ITF Grandes Entrevistas com Ana Paula Assis: o que a IBM busca com a nova NewCo?

Nesta entrevista da série ITF Grandes Entrevistas, a diretora geral de Transição de Clientes da IBM, Ana Paula Assis, explica a estratégia por trás da criação da NewCo (também chamada Nilco), a spin‑off da unidade de serviços de gestão de infraestrutura da IBM. Ela descreve como a aquisição da Red Hat e a plataforma OpenShift sustentam a visão da IBM de "cloud híbrida aberta", permitindo que clientes desenvolvam aplicações em containers que podem rodar tanto em data centers próprios quanto em nuvens públicas. O spin‑off tem como objetivo dar foco e independência a duas empresas: a IBM, concentrada em tecnologia e desenvolvimento de aplicações, e a NewCo, focada em serviços de infraestrutura, com previsão de receita de US$ 19 bilhões, cerca de 90 mil funcionários em mais de 100 países e mais de 4 mil clientes, muitos da Fortune 500. Ana Paula detalha o plano de transição dos contratos de serviços gerenciados para a NewCo, previsto para final de 2021, e garante que a entrega continuará sem interrupções. Ela também comenta o impacto da pandemia, que acelerou a adoção de cloud, inteligência artificial (Watson) e cibersegurança, e destaca três pilares de demanda: IA para engajamento, consumo de cloud e segurança de dados. A entrevista inclui ainda uma retrospectiva da carreira de Ana Paula na IBM – quase 27 anos, passando por divisões de software, serviços e comercial, com experiências internacionais na China e nos EUA – e suas reflexões sobre liderança humanizada, empatia, saúde mental e inclusão como requisitos essenciais para o futuro das organizações.
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Ana, era meados de outubro quando o mercado passou a anunciar uma nova grande responsabilidade na sua carreira, que também é de encontro a outro grande anúncio da IBM, que foi de dividir a empresa, né? Até então você assumia como General Manager da IBM para a América Latina e passou então ao cargo de General Manager de Transição de Clientes da IBM, só que agora global, né? E nessa nova divisão. A gente sabe que é um grande capítulo na história da IBM e também na sua carreira, né? Enfim, qual que é a grande missão aqui dessa nova companhia, NewCo, e quais serão os próximos passos e desafios tanto para IBM quanto para você na liderança?
Legal, Carla. Bom, primeiro eu queria reforçar que eu vou continuar, eu continuo na IBM, então eu tô fazendo um projeto realmente para ajudar nessa transição dos clientes para a nova empresa. E esse anúncio é um anúncio que reforça a estratégia que a IBM começou a delinear mais fortemente há 2 anos, quando a gente tomou uma decisão importante, que foi adquirir a Red Hat por US$34 bilhões e nos posicionarmos com um portfólio muito mais preparado para capturar a grande oportunidade que nós enxergamos, que é a oportunidade da cloud híbrida, da cloud híbrida aberta. A posição da IBM é de que realmente para as corporações, para as empresas que atuam principalmente em mercados altamente regulados, a cloud híbrida é a solução mais adequada, porque ela dá ao mesmo tempo os benefícios da flexibilidade, da agilidade, do tempo de resposta rápido às necessidades do mercado, mas também um melhor nível de controle para os clientes e maior possibilidade de escolha. Então, na nossa visão, o cliente pode desenvolver uma aplicação uma vez utilizando um conceito de container, né, que é viabilizado pelo OpenShift, que é a plataforma da Red Hat que realmente atraiu a nossa atenção quando a gente fez a aquisição. E uma vez que essa aplicação é desenvolvida dentro dessa arquitetura, ela pode ser executada no ambiente em que o cliente quiser Seja dentro do seu próprio data center, seja em uma nuvem pública da escolha do cliente. Então essa flexibilidade alinhada com melhor controle das aplicações é o que a gente enxerga como grande benefício da cloud aberta híbrida para os clientes. E a decisão de separar a nossa unidade de serviços de gestão de infraestrutura vem com o objetivo de trazer maior foco para essas duas empresas, a IBM, que vai continuar focada em tecnologia, em serviço de desenvolvimento de aplicação, e a Milko, que vai estar focada nos serviços de gestão de infraestrutura. As empresas altamente posicionadas nos seus nichos de mercado e, com isso, melhor preparadas para atrair capital e investimento que vai ajudar com seus objetivos estratégicos. No caso da IBM, avançar no investimento no nosso portfólio de tecnologia E no caso da Nilco, investimentos que permitam aumentar a eficiência e a capacidade de entrega de serviços da empresa e inovar também, ajudando os clientes a fazer o seu processo de transformação digital.
