religiosa? Não!
Ele era o rei, a rainha, né? Então, assim, zero. Aliás, é dito que quando ele nasceu, o pai dele, o rei Sudodana, pediu que um sábio, um adivinho, fosse ver o filho e prever o futuro do filho. Ele era chamado Asita. Quando a cita chega, ele começa a chorar quando ele vê o bebê. E o rei, o Sudodana, preocupado, falou, cara, o que está acontecendo? Ele falou, não, é o seguinte, tem duas possibilidades para o futuro do seu filho, ou ele vai ser um grande rei e ele vai unir todos os reinos aqui do Nordeste da Índia, ou ele vai ser um grande líder religioso. Então a Sita já dá essa premonição ali no nascimento do bebê. E ele cresce gerando muitas dúvidas na cabeça dele.
Questionamentos e tal.
Muito. E com 29 anos ele resolve abandonar o palácio e vai pra floresta, que ele sabe que é uma floresta onde tem um monte de gente praticando práticas ascéticas.
Só uma pausa, você vê até Buda sair tarde da casa dos pais.
Eu saí antes?
29 anos, hein? Você que tá aí vendo, aí tem 18. Pode ser o novo Buda. Vamos lá.
E aí ele passa cinco anos se mortificando. Então, assim, ele não comia, ele não bebia, ele tentava ficar sem respirar a maior parte do tempo, dormia perto do fogo.
Ele começou...
Na verdade, autopunição. Ele tentou infringir sofrimentos físicos pra ter um despertar espiritual. Só que ele passou cinco anos fazendo isso e... Conseguiu nada, cara. Ele continuou o mesmo cara e ele falou, meu, tô fazendo alguma coisa errada aqui.
Eu só tô me queimando aqui.
Eu só tô me ferrando aqui, só me ferro nesse negócio aqui e não tô chegando a lugar nenhum. E ele era tido como um grande praticante asceta, né? Ele era um grande asceticista. E aí ele resolve, então ele larga tudo, um dia ele toma banho, ele entra no rio, toma banho, vem uma pastora dar roupas pra ele e tal, e ele senta debaixo de uma árvore, de uma figueira, que é chamada Árvore da Iluminação, Ficus.
Aonde? Isso lá na Índia? Essa árvore existe ainda?
Essa árvore existe, quer dizer, não é mesmo a árvore, mas é descendente dessa árvore, tá lá ainda.
Tá lá e deve ser o lugar.
Que a galera faz as peregrinações. E aí, em 49 dias, ele se ilumina.
Isso que eu quero entender.
E o que que é iluminação?
Ele ficou 49 dias sentado?
Sentadão lá. Ah, mas ele comia, se alimentava, tomava água, tomava leite. Mas sentadão?
Paradão?
Paradão lá, refletindo.
Eu tô em casa parado e vou falar pra minha esposa. Tô meditando. Pera aí que eu tô me iluminando aqui.
Pausa para meditação. Processo de iluminação.
Processo de iluminação. Tô no meu processo de iluminação.
On. Illumination process on. Loading. E aí ele se ilumina. O que é se iluminar? O que é esse negócio? Um Buda é um ser iluminado. Ele tem dois aspectos, o Buda. Primeiro que é um ser iluminado. O que é isso? Um ser iluminado é aquele que tem a compreensão de tudo. Compreensão da realidade.
O Matrix.
O Neo. Matrix, o Neo. Aliás, Matrix é muito baseado nessa visão budista da coisa. Olha que legal. Neo. É um cara que tem uma visão de tudo.
Que tomou a pílula vermelha.
Ele consegue compreender tudo. Mas também é um cara que deixa de produzir karma.
Dharma, sabedoria, karma...
Não. Esse é... Já vamos lá. Axismo. Vamos quebrar um paradigma aqui. Karma não é antagônico de dharma. Dharma é sabedoria. Ponto. Karma quer dizer ação. E você tem karma positivo, neutro ou negativo. Então uma ação pode ser positiva ou negativa, não tem nada a ver com o Dharma. Dharma é sabedoria, Dharma é conhecimento. Esse é o primeiro, a coisa que todo mundo confunde. Ah, Dharma e Karma, cara, isso aí alguém fez uma comparação besta dessa e pronto. Foi o Lost. Então ele deixa de produzir Karma. O que isso quer dizer? Que todas as ações dele têm consequências neutras. Ou seja, ele cria, ele não cria nada negativo para o mundo. nem para as pessoas ao redor dele. Isso que é o mais interessante. Então o Buda, a diferença é muito grande, porque você pode até se iluminar, mas não necessariamente você é um Buda, entendeu? Então o Buda é esse ser iluminado e que deixa de produzir coisas negativas. Aí talvez seja a grande confusão que as pessoas fazem, achar que um budista já é iluminado pelo pressuposto de um ser. Não, é um cristão.
Minha coisa é falar que o cristão é iluminado, que ele é Jesus. Mas olha só, eu tô vendo uma coisa que é interessantíssima. Eu vejo muita equivalência o cristianismo e o budismo nessa questão de Jesus ficou quanto tempo no deserto, voltou, iluminado.
Que, aliás, é um período obscuro, vamos dizer que ninguém sabe o que aconteceu.
Tem plágio aí, hein, Bibi?
Mas tentando fazer esse paralelo com Jesus, o que acontece? Muita gente fica brava comigo. Outro dia um cara na internet discutiu tanto comigo que ele me perguntou qual é o papel de Jesus no budismo. Eu falei, é um ilúcio desconhecido. Eu falei, cara, o budismo aconteceu 600 anos antes de Jesus. Ah, mas Jesus é um cara iluminado. Cara, ele pode ser o que ele quiser. Dentro do panorama do panteísmo budista, ele não existe. Ponto. Não é porque ele existe no panteão islâmico é que vai existir no budismo.
Cara, mas sabe que eu tô chegando num achismo aqui? Que o cristianismo me dá a impressão que é uma versão... É tipo assim, o cara fez uma música, o cara fez uma música pra atingir mais gente. Porque tem uma semelhança, não é possível que...
É, mas já vou te dizer uma que corta agora, Mau.
Manda.
Nós somos ateus. O budista não acredita em Deus, cara. Já começa por aí. Aí quebra a partir de tudo. Muita gente fala assim, mas eu sou cristão, eu sou católico, mas eu sigo o budismo. Tá, vai chegar uma hora que vai dar tilt. Aí costumam brincar, né? Falam, gente, Dalai Lama é fofinho e tudo isso, mas ele é ateu. Entendeu? Nós somos ateus. A gente não acredita em Deus. Por quê? Porque se a gente acreditar num demiurgo, que seria um ser regulador, criador, a gente mataria a lei do karma, que é uma das leis básicas do budismo. A lei do karma diz o seguinte, o que você faz tem uma consequência direta. Se eu tenho alguém que influencia no que você faz ou no que você produz, então essa lei não é mais válida.
Porque protege, né? É lógico, olha que legal.
Então, se eu soltar essa xícara no chão, ela vai quebrar. Mas se eu tenho alguém que vai chegar aqui invisivelmente e vai pôr a mão embaixo e vai segurar essa caneca, a lei da gravidade aqui... Você está me dizendo, então, que...
