15 Jun 2022 · 53 min
Chico Felitti investigates Margarida Bonetti, a wealthy Brazilian woman accused of enslaving and torturing a domestic worker in the US, now living in a decaying São Paulo mansion. Neighbors describe her reclusive life and the house's troubled history. The story traces how wealth and isolation shaped her world.
Era o segredo mais mal guardado da história de Genópolis. Depois que eu encontrei a foto da mulher da casa abandonada na reportagem da revista americana Newsweek, meu reflexo foi procurar mais imagens de Margarida Bonetti, para ter certeza que minha mente não estava me pregando uma peça Eu encontrei um monte de reportagens que saíram no Brasil, inclusive da Folha de São Paulo, no começo dos anos 2000 Essas matérias traziam o nome completo de Margarida, Margarida Maria Vicente de Azevedo Bonetti Mas eram só blocos de texto. Nenhuma das reportagens tinha fotos de Margarida Omari, como ela se apresenta em 2022. Então, eu fui pro próximo arquivo disponível. Um arquivo que não é de papel, mas de memórias. Memórias guardadas na mente de quem viveu a história da casa abandonada. Eu saí pela rua da casa perguntando pra vizinhos quem conhecia a história da mulher que se esconde lá. E, pra minha surpresa, todo mundo sabia quem ela era. E todo mundo sabia o que ela tinha feito.
Ela sempre fala em polícia, em polícia, chama a polícia pra todo mundo, ela chama a polícia, sendo ela sendo acusada de um crime desse racismo, de escravidão, na verdade, escravidão.
Que escravizava a funcionária.
Aqui, o pessoal já sabe da história dela, ela tá suja com o prédio.
Não, todo mundo sabe.
Todo mundo no bairro sabe que a mulher da casa abandonada é uma criminosa foragida. Menos eu. E o resto do Brasil inteiro. E o FBI? Eu sou Chico Felitti e essa é A Mulher da Casa Abandonada, um podcast da Folha que investiga a figura misteriosa que mora numa mansão em Pandarecos, em um dos bairros mais ricos de São Paulo. Uma mulher que se esconde atrás de uma camada de pomada branca, mas que toda vizinhança sabe quem é. Margarida Bonetti, a brasileira rica que fugiu de um julgamento no qual era acusada de escravizar, torturar e negar auxílio médico a uma empregada doméstica que ela levou para os Estados Unidos. Segundo episódio. A casa. Dias depois de descobrir a história e o nome verdadeiro de Margarida, eu me encontrei com uma pessoa que já sabia de tudo isso faz muitos anos. Mari Muradas é uma mulher jovem e sorridente que me recebe no playground de um prédio a um quarteirão da casa abandonada. É a sogra dela que mora lá. E ela tá lá numa manhã de sábado porque tem um parquinho pro filho dela brincar com os vizinhos. A Mari Muradas mora a passos dali. A casa dela dá literalmente pra casa de Mari, que na verdade se chama Margarida. Ela vê a casa abandonada todo dia, o dia todo. Vamos trocar ideia? O jeito que eu conheci a Mari Muradas foi peculiar Dias depois de ter visto a foto da mulher da casa abandonada em uma revista americana, eu encontrei um amigo na padaria Faz quase 20 anos que eu conheço o Edu Zanellato Então eu achei que podia confiar a ele esse segredo que tava quicando no meu peito Eu sussurrei a história, pensando que era uma informação bombástica E ele foi a primeira pessoa a me abrir os olhos. Ou os ouvidos, no caso Ele me respondeu.
Cara, que engraçado você me contar essa história, Chico. Porque tem uma amiga, Mari, que mora num prédio que fica meio nos fundos da casa dela. E ela me contou uma história muito doida, assim, dessa mulher. Que enfim, tem uma história bem complicada de ter mantido uma pessoa em condição de trabalho, análogo à escravidão e tal. E tem essa coisa, assim, quando você passa ali na frente da casa, né aquela coisa meio abandonada, num lugar super chique de Higienópolis e tal. Mas eu sempre sinto uma energia bem estranha.
Quem contou foi uma amiga dele que, por coincidência, era vizinha da casa abandonada Essa amiga é a própria Mari Muradas, com quem ele e a esposa fizeram um curso de como se preparar para o parto e que depois virou uma amiga do casal E ele nos apresentou, me levou um dia para o parquinho onde a filha dele brinca com o.
Filho da Mari Olha, a gente mora na Vila Boim.
A Vila Boim é a praça onde a Mari, ou Margarida, estava na antivéspera do Natal tentando impedir que a prefeitura cortasse as árvores. E a Mari Muradas mora num prédio que fica no encontro da Praça Vila Boim com uma ruela. Uma ruela que tem só um quarteirão e meio, que é um fiapo de asfalto que liga a Faculdade Fahap até a Praça Vila Boim, num formato de L. É uma rua que tem casinhas lindas. Duas delas, eu descobri depois, são da família da mulher da casa abandonada.
E assim que a gente se mudou, eu nunca tinha reparado muito naquela casa Daí comecei a passar com os cachorros, comecei a andar e falava, nossa, que absurdo o estado dessa casa Adoro arquitetura, fiquei lá fuçando entre um galho caído e outro, vi a plaquinha do médico.
A placa ainda tá lá, cravada no muro da casa. É como se fosse o pedigre do imóvel. O ferro tá esverdeado, mas ainda dá pra ver o nome do casarão. A Mari leu essa placa e foi ver o que conseguia encontrar na internet com aquelas informações.
Daí eu fiquei vendo, falei, nossa, cheguei a jogar no Google o nome do médico. Peguei e falei, nossa, tá completamente abandonado aqui. Que triste, né? Essa é a nossa primeira semana.
Agora, nós vamos discutir como a trajetória da Mari Mouradas é parecida com a minha. E eu comento isso com ela, como nós dois tivemos curiosidades gêmeas e chegamos à mesma resposta. Eu tô inconformado, porque o que você tá contando é... Literalmente a minha história, transfere pra tipo quatro anos no futuro Como que ela.
Tá morando naquele estado, né?
A mesma reação, primeira coisa, curiosidade, depois, nossa, que móvel maluco, imagina quanto vale, por que será que você tá abandonado, deve ter uma história por trás Daí de repente cruza com a pessoa e fala, meu Deus, essa pessoa está abandonada num estado lamentável, a história dela deve ser tristíssima, preconceito Nova no bairro, ela viu uma mansão caindo aos pedaços e a mente dela tratou de preencher as lacunas. Criou histórias pra tapar os buracos do telhado, os rombos no portão causados pela ferrugem e a falta dos vidros nas janelas.