Então, no fundo, o que a gente está fazendo é criar realmente duas grandes empresas que vão ser líderes nos seus segmentos para ajudar os nossos clientes de uma maneira melhor, de uma maneira mais estruturada a fazerem os seus processos de transformação digital.
De certa forma, então, a New Call surge porque ela vem atender também uma demanda reprimida do mercado que vocês enxergaram, de certa forma, com essas ferramentas.
Exatamente. E fazer isso de uma maneira mais focada, né? Ou seja, ela passa realmente a ter um posicionamento mais independente, né? Essa vai ser uma empresa totalmente independente. Com um board, né, com um conselho definido, com um CEO definido, vai ter suas próprias ações negociadas na bolsa. Então realmente é um spin-off completo, mas uma empresa que vai estar atuando no mercado muito bem definido e que isso também vai dar para ela, né, a liberdade de fazer parcerias, de estabelecer novos relacionamentos que vão dar para os nossos clientes também o maior poder maior poder de escolha, né? Então todo mundo ganha, né? Pelo lado da IBM, a gente consegue estruturar o nosso modelo de negócios para estar mais focado. E para o lado do cliente, ele ganha duas empresas muito bem preparadas para ajudá-los nesse processo de transformação, e empresas que vão estar muito mais independentes para estabelecer as parcerias que são fundamentais para entregar uma proposta de valor completa para os clientes.
É isso que eu ia te perguntar, Ana, porque assim, do ponto de vista para clientes, né, e vocês têm essa liderança de transição, né, de clientes a nível global, muda alguma coisa em termos para aqueles que já são clientes da IBM Global, enfim, IBM Brasil, América Latina?
É, o que vai mudar, aqueles clientes hoje que têm um contrato de serviços gerenciados por essa unidade, né, que é a unidade de de serviços de infraestrutura da IBM, esses clientes vão ter os seus contratos movidos para essa nova empresa.
O plano de transição é um plano que prevê aí realmente o spin-off acontecendo no final de 2021. Então nós vamos trabalhar de uma maneira muito diligente com os nossos clientes nesse processo de transição. E durante essa transição a gente está reforçando ainda mais o nosso time de entrega para que não haja nenhum tipo de interrupção ou qualquer tipo de problema na gestão desses serviços, que a gente continue entregando aquilo que a gente tem comprometido com os nossos clientes. E nós vamos conduzir então os clientes para essa nova empresa que vai ser criada com todo o respaldo e toda a capacidade de seguir atendendo os compromissos de entrega e as garantias que a IBM hoje disponibiliza nos seus contratos com esses clientes.
Esses clientes que têm esses contratos vão se mover para a nova empresa, vão continuar sendo certamente importantes clientes da IBM também.
Então nós vamos ter aí uma relação e um atendimento a esses clientes duplo, pelo lado da IBM e pelo lado da Nilco. E as duas empresas vão continuar sendo, apesar de totalmente independentes, vão continuar sendo importantes parceiras de negócio no mercado e certamente vão continuar tendo um trabalho conjunto com o objetivo final que é atender às necessidades dos nossos clientes.
Muito bacana, foi um anúncio que impactou de fato o mercado, eu lembro, em outubro.
Exatamente, foi um dos maiores anúncios da IBM assim na sua história, um anúncio muito estratégico.
Como todos sabem, na década de 90 a IBM fez uma transição muito grande, né, de sair de uma empresa de hardware para uma empresa de serviços.
Então é um pivot muito importante esse que a gente está fazendo agora, mas certamente a prioridade e o aspecto que realmente nos motivou a fazer essa grande transição é atender e servir melhor as necessidades do mercado hoje. O mercado realmente mudou a forma como ele compra aplicação e como ele compra infraestrutura.
E há que se reconhecer que a pandemia, que essa crise sanitária que a gente viveu, acabou acelerando muito os projetos de transformação digital dos nossos clientes. Aquilo que a gente esperava que fosse levar 3, 5, 6 anos está acontecendo em 18 meses, 2 anos. Então a gente precisa realmente se adaptar a essa nova aceleração digital.
E sobre a aceleração digital, Ana, a gente sabe que de fato se fala de 10 anos em 3 meses, né? Esses grandes saltos da pandemia, para manter a continuidade dos negócios e de fato a tecnologia foi a resposta, né? Mas para além dessa roda girar e tudo mais, vocês veem de fato grandes saltos de inovação por parte dos clientes, né? E como que a IBM também se posiciona de forma estratégica como parceira para guiar essa nova geração de inovações, né?
