8 Jun 2022 · 41 min
Journalist Francisco investigates a woman named Mari living in a decaying mansion in São Paulo's Higienópolis neighborhood. Mari faces allegations of modern slavery and is a fugitive from U.S. justice. The story unfolds through Francisco's encounters with her and the removal of a tree from her property.
É manhã de quinta-feira em Higienópolis. O bairro é um dos mais ricos e tradicionais da cidade. Um amigo meu, que é escritor, definiu Higienópolis como um pedaço de Suécia transplantado para o centro de São Paulo. São quarteirões tingidos de verde por árvores que são exceção em uma cidade que é cinza. Uma sensação de segurança paira no ar. Higienópolis é um dos poucos bairros em que um assalto ainda vira notícia de jornal.
Eu.
Tô andando por ruas com nomes de estados. Passo pela rua Rio de Janeiro, na frente do prédio em que o Jô Soares e a Adriane Galisteu eram vizinhos até alguns anos atrás. A Adriane é uma vizinha espetacular. Você não escuta nada. Ela também pode acontecer o que for de barulho.
Não reclamo, não reclamo.
Aliás, eu vou contar aquela história do microfone.
Ah, que é muito boa.
Cruzo na Rua Maranhão com o condomínio de apartamentos onde morava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso Passo na frente da FAAP, uma faculdade que tem prédios imitando templos gregos e que cobra 3.500 reais de mensalidade pro curso de administração. É uma manhã de sol e de céu azul. No dia 23 de dezembro de 2021, há dois dias do Natal, a riqueza paulistana está em paz. As ruas estão vazias. A cidade já está com clima de férias. Quem pode sair de São Paulo, saiu. Ficaram poucas pessoas no bairro, como eu. Funcionários de prédios varrem as calçadas enquanto conversam. Até que eu vou me aproximando da Praça Vila Boim, uma ilha de árvores e de bancos cercada por restaurantes, e noto que alguma coisa arranha a paz da elite. Um caminhão da prefeitura de São Paulo está parado na esquina das ruas Piauí e Aracaju. Da parte de trás dele sai uma escada Magiros, dessas que os bombeiros usam nos filmes para resgatar gatinho em cima de árvore. Mas o que está acontecendo ali não é um resgate. É a remoção de uma árvore. Seis funcionários que estão vestindo o macacão cor-de-laranja e capacete se ocupam de decepar os galhos com duas serras elétricas. Eu me aproximo e faço em voz alta a pergunta mais óbvia que poderia caber nessa situação. Eles vão derrubar a árvore? Na calçada oposta à árvore, tem duas mulheres paradas olhando a cena. Uma é alta e magra, tá com um vestido estampado e elegante e um colar de âmbar. uma moradora de bairro rico na manhã da antivéspera de Natal A outra, do lado dela, é uma mulher baixa e gorducha, com uma camiseta tie-dye azul marinho, calça preta e tênis esporte Uma faixa preta cobre o cabelo, que também é preto como se ela estivesse fazendo jog. Mas ela não está fazendo jog, porque tem um caderno com a pequena sereia numa mão e uma caneta na outra. As duas têm por volta de 50 anos, mas é só nisso que se parecem. De resto, não poderiam ser mais diferentes. Mas estão lá, lado a lado, conversando.
Isso é um crime. Eu tô tentando parar. Você tem uma ideia pra ajudar? Você tá louco, 70% me falaram. É mentira. Vou dizer pra você. Essa lei, 10.365 de 87, ela diz que nós, aqui, temos todo o interesse em defender e fazer tudo sobre a árvore, tá? Aqui diz que... Qualquer coisa de supressão total ou parcial só será admitida com, no mínimo, um engenheiro agrônomo da Secretaria-Geral das Subprefeituras.
A mulher que fala sobre leis é a mais baixa. Eu noto que as roupas dela estão sujas. Ou estão além de sujas. Elas estão imundas. O cheiro dela me recepciona, junto com as vozes das duas e o rugido da serra elétrica.
Eu faço cara de dúvida, porque o.