No primeiro, terceira semana que a gente tava morando lá, um dia eu passo e eu vi a luz acesa da casa. E daí eu comecei primeiro, né, adoro uma história de espírito, adoro, comecei, nossa, tô vendo coisa. Imagina, imagina que tem alguém que tá morando nessa casa, nesse estado, não é possível. E a janela entra aberta, uma luzinha, daí passou uns dias, teve um dia que estava chovendo muito, mas aqueles, assim, temporais E eu passo de guarda-chuva e vejo uma senhora jogando um balde pra fora dessa janela, do andar de cima, que era que eu tinha visto a.
Luz Uma casa abandonada com luz elétrica? Eu também fiquei perplexo quando vi luzes ali dentro. E a gente vai ver em breve como a Mari paga a conta de luz de uma casa em Pandarecos, que é o que faz ela ter energia, mesmo que não tenha mais esgoto. Mas, no primeiro momento, a Mari Moradas pensou que a luz viesse do sobrenatural. Ela acreditou que estava vendo assombrações. E foi correndo pra casa contar pro marido dela, o Fábio.
E daí eu entrei em casa e falei pro Fábio, meu Deus, não é possível que tenha alguém... não é espírito, então eu vi de novo, se vir o espírito não ia estar preocupado com a aposta, né? Tem alguém morando lá naquele estado e que deve estar caindo muito aos pedaços a casa E fiquei muito sensibilizada na época por ela, falei, nossa, preciso ajudar essa velhinha Como que pode? Ela tá ali morando sozinha De novo.
A minha lógica e a da Mari Moradas quase se encontram. Eu pensava que Margarida era uma mulher que sofria com misoginia e preconceito por ser excêntrica. Ela pensava que era uma velhinha abandonada pela família e sentiu uma pontada, uma vontade aguda de ajudar essa pessoa.
E o Fábio falava assim, meu, você não vai bater lá agora, são quase 11 da noite, um frio do caramba, uma chuva insana, pra falar pra mulher que você quer ajudá-la, né? E eu falei, cara, ela tá lá sozinha, ela é muito velhinha, e ele, tipo, ah, se bobear você vê o espírito, tipo, desencana.
Ela quase bateu na porta da casa abandonada. Só que ainda tinha dúvidas. Dúvidas de se a mulher que tinha visto existia de verdade. E se existisse de fato, se ela se abriria para receber a ajuda de uma desconhecida que acabou de se mudar para o quarteirão. Então, achou melhor se informar antes com os vizinhos.
E daí eu comecei a perguntar pra todo mundo do bairro, pro zelador do Louveira, pra nossa ex-proprietária que também morava no Louveira na época Fiquei perguntando um pouco e eles, ah, é uma pessoa muito estranha que mora lá, é a filha do cara da casa E aí passou, foi muito próximo desse episódio da chuva, porque eu ainda tava com muita pena dela um dia de manhã que eu fui passear com os cachorros e tava a polícia, o corpo de bombeiro e um oficial de justiça na porta, tipo, a rua tava praticamente trancada e um auê com eles tentando entrar na casa, tentando bater na porta e entrar na casa e ela obviamente não abrindo e não saindo e dizendo que não tinha chave, que ela não tinha como abrir, então tava ali um vucu-vucu.
O Louveira é o Edifício Louveira, um arco arquitetônico de São Paulo. O prédio tem duas torres, uma olhando para a outra, e no meio fica um jardim enorme e aberto para a rua. Em uma cidade feita de muros e de grades, o Louveira é um respiro de liberdade, uma exceção de cidade aberta. E o Louveira fica perto da casa abandonada. E agora voltamos pro dia em que a Mari viu uma multidão tentando entrar na casa e sendo barrada E aí.
Eu travessei a rua, fiquei junto com o segurança do outro prédio, tipo, o que que tá acontecendo? Ela tá machucada? Aconteceu alguma coisa grave? Eu falei, gente, que dó dessa mulher aí, olha a situação em que ela tá morando, né? Por que que tá oficial de justiça, polícia, algum escarcéu? E essa mulher passou com o cachorro e falou, dó? Dó? Dó nenhuma! Daí é gente muito ruim, você não sabe o que ela fez no passado Ela tá aqui foragida porque eles escravizaram uma empregada nos Estados Unidos Você não tem ideia o quanto essa mulher é.
Ruim O choque de Mari teve voltagem dupla Primeiro, a mulher existia mesmo, não era uma alucinação da mente dela Segundo, não só existia como tinha cometido um crime inenarrável Um crime no país dela. Porque a Mari Moradas, por mais que fale esse português articulado e fluido, é cidadã americana. Os pais dela são americanos. Ela passou uma fatia da vida no mesmo país onde Margarida é procurada pela justiça. E, com uma frase dita por uma vizinha, toda a compaixão se transformou em raiva.
E eu fiquei assim, tipo, o quê? Eu lembro de chegar pro Fabio e falar, tô há semanas preocupada, como que eu ajudo essa mulher e agora eu quero ir lá e tacar fogo na casa com ela dentro, assim, não é.
Possível Mari Muradas não colocou fogo na casa abandonada Em vez disso, usou a energia que corria no corpo dela pra tentar entender mais a história que a vizinha tinha resumido em uma só frase.
E aí fiquei mais em choque com a história, porque ela só me contou isso e saiu andando com o cachorro. Eu tipo, meu, como é que eu volto atrás dela e falo, minha filha, me conta mais. E aí na época ela falou, ai que você é muito jovenzinha, você não deve lembrar, mas saiu em todos os jornais, foi notícia no Fantástico, eles escravizaram uma empregada em Washington. E eu fiquei aquilo tipo, nossa, sou muito jovenzinha, né? Vem, sei lá, será que isso foi na década de 70 e essa mulher tá, sei lá, até hoje, foragida aqui? Fiquei na minha cabeça, tipo, não lembro, você não vai lembrar da história, mas cheguei em casa, a primeira coisa que eu fiz foi abrir o computador, jogar no Google, brasileiros que escravizam empregada doméstica nos Estados Unidos, e daí começou a vir as notícias E é muito bizarro, né? Porque não era que eu era muito jovenzinha, não lembrava. Eu não estava no Brasil quando essa notícia saiu.
Por um momento, pareceu pra Mari que o crime da Margarida era uma história antiga. Mas daí ela fez as contas. Se o crime aconteceu em 2000, fazia menos de 20 anos que ela tinha sido acusada de um crime que o senso comum tende a considerar extinto há séculos.
E eu achei, assim, ela muito... Ah, faz muito tempo atrás. Não, foi ontem.