Maravilhoso! Você está me dizendo, então, que os budistas, no geral... No geral, não. Todos eles são ateus. Para ser budista, não adianta também... Porque às vezes eu acho que a religião é tipo um buffet. Eu quero a salada, isso daqui eu quero do católico...
As pessoas criam a própria religião, né, cara?
Eu sou um budista que acredita em Deus e Jesus... Ah, e você vai.
Ver muito escrito aí, de cara, tentando justificar que a visão do demiurgo no budismo é possível. Não, não é. Não é. Ponto!
Estou falando aqui com o especialista do assunto. Quer dizer, o budista acredita que esse céu católico seria aqui mesmo, digamos assim? A punição está aqui?
Está aqui. Está aqui ou nas suas vidas seguintes? Como a gente acredita no renascimento, ou seja, que existem vidas consecutivas além dessa, você pode carregar esse seu pacote de ações para uma outra vida. O maior exemplo disso é você tá, sei lá, você tá andando na rua, de repente você torce o pé, cai no chão e fala assim, pô, por que que isso aconteceu comigo? Filho, aconteceu com você. Ah, mas eu só faço o bem. Bom, primeiro isso já é um outro estereótipo, né, de achar que faz o bem, mas a gente já fala disso. Mas, pô, eu sou um cara tão legal, e aquele negócio, poxa, por que que acontece comigo que eu sou uma pessoa tão boa, e o cara lá que é um FDP, é um miserável, um sacana, tá vivendo bem, não sei o que, isso acontece comigo? Filhão, acontece com você nessa vida, porque na outra você deve ter sido um cara bem sacana também, igual a ele, entendeu?
Então você que acabou de torcer o pé, tá explicado aí. Quem mandou ter escravos? É, agradeça que tem pé.
Então assim, você tem essas consequências que você pode pagar positivamente ou negativamente nesta vida ou carregar pra próxima.
O que o Neymar fez de bom na última vida? Porra, o Neymar era o Buda, velho. Entendi.
Os chineses acreditam, por exemplo, os chineses, os budistas chineses acreditam muito que a prosperidade que você tem nessa vida, ela vem pra que você possa ajudar as pessoas. Entendeu? Então assim, se você pega os budistas taiwaneses, por exemplo, eles acreditam nisso. Acreditam que se você é uma pessoa bem-sucedida, é porque você teve karma na vida passada pra ser bem-sucedido nessa, para ajudar as outras pessoas. Então é visto como uma coisa negativa.
Quer dizer, pessoas que não ajudam outras pessoas tendem a próxima vida ter um probleminha aí.
No budismo, a gente tem um inferno especial pra essas pessoas, na cosmologia budista.
Quero entender essa cosmologia, vamos lá. Porque assim, existe uma coisa entre você não acreditar em Deus e outra coisa é você não acreditar nessa cosmologia. Tem gente que acha que aqui acabou, morreu, morreu. O budismo, no caso, acredita que daqui você vai pra um outro... Você vai.
Pra uma outra vida. Você tem algumas possibilidades. Você vai pra uma outra vida. Essa vida pode ser vivida em seis reinos diferentes. que é o reino dos demônios, que para nós budistas um demônio não é um cara ruim, mas é um cara de sofrimento, é um ser de sofrimento.
É uma pessoa angustiada.
Sofre, sofre, sofre. E a vida nos infernos é muito curta, às vezes são minutos ou horas, porque é intenso o sofrimento.
Como assim? A pessoa, tipo, é do nada? É um ano que a pessoa passa no inferno?
Uma pessoa que tá numa depressão pode estar vivendo isso? Você pode classificar isso como estados mentais que você vive nesta vida como ser humano ou, efetivamente, um local que você vai renascer. Existe um psicanalista budista chamado Mark Epstein, que ele tem um livro que chama meditação sem meditador, que ele começa a fazer análise dos pacientes dele de acordo com esses reinos. E aí ele começa a mostrar que esses reinos são possíveis de ser vividos aqui. Então o primeiro reino é esse, é o demônio. Então são períodos de muito sofrimento que você tem para aliviar esse karma negativo. Depois acima disso você tem os fantasmas famintos, que esse é o lugar dos avarentos. Então são seres que passam a vida sentindo fome e sede. E são aqueles que não compartilharam, não ajudaram.
Os maconheiros, pô.
Larica. Larica eterna, né, cara?
Aí vem os animais... Como sempre se diz em uma questão mais simbólica, né? É uma pessoa que tá sempre em.
Busca de algo... Você tem sempre um mito atrás disso, Mauro. Então assim, quando o Buda descreve isso, ele descreve com mitos. Então ele fala o seguinte, ele fala que esses são seres... Quando ele descreve esse reino, ele descreve seres com mãos, com dedos extremamente longos, que eles não conseguem por o alimento dentro da boca. Então eles vivem sem... Quem consegue colocar o alimento dentro da boca, esse alimento se transforma em brasa. Então ele não consegue comer. Entendeu? Então, aí vem os animais. Aí vem os animais, o reino dos animais, que todo mundo acha fofinho, né? Ah, vou renascer como um cachorro, um gatinho. Ai, que bonitinho e tal. Lembrando que uma meba é um animal.
Puta, imagina, mano.
Lembrando que uma barata é um animal.
Puta, Buda chega e fala, tu vai vir com uma animal.
Lembrando que uma lesma é um animal. Um protozoário é um animal. Então assim, todo mundo fala que bonitinho, vou renascer como um cachorrinho. Não, filhão, você pode renascer como uma ameba. Já pensou se você renasce como uma ameba em coma? Aqui também é possível.
Tem uma galera aí que...
Pois é, ultimamente mais ainda. Bom, aí você tem o reino dos... Titãs, né? São os Ashuras. São reinos que são seres com opiniões muito fortes, que são combativos. Então, sabe aquela pessoa, aquelas pessoas que... um equivalente a isso, aquelas pessoas que não mudam de opinião, colocam, tem aquele viés de confirmação...
Radical?
É, os fake news, os radicais. São esses caras, entendeu? Aquele cara que não se permite se abrir pra obter conhecimento novo, né? Aí vem o reino dos humanos, que é essa balbúrdia que a gente conhece aqui.
A galera da fake news tá abaixo dos humanos. Tá entre o cachorro e o humano.
Mas eu colocaria o cachorro na frente.
O cachorro tá mandando fake news agora.
Aí o cara humano, essa balbulha que a gente conhece, mas o Buda dizia que renascer como humano é muito, muito positivo, porque é a oportunidade de consciência que você tem. Porque os outros reinos pra baixo são reinos de caos. Um tá focado no sofrimento, outro tá focado na comida, outro tá focado nas opiniões, outro tá focado no seu instinto animal de sobrevivência e os humanos, que conseguem pensar, ter consciência. Então é aqui, é a vez e a hora da gente buscar essa iluminação. E, vamos dizer, o próximo reino é o reino dos deuses, chamado reino dos devas, que são seres que têm um pouco mais de envolvimento espiritual, sim, mas que vivem muitos anos, muitos anos, milhares de anos. Só que como eles são os seres mais, vamos dizer assim, eu vou pôr entre aspas, evoluídos, Eles tendem a ser mais preguiçosos, porque sabem que vivem muito e já têm uma condição melhor. Mas eles estão submetidos a essa roda, esse karma. Um deva pode cometer um assassinato, por exemplo, matar outro deva e cair pro reino dos infernos na próxima vida.