Discurso da mulher baixa parece improvável É uma teoria da conspiração de que empresas em conluio com o Estado ganham dinheiro cortando árvores saudáveis de bairros ricos. De que é esse o novo esquema de corrupção em um dos países mais corruptos do mundo. A mulher alta também parece confusa. E, enquanto a mulher baixa de roupas encardidas fala como se não precisasse respirar, a outra me chama pra perto e sussurra. Doidinha, ela disse enquanto olhava pra outra. Eu sou Chico Felitti e esse é A Mulher da Casa Abandonada, um podcast investigativo da Folha que revela a inacreditável história de uma brasileira que vive há décadas numa mansão decadente em um dos bairros mais caros do país. Que se esconde nas sombras da decadência porque é procurada nos Estados Unidos por um dos crimes mais hediondos que uma pessoa pode cometer. Primeiro episódio. A Mulher. de volta pra Praça Vila Boim na antivéspera de Natal A mulher baixa parece inconformada. A mulher alta só olha pra ela e ouve. Às vezes, balança a cabeça. A que fala sem parar conta que já derrubaram uma árvore da praça semanas antes. Que ela até tentou impedir. Mas não conseguiu.
Em qualquer situação, tem que ser a grana mais responsável da prefeitura. O que foi que aconteceu com essa árvore quando queriam trocar? Então, eles pegaram... Desculpa, é que eu tô sem o casaco, tudo, na prisão. Olha que a máscara fica grudando aqui.
A máscara gruda no rosto da mulher porque ele tá inteiro besuntado, coberto por alguma substância grossa, que pode ser um tubo inteiro de base ou de pomada praçadura. Não dá pra saber. E a máscara cirúrgica tá empapada, grudada à pele, transparente por causa da papa oleosa. Mas isso não impede que ela continue falando.
O que eu preciso? O secretário do Verde do Meio Ambiente foi levado a erro, ele foi enganado.
Essa mulher, que ainda não se apresentou, tem uma teoria. Pra ela, os funcionários da prefeitura estão trabalhando na manhã da antivéspera de Natal pra aproveitar que a cidade tá vazia. Porque não querem ser notados. Ela defende que eles agem na surdina, derrubando árvores saudáveis só pra ganhar por isso. Que a derrubada da árvore de Genópolis, na véspera da véspera de Natal, é, na verdade, uma grande parte de um esquema de desvio de recursos públicos que envolve laudos falsificados e empresas mal intencionadas.
Na coisa que sai do Diário Funcional, ele diz que foi feito o laudo. Com base nesse laudo que ele resolveu fazer isso. Mas é um laudo de uma companhia terceirizada. Só que ele não diz qual é. Então a gente pensa que é uma companhia especializada, mas não é. Você chegou a descobrir o nome da companhia? Claro, é Serg Paulista.
Serg?
Serg, S-E. Deixa eu ver aqui.
Ela abre o caderno da pequena sereia e começa a folhear.
Eu espio.
E o caderninho tem páginas e mais páginas com legislação ambiental. Leis e regras municipais copiadas à mão com uma caligrafia caprichada.
Olha, todos, eles têm interesse monetário. Qualquer supressão tem que ter croquis, tem que ter um engenheiro agrônomo... Nossa senhora.
A senhora conhece não, amor.
Oi?
A senhora estudou, conhece... Claro, por isso que eu demorei.
Porque esse negócio, eu tô escrevendo uma carta pro secretário do Verde do Meio Ambiente. Mas ela pode escrever só pedindo.
Ela tenta argumentar que a poda da árvore fere leis e regulamentos, que precisa falar com o secretário do Verde e do Meio Ambiente. Só que a Serra dificulta essa discussão. Enquanto ela fala, a árvore vem abaixo, como se estivesse sendo esquartejada em plena praça pública.
Ah, eles já cortaram.
Ai meu Deus, vai cair. Ela pede que eu documente a remoção da árvore, que tire fotos para ela poder usar num dossiê que quer fazer e entregar para a imprensa ou para políticos influentes.
Olha, da Serg Paulista. Tira uma boa foto. Deixa eu tirar esse dedão daí. Está boa?
Eu faço fotos com o meu celular. Imagens da árvore indo ao chão, pedaço por pedaço. Essas fotos você pode ver no site e nas redes sociais da Folha. Enquanto isso, a mulher parece desesperada. Diz que mais cedo já ligou pra polícia, mas que a polícia é responsável por defender pessoas, e não árvores.