No tempo histórico, 20 anos não é nada. É quase metade da nova vida democrática do Brasil. É uma geração. É a distância entre os discos ao vivo da banda Eva, de 1997, e o álbum Ao Vivo Entrancoso, que Vete Sangalo lançou em 2017. Enfim, a Mari percebeu que duas décadas eram muito pouco tempo.
E que a história é muito surreal. É muito surreal o que eles fizeram. E como ela foi descoberta. E esses detalhes horrorosos ali foram me consumindo num ódio por ela. Eu falei, não é possível, essa mulher tá aí, foragida.
Sim, as últimas notícias que saíram em jornais americanos sobre o caso contam que René Bonet, o marido de Margarida, foi condenado e preso nos Estados Unidos. Mas faz mais de uma década que a gente não sabe dele. Além de ser assombrada por saber que a vizinha era uma criminosa, Mari e a família dela começaram a sofrer com aspectos mais práticos que vinham da casa abandonada, como uma nuvem de pênilongos que revoava do terreno baldio para a casa dela todas as tardes.
Eu comecei a chamar a prefeitura, Fumacê, pra vir fazer alguma coisa e denunciar ela como ponto de dengue E aí que os caras, os agentes, não conseguem entrar Ela não deixa que ninguém entre.
E a Mari passou a trombar com a Margarida de vez em quando. Encontrou com ela no supermercado, na lotérica, encontrou com a mulher revirando latas de lixo na praça de alimentação do shopping Gienópolis, um dos mais ricos da cidade, que fica a quatro quarteirões da casa abandonada.
E encontrei ela arrumando alguma coisa da calçada E eu passei e falei, a gente precisa conversar Não dá pra continuar o estado dessa casa Porque você tá atrapalhando todos os vizinhos Tá com muito pânuongo, não tá higiênico isso daqui A gente precisa permitir que a prefeitura entre E ela falou, não, mas aqui não tem ponto nenhum de dengue Eu falei, não, não é possível que não tenha Falei, a quantidade de água parada só aqui na porta E ela tava toda simpática porque ela tava vindo fazer carinho.
Nos meus cachorros Mari Muradas confrontou a mulher que diz também se chamar Mari e revelou que sabia o nome verdadeiro dela e a história escondida junto com esse nome.
E aí ela ficou nesse... não pode, não pode. Eu me irritei e falei, como o senhor a chama? Daí ela falou, Maria. Eu falei, a senhora não chama Maria, a senhora chama Margarida. E eu sei muito bem o que a senhora fez. Então, ou a senhora deixa a prefeitura entrar aqui, ou sua vida vai ficar muito pior do que ela já tá. Daí ela ficou, não, eu não sou, não sou, não sou. E daí eu vi que ela ia começar a ter uma crise catártica ali também. Eu falei, pronto, já eu, 10 da manhã, nem tomei meu café direito, já tô aqui.
O confronto não deu em nada. Ninguém da prefeitura pôde entrar na casa abandonada. Os mosquitos seguem vivendo e procriando em um terreno emo do tamanho de um campo de futebol. E os contatos entre Mari Moradas e Margarida cessaram. Porque a mulher da casa abandonada passou a evitar a vizinha que um dia quis ajudá-la.
E aí o Chico contou que o... O morador do primeiro andar do Louveira da Torre da Piauí, que era da janela da casa dela, se mudou há uns anos atrás porque não tolerava, primeiro, o mau cheiro que saía de lá.
O Chico, nesse caso, não sou eu não. É o porteiro do edifício Louveira, com quem a gente vai conversar daqui a dois minutos. Eu tô quase terminando uma hora de conversa com a Mari, quando descubro que talvez ela tenha sido a responsável por eu descobrir a identidade oculta de Margarida. Porque é bem possível que ela tenha sido a pessoa que fez o comentário no site de arquitetura.
De arquitetura!
É, é, é!
Esse comentário até é meu, Chico, porque eu lembro quando eu descobri isso, e eu fui atrás da casa, e as pessoas estavam falando coitada dessa mulher, e eu falando coitada é o cacete, tipo, e eu comecei a contar pras pessoas.
Quando descobriu que a vizinha não era uma senhorinha desamparada, ela fez o movimento de contar a história do crime no mundo virtual. E também no mundo real. Mari Muradas começou a conversar com a vizinhança, como eu tô fazendo em 2022. Ouviu de um vizinho, já idoso, que ele conhecia o pai de Margarida. Um médico respeitado. Que ele frequentou a casa, quando ela ainda não era abandonada. E, de outra vizinha, ela ouviu que brincou na rua com Margarida e as duas irmãs dela. A cada vizinho com quem ela conversava, vinham novas informações.
Tanto que ela conta, uma vez eu perguntei pra Vânia, nossa, e essa mulher louca dessa? Ela falou, nossa, a gente brincou tanto na rua aqui, a gente se convidou muito e ela se transformou nisso.