Ah, tem uma evolução.
Tem uma involução.
Tem o G4.
Tem, tem o menos quatro, o subsolo quatro e tal. Tem tudo isso. Você vai lá da cobertura pro menos quatro. Mas isso foi dito na hora que ele se iluminou? É. Ele lembrou, cara, coisas que você lê e você não vai acreditar. Por exemplo, ele delineia 128 estados mentais que um ser humano pode ter. E se você olhar isso e olhar a psicologia comportamental, você vê uma associação incrível, direta, e o cara tava sentado... Eu costumo dizer, eu não sei porque que um cara pelado, debaixo de uma porra de uma árvore, lá não sei aonde conseguiu chegar tudo isso. Na verdade, ele ditou tudo isso durante a vida dele, durante os 40 anos seguintes, ele ditou tudo isso e quando ele morreu, os monges escreveram.
Entendi.
Os monges escreveram.
Então, mas assim, vamos lá, eu quero chegar na coisa dos animais, eu quero chegar em várias questões comportamentais do que é a religião de vocês, mas eu, assim, por que esse cara teve tanta credibilidade? Porque assim, se aparece um cara pelado hoje, Vamos lá.
É verdade.
Não teve religião nova depois de 1992, né? Não tem um cara que chega aqui, ó, fui lá pra aclimação, fiquei pelado embaixo de um prédio e fala, maluco, fiquei embaixo da Starbucks, tive uma ideia aqui, ó, a religião nova é isso, é isso. Mas pensa o seguinte, se esse cara.
Que fica pelado naquilo que você tava, fosse notícia no mundo e quisesse dizer que ele era um bebê especial, talvez.
Não sei, não sei.
É isso que eu queria saber.
Por que que não surgiram...
Sabe que naquela época... Eu entendi onde você vai, né? Por que que não surgiram novos ou ali o que aconteceu e como é que se expandiu, né?
Como é que esse cara conseguiu? A gente estava falando de fake news, a brincadeira. Até brinquei uma vez com o amigo meu, Felipe Halliday, a gente estava falando uma vez que assim, se a gente coloca o Harry Potter escondido, daqui a 4 mil anos vão achar que aconteceu aquilo. Será que tem isso? Por que as religiões surgiram sempre num momento muito antigo, onde os registros eram muito complicados? Por que teve credibilidade em Buda?
Eu acho que... Bom, vamos lá. O budismo... O Buda, ele nunca... Uma prerrogativa nossa é que a gente não faz proselitismo. Isso é uma prerrogativa. É uma prerrogativa. Existe aí uma seita pseudo-budista que se traveste de budismo, tem não sei quantos milhões de usuários, usuários não, de seguidores e tal, que tem lá um negócio que, puta, precisa converter o maior número de pessoas, mas esses caras não são budistas. Travestem, mas não são. Mas o budismo tem para o pressuposto, não para os elitismos. Ponto. Quando o Buda morre, ele tá no leito de morte dele, ele chama lá a galera que tava em volta dele lá, ele chama o primo dele, o Ananda, que era o brother dele, braço direito e tal, chama ele junto e começa a dar algumas instruções pra ele, porque ele sabe que ele vai morrer, né? E aí, uma das coisas que ele fala pro Ananda, primeiro é, olha, eu dei um monte de regras pra vocês, eu dei um monte de ensinamento, só que é o seguinte, você testa aí o que vale, cara, e o que não vale, você joga fora. Jura? Buda é mó humildão? É, ele falou pra Ananda. Ele falou, olha, eu falei um monte de coisas pra vocês, mas vocês precisam testar. Então testa aí, o que você achar que não vale a pena, pode descartar.
E esse cara foi considerado um novo Buda?
Não, não. Não teve mais nenhum outro Buda depois do Shakyamuni. Aqui nessa terra não teve mais. Não. E o próximo, ele tá projetado pra daqui alguns milhares de anos pra voltar.
Vocês estão esperando um novo Buda. Igual os cristãos esperam a volta de Jesus.
Mas pra nós isso não faz a mínima diferença, cara. O cara vindo ou não vindo...
Os preceitos deles deram certo. Se chegar um maluco dizendo que é o novo Buda, todo mundo vai arrastar.
É, provavelmente porque é daqui uns 7 mil anos, né? Então tá meio early. Bom, aí o que que ele fala? Ele falou, olha, mas se vocês quiserem, vocês não precisam ficar aqui reunidos, nessa região, vocês podem partir, vocês podem levar o, ele chamava de Budadharma, né? Aliás, segura isso daí, muita gente fala que Buda não era budista, mas Buda era budista, eu já vou explicar porquê. E aí o Ananda fala, beleza. Só que o Ananda, assim, o Ananda é meio cagão, né? Falou assim, puxa, quem sou eu pra eliminar coisas aqui do que ele disse, né? E a gente brinca até hoje que a culpa é dele, né? Porque, puta, a gente tem um monte de coisa lá que a gente tem que estudar e tal. Falei, a culpa é do Ananda, o cara podia ter limpado esse negócio aqui. Podia ter editado aqui, feito um resumo.
A culpa é do Ananda.
Um resumão, aquele resumão de vestibular, entendeu?
A culpa é do Ananda.
Puta, a culpa é do Ananda, cara. E aí esses monges começam, eram mais ou menos 1.500 monges, eles começam a viajar. E aí você está ali no norte da Índia, um grupo segue para baixo ali, vai para Sri Lanka, para a Tailândia. E aí o que acontece? Tem um rei na Índia chamado Rei Ashoka, que era um sanguinário. Era um sanguinário. Era um cara que matava, que esquartejava, empalava. O cara era um sanguinário, o cara queria conquistar tudo aquilo. E até um dia que ele invade um povoado budista, primariamente budista. E quando ele tem contato com o budismo ali, ele se converte a monge. E ele depõe as armas. E ele e a esposa se dedicam a expandir o budismo. Então, como ele já tinha dominado uma boa parte da região indiana, onde tinha o sudeste asiático, ele começa a expandir isso. Então, ele começa a criar, por exemplo, estupas, que são monumentos que ele colocava lá. O Buda foi cremado e foram guardados os restos da cremação dele. Então, ele colocava lá um pedacinho do osso do Buda para as pessoas caminhando nas estradas terem uma referência. Ele foi um superdeboto e ele começou a expandir. A partir de Ashoka, o budismo começa a se expandir. E aí vem a Rota da Seda. Aí que vai chegar uma coisa legal que pouca gente sabe. Aí vem o comércio da Seda. E ali, num lugarzinho muito em evidência nos últimos dias chamado Afeganistão, numa região chamada Gandhara, que hoje é o Afeganistão, era um ponto de encontro da Rota da Seda. Então você tinha os europeus indo para o Oriente, e você tinha os orientais vindo, os chineses, todos chegando ali. Ali, naquela época, era um domínio chinês, Gandhara. Era um domínio chinês. E ali as culturas se encontraram. E essas culturas se encontrando, foi ali, por exemplo, que se desenvolveu as primeiras centros de traduções do budismo, das escrituras budistas, que vinham em sânscrito. e eram traduzidas para o chinês. E foi patrocinada por um imperador chinês que resolveu abraçar o budismo e expandiu na China, que já não era pequena. Então, você tem essa expansão do Ashoka, depois uma expansão na China. Da China isso vai para a Coreia, para o Japão, e aí já lá na década, no começo do século, você tem um alemão que se torna primeiro um monge e vai para a Europa, e aí a coisa começa a disseminar. E por que que se dissemina? Você tem duas maneiras de ver isso. Primeiro que você tem as práticas que, querendo ou não, são simples. E a mensagem é relativamente simples. Então você terminou atingindo mais pessoas por isso. Então não era uma religião opressora, não era uma religião proselitista.
