Gui Santos é o ÚNICO brasileiro na NBA | Conversa Com Bial | GNT

Gui Santos is the only Brazilian in the NBA, drafted 55th overall by the Golden State Warriors. He talks about his journey from Brasília, adding 15 kg of muscle, playing alongside Stephen Curry, and a 19-point game that showed what he could do.
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Aí meu pai começou a rezar só pra agradecer, só falou assim, tipo: "Pô, obrigado pela oportunidade que você tá dando pro meu filho" e tudo mais. Cara, dito e feito, acho que uns 2 minutos depois meu agente me liga: "Gui, a gente é brasileiro, vai pra frente da televisão, não sei o quê, o Golden State vai te selecionar na PIC 55." Até hoje eu me arrepio.
Gente, eu tô quase chorando aqui, rapaz!
Caraca!
Gui! "Four, three!" Que rima linda! É o que os narradores exclamam quando ele faz a bola de três. Você teve uma ótima temporada, hein, cara? Você sente que foi a temporada de se afirmar, de se firmar no time?
Cara, não de me firmar ainda, mas foi uma temporada de mostrar o que eu posso fazer lá. Não é tudo que eu posso fazer, com certeza eu posso fazer mais, mas eles viram que eu sou um cara que eles falam que é muito coachable, né? Tipo, o coach chega em mim e fala: "Você vai ter que fazer isso, isso e isso." Eu vou e faço exatamente o que ele pediu. E aos poucos você vai ganhando espaço, não tem jeito. Quando você entra em quadra e o pessoal vê que você quer mesmo, você tá lá jogando e dá raça, tendo tempo, qualquer bola que tá no chão pode não ter chance nenhuma de pegar, mas eu vou pular na bola porque até mesmo essa energia, só de você pular na bola, ter sacrificado o seu corpo, você já traz a torcida, você já vê os seus companheiros olhando e fala: "Ele tá fazendo isso, eu vou ter que fazer também." Então você já entrega uma coisinha a mais pro time ali.
Você é o mais jovem do time?
Um dos mais jovens, acho que eu sou o segundo mais jovem do time.
Cara, e você tem um cara lendário no banco, Steve Carell, é uma história linda, ele não só é o técnico da seleção americana, um grande técnico, como ele tem um anel para cada mão, para cada dedo da mão direita, que era a mão boa dele.
Ele tem 9 anéis ao todo, né? São 4 como técnico e 5 como jogador.
Daqui a pouco ele vai fazer os 10. Foram 3 pelo Bulls e 2 pelo...
Foram 3 pelo Bulls, 2 pelo Spurs. Isso, isso. E 4 com Warriors.
Então agora você aguenta o meu trocadilho. O que o Steve Kerr quer de você?
Tudo. Não, então, ele sempre fala comigo, ele é um cara muito tranquilo, ele fala assim: "Gui, eu quero que você chegue lá na quadra e, cara, mude a energia do time." Porque, querendo ou não, igual você falou que tem um cara lendário no banco, o Steve Kerr, mas você tem um cara mais lendário ainda dentro da quadra. Que é o Curry. Então, pô, se você tem um cara desse calibre no seu time, você não precisa chegar lá e fazer 30 pontos, entendeu? Você só de você é ótimo, né? Mas tipo assim, o que eles querem, dá bola na mão dele. Você tá com o melhor jogador ofensivo de todos os tempos, dá bola na mão dele e deixa ele trabalhar.
Escuta, vamos mostrar para o pessoal alguns dos bons momentos, dos lindos momentos do Gui jogando e observe o riso, a felicidade do técnico Steve Kerr depois que ele dá uma cravada.
Aí, ó, ele enterra lindamente. Brador fala: "Ponto de exclamação!" "Okay!" There you go, tic-tac-toe, battling that out. Pajemski, offensive rebound. Make the Bulls play defense again. Gui Santos with his feet set.
Um pouco de tudo, né?
Gui for 3! Aí virou um bordão!
Get close at the— Gui Santos, he hits a 3! Come on, Gui! 4 for 4! He's got a lot—
This is the game that I made the most points in my career until now. Yeah, 19 points.
The announcer is talking with him. A new record.
Yeah, back to Gui Santos. Hits another 3! I'm telling you, he was 4 of 5 last night, he's 4 of 4 tonight. A little floater with finger roll, and Looney playing volleyball Gee Santos, back it out again! Santos! Gui for 3!
Gui for 3!
This guy's unreal! Another new career high!
Novo recorde da carreira, pessoal! Esse cara é irreal! This guy is unreal! Que legal! Eu observei uma hora ali, o narrador fala: "Ele não para quieto no ataque, the defender completely lost him." Quer dizer, o marcador perdeu ele completamente. Isso sempre foi uma característica do teu jogo ou é um jeito que você está encontrando de dobrar a defesa duríssima da NBA?