Informações de como a família dona da casa já foi a mais afluente da região. Muito ricos mesmo. Muito mais do que eu poderia imaginar. Margarida Maria Vicente de Azevedo Bonetti é dona de um privilégio que resiste até a morte. Doutor Geraldo Vicente de Azevedo morreu aos 91 anos de idade, em 1998. Nessa época, Margarida e o marido, René Bonetti, ainda moravam nos Estados Unidos. Ainda tinham uma empregada doméstica que deixaram de pagar no começo dos anos 80 e que vivia trancada no porão de casa, que era torturada por Margarida, segundo relatórios da justiça americana. Mas Geraldo Vicente de Azevedo morreu sem ver a filha ser acusada de um crime. Morreu com homenagens e um sobrenome nas costas. Quando eu falo que Margarida Maria Vicente de Azevedo Bonetti é privilegiada, eu falo de gerações e mais gerações de privilégio. Três gerações de riqueza e de influência. O avô da mulher da casa abandonada era um dos paulistas mais importantes do tempo dele. Era tão importante que tinha um título de nobreza. O avô de Margarida era o barão de Bocaina. Francisco de Paula Vicente de Azevedo nasceu em Lorena, no interior do estado, no meio dos anos 1800. Vinha de uma família de posses e foi acumulando cada vez mais terra. Terra em que plantava café, o maior produto de exportação brasileiro naqueles tempos. Quando ele era adulto, as fazendas dele eram tão grandes que uma delas, só uma, virou uma cidade. A fazenda Canas hoje atende por município de Canas. Além de ter terra, café e dinheiro, ele tinha outros poderes. Foi um dos fundadores do Engenho Central de Lorena e diretor da Estrada de Ferro São Paulo-Rio de Janeiro. E também foi bancário, um dos homens fortes do Banco Comercial do Estado de São Paulo. Dá pra imaginar o tanto de recurso que tinha a família em que a Margarida nasceu? Dá. Mas também dá pra ver com os próprios olhos. É só ir até a esquina da Rua Padre João Manuel, Qualameda Santos, a um quarteirão da Avenida Paulista. Lá fica uma das raras mansões que ainda estão de pé na região da avenida mais famosa de São Paulo. Se hoje a Paulista é um corredor de McDonald's e Burger Kings, 100 anos atrás ela era um desfile de mansões. A maioria dos donos dessas casas eram donos de fábricas. Uma das exceções era o Barão de Bocaina, que, mesmo fazendeiro, escolheu erguer ali uma mansão, em 1911 A casa, com colunas gregas-brancas, fazem um leigo como eu se lembrar da Casa Branca E ganhou um apelido, a Casa do Barão de Bocaina Ela não lembra em nada a Casa Abandonada de Genópolis, até porque não está abandonada Não hoje em dia, mas teve nos últimos anos Dois dos tios dela moraram lá, Francisco de Paula Vicente de Azevedo e a Freira Lavínia Vicente de Azevedo, que viveu lá até morrer, em 2007, aos 93 anos. Ela costumava distribuir café da manhã e almoço para pessoas pobres na rua. Eu conversei com três pessoas que trabalharam para a tia Freira Lavínia. Todos a descreveram como uma mulher temente a Deus e generosa com quem tinha menos. Daí, no começo dos anos 2000, ela morreu na casa do Barão de Bocarna. Como ela não tinha filhos, o imóvel foi dividido entre familiares, entre eles a mulher da casa abandonada, e acabou vendido por uma incorporadora. Rolou um xadrez na justiça para tentar colocar a casa abaixo e erguer ali um prédio. E, enquanto a construtora lutava pelo direito de demolir o imóvel, o casarão foi decaindo. virou uma casa abandonada nos anos 2010. Mas, depois de uma década, parece que a casa do Barão de Bocaina venceu. Em vez de virar um empreendimento imobiliário, a casa está em pé e restaurada. Em 2022, o casarão virou um restaurante. E uma coisa parecida aconteceu com a casa abandonada de Genópolis. O casarão ainda está de pé por causa de um nó jurídico No episódio futuro, a gente vai entrar nesse ninho de mafagafo de herança e de tombamentos Por enquanto, basta saber que muita gente tem interesse nesse terreno, por mais que ele tenha uma limitação construtiva Nada que for construído ali pode ser mais alto ou maior do que a casa abandonada Construtoras e parentes de Margarida querem a casa, mas ela não está disposta a sair de lá A cem passos da casa abandonada, existe uma rua sem saída. Uma rua que liga a Faculdade Faap a um condomínio de prédios de luxo, com apartamentos que custam mais de cinco milhões de reais cada um. Pouca gente sabe que aquela via é uma rua pública, porque ela é fechada com cancelas e com seguranças. Sabe como se chama essa rua? Rua Barão de Bocaina. Dias depois de conhecer a Mari Muradas, ela me apresenta ao Antônio Francisco da Silva, ou só Francisco mesmo. Ele deve ser a pessoa que mais convive com a Margarida nos últimos 20 anos, porque ele passa a maior parte do tempo olhando para a janela do quarto da Margarida, no segundo andar da casa. No caminho para encontrar com ele, eu passo em frente da casa abandonada. Margarida, ou Mari, está no jardim. Eu coloco a cabeça por cima da cerca e tento conversar com ela. Dona Mária? De novo, ela me ignora e vai para dentro de casa Só depois que ela fecha a porta na minha cara, eu percebo uma coisa A porta de entrada da casa abandonada tem algo de peculiar Uma redoma de vidro na altura da maçaneta Uma câmera de segurança Eu sigo em frente. Encontro Francisco na portaria do edifício Louveira e a gente se senta em um banco da Praça Vila Boim, a mesma em que semanas antes uma moradora de Genópolis tentava impedir funcionários da prefeitura de podar uma árvore. Posso ligar aqui?
Pode.
Faz quase quatro décadas que Francisco está ali, no mesmo lugar. Oito horas por dia, durante a semana, olhando para os fundos da casa abandonada.
Trinta e oito anos.
Trinta e oito anos?
Trinta e oito anos.
Sempre no Louveira?
Sempre no Louveira. Entre o primeiro de fevereiro de 84.
Uau. Posso ser indelicado e perguntar quantos anos você tinha?
Eu tinha 18 anos e meio. Hoje eu estou com 56. E meio.
Mas não há quem diga. O cabelo dele é preto, o sorriso é branco, e o jeito é de um moleque, não de alguém com quase 60 anos. Mas a memória do Francisco prova que ele de fato tá ali há quase 40 anos. Porque ele conheceu a casa abandonada antes do abandono, quando ela era a casa de uma família rica. Quando ele chegou ao Louveira, era o começo da década de 80. Margarida tinha acabado de se mudar para os Estados Unidos. Só moravam na casa os pais dela. Quem era a família?
Vicente de Azevedo, morava ele, seu Geraldo, doutor Geraldo e dona Lourdes, só os dois.
E a Mari Margarida?
Não, ela morava acho que nos Estados Unidos já.
Já estava lá, isso foi 40 anos atrás, isso era... É, ela foi em 79.
É, foi isso mesmo, 79, por aí que eu fiquei sabendo.
E a casa já estava um pouco Não, estava não Estava bem cuidado, tinha.
Telhado, estava pintado Estava inteiro, o doutor Geraldo usava a garagem do lado Além.
De serem os mais ricos da rua, o casal Vicente de Azevedo talvez fosse o mais generoso Era comum ter uma fila de pessoas na porta da casa, esperando por comida ou por uma doação de roupa E eles eram gente boa?
Era, os palheiros eram Era tanto que ela dava comida para o pessoal de rua, formava filas aí na frente Ela.
No caso, é Dona Lourdes, a mãe de Margarida. Maria de Lourdes Danço Vicente de Azevedo viveu o suficiente para ver a filha ser acusada de um crime e voltar para o Brasil. Margarida e Maria de Lourdes moraram juntas na casa até a morte da mãe, em 2011. Essa década é o período em que a casa para de ter manutenção e cai em câmera lenta para o abandono. Mas antes disso, Francisco viu a casa bonita e bem cuidada. Foram décadas convivendo com os pais de Margarida. Muitas vezes, Francisco ajudava o Dr. Geraldo a estacionar o carro, uma abelhina e depois um voyage. E essas ajudas foram ficando cada vez mais frequentes com o tempo, porque ele estava envelhecendo e perdendo as habilidades motoras.