Porque naquela época devia ter também... Exatamente.
E era uma religião comunitária. Exato. Era muito comunitária, de ajuda ao próximo, de compaixão. Então as comunidades budistas, e isso se reflete depois no Japão, um tempo depois, eram comunidades que todos se ajudavam, que não tinham posses, que tudo isso era em prol da comunidade. Então isso começou a ter ganhos e reflexões aí. E aí esse período de Gandhara, olha só que interessante, lembra que eu falei? Não se podia reproduzir a imagem do Buda, era proibido. O Buda era representado pelas mãos e pelos pés dele, ou por uma roda de carruagem com dois cerdos. E aí começou-se a ter a necessidade de ter uma imagem do Buda. É a eternidade do ser humano de ter algo para idolatrar, certo? Para se ter uma referência física. E aí o que os budistas fazem? Pegam emprestado as imagens de Apolo, do deus Apolo, que era o deus sol, o deus da iluminação, iluminado. Então as imagens que a gente tem hoje do Buda, Shakyamuni, são referenciadas às imagens do deus Apolo.
A imagem que eu tenho do Buda é mordinho.
Não é não, esse não é Buda.
E agora acabou o achismo aqui. O Buda pra mim é gordinho. Não, esse é outro achismo. Você coloca ele de costas na porta.
É, então gente.
O Buda não era gordo?
Não, era bem magrinho. Lembra que ele passou fome?
Sim, eu disse que eu não estava entendendo.
Então, depois ele não engordou tudo aqui. Só nós engordamos assim.
Mas ele ficou sentado 49 dias, ele engordou.
Imagina, depois que ele passou 5 anos sem comer. Aí então, a imagem do Deus Sol, do Apolo, virou a imagem do Buda Shakyamuni. Então aí é só vocês procurarem aí na internet, põe aí, Buda Shakyamuni. Vê a imagem dele, não tem nada a ver com o Gordinho. Quem era o Gordinho? O Gordinho era um chinês, um monge chinês, que na verdade o seu nome era Putai. O nome estranho, né? Putai. Que na verdade ele era um monge budista. que viveu muito tempo depois do Buda.
Esse maluco mandou muito bem, mas a galera tá rezando pra um cara, velho.
Pois é, não tem nada a ver.
Minha coisa é, eu tô rezando pro Arnaldo, não é Jesus.
No budismo chinês, ele representa o próximo Buda.
Próximo Buda vai ser gordaço.
Não necessariamente, porque a representação do próximo Buda no Japão, ele é magrinho.
Que doido, o Shaquiamune é magro. Mas olha só que interessante, a gente sempre acredita nesse achismo de Buda ser gordinho, careca, e não é esse Buda.
Que a gente tá falando. Então, na verdade, isso é uma crença chinesa. É uma crença chinesa, porque dizia que esse monge, o Putá, era um monge muito alegre, muito comunicativo, muito alegre, muito brincalhão, que ele é muito sábio. Então, seriam as características do próximo Buda. E começaram a se referenciar a ele como um Buda. Mas não tem nada a ver com Buda. E outra! Também não adianta colocar ele no arroz, com moeda, virado de trás pra porta. Primeiro que isso é ofensivo pra um budista. Você não faz isso com uma imagem sagrada. Porque, querendo ou não, ele é um monge budista. Primeiro que você não faz isso. Você, por exemplo, não usa um crucifixo de Kabide, certo? Então você também não vai fazer isso, né? Você não vai lá colocar o bicho no chão, tal, nada disso.
Às vezes uma outra religião que deu essa ideia. Pega a Buda, põe no arroz.
Pois é.
Os caras tão brigando ali.
Então eu vou te dizer, outro achismo. Isso não vai te trazer dinheiro. Ponto. que te traz dinheiro é trabalho ou herança? Sim. Pronto.
O roubo.
Não, mas o roubo é na perene. Na perene. Aí te traz uma bagagem cara e fica muito forte, entendeu? Então é o seguinte, não adianta nada separar. Aliás, que é ofensivo pra nós. Pra nós budistas é um negócio ofensivo porque as imagens pra nós são uma representação. Elas não são o Buda e a gente tem plena consciência disso. Inclusive muitas imagens, vem escrito atrás. Cuidado, isto é só uma representação do Buda. Não é o Buda. Entendeu? Isso é pra lembrar a gente que aquele mundo é gordo.
Cara, acho que é o maior achismo quebrado aqui.
Tem um monte de budista com gordinho.
Em casa achando que o Buda é gordo. Não, tem uma porrada de gordo com o apelido é Buda. Quebrou agora. Não, mas é a mesma coisa que você acreditar que Jesus Cristo era louro de olho verde. Não tem como naquele momento ali do Oriente Médio. Mas vamos lá, você tá me falando uma coisa, eu queria falar de... já que você tá falando da parte física da coisa, a careca. Vocês raspam o cabelo?
Sim. Tanto que a gente conheceu a Maria Monge agora e tem cabelo raspado. Então, por quê? Lembra que eu falei lá daquele incidente do pochasta, que tava todo mundo careca, não sei o que e tal? Porque se você olhar numa multidão... A primeira coisa que te distingue é justamente o seu cabelo. Quer dizer, se você olha pra uma multidão, você consegue identificar ali as pessoas muito pelo cabelo. Imagina uma multidão todo mundo careca. Todo mundo usando a mesma roupa. São todos iguais praticamente, certo?
Ah, daí que vem então.
Então, na época do Buda, você tinha quem usava cabelo comprido, eram os guerreiros, eram os nobres. Quem estava fora desse contexto tinha um cabelo diferente. Então, ele raspava. Por quê? Para você não ter essa distinção. E todos vestiam as vestes a safrão também, pra não ter distinção.
Eu sou budista, eu quero ter cabelo grande, eu posso?
Pode, pode.
Não tem uma coisa tipo... Não, não entra.
Geralmente quem raspa os cabelos são os monges, né? Os monges raspam o cabelo. Mas mesmo assim, se você olhar algumas escolas budistas, como a que eu pertenço, também não é obrigatório. A gente usa, eu uso porque é uma questão de tradição, eu gosto. E o meu cabelo é horrível também, é crespo.
Aproveita isso, você que tem um cabelo ruim, vire budista, acho que é uma grande ideia. Mas vem cá, a coisa da...