Para te dar um dado, né? A nossa plataforma Watson que é a nossa plataforma de inteligência artificial, viu o consumo dobrar entre fevereiro e maio em relação ao mesmo período do ano passado. Então já era uma plataforma que crescia em altos dígitos, duplos dígitos, mas a gente viu realmente um aumento explosivo durante a pandemia. E basicamente o que as empresas estão buscando é melhorar o tempo de resposta para o cliente, aumentar o engajamento, né? Existem estatísticas que mostram, por exemplo, que um atendimento por um assistente virtual, ele tem um nível de retenção da ordem de 95%, né? Que é você atender o chamado sem ter que voltar novamente o pedido para um ser humano interagir com o cliente. Então isso te dá eficiência, isso te dá agilidade, isso te dá melhor tempo de resposta, permite inovação, né? Porque a partir daí você consegue, através dos dados de toda essa interação que você tem com o cliente, entender melhor as necessidades, treinar melhor a máquina, treinar melhor o algoritmo. Então, no fundo, o que a gente viu foi um grande aumento nesse tipo de plataforma, plataforma de utilização da inteligência artificial para melhorar o engajamento com o cliente. Um aumento muito grande no consumo de cloud, com os clientes ou transformando as aplicações que eles possuem ou realmente criando novas aplicações para atender a novas demandas, a novas oportunidades que surgiram durante a pandemia. E por trás disso tudo, obviamente, a gente viu também uma demanda muito grande para os serviços e soluções de cybersecurity, porque tecnologia passou a ser realmente altamente demandada, pessoas trabalhando remotamente dentro de casa. Isso obviamente gerou uma maior exposição de risco para as empresas e certamente isso, combinado com a entrada da LGPD aqui no Brasil e em outros mercados cada vez mais se tornando conscientes sobre a necessidade da privacidade dos dados, gerou realmente uma demanda muito grande aí na parte de cybersecurity. Então acho que esses são os 3 grandes pilares Eles estão totalmente alinhados com um conceito que eu acho que passou a ser muito falado durante a pandemia, que é a questão da resiliência, ou seja, você conseguir realmente responder a eventos não planejados, a situações de crise. E eu acredito que cada vez mais as empresas vão realmente ter que se preparar para essas situações, porque a gente vive num mundo muito instável, muito incerto. Cheio de imprevistos e as empresas têm que estar preparadas para responder e se adaptar muito rapidamente.
Com certeza. E falando, voltando a falar um pouquinho da NewCo, Ana, a NewCo, a gente falou, enfim, mas ela surge já com uma série de vantagens competitivas em relação ao mercado, né? Vocês têm números grandiosos já para NewCo, né? Então, falando um pouquinho mais de expectativa em relação à empresa, essa nova divisão, O que se espera também de impacto para a operação da IBM? Eu sei que existe a expectativa de também ser uma empresa aberta, né? Uma empresa pública. Se você pudesse falar um pouco de expectativas, essas grandes expectativas em relação à NewCo.
Sem dúvida. Bom, é uma empresa que já nasce com uma receita projetada de US$19 bilhões. Se a gente olhar exclusivamente o mercado de gestão de infraestrutura, é a líder absoluta do segmento. Aproximadamente 90 mil funcionários operando em mais de 100 países no mundo, mais de 4 mil clientes, uma grande parte deles clientes da Fortune 500. Então é realmente uma empresa que já começa muito grande, é uma mega startup, né? E sem dúvida uma empresa que já nasce muito estruturada em termos de infraestrutura. Em termos de competências, em termos de ferramentas e cada vez mais eu diria que o grande objetivo de se fazer o spin-off da NewCo é aumentar significativamente os investimentos que a gente já vinha fazendo nessa divisão em automação de serviços para que a gente possa entregar cada vez melhor, com custo menor e com menor nível de falha, com menor nível de de problemas de infraestrutura. Então, no fundo, é melhorar em todas as categorias, né? Tempo de resposta, disponibilidade, aumentar agilidade. E mais do que isso, né? Através das parcerias que a NewCo tem, seja com a própria IBM, que vai estabelecer, né? Seja com a própria IBM, seja com outros players de mercado, é uma empresa que vai estar totalmente preparada para atender com serviço de alta qualidade o processo de transformação que os clientes vão ter que fazer das suas aplicações, das suas arquiteturas para o ambiente de cloud, né? Então, sem dúvida, é um parceiro com os quais os clientes vão poder contar em robustez e em agilidade e inovação para fazer essa transição, que cada vez mais é o que vai garantir a vantagem competitiva para os clientes.