Então, quando eu cheguei na NBA, eu era um cara totalmente diferente do que eu sou hoje, né? Hoje eu sou um cara que joga mais sem bola, que corta, faz as coisas ali tudo sem bola, mas quando eu jogava no Brasil, eu era o cara que tinha a bola na mão, driblava a bola, ficava com ela na mão e não sei o quê, e o tempo todo com ela na mão. Só que agora, como a gente tem jogadores também de alto rendimento, outros caras que são craques da bola lá, acaba que você tem essa função um pouco diferente, né? De tipo assim, mais espaçar a quadra, ficar um pouco mais... Tipo, porque como a gente tem o Curry, os caras dobram muito nele. E porque dobram muito nele, você acaba ficando livre. Então você tem que cortar muito sem a bola. Então eu fiquei um ano na G League, na Liga B da NBA, aprendendo a jogar desse jeito exatamente para quando eu tiver oportunidade lá, Te treinaram para isso, você se conscientizou. Exatamente.
E além do que, bota o garoto para correr, né, que é um bando de velhinho ali, pô.
Bota o molecado e vou para lá e vou todos os rebotes. É engraçado que os defensores, né, dos outros times, eles olham para mim e falam: pô, cara, para de correr um pouco aí, para de ficar vindo para o rebote, que isso, chatice.
Tem uma história tua com o Kevin Durant, né, que você fez uma jogada linda.
Recebi uma bola, faltava um pouco de tempo, eu falei: pô, vou ter que "Vou marcar." Aí o Kevin Durant tava me marcando.
O Kevin Durant tem o quê? 2,16m?
É, 2,13m. Ele é gigante, cara. Os braços gigantescos também. Cracasso! Demais. Aí ele pegou, veio me marcar, eu pum, pum, fiz o movimento e fiz a bandeja. E ele ficou meio que na saudade ali, assim, digamos assim. Só que aí ele foi, olhou pra mim assim: "Nice move, boy. Nice move." Aí eu falei: "Ô, louco, né? O cara elogiou, cê é doido." Aí depois, voltando pra defesa, logo na defesa seguinte, Ele recebeu a bola, eu tava marcando ele, ele, pum, matou a bola de 3 na minha cara. Aí ele foi e me deu um tapa na bunda assim ainda, tipo assim: "Calma, eu mando aqui ainda." Tem que comer muito arroz com feijão aí.
Muito rice and beans. Mas vem cá, esse negócio dos narradores curtirem você, curtirem teu nome, isso traz a torcida também, né?
Com certeza, pô. E você viu aquele primeiro lance que eu faço a bola e saio gritando pra torcida? Querendo ou não, isso é dando tapa no peito e tal, querendo ou não, isso mostra pra torcida que você quer muito. E é uma imagem que eu quero passar pra eles, falar assim: "Pô, eu quero estar aqui, eu mereço estar aqui, então eu tô me entregando ao todo pra estar aqui, tipo, tudo que tiver que fazer eu vou fazer." Agora um clássico da história de quem vai pra NBA, o antes e o depois.
Olha a foto no dia que ele foi draftado, como se diz. Metade, né? Quantos quilos você ganhou de lá pra cá?
Eu tinha uns 85 quilos aí, agora eu tô com 100 quilos.
15 quilos?
15 quilos.
De massa magra?
Massa magra, isso.
Músculo?
Pois é, 15 quilos.
Outra pessoa, né?
Outra pessoa, mas o tanto de trabalho também que eu tive, que lá foi dureza, tive que ralar bastante, viu?
Muita comida e muito ferro?
Muita comida, muita malhação.
Verdade que vocês malham antes do jogo?
Malha antes e depois. Mas mesmo assim é pesado.
Agora você está de férias?
Férias, né? Que tipo assim, férias para mim é estar em casa, estar no Brasil. Mas mesmo assim não para.
Rotina de malhação aqui?
Também tem. Tem lá, eles mandam para mim, ó, você vai fazer isso, isso e isso.
Peso?
Peso, isso.
Peso e bola. Você bate uma bola com teu pai ainda?
Não, meu pai tem o tornozelo muito ruim, né? Deu um problema sério no tornozelo dele. Agora que ele vai fazer uma cirurgia para resolver.
Mas nem pegar bola para você.