Vindo barbeiro, porque é só passar uma maquininha e pronto.
A coisa da roupa provavelmente é a mesma coisa, né? Vocês usam essa roupa, eu estou vendo que você tem um negócio aqui no seu...
Isso, isso aqui é um mala, chamado de mala, ou nenju, ou japa mala. Ele tem um símbolo bastante bonito, é um negócio bem legal. Por exemplo, esta conta aqui representa o Buda. Essas duas contas aqui representam dois seres, que são, vamos dizer assim, são duas características do Buda, que é a compaixão e a sabedoria. E cada bolinha dessa representa um sofrimento humano. Mas também representa uma cura para esse sofrimento humano que foi ensinada pelo Buda. Um sofrimento humano? Tristeza?
Você quer entrevistar?
Não, por exemplo, você tem a tristeza. A tristeza pela morte. Como é que você cura essa tristeza pela morte? Entendendo que todos vamos morrer. Que não é uma coisa especial, mas é uma coisa que vai acontecer com todos, que a gente tem que se preparar porque isso vai acontecer, que é uma consequência da vida. Mas, que após a morte, você tem um renascimento. Então a morte é só um intervalo entre duas vidas. Entendeu?
Eu acho que isso daí até daria para um outro papo, porque a gente vai entrar na coisa da filosofia. A filosofia que a gente vai além. Pelo que eu estou entendendo, o budismo não é uma filosofia. O budismo é uma religião.
Isso é outra coisa, que eu adoro quando as pessoas falam assim. Não, mas o budismo é uma filosofia. Primeiro que eu acho que quem fala que é só uma filosofia é o cara que tem um cagaço de sair da própria religião.
Ah, a galera do Gratiluz.
Eu vou falar que é filosofia porque eu não vou seguir o budismo, eu não vou me converter ao budismo, mas eu acho legal pra caramba. Mas não vou porque eu morro de medo de Deus vir aqui e me dar um raio na testa. Mas é legal, então é uma filosofia. Se eu chamar de filosofia, eu posso incorporar essas coisas na minha vida sem romper ou criar um pecado, alguma coisa assim. Fato.
É uma filosofia muçulmana.
Esse é o tipo de afirmação que não sobrevive à primeira pergunta depois dela, que é, qual filosofia? Eu costumo perguntar, você está falando de Yogachara ou de Madhyamika? Como assim? Não, são os dois ramos filosóficos do budismo. É Yogachara e Madhyamika. Qual das duas você está se referindo? Não, não, eu estou me referindo ao jeito de ser, ao dia a dia, de querer o bem das pessoas, de fazer o bem, de praticar o bem, de ficar calmo, tranquilo, não sei o que. Eu falo, a sua religião diz alguma coisa diferente disso?
Toda religião prega isso, né?
Então, filho, pra que você vai mudar de religião? Sério mesmo. O que eu acho que as pessoas têm que fazer é conhecer a própria religião. Não conhecer a instituição religião, mas conhecer a filosofia da sua religião. Todo o arcabouço que constrói uma religião. Isso é o mais importante. O Dalai Lama costuma dizer o seguinte, olha, o mundo não precisa de mais budistas. Precisa de mais budas. Ou seja, precisa de mais gente iluminada. Lembra aquele cara iluminado que gera só coisas boas quando faz, que não gera coisas negativas? O Dalai Lama fala, é isso que eu preciso do mundo.
Sim.
Então é o seguinte, fique com a sua religião, entenda a sua religião, estude a sua religião, vá a fundo nela, entendeu? E aí você decide o que você quer fazer da sua vida. Porque o budismo, em termos filosóficos, é muito complexo, é muito pesado, é muito complexo. Entendeu? Então, se você quer dizer que o budismo é filosofia, você tem que estudar e estudar muito. Agora, uma religião é uma filosofia na prática. Então, você tem uma prática budista, você tem ritos, você tem rituais, você tem crenças, você tem valores, você tem base. Então, sim, o budismo é uma religião. O problema é que você associa uma religião a um demiurgo. Ah, uma religião tem que ter um Deus, tem que ter alguma representação super divina. Não tem. Não tem. Aí vem aquele negócio lá de religião. Ah, religião é religare. Outra estupidez também. Outro achismo, gente. Religião não está conectada a religare. Não sei quem inventou esse negócio, mas religião vem em religios. Mesma coisa em relógio. Religios quer dizer tradição. algo que você faz por tradição repetitiva.
Por tradição... Sim, sim, sim, hábitos... São.
Os hábitos, são as práticas, entendeu? Então isso foi definido por um filósofo chamado Macróbio, já no primeiro século...
Não, tudo bem, a gente estava no negócio do cabelo, a gente estava nesse lugar...
Mas aí a roupa, a roupa, você falou da roupa, só para finalizar, essa é uma roupa assim, toda vez que eu vou falar sobre o Dharma, sobre o Budismo, a gente coloca essa roupa para um respeito a todos. Não é para uma imposição, mas é uma roupa sagrada, é uma roupa que nos remete à época do Buda. Então assim, quando eu visto essa roupa, é uma grande recordação pra mim do meu compromisso e da minha responsabilidade em estar aqui falando sobre o Budismo.
Mas você anda normal, você põe uma roupa, as pessoas acreditam... Tem uma camisa aqui... As pessoas imaginam que os monges...
Calça jeans?
Tênis? Mil Balance, maluco! As pessoas imaginam que o monge...
Relógio Garmin?
Correto. As pessoas imaginam que o monge anda de chinelo a vida inteira... Essa coisa...
É, que isso era eu.
Eu mesmo tenho esse estereótipo do monge. Mas eu pergunto, existe monge com um hamburguine?
São coisas diferentes.
O monge tem esse voto de pobreza?
Não. Primeiro que o Buda nunca disse que a gente não podia ter dinheiro. Aliás, ao contrário. Houveram sempre grandes nobres, grandes aristocratas que foram os patrocinadores do budismo. Mesmo na época do Buda. Na época do Buda, você tinha grandes patrocinadores do budismo, que eram pessoas abastadas. O que a gente fala é o seguinte, você está trabalhando, você ajuda as pessoas, você tem compaixão, você não tem, altruísta, você não tem problema nenhum em ter posses. O problema é quando você faz isso de uma maneira avarenta, quando você faz isso na ilegalidade, quando isso é fruto de um crime, ou isso é fruto, ou você tendo isso, você não olha para o outro com compaixão. Isso é pior do que você...
Mas existe caridade budista? Eu vejo que o cristianismo é baseado muito em caridade.
Não, é uma demanda nossa. Não é uma coisa... O assistencialismo, a caridade, as boas obras, não é uma coisa assim, ah, vou ser obrigado a fazer. Mas quando você fala em compaixão, essa ajuda já está inerente ao seu sentimento de compaixão.
Não necessariamente financeira.
De todos os aspectos, moral, emocional, financeira. Então o cara pode ter um novo.
Tênis, não tem nenhum problema. Nossa, aquele ali... Porque muita gente olha para um religioso e às vezes julga através disso.
O cara tem um carrão... São duas coisas diferentes. Uma coisa é um religioso, que no meu caso eu trabalho, eu não sou só monge, eu tenho um trabalho secular.