Eu acho que eu entrei uma vez só pra ajudar o pai dela. Ela não morava aí não. Porque eu ajudava muito o pai dela. Ele não conseguia engatar ré da brasilha que ele tinha. E aí eu tirava pra ele. Que ele não conseguia mais. Aí ele saía aqui e andava só na primeira. Acelerado, acelerado, fumaceiro. Era um barato. Depois ele vendeu essa brasilha. Comprou um Voyage. E esse Voyage tá aí até hoje. Voyage bege.
Até que não foi mais preciso estacionar o carro. Em 24 de outubro de 1998, Dr. Geraldo morreu, com 91 anos de idade. Francisco conta que foi uma comoção na rua, e que Maria de Lourdes ficou sozinha na casa, por mais que de vez em quando recebesse a visita de duas das filhas dela. Até que passados dois anos, em 2000, uma terceira filha que Francisco não conhecia chegou para morar na casa. Era Margarida. Ou Mari, como ela se apresentava. Junto com a filha, vê a história de porque ela tinha voltado ao Brasil depois de décadas morando nos Estados Unidos. Porque a imprensa começou a bater na porta da casa.
Aí tem essa história que ela levou a empregada, acho que era daqui. Esse detalhe aí eu já não sei. Só fiquei sabendo através da imprensa. Francisco disse ter testemunhado equipes de reportagem.
Da TV Globo tentando falar com Margarida. Mas só tentado mesmo, porque ela nunca deu uma entrevista. Eu também não consegui achar uma reportagem, seja em vídeo, em áudio ou em texto, em que a Margarida fale das acusações de ter mantido uma empregada em condições análogas à escravidão e de ter torturado essa mesma pessoa.
Isso é uma vergonha. O pior é que ela se nega a dar o nome dela, ela fala que o nome dela é Mari. Não é nada de Mari, é Margarida.
Ele diz que oficiais de justiça também tentaram entrar nos primeiros anos, mas que ela não atendeu ninguém. Nunca.
Ela não atende. Não atende.
Ela acabou de fechar a porta na minha cara, sendo que ela me conhece, me ligou e...
Pois é, não...
Ela estava abrindo a porta para os cachorros e eu falei, oi dona Mari, tudo bem?
Ela fechou a porta É, não acho que estava... Sei lá se ela não te reconheceu Aí ela encrenca com o caminhão que não pode parar na frente da casa dela Pessoal de mudança, chama a polícia Ela gosta de chamar a.
Polícia, tudo é polícia Ela chama a polícia com frequência. Chama a polícia quando vão derrubar uma árvore, com laudo e recomendação. Chama a polícia quando estacionam um carro na frente da casa. Uma pessoa que é procurada pela justiça em outro país não pensa duas vezes antes de chamar a polícia aqui. Inclusive, na antivéspera do Natal, a Margarida já tinha chamado a polícia quando eu cheguei A Mari Moradas confirmou que viu a viatura chegar e ir embora depois de ouvir da mulher da casa abandonada que eles precisavam fazer alguma coisa para impedir que a árvore fosse removida O homem para e articula uma ironia que já estava coçando no meu cérebro E.
Ela sempre fala em polícia, em polícia, chama a polícia pra todo mundo, e ela chama a polícia. E sendo ela sendo acusada de um crime desse racismo, de escravidão, na verdade, escravidão.
Francisco diz que a guerra de Margarida contra a poda e remoção das árvores da região é longa. E que já teve várias batalhas. Anos atrás, por exemplo, ela saiu pelas ruas do bairro com um abaixo-assinado para que nenhuma árvore de Gianópolis pudesse ser derrubada ou podada.
Nunca mais.
E não foi só ele que se recusou a assinar o documento. Francisco diz que a vizinhança em peso negou a assinatura no papel.
Não conseguiu nada. Só antipatia. Da maioria das pessoas. Principalmente dos policiais.
Eles só se falam quando o Margarido procura e a relação tá longe de ser cordial.
É hipoglose. Eu acho que é hipoglose. Sempre ela tá usando, sempre.
Ela já falou alguma coisa a respeito?
As brigas.
São sempre por questões práticas. O mau cheiro que a casa emana, as vezes que Margarida entra na portaria do Louveira aos berros, o barulho dos dois cachorros dela.
Eu reclamo muito com ela. Sei lá, eu não xingo ela, mas eu não dou atenção para ela em nada. Como vizinha, ela é péssima.
A questão do prédio com ela não é só pelo crime do qual ela é acusada. No dia a dia, ela também causa problemas para o Louveira.
Os cachorros dela também, eu não sei se passava fome, latiam tanto, latia demais, nossa Aí agora acho que a casa não tem banheiro, ela usa lá dentro e joga o...
No caso, ela joga excrementos pela janela, rente ao muro que divide a casa do edifício Louveira Então ela joga e.
A gente não pode andar ali no muro do prédio que o fedor do xixi, sabe? Aquele fedor, e ela fica jogando lá na janela escondida Se a gente aparecer aqui, ela se afasta com o balde Essa semana mesmo ela fez isso. Quando me viu, se afastou. Aí falou umas coisas lá que eu não estava entendendo e continuou jogando. É tanto que é marcado. Se você olha ali do prédio, você vê aquele escorrimento branco, sabe?
Eu olho para a casa abandonada. E há estrias marrons na parede dos fundos. São as marcas de onde a água de dejetos de margarida passou. A única vez que Francisco ficou do lado de margarida foi uns quatro anos atrás, quando o grupo de sem teto tentou invadir a casa. Eles pensavam que a casa estava abandonada e que, por isso, estava vazia.
Mas ela se esconde. Imagina a água. Nunca pegaram ela assim. Ela some e já teve tentativa de invasão. Na casa.
Pra roubar?
Pra roubar não, pra morar. Tem uma palavra que fala, pra...
Ocupar.
É, pra ocupar a casa, ocupação.
Grupo de sem teto?
É, grupo de sem teto. Tinha umas 10 pessoas. Aí ela gritou, começou a gritar, isso foi de madrugada. Aí ela falou, vou chamar a polícia, vou chamar a polícia. E o pessoal da rua também falaram, o segurança falou, não, não pode, aí tem gente, aí mora gente. Mas teve umas duas tentativas de invasão pra se apoiar da casa De repente.
Francisco para de falar Olha fixo pra frente, pra além do Jardim do Louveira, pra parede lateral da casa abandonada Ele viu alguma coisa Olha lá na janela.
Lá, abrindo, é, tá Nessa janela, eu não sei se daqui você vê É.
A janela de cima, né?