Ele brinca assim, brinca. Teve uns treinos que ele vai lá porque ele é grande, ele é maior que eu, 2,10 de altura, fortão. Tipo, ele é 2 de mim, literalmente, um do lado do outro, assim, tão forte que ele é. E aí eu uso ele como sparring, né, como os pivôzão, que ele chega, ele me dá porrada, me empurra e tudo. Minha mãe também me ajuda, passa a bola. Os dois se conheceram jogando basquete, né? Então meu pai e minha mãe Lá em Brasília ainda, quando os dois eram molequinhos ainda, se conheceram jogando basquete. Aí minha mãe parou de jogar, porque meu pai virou profissional, parou de jogar, me teve, e aí ela ficou seguindo ele para todos os lugares, assim, eu e minha mãe atrás dele.
Você tem uma carreira, a gente pode dizer, que rápida. Você vira profissional com 16 anos, você vai, com 20 você já está na NBA. Esse era sempre seu objetivo ou o bonde passou?
Então, foi uma coisa atrás da outra. Meu primeiro sonho era ser jogador profissional no NBB. Era chegar e jogar no NBB. Meu pai também tinha esse mesmo sonho. Só de você ser jogador profissional no NBB já tá bom. Aí eu lembro que eu com 16 anos eu já tava treinando com os cara do adulto e tal. Aí eu ligava pro meu pai e falava: pai, eu consigo jogar com os caras, eu tô jogando de igual pra igual, marcando, não sei o quê.
Isso já em Minas?
Isso em Minas, é. "Estou jogando de igual para igual com os caras, eu consigo, não sei o quê." Ele: "Não, Gui Santos, pelo amor de Deus, você está muito novo ainda, calma, não sei o quê." Aí a gente foi fazer um jogo em Brasília. Aí nesse jogo em Brasília, meu pai viu, eu comecei a jogar bem, não sei o quê. Ele falou: "Cara, que isso? Do nada você saiu daqui ano passado, magrelinho, molecote de tudo, chegou, já está jogando de igual para igual com os caras e não sei o quê." Eu falei: "Eu te falei, pô, te falei que eu estava assim." "Vai lá negociar com a direção do Minas o meu salário agora, pô." Foi o que ele fez. Mais ou menos, mais ou menos. Mas enfim, aí ele falou com com os caras do Minas e tudo mais, né? Ele sempre tava ali, ele e minha mãe acompanhando sempre de muito perto tudo. E com 18 anos, 17 anos, eu fui convocado para minha primeira seleção adulta, aí com Petrovic era o técnico. Aí no treino, treinando bem para caramba contra os cara que tava na seleção adulta, aí ele falou assim: cara, eu não vou cortar você não, você vai ficar pro jogo, você vai vestir pro jogo. Aí eu já liguei para o meu pai, para minha mãe, felizão. Ô mãe, tô indo, vai jogar!
Quem chorou, teu pai, tua mãe ou você?
Não, eu Chorei não, tava nervoso na verdade, eu tava mais nervoso do que emocionado com isso, mas meu pai ficou feliz, minha mãe ficou feliz. Aí num jogo assim, eu lembro, foi engraçado que eu achei que eu nem ia jogar, pô. Eu falei: ah, ele vai me levar pro jogo só pra eu ver como é que funciona as coisas ali. Aí no meio do jogo, aí ele: pequenino, vai! Aí eu já levantei nervosão assim, já tropeçando nas placas tudo pra entrar pro jogo. Aí na hora que eu entrei, cara, eu não conseguia, eu não lembro de nada assim, sabe? Minha memória Eu tava ali, mas não tava ali.
Sei como é que é.
Eu tava tão nervoso, tão eufórico, que eu queria fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo. Contra quem era? Contra o Uruguai.
E agora falando novamente da NBA, vamos ver se ele vai fazer média. Pra que time você torcia aqui quando você era criança?
Cara, isso é muito louco, mas a minha geração... Falando sério, a minha geração, pô, sou 2002.
É Curry.
Então, você entendeu? Eu cresci vendo a dinastia, ou você torce pro Curry ou você torcia pro LeBron. E eu gostava muito do Klay Thompson, era um cara que eu gostava muito, porque eu falava: "Pô, é o jeitão dele jogar, parecia um robozão e tal." E pô, quando eu fui selecionado pro Warriors, nem acreditei também. Nem acreditei.
Pois é, o dia do draft, narra como é que foi. O draft é quase o equivalente ao final da temporada, sabe? Aquela transmissão ao vivo, todo mundo: "Quem vai ser o primeiro? Quem vai ser o segundo?" Você foi o 53º?
55º.
55º.
Isso.
E durante o dia, como se deu a tua vida? Você estava aqui?
Não, então, eu estava na Flórida. Minha mãe e meu pai me ligando o tempo todo. Aí eles choraram, viu? Porque era uma emoção muito diferente assim.
"Será que você vai ser selecionado?" Pois é, porque tinha o risco de ninguém te escolher.