O que você faz?
Eu trabalho numa empresa de tecnologia.
Maravilhoso isso.
Você imaginava essa, Marcão?
Tecnologia, TI.
E trabalho com vendas, então é bom. Mas se eu tenho as coisas que eu tenho é porque eu construí. Eu ganhei, eu construí e tal. Agora, quando você faz isso, você chega numa ostentação, você chega numa posição onde você está usando o dinheiro que as pessoas doam para a tua igreja para você ter as coisas, Ah, é estelionato. É estelionato espiritual até, entendeu? São coisas diferentes.
O pior ladrão é o cara que rouba pra criancinha e dá pra... Aí.
É uma coisa que não tem nada a ver. Aí é um negócio completamente... Ah, o cara tá lá, poxa... O cara tá lá dirigindo tal carro, não sei o quê, viaja pros EUA de férias... Tá bom, o dinheiro é dele? É, ele ganhou de forma lícita. Beleza. Agora não, ele tá usando isso porque ele comprou um apartamento usando a doação que os caras deram pra igreja. Filhão, aí é outro papo.
Eu acho que você falou um negócio da filosofia, que a gente tava falando, eu acho que tem muito a ver com essa coisa do animal. Eu acho que o primeiro achismo relacionado ao budismo, na minha opinião, não sei aí do Marcão, do pessoal e da equipe, é aquela coisa assim, ah, você reencarna em cachorro, você reencarna, o budista acredita em tanto que você falou que tem as camadas, os reinos, que tem o cachorro e tal. Vamos lá, essa questão dos animais. Os animais, eles podem ter sido realmente uma outra vida no passado. O meu cachorro, quando ele olha pra mim, ele tem alguma relação? O que vocês acreditam? Tipo, ele sabe quem eu sou?
Muita gente olha e fala assim, poxa, o cachorro tá tão bem comigo, então é o meu avô que tá reencarnado no cachorro.
Às vezes o meu avô aparece.
O cachorro caramelo acho que é meu avô. Eu tenho uma tia que uma vez perdeu a cadela dela e um mês depois encontrou um cachorro na rua e falou que era a reencarnação da cadela dela. Só que eu olhei e falei, mas essa cadela deve ter uns seis anos. É uma reencarnação tardia. Você falou do Neon, a Matrix baixou o software. Ah, baixou agora a alma da coisa. Pô, nada a ver. Então as pessoas confundem muito esse negócio do renascimento com o ponto de vista da afeição. Eu gosto muito de cachorro, sempre tive e tal. Normalmente você tem uma afinidade, são pets que criam uma afinidade com você. Se aquilo foi um parente seu, alguém que você relacionou no passado, você nunca vai saber, cara. Nunca vai saber, não tem como saber. Você não vai fazer a mínima ideia do que se é ou não. Então assim, é possível, é. Mas cara, primeiro que isso não é importante. Segundo que não tem como saber.
Mas é maravilhoso você imaginar que o meu cachorro foi Napoleão. Isso é maravilhoso, eu tô alimentando o Napoleão. Hitler é um gato. Pode ir por esse caminho também, certo? Tudo é uma reencarnação.
Esse é um outro achismo horrível porque você vê o seguinte, as pessoas se preocupam muito com quem foram. O que tem isso a ver com a sua vida hoje? Ah, eu fui o... Bom, como eu te disse antes, né? Todo mundo foi Marco Antônio e Cleópatra. Ninguém foi o escravo que limpava a bunda do Marco Antônio, né?
Todo mundo foi pica. O cara foi pica até... Era tudo.
Pica das galáxias, né? O cara lá, o coitado do... Coitado do escudeiro lá de... O cara que escovava o cavalo e tirava a bosta do cavalo Napoleão. Ninguém nunca quer ser, né? Cara, o que que isso influencia a tua vida? O que que isso influencia a tua vida? Ah, eu fui um médico no passado? Pô, eu fui um assassino no ano passado. Você é um assassino hoje?
Não.
Cara, o máximo que isso pode te ajudar é entender as coisas que você passa hoje, irmão. Quer dizer, pô, por que isso acontece comigo? Cara, aconteceu comigo você hoje porque você fez uma pronta alguma no passado. Agora, tem como você resolver isso? Não tem. Não tem. Você já tem lá a contabilidade, tá lá no seu livro de contabilidade kármico, é o seguinte, você já fez isso, a consequência é essa.
Então não faz mais merda, pra você não se ferrar na próxima.
Mas você vai fazer. Você vai fazer. E esse é outro ponto, você vai fazer merda. Cara, por que você almoçou ontem?
Ontem eu comi mal.
O que você comeu?
Eu comi uma lasanha.
O que você comeu domingo na janta?
Domingo? Se eu falar lasanha de novo, vai pegar muito mal. Mas foi... Não, domingo eu comi salada à noite.
O que você comeu em 12 de março de 2015?
Não faço ideia.
Então, cara, esse negócio de você fazer o bem, o bem, o bem para compensar o mal que você fez é ridículo também. Porque você sabe o que você fez de mal ontem, mas você não sabe o que você fez de mal dia 11 de setembro de 2019.
Eu vou te corrigir. Eu não sei nem o que eu fiz de mal ontem, porque às vezes eu fiz algo achando que foi bom e não foi.
Porque foi bom e não foi.
E foi mal. Às vezes o motorista do Uber está putaço comigo porque eu falei alguma coisa.
Então, cara, é exatamente isso. E às vezes você criou um mal-estar para alguma pessoa que você não teve essa intenção também. Então esse negócio de livrinho de contabilidade do bem versus o mal não funciona. Então é o seguinte, o que você tem que fazer? Você tem que se desenvolver de tal maneira que isso seja uma... Primeiro que você tem que ter um reconhecimento. O budismo não prega que você tem que ser o cara, aquele bicho preguiça, em coma, falando devagarzinho. Não, cara. O budismo diz o seguinte, te conhece primeiro. Descobre quem você é.
Suas sombras, seus medos, suas ansiedades, seus demônios, suas partes boas.
Quem é você? E aí você se aceita. Aí, a partir da hora que você se aceitou, minha grande pergunta é, já que você se aceitou, você quer mudar? E quais são os motivos da mudança? São os mesmos que você tinha antes de se aceitar? Esse é a grande coisa do budismo, cara. Não é um negócio pra você sentar lá e fazer assim, você se tornar a pessoa iluminada e a mais benéfica do mundo. Não! É você reconhecer que você faz um monte de cagada. E já faz cagada pra caramba, entendeu? E olhar pra trás e falar assim, fiz cagada. Ou você acabar de fazer e falar assim, puta, fiz cagada.
Preciso consertar, melhorar isso.
Não é você achar que você tá sempre fazendo o bem. Esse negócio de você achar que você tá sempre fazendo o bem é materialismo espiritual. E geralmente quando as pessoas abraçam uma crença nova... Ah, isso é muito típico do budismo, cara. Às vezes você recebe aluno lá novo, o cara vira o Buda. Por duas semanas.
Porque não segura, né?
Depois ele bota, porque não tem base.
Cara, eu vou falar pra você, porque me dá a impressão que o budismo é uma das religiões mais humanas.