Aqui, na primeira janela de baixo, encostado naquele banheirinho lá Entre as árvores aqui, ó, daí você tá com a árvore.
No meio É E nós dois vemos a mulher da casa abandonada enquanto conversamos em um banco da praça. Ela tá com uma faixa no cabelo e seu rosto tá coberto pela camada grossa e branca de pomada. Margarida olha pra um lado e olha pro outro. Então, olha pra nós. Exatamente na frente dela, a 30 metros da janela.
Ela fica lá na casa e fica na casinha dos fundos também. Uma vez ela me liberou e eu peguei um abacate. Aí eu tirei 75 abacates. Aí eu peguei e dei 15 abacates pra ela. Ela achou pouco. Porque ela falou assim que só come abacate. A comida dela era abacate. É mentira, né? Porque ela faz comida.
Sim, 75 abacates. O número me parece impressionante, mas tá longe de ser a melhor colheita que já foi feita no pomar da casa abandonada.
A gente tirou 200 abacates só pelo lado do prédio. 200 abacates. Aí dá abacate demais. E é o melhor abacate que tem aí. Antes a gente tirava escondido. Mais uma vez eu pedi pra ela, ela deixou. Ah, eu quero um pouco. Aí a gente conseguiu tirar 75, demos 15 pra ela, ela achou pouco. Mas o que passa do prédio pra cá é nosso. Por lei, né?
Então vocês podem pegar.
Pegamos 200. Contamos, a gente deu abacate para o.
Prédio inteiro A história do abacate me leva a crer que a convivência entre os moradores do Louveira e a mulher da casa abandonada pode ser pacífica Cordial? Jamais Francisco garante que ninguém ali gosta.
Dela Não, o pessoal do prédio, na verdade, são acomodados Eles nem percebem muito, só o vizinho do primeiro andar e a gente que circula pela garagem Mas o que o pessoal falava era comprar a casa pelo terreno, para fazer garagem.
Antes de terminar a conversa, eu pergunto se ele acha que um dia Margarida vai pagar pelo crime que não foi julgado.
Nossa, é terrível. Mas ela vai pagar isso aí. Tá pagando. E eu acho que ela não vai morrer tão cedo que é pra ir pagando aos poucos. Ela se acha que ela é boazinha, mas boazinha nada. Ela não é nada de boazinha.
No meio da conversa, Francisco disse que via a Margarida pegar táxi com alguma frequência. Que ela sempre usa os carros do ponto em frente ao Louveira. Eu me despeço dele e aproveito que tô do lado do ponto de táxi. Fui até lá. Só tem um carro sedã estacionado, com um homem de barba amarelada por cigarro, encostado no capô. É Ivo. E aqui no podcast, ele vai ser só Ivo mesmo. Ele que pediu. Quando vem aí é pra pegar táxi.
Mas é muito quieta, é muito tranquila.
Paga tudo bem pra mim.
Ele me conta que a Margarida sempre paga em dinheiro, contado o valor exato. E que esse valor muitas vezes se repete, porque ela costuma ir sempre para o mesmo lugar. Ela entra no carro, dá bom dia e não fala mais nada. Ele sabe do crime do qual a Margarida é acusada, mas ela nunca falou nada a respeito. O que parece ser uma regra. Margarida foge de assuntos do passado. Mas uma regra que tem uma exceção. Em fevereiro, dois meses depois do meu primeiro encontro com ela, eu descubro que tem uma pessoa da vizinhança com quem a Margarida fala do crime. Semanas depois de conversar com Francisco, do Louveira, eu consigo encontrar outra pessoa essencial para contar a história de Margarida. Francisco, do Edifício Joia. Sim, um outro Francisco. Por pedido dele, o sobrenome vai ficar de fora da história. Esse Francisco, no caso, é o zelador de um prédio que fica próximo da casa. Tudo bem? Senhor é o seu Francisco? Prazer, Francisco. Sou seu Chará. Ele me deixa entrar no prédio, por mais que acredite ter pouca informação sobre a vizinha. Mas ele é modesto. Francisco é uma das pessoas mais próximas de Margarida.
Para acrescentar muito, acho que eles sabem a mesma coisa que eu, mas...
A gente entra no saguão do prédio e se senta em sofás que parecem nunca terem sido usados. Francisco, obrigado por topar falar comigo nessa rua que todo mundo chama Francisco. Eu sou Francisco, o cara do Louveira é Francisco, daqui é Francisco, e eu daqui é Francisco.
Tem três Francisco, tem mais dois irmãos que se chamam Francisco.
Mas vocês são... a mãe era devota?
Eu sou do Rio Grande do Norte, e lá o pessoal tem devoção por Santos, mas Eu acho que... não sei, cara. Tem um que trabalha aqui na Conselheiro de Broteiros, que é Francisco, outro na Imperdiz. Francisco também.
Reconhecida a coincidência, a gente pode começar a falar da mulher da casa abandonada. Faz 16 anos que Francisco administra o prédio que tem vista pra casa.
Eu tenho uma certa amizade com ela. Eu sempre varro. Eu trabalho aqui sozinho, né? Eu uso ela do Severino. Então, eu faço tudo. Eu sempre varro a calçada dela, todo dia. Então, às vezes, a sujeira, ela não... Então, eu sempre varro a calçada dela. A gente sempre conversa.
E, ao contrário do Francisco de Louveira, esse Francisco tem uma relação cordial com Margarida. Ele a admira, mesmo que eles não sejam próximos.
Ela tem a excentricidade dela, né, de andar... Mas assim, pra mim ela é normal, acho dela gente boa, assim, sabe?
Assim como eu, o Francisco do Louveira e a Mari Moradas, o Francisco do Prédio Joia nunca entrou na casa.
Não deixa, não deixa entrar, é difícil. Ela se sentia ameaçada, ela... Ela não deixa entrar.
Ou quase nunca. Ele se corrige e lembra que teve uma vez em que ela deixou ele entrar, não na casa em si, mas no terreno.
Eu entrei uma vez lá atrás, aqui atrás, que ela pediu para cortar uma árvore dela que estava aí. Eu entrei, cortei a árvore, mas assim, para entrar na casa, Uma vez ajudei a levar a mãe dela até a porta também, mas nunca adentrei não Margarida.
Vive sozinha desde que a mãe dela morreu, em 2011 Mas não tão sozinha quanto possa parecer Francisco diz que vê a família visitar Margarida de vez em.
Quando Eu procurei.
As duas irmãs de Margarida para esse documentário e as duas.
Negaram os pedidos de entrevista A gente.