Exato. E tinham muitas coisas contratuais por trás disso. Então eu ficava meio tipo: "Será que vai? Será que não vai?" Time que queria, mas só que tinha que ver: "Mas como vai ficar o contrato? Tem que acertar isso e aquilo." E dava essa insegurança pra gente de não ser selecionado. Tanto é que, pô, meu pai me ligava assim, aí do nada eu conversando com meu pai e minha mãe, eles começavam a chorar. Aí eu falando: "Não, calma, pô, calma, vai dar certo, vai dar tudo certo e não sei o quê." Pô, chegou, aí passou o primeiro round todinho, aí não fui selecionado. Eu falei: "Ah, tá bom, eu não tava esperando ser selecionado no primeiro round, tá de boa, vamos pro segundo round." Agora era a hora da verdade. Aí começou, escolha 31, 32, 33. Aí chegou, né, e eu tava, pô, eu falei, pô, eu vou sair entre a 30 e 40, eu achava. Só que passou a 40, eu não saí. Aí meu telefone toca, aí a última coisa que eu queria receber é a ligação do meu agente, né, porque aí ele falou assim, pô, Gui Santos, você não vai ser selecionado, nenhum time deu garantia, você não vai ser selecionado, mas não fica triste, não é a única forma de entrar na NBA, tem várias outras formas de entrar, não sei o quê, não sei o quê. Pô, isso aí já desabou meu mundo, claro. Aí na hora, aí eu já desliguei, tinha até uma molecada que tava treinando junto comigo lá na mesma casa que eu Aí eu comecei a chorar, tinha um outro agente meu que tava comigo na casa mesmo, aí ele veio, me consolou, falou comigo e tal: "Gui, não fica assim." Aí eu fui pro quarto, liguei pros meus pais, falei, passei a notícia, falei: "Ó, o meu agente acabou de me ligar, eu não vou ser selecionado." E é isso, tipo, não tinha muito o que falar. Aí minha mãe: "Pô, Gui, o que a gente pode falar?" Aí eu falei: "Mãe, não tem nada, agora é só eu dormir e ver o que eu vou fazer amanhã, ver o que vai acontecer." Cara, e nisso eu chorando, minha mãe também muito triste por mim, por eu não ter sido selecionado e não sei o quê. Aí eu já ia deitar para dormir, já tinha apagado a luz, meu agente me liga nesse meio. E tem uma história também, meu pai fala que depois que eu liguei para eles, meu pai, minha mãe, minha família toda é muito religiosa também, né, então meu pai foi, pegou o terço dele e começou só agradecer, só foi falando, só agradecendo, falou assim: "Porque não é todo mundo que tem essa oportunidade de estar participando num draft da NBA e os times olhando e tudo." Aí meu pai começou a rezar só pra agradecer, só assim, tipo: "Pô, obrigado pela oportunidade que tá dando pro meu filho e tudo mais." Cara, dito e feito. Acho que uns 2 minutos depois, meu agente me liga: "Gui, a gente é brasileiro, vai pra frente da televisão, não sei o quê. O Golden State vai te selecionar na pick 55." Até hoje eu me arrepio.
Gente, eu tô quase chorando aqui, rapaz.
Caraca!
Tipo assim, na segunda prorrogação, né, cara?
Então, pô, aí vai pra frente da televisão que você vai ser selecionado. Eu falei: o quê? Como assim? Aí ele falou: pô, o Golden State me ligou aqui, aconteceu isso, isso, isso, e eles vão te selecionar. Cara, na hora eu já comecei a chorar muito assim. Eu tenho até a videochamada que eu fui gravar quando eu fui ligar pro meu pai. E imagina, ele já tava deitado pra dormir também. Aí eu falei: pai, pai, vai pra TV, o Golden State vai me selecionar, não sei o quê, na PIX 55. Aí ele: o quê? Como assim? Aí tem a videochamada dele, meu pai, meu chorando.
No dia seguinte você tava pegando avião pra lá?
No dia seguinte não, e eu fui selecionado 2 horas da manhã. 4 da tarde eles me mandaram, 4 da manhã eles me mandaram a passagem.
Primeira classe?
Primeira classe, primeira vez que eu vou de primeira classe. Chegou uma hora... Tem até aquela história que o cara, acho que é no futebol que o cara fala que chega aquela toalhinha quente, ele acha que é tapioca, sabe?
Você mordeu a toalhinha, cara?
Não, essa eu já tava esperto, já tinha visto o vídeo. Aí eu peguei a toalhinha, passei a toalhinha no rosto e tal. Mas foi o meu primeiro voo.
Mr. Santos, what would you like to drink?
Nisso aí eu falei: "Water with ice."