É humana.
Que entende a humanidade, porque a gente é passivo o tempo todo de cometer erros de acordo com... Por exemplo, eu tava falando aqui com a tua enteada. sua filha aqui, no caso a Luísa. Luísa tem 14 anos e está assistindo aqui. É muito interessante que talvez, para ela, o que eu acho que é certo é errado, porque ela é uma geração diferente da minha. Então, para ela, eu sou cancelável. Para o outro, eu sou a melhor pessoa do mundo. Para minha mãe, eu sou incrível. Então, não existe um padrão. Por isso você tem que se entender. Eu sou desse jeito, eu preciso melhorar nisso, isso daqui está me atrapalhando. Isso é interessante. Agora, falando de reencarnação, que eu acho que é um assunto muito interessante. Você acha que existe, por exemplo, Às vezes eu vejo o cara com 15 anos de idade faz um crime e fica preso 50 anos. Era para isso acontecer? É um ensinamento para ele voltar depois melhor? Tem alguma coisa?
Vai depender muito de como ele vai encarar isso, porque você tem outras influências kármicas que vão fazer com que ele tire uma lição disso ou não. Você tem pessoas, até vi aí até uma publicação do Barack Obama falando de um preso que ele deu perdão para ele e o cara se tornou advogado agora e tal, ele até escreveu sobre o cara e o cara está defendendo outros presos, quer dizer, um cara se reformou. Sim. Ao mesmo tempo que por outro lado você vê uma notícia de um cara que saiu numa saída de Natal e cometeu exatamente o mesmo crime que ele estava lá.
Como é que um foi e outro não?
Isso é uma relação kármica. Quer dizer, esse cara que teve as influências kármicas e a ação também... Cara, a vida também é o seguinte, você não pode dizer que a tua vida é toda regida por karma. O karma ele vai te dando as bases, mas você tem a sua ação, você tem a sua maneira de interferir também.
Livre-arbítrio?
Nós não temos livre-arbítrio, né? Porque livre-arbítrio seria assim, você pode fazer o que você quiser, mas você tem as guias do karma que você não pode fazer tudo o que você quer. Você tá limitado. Então esse negócio de livre-abrido também é meio... no budismo você não tem muito essa visão de livre-abrido.
O cara falou, ó, temos regras, mas faz se quiser.
Bom, então não tem regra, né? Tipo, você pode jogar futebol como quiser, mas não pode fazer gol de mão. Eu tô lendo um livro agora que chama Sem Esforço, um livro muito interessante. Tudo em branco. É, tudo em branco. sem esforço, do Greg McKeown. E ele fala sobre, ele conta um caso ali sobre um cara que sofre um acidente de carro e perde quatro filhos no acidente de carro e a esposa, né? Sobra um filho. E ele comenta ali, o cara é amigo dele, ele comenta ali, olha, naquele momento no hospital ele podia tomar duas decisões na vida dele. Uma, entrar numa comiseração eterna e sentir raiva e sentir desespero e tudo isso, ou fazer o que ele fez, que ele decidiu que ele ia ser o melhor pai do mundo pro filho que sobreviveu e que ia combater que aquilo nunca mais acontecesse. Cara, essas duas coisas aqui foi o karma que deu pra ele, mas essa escolha é dele. Entendeu? que foi levada por outras formações mentais e outras maneiras de pensar. Então é a mesma coisa nessa situação. Você não pode por culpa tudo no karma. Vai acontecer merda na tua vida? Vai acontecer merda na tua vida. Agora, como é que você olha pra ela e fala assim, o que eu vou fazer com isso é que faz uma grande diferença.
Isso é maravilhoso. E em cima desse assunto, que eu acho que é... que é importante para as pessoas. Nessa coisa comportamental de vocês, existe casamento budista? Vocês casam? O sexo para vocês tem uma coisa energética diferente do que é para o cristão?
Isso é outra coisa. É outra coisa também. Axista. É você ter essa visão de sexo tântrico. Bom, vamos lá. Casamento. Sim, nós casamos. Os monges japoneses casam, são livres para casar. Eu sou casado. Mas você tem monges que moram em monastérios, em algumas escolas, não podem casar.
Ele se dedica.
Tem uma parte de dedicação, tem uma parte econômica também. Senão você ia ter famílias e famílias e famílias dentro de monastérios e tudo isso. Então assim, se você está no monastério, o período que você está no monastério...
É para o monastério.
É o monastério. Você já foi para o monastério? Já, eu já fiz alguns retiros nos nossos templos lá no Japão.
Você já foi para o Japão, para Kioto?
Sim, eu fui ordenado em Kioto. Nossa escola, você precisa ser ordenado em Kioto.
Eu fui para lá... Ah, você foi?
Fui pra Kyoto. É demais, né?
Puta, tem muito templo.
Tem templo dentro do shopping.
É verdade, cara. Templo tudo que é lugar, assim.
E cemitério e templo em qualquer lugar. Achei incrível.
E é uma outra energia, assim, da coisa toda.
Tá, e aí a gente casa. Sexo, óbvio, não é tabu nenhum. Não é tabu nenhum. O nosso foco é o seguinte. Não gere sofrimento. Então, quer dizer, não é tabu? Sim. Ah, mas você pode transar com... Não, filhão. Qual é a medida? Você vai gerar sofrimento pra você ou pro outro? Primeiro pro outro. Então, não bom.
Sofrimento você diz em relação a qualquer coisa?
Qualquer coisa. Se o ato sexual vai gerar um sofrimento... Uma dor pra uma pessoa. O que você quer dizer? Estupro? Out. Pedofilia? Out. Ah, sim. Psicologia? Out. Então, assim.
Sexo anal dependendo? Out.
Depende se doer, se for uma coisa desfrazerosa pro teu companheiro ou companheira.
Ah, tô falando com um monge de sexo anal, maluco. Isso é o melhor programa do Brasil. Onde é que eu vou?
O tabu acabou.
Mas é isso mesmo.
Se tiver, você vai ter o companheiro ou companheira não gosta, você vai forçar. Aí estupro. Aí não. Proibido. Entendeu? É o seguinte, como é a nossa base? Ah, o Buda falou alguma coisa sobre sexo? Não, filho. Se você olhar lá no Sutra, lá no... Não, não tem nada falando sobre homossexualidade.
O sutra que você está falando é o Kama Sutra? Também tem a ver com isso daí?
Na verdade o sutra é um compêndio de textos. O Kama Sutra é um sutra sobre sexo. Não tem nada a ver com o budismo. Na verdade é indiana. Então nos sutras não tem nada a falar. Mas aí o que você vai? Você vai para as bases. Então qual é a base que fala? Sofrimento. Acabar com o sofrimento. Não gere sofrimento. É uma das bases do budismo. Ótimo. Então o relacionamento em si, o ato sexual em si não pode gerar sofrimento. Ah, mas o cara não pode ser sadomasoquista? Filho, o cara gosta.
E o outro também consentiu.
O outro também consentiu. Tá, prazer, pô, abraço.
Existe monge sadomasoquista?
Sei lá onde tem sadomasoquista.
Pode ter, pode ter.