Vai falar mais delas e da Cizânia, que é a herança da família de Margarida. Uma família que tinha uma dúzia de imóveis pro São Paulo, mas que tá perdendo tudo. Mas agora, vamos voltar pro rol do prédio e pro papo com o Francisco. Por mais que ele seja próximo da mulher da casa abandonada, ela nunca revelou o nome dela. Então, ele criou um nome pra ela.
Nunca falou. Eu chamo ela de Dona Maria. Geralmente o pessoal não gosta que chame Dona Maria, mas eu acostumei e chamo Dona Maria pra cá, Dona Maria pra lá. Nunca falou nada sobre o nome, não.
É curioso como a pessoa da rua que tem mais intimidade com a mulher da casa abandonada não recebeu nada dela.
Sequer um nome.
Ele não completa a frase, mas imagino que ele queira dizer toda excêntrica. E Margarida falou sobre essas excentricidades com ele. Disse, por exemplo, por que cobre o rosto com a pomada branca.
Ela falou que tem problema. Usa aquela pomada porque tem problema na pele. Então tem que usar direto.
Francisco acredita que Margarida fale com ele por um motivo simples. Porque ele é uma das poucas pessoas da vizinhança dispostas a parar e a ouvir o que a mulher da casa abandonada tem a dizer.
Ela sai pra conversar, eu fico, aí eu procuro sair, ela dá uma volta em rumo a outro assunto, aí eu fico pensando, acho que quer falta de quem, com quem conversar, então não custa nada também você dar um apoio, conversar um pouco. Porque aqui o pessoal, todo mundo evita, assim, E ela conversa tanto com Francisco.
Que chegou a falar sobre o crime do qual ela foi acusada nos Estados Unidos, e que a fez voltar fugida para o Brasil.
Ela falou comigo sobre esse caso lá, mas ela falou que tudo foram coisas que enfrentaram dela, inclusive ela falou desse padre, que disse que o padre queria ir de boa a favor dela, mas ameaçaram o padre.
Esse padre que o Francisco fala é uma das pessoas que ajudou a resgatar a mulher em situação análoga à escravidão. Eu ainda vou falar com ele, mas, por enquanto, é importante frisar que parece muito improvável que esse padre fosse querer depor a favor de Margarida no caso em que ela era acusada de explorar e torturar uma pessoa. No meio da conversa, Francisco de repente baixa o volume da fala. É como se ele tivesse sido acometido por um medo. Um medo de que a mulher da casa vizinha pudesse ouvir o que a gente tá falando.
Ela tem uma audição assim, que é uma coisa extraordinária.
E se descobrir que o Francisco tá me dando uma entrevista, é provável que ela se afaste dele também.
Mas ela, assim, se vê que tá gravando ela, ela já reage. Ela não é burba, ela é uma pessoa bem inteligente.
Por mais que ele seja uma das poucas pessoas a quem foi permitido entrar na casa nos últimos 20 anos, não é que eles tenham uma baita intimidade. Não chegam a ser amigos. São conhecidos próximos, se é que isso faz sentido. Vizinhos que têm uma relação cordial, mas que ainda estão separados por um muro.
A casa, na casa, como eu falei, não cheguei a adentrar, só fui até o... Mas o quintal, assim, é cheio de... ela gosta de planta, entendeu? Tanto é que pra cortar essas plantas aqui com a cerca elétrica, é um trabalho, eu preciso ver quando ela sai pra me cortar. E se ela vê cortando, é complicado. Às vezes para um caminhão ali na frente, encosta na árvore, ela já começa a brigar e quer chamar a polícia, aí é uma coisa bem... É que ela gosta mesmo de planta. Ela gosta de planta.
Ela gosta de planta. É difícil deixar passar essa ironia que uma pessoa acusada de causar o maior sofrimento que existe a um ser humano goste de plantas. Mas eu me contenho e não interrompo a fala do Francisco. Ele continua falando sobre plantas.
Comigo é mais de planta, porque eu gosto também de planta, então ela vem tirar dúvidas, quer saber das coisas, vem me oferecer mudo de plantas também, que tem aqui atrás do quintal dela, então...
Os dois mantêm uma relação cordial, mais cordial do que a de Margarida com o Francisco, do Edifício Louveira, com a Mari Muradas ou com as dezenas de vizinhos com quem eu conversei e que não quiseram ser gravados.
Eu acho ela uma pessoa inteligente, por exemplo, das árvores. Ela falou pra mim uma coisa que eu não sabia, quando ela veio com a baixa assinada aqui. Francisco, eu estou fazendo isso porque eu já entrei no site, eles cortaram a árvore por tudo quanto é canto e tem uma lista de árvores pra eles cortarem. E o engenheiro que condena a árvore é o mesmo da empresa.
É a mesma teoria da conspiração que a Margarida expôs na antivéspera de Natal pra mim. Francisco ouve essa teoria há anos. E, em partes, ele encontra sentido.
É uma máquina de ganhar dinheiro, de fazer dinheiro, Francisco. Então ele condena qualquer árvore, vai lá, ele já tem a empresa, corta a árvore. Eu até comentei com o pessoal aqui do Brasil. Eu digo, olha, tem tudo a ver, né? Se ela estiver falando a verdade mesmo, né?
Aos poucos, ela foi se abrindo com ele. Aconteceu até de Margarida sair de casa e ir visitar o amigo no prédio ao lado.
Outro dia eu abri a porta pra ela. Posso entrar um pouquinho? Eu digo. Putz, senhora, tarefada. Tem um monte de coisa pra fazer. Ela sentou no banco ali, estirou a perna. Eu digo, agora lascou, porque eu vou ficar. Aí fica escutando um pouquinho aí. Inventa uma coisa e sai. Mas eu sempre dou atenção a ela.
Eu comento que a Margarida deu um presente para o pessoal do Louveira. Deixou que eles colhessem 200 abacates de um pé na casa abandonada. Francisco confirma. Diz que as árvores ali dão muita fruta, mas que ele mesmo não ousa pegar.
Eu não arrisco não, viu? Mesmo eu que ela diz que gosta de mim. Ah, Francisco, eu gosto de você. Você é um dos vizinhos que eu acho legal e tudo. Porque eu vou na calçada e às vezes converso com ela, né? Mas eu não arrisco. Eu não quero que ela meje o pé.
É uma questão de respeito. E talvez de preocupação. Porque Francisco diz que às vezes se pega aflito com as condições de vida da vizinha.
Às vezes ela aparece aqui na janela, por exemplo, quando tem chuvas fortes, aí ela sai. Às vezes joga água com o balde pela janela, mas é água porque o telhado da casa tá assim. Vai tombar. Ah, a casa é tombada, mas literalmente ela vai... tombar, porque o telhado tá tudo...