Você tem alguma ideia do que a gente pode fazer? Porque eu chamei a polícia, não avisaram? E eu tava ainda de pijama, tudo, eu tinha que vestir, né?
E eles vieram?
Vieram, mas aí eles enganam. Por que que eles enganam? Porque eles mostram em laudo. Só que o policial, que não tá acostumado, nem eu, a primeira árvore aqui, eu fui enganada também. Eles falaram que tinha um laudo, eu acompanhei até o fim, eu tenho fotos até o fim.
Depois de quase 15 minutos falando, as duas mulheres finalmente se apresentam uma à outra.
A mulher baixa.
Com rosto besuntado e as roupas imundas, se apresenta como Mari. A vizinha alta também diz seu nome, que foi bipado a pedido dela, que não quer ser identificada. Mas as duas não têm tempo para fazer social, e o assunto logo volta a ser árvore.
Eles foram cortar lá em cima, o tronco ainda não vão poder cortar hoje Quem disse? O agrônomo Ah, e eles vão cortar amanhã? Talvez Vocês vêm amanhã na véspera de Natal, por acaso, para fazer essa maldade?
A Mária atravessa a rua e se aproxima dos funcionários da prefeitura Quer saber se eles vão mesmo terminar de remover a árvore morta na véspera de Natal Eu queria estar trabalhando amanhã também Já acham que eu queria estar acordando amanhã às seis da manhã?
Você vai ou você não vai vir amanhã? Eu vou, com certeza Você vem amanhã? Para fazer a maldade no dia de Natal?
Não, só para finalizar o serviço. Mari sobe o tom com um dos funcionários públicos. Ela acusa esses homens de estarem cometendo um crime.
Quem dá, né? Tem a piedade da própria árvore. Quando você fez engenharia agrônoma, você deve ter feito o que você gosta de natureza. Então, é sua obrigação proteger. Quem tá fazendo isso, a Serg Paulista, e não é vocês, vocês tão trabalhando pra eles. Eu compreendo isso. Mas a Serg Paulista tá fazendo isso por dinheiro. Tá ganhando a nota preta. Cê tá entendendo? Eles, não vocês, vocês recebem o salário de sempre. Mas eles recebem o dinheirão por uma remoção muito mais que uma porta, tá?
E a conversa zeda de vez quando Mari começa a ofender os funcionários públicos.
Ó, e o Lauda ainda por cima tá errado. Você é esperto. Lê lá no negócio do Lauda o seguinte. Quando uma madeira tá ouca, qual que é a madeira? Quando você bate ela, faz mais barulho, não faz? Presta atenção. Jogo, jogo, né? Os funcionários.
Desistem de dar atenção à mulher, viram as costas e retomam seu trabalho. Maria atravessa a rua enquanto rumina para ela mesma e para quem quiser ouvir.
Ela pede minha ajuda para descobrir como.
Denunciar esse ato, que ela considera ilegal, para o Ministério Público. Eu saco meu celular e descubro um site do Ministério Público para denúncias de cidadãos. Eu pergunto se ela quer que eu mande o link para o WhatsApp. Só que ela não tem WhatsApp.
Não, eu anoto.
Eu nem sei se isso aqui recebe. Eu sou próxima com essas coisas de tecnologia.
Não, sem problema nenhum. Então, ela pede que eu soletre o site do Ministério Público pra ela anotar no caderninho de pequena sereia.
Como é que é? Fala.
Www.Mpsp.
Pequenininho, ó.
Isso, tudo caixa baixa, tudo minúscula. .mp. Peraí, aqui é gigantesco, vou até colocar... Não tem como mandar mesmo, de verdade, é muito grande Enquanto Mari termina de anotar, a outra mulher me chama de canto Conta que Mari mora ali do lado, é vizinha dela, mas que não mora num prédio, mora numa casa É.
A dona do casarão ali, que mora naquele casarão.