E Ana, eu queria falar um pouquinho sobre carreira e liderança. Você tem uma história super interessante na IBM, né? Você praticamente começou a sua carreira lá. Eu sei que você— aí você me corrige se eu estiver errada, mas eu sei que você fez Ciências da Computação pela Universidade Federal de Goiás, né? Tem mais de 20 anos de IBM, foi a primeira mulher a liderar a IBM na América Latina, né? E enfim, começou estagiando na multinacional, né? Quando você passa a revisar sua carreira, né, esses grandes desafios que você foi assumindo, eu sei que também você teve um período na China, né?
Sim.
Então quando você passa a revisar esses desafios, o que você tira também de grandes aprendizados para a Ana que foi crescendo enquanto profissional dentro de uma multinacional e também a Ana e num outro momento líder?
Olha, É engraçado, né, a gente fazer uma retrospectiva. São quase 25 anos, né, de empresa. Se eu adicionar o período de estágio, quase 27 anos. É bastante tempo, mas acho que 3 coisas para mim foram muito marcantes na IBM. Uma delas você citou, né, o fato de ter vivido na China, vivi também nos Estados Unidos. Então, primeiro, essa possibilidade de ter essa experiência internacional, experiência ampla que a companhia me deu a oportunidade de ter. Aprendi muito porque eu girei muito, né? Eu não fiquei exclusivamente em uma área da IBM. Eu passei pela divisão de software, eu passei pela divisão de serviços, eu tive responsabilidade comercial, né, por clientes por muito tempo. Então, uma carreira muito diversificada, apesar de ter ficado na mesma empresa todo o tempo. Eu diria para você que a cada 3 anos eu tive a oportunidade de fazer alguma coisa diferente na mesma empresa. E a IBM é uma empresa absolutamente dinâmica, né? Uma empresa que se transformou ao longo da sua história, uma empresa centenária, mas que passou por diversos momentos de transformação. E eu vejo como um privilégio ter podido acompanhar Todos esses momentos de transição, esses pontos de inflexão que a companhia foi dando ao longo da sua história. Quando eu entrei, o Gessner estava chegando na IBM fazendo uma grande revolução, que foi exatamente o que criou esse pivot da IBM de hardware para serviços. Depois, o San Palmisano, que criou todo o conceito de uma empresa globalmente integrada. A Ginni, que veio com toda essa visão de inteligência artificial, as novas tecnologias realmente que vão impulsionar o futuro e transformou de uma forma muito profunda a cultura da IBM para uma cultura mais ágil, para uma cultura cada vez mais focada no cliente como centro de tudo. E agora a chegada do Arvind, que é um executivo que passou por toda a sua carreira muito centrada na parte de desenvolvimento da IBM, de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Então é um super tecnólogo que tá dando um foco enorme para acelerar o posicionamento de liderança da IBM em plataformas e em tecnologia. Então são vários momentos de transição e é muito interessante você poder participar dessa história. E de uma certa maneira ter contribuído de alguma forma para essa transformação toda da companhia.
E quanto à liderança, a gente sabe que a liderança foi muito demandada esse ano, talvez mais do que nunca, por conta da questão da pandemia. Quando você também para para pensar sobre a sua liderança, sobre o seu estilo de liderança, você destacaria algum grande aprendizado de 2020 que você leva também para esse novo momento da sua carreira?
Esse ano foi o ano que marcou a liderança humanizada nas empresas. Eu acho que quem não entendeu que a gente tem que ser muito mais empático, que a gente tem que estar muito mais conectado com as pessoas e valorizar o potencial e a contribuição individual de cada funcionário da empresa, Essas empresas que não entenderam isso não têm lugar no futuro, com certeza. Eu acho que o que a gente aprendeu com essa pandemia é que as pessoas são totalmente a base de tudo e cabe realmente às empresas e a todas as lideranças ajustarem o seu modelo de negócio, o seu foco para cada vez mais reforçar o apoio aos funcionários em vários aspectos. No aspecto de educação, que é algo que a gente sempre deu muito foco aqui na IBM. Toda essa questão de saúde mental veio muito à tona. A necessidade realmente da gente criar ambientes de trabalho que sejam genuinamente inclusivos, que respeitem as necessidades individuais de cada profissional. Que permitam que as pessoas venham para o seu ambiente de trabalho como elas de fato são, realmente valorizar a autenticidade dos profissionais. Então eu acho que esses ambientes mais abertos, mais inclusivos, que tenham realmente a empatia como um valor genuíno, são as empresas que vão conseguir prosperar no futuro.
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