O telhado tá roto, telhas caíram em revoada e há vários pontos em que a casa tá descoberta, ainda que Margarida tente reverter o processo do jeito dela.
Um outro dia, sabe o que tem em cima que eu até dei risada? Ela colocou uns guarda-chuva em cima do telhado, entendeu? Dos buracos, assim, eu acho, pra não entrar, né? Ela colocou uns guarda-chuva em cima, então...
Ele se levanta e anda até os fundos do hall Lá, tem uma porta que leva para um pátio Uma laje de cimento no fundo do prédio que dá vista para o fundo da casa.
Abandonada Ela abre do tédio aqui, às vezes eu vejo a televisão ligada Francisco.
Sobe em um vaso de cimento e começa a narrar o que vê lá.
De cima Temos abacateira embaixo cheio de folha, de galho, de tudo. Mas não é bem cuidado não. Ela junta coisas. As vezes entra dentro das caçambas e leva coisas que ela vê que acha que vai usar. Tipo portas, cerâmica, essas coisas. É tudo entulhado aí.
Ele me chama pra ir até lá. De cima dos vasos, a gente vê os fundos da casa. Um quintal cheio de sucata. Uma porta enferrujada tá deitada dentro de uma banheira de porcelana, como se tivesse tomando banho. O mato já deve ter crescido mais de meio metro. O telhado nos fundos tem vários guarda-chuvas encaixados, como se ela tivesse tentado restaurar a cobertura, mas não tivesse telhas. No fundo do quintal, tem um cômodo autônomo. Uma edícola. E no portão da edícola, dá pra ver algo. A rabeira de um carro.
É o mesmo.
Carro que o outro Francisco, porteiro do Lovera, ajudava o pai de Margarida a estacionar. Mas ele tá coberto por uma camada que é ferruge, não tinta. Os pneus cederam e ele tá rente ao chão, mas a dona da casa ainda pensa em usá-lo.
Ah, é que eu queria tirar ele pra colocar na frente do prédio Justamente pra não parar caminhões, assim, pra não prejudicar as árvores, né? Fico, olha, não tem como tirar esse.
Carro daí mais Mesmo quando não encontra com Margarida na rua, o Francisco às vezes vai até o muro Só pra ter certeza que ela tá bem Às.
Vezes fico dois, três dias sem eu a ver, eu já subo aqui no muro e olho se tá tudo bem, se eu vejo um cachorro, alguma coisa Porque mora sozinho, então você tem aquela... meio que você fica, pô, será que tá bem? Será que aconteceu alguma coisa? Principalmente agora nesse tempo, uns dois meses atrás, que tinha esse pico de pandemia, que ela não saía muito, então eu sempre dou uma olhadinha pra ver se a vejo, se tá viva, né?
Ele, de alguma forma, é a única pessoa que zela pela mulher da casa abandonada. Eu agradeço pela conversa e desligo o gravador. Depois que a gente já tinha terminado a entrevista, Francisco número 2 e eu ficamos batendo papo por mais de meia hora. Ele me mostra uma foto que fica pendurada na parede do hall. É um retrato em preto e branco de um casal na frente de uma casa. Um sobrado de dois andares. É o terreno onde foi erguido o edifício Joia. Os herdeiros do casal moram até hoje no prédio. E eu noto que no canto esquerdo da foto dá pra ver um pedaço da casa abandonada. Só que nos anos 30, quando a foto foi feita, ela não era abandonada. Ela era só uma casa. Francisco e eu continuamos conversando, mesmo que não seja mais uma entrevista. Mas no meio do nosso papo, ele solta uma frase que é inacreditável. Algo que me faz tirar o gravador da mochila e pedir permissão pra gravar de novo.
A última vez que eu conversei com ela, que ela expôs pra mim esse acontecido lá, eu perguntei à senhora que trabalhava, ela falou, a gente tem contato, nós somos amigas.
Margarida disse a ele que é amiga da mulher que trabalhou em serviço análogo à escravidão na casa dela por quase 20 anos. Só tem um jeito de eu descobrir isso. De contar essa história completa. Eu preciso visitar o lugar onde o crime aconteceu, 20 anos atrás. Pegar um avião e percorrer os mais de 7 mil quilômetros que dividem a casa abandonada da casa americana onde Margarida morou por 20 anos. Em que, por duas décadas, escravizou uma pessoa. Que hoje, ela disse é amiga dela. Para entender essa história inteira, eu tinha de ir para os Estados Unidos. No próximo episódio de A Mulher da Casa Abandonada, antes de procurar a polícia, Vicky pensou que poderia encontrar apoio na vizinhança. Atravessou a rua e foi conversar com um vizinho que trabalhava com questões trabalhistas no Banco Mundial, onde ela mesma já tinha trabalhado. Mas a resposta que ouviu dele foi um balde de água fria. E ele me disse, você não vai.
Chegar a lugar nenhum. Você pode até fazer isso, mas não vai conseguir nada. E eu respondi, Mas a verdade é.
Que ela não tinha pensado em nada. Voltou para casa sem fazer ideia de como proceder. Sabia que a amiga brasileira era explorada e agredida. Que estava há quase 20 anos trabalhando sem ganhar um centavo. Mas não sabia como fazer para o mundo acreditar nisso.
E quando eu me vi diante dessa situação eu disse, ó senhor, você tem que me ajudar Ela diz que foi.
Nessa noite que aconteceu um milagre e que a ajuda veio na forma de uma carta aberta escrita pelo Papa Eu.
Não queria falar nada. Eu não queria fazer nada, sabe? Mas na carta que João Paulo II escreveu, ele dizia.
Então, Vick declama de cor uma carta escrita por um papa.
O ano do jubileu foi concebido para restaurar a igualdade entre todas as crianças de Israel. Para lembrar aos ricos que virá um tempo em que os escravos de Israel voltarão a ser iguais a eles. e poderão reivindicar seus direitos.".
Esse não é exatamente o texto do Papa, mas o sentido é o mesmo. Ele realmente fala sobre o ano do jubiléu ser o momento das pessoas escravizadas se tornarem iguais às pessoas livres. E ela sentiu que a carta tinha sido escrita não pra ela, mas pra mulher que era escravizada na rua da casa dela. A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha. Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador. A produção desse episódio é de Otávio Bonfá e de Beatriz Trevisan, com pesquisa de Isabel Dias. A edição de som é do Luan Alencar. A coordenação de Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores. A gente se encontra na próxima quarta-feira. Até lá, aproveita para seguir o podcast no seu tocador predileto.