Não é nem questão do monge, eu tô falando sobre a visão do budismo em geral. Por exemplo, se você achar o seguinte, ah, um monge budista pode fazer um casamento de um trisal? Teoricamente pode.
Se os pais estão felizes?
Nada contra.
Legal pra caramba.
Logo, um casamento homoafetivo, super bem-vindo. Sem problema, sem problema nenhum.
Isso é uma coisa que eu até ia perguntar. Por exemplo, a gente vê que o cristianismo, que eu acho que é a religião mais presente aqui no Brasil, tem aquela coisa do Novo Testamento, Velho Testamento. Vocês têm uma repaginada do que foi escrito por Buda?
Isso aqui é engraçado. A gente volta lá sempre do escrito original e ainda faz tanto sentido, cara, tanto sentido. que não tem, não tem uma reinterpretação. Ah, não, o Buda quis dizer isso, tal, não sei o quê. É que a gente encara a coisa. O Buda lá diz também, às vezes ele começa lá o Sutra, né? Não, porque estava aqui fulano de tal, não sei quantos monges e tal, aí estava aqui o ser iluminado tal, o ser iluminado não sei o quê, porque ele via esses seres todos, né? Aí você olha assim e fala, ai o Buda não falou que existem outros seres. Tá, existe, e daí? E daí? Ah, o Buda falava que existem outros universos além desse, que existem Budas em outros universos, em outros planos.
Tá, mas é metáfora também, né?
Não, mas se não for... Também é. O que isso tem a ver com você? O que isso impacta no seu desenvolvimento?
Maravilhoso.
O que isso impacta na sua capacidade de ter compaixão, de aliviar o sofrimento? Ah, tem um Buda lá, não sei aonde. E daí, filho?
Eu acho que talvez a única mudança tenha sido o negócio da suástica, porque a suástica era um símbolo budista, certo?
Quando a gente tem umas coisas que tem suástica.
Então, me explica exatamente assim, é porque a Swastika era um símbolo budista?
É?
É ainda?
Ainda é um símbolo budista. Nossos templos tem Swastika, tem coisa.
Mas é a mesma Swastika usada pelo...
Não, é uma Swastika original, vamos assim dizer. E o símbolo é um símbolo de prosperidade, é um símbolo de... de união, de prosperidade, não tem nada a ver com o símbolo.
Quando os nazistas utilizaram a Swastika, como é que foi para vocês? Porque hoje parece que o símbolo está mais forte desse lado negativo.
Está muito mais forte. É uma pena, porque é uma coisa que você olha as estátuas antigas, até algumas coisas das nossas roupas, você tem a referência a isso. É engraçado que no Ocidente, no Oriente, não se faz muito essa associação, praticamente não se faz essa associação da Swastika com o nazismo, praticamente isso é esquece, é ignorado. A Swastika é um símbolo budista e hindu também. Então, até pouco tempo atrás, se você olhasse o Google Maps, por exemplo, quando você olhava os templos budistas no Japão, tinha uma Swastika em cima dele para dizer que aquilo era um templo budista. Aí dos anos pra cá pediram pra trocar, tudo bem, e agora tem outra coisa.
Como é que funciona isso? Porque o nazismo é uma coisa recente.
Sim, mas é um negócio... Ninguém pode dizer que o budismo está alinhado com o nazismo por causa de um símbolo. Esquece, nada a ver, entendeu? Porque é uma coisa muito mais antiga. Infelizmente, por causa disso, se destruiu um símbolo.
O marketing do nazismo foi melhor do.
Que o marketing... Se destruir um símbolo budista importante, que era importante pra nós, se destruiu e a gente evita usar, mas termina ainda tem algumas coisas que aparecem.
Mas ele tem uma representação do tipo assim, puta, tiraram da gente a cruz. É meio isso pra vocês?
Não, também não é tão assim.
Entendi.
Digamos, a gente é muito tranquilo, entendeu? Ah, não vai usar. Ah, tá bom, usa. Mas de vez em quando tem na roupa. Aparece uma estátua lá com isso, tem? Tem. Agora... que ninguém se sinta ofendido por ver lá, porque não tem nada a ver, aquilo é um símbolo totalmente diferente. É a mesma coisa alguém, algum radical, olhar pro arco-íris que forma depois da chuva e falar isso é uma coisa do imperialismo LGBT, que é um absurdo, entendeu?
O arco-íris surgiu antes do LGBT. É verdade.
Que bom que se usa o arco-íris, que bom, uma coisa incrível de união tudo no movimento LGBT, que legal. Mas nenhum radical conservador babaca pode chegar lá e falar assim, eu não vou... Não quero mais que chova pra não formar um arco-íris, entendeu? Vou combater a chuva, a chuva... A chuva é da esquerda, né?
Eu quero falar agora, eu acho que é... Você falou de Dalai Lama, né? Dalai Lama seria o papa de vocês?
Não. O Dalai Lama é só o mais conhecido, né? Acontece que cada escola budista tem o seu líder. Teria o seu Dalai Lama, vamos assim dizer. O Dalai Lama, ele é o líder de uma das quatro escolas budistas tibetanas, chamado Gelupa. E por uma decisão entre essas quatro escolas, ele era o líder também governamental e político do Tibete. Só que ele não tem uma representatividade nas outras escolas budistas. A nossa escola, por exemplo, a gente tem o nosso, que a gente chama de Monshu. Ele tem o nosso, ele não tem nada a ver com Dalai Lama, tem relações de amizade, mas cada escola... O Zen Budismo, por exemplo, que é uma outra escola, a Escola Soto Zen, ela tem o deles. Nós temos o nosso, o Shingon Shun tem o dele.
Cada um tem um Dalai Lama. Esse da Lailama que a gente vê aí, esse aí que todo mundo... Tem zingatos. O que tá famoso aí, o que tem Instagram com arrasta. Esse daí, por que que ele se tornou famoso e os outros não tanto?
Ah, eu acho que foi importante ele se tornar famoso pra sobreviver. Eu acho que se ele não tivesse esse... Primeiro, para ele sobreviver e o povo tibetano sobreviver também. Eu acho que se ele não tivesse esse projetado internacionalmente, ser conhecido da maneira que ele foi, além de ser um ser humano espetacular, Eu acho que o povo tibetano teria sofrido muito mais. Já sofreu demasiado. Milhões de monges foram mortos com a invasão chinesa. Praticamente o Tibete virou um ponto turístico. Mas se ele não tivesse feito isso, acho que talvez ele teria morrido e muito mais tibetano teria sofrido com a invasão.
Mas qual é a história dele?
O que aconteceu com ele é que ele era o Dalai Lama, ele era o líder do Tibete na época da invasão da Revolução Chinesa. E foi aí que a China... Havia um acordo de cavalheiros entre os líderes do Tibete e os líderes chineses, da época dos impérios chineses, de que aquele era um território autônomo, embora inserido na China. teria suas próprias regras de governo e os imperadores chineses sempre deixaram tranquilo aquilo lá, até porque a maioria dos imperadores chineses eram budistas e, claro, tinham respeito com aquela comunidade. Com a Revolução Chinesa, e como aquilo era um polo religioso praticamente, e a necessidade de extinção das religiões dentro do território chinês.