A casa abandonada! O casarão ali é uma mansão abandonada a passos de onde a gente tá. Um imóvel que tá caindo aos pedaços, literalmente caindo aos pedaços. É uma casa centenária de três andares e tijolo aparente que já viu dias melhores. Tá cercada por mato, com as paredes manchadas e sujas e sem um pedaço do teto. Tem gente lá? É ela, sozinha, doida, doida, doida As janelas verde musgo estão sempre fechadas O portão de ferro é trancado por uma corrente que dá quatro voltas antes de ser arrematada por um cadeado A casa, vista de fora, parece abandonada, mas a vizinha garante que a Mari mora ali Ela é dos pais dela, ela mora sozinha, as irmãs querem tirar ela de lá, ela não está de jeito nenhum Eu vou descobrir no futuro que a situação da casa é tão precária que os vizinhos já entraram na justiça pra conseguir autorização só pra limpar o terreno, pra retirar o lixo que se acumula dentro e fora da casa de milhões de reais.
Eu tô até achando óbvio falar com ela depois, quando eu chegar, pra ver se ela não quer que a gente faça uma vaquinha pra arrumar pelo menos o telhado.
Eu só, porque... E ela mora lá dentro?
Ela mora.
Mas tá sempre trancado?
Tá sempre trancado, sem água, sem luz.
Não sei o que essa mulher faz. Por isso que tentaram interditá-la, mas ainda não conseguiram. Ela herdou do pai.
A vizinha alta para de me contar o que sabe quando a Mari volta. E ela vem na nossa direção com um pedido. Que a gente vigie os funcionários da prefeitura enquanto ela vai até a casa dela.
Vocês podem ficar aqui um pouquinho?
Tá bom.
Mary quer voltar para casa e trocar a máscara empapada pelo óleo do rosto. Eu pergunto se ela não prefere uma máscara nova. Eu posso comprar na farmácia da Praça Vila Boim, que fica a 20 passos de onde a gente está. Ela topa e eu vou até a farmácia. A Mari chega segundos depois de mim e já chega dando ordem E só essas aqui?
Todas elas Eu costumo usar essa, essa que serve, né?
Máscara cirúrgica Ela pede que a funcionária não encoste na sua máscara.
O jeito que ela trata as funcionárias.
Da farmácia lembra o jeito que ela tratou os funcionários da prefeitura, que lembra o jeito que uma certa elite brasileira trata quem está trabalhando para ela há pelo menos 500 anos. Cria-se um clima tenso na farmácia, e eu no meio, tentando apaziguar.
Depois que.
Abre a embalagem das máscaras, Mari deixa a tesoura no balcão e joga o plástico no chão. Ela não quer esperar que eu pague pra usar a máscara. Coloca no rosto e sai andando.
Por gentileza, arruma uma sacola pra mim.
Espera só um pouquinho, deixa eu passar aqui. É pagamento em cartão?
Pode ser dinheiro ou cartão, tanto faz.
Aqui nesse caixa de cartão.
Foi melhor.
Você quer passar? Pode ser?
Espera aí.
Ela sai da farmácia enquanto eu pago pelas máscaras. Quando a gente volta pra praça, a árvore parece um corpo desmembrado.
Perto.
Do meio-dia, a maioria dos galhos já virou tocos. E só resta um pedaço do tronco.
Eles vão remover a árvore, é pra isso que eles estão aí. E a árvore está totalmente saudável, já aconteceu com essa.
Mari reconhece que foi derrotada, mas só nessa batalha, não na guerra contra a derrubada das árvores do bairro. Ela diz que vai juntar as fotos que fizemos em um documento e que vai levar esse documento até homens de poder.
Ela disse que quer muito fazer uma.
Denúncia, mas que tem algo no caminho. Ela tem medo de que possa correr perigo caso denuncie a máfia da poda de árvores, que acredita ter descoberto.
E ela continua.
Falando, tratando a Secretaria do Verde do Meio Ambiente como uma máfia que pode colocar a vida dela em risco Faz mais de uma hora que eu tô com ela. Eu preciso ir embora, porque já tô atrasado pra um compromisso. Mas eu quero falar de novo com essa pessoa. Maria, eu preciso ir.
Muito prazer, Francisco.
Tchau, tchau.
Como eu passo pra falar com você depois de saber o que aconteceu?
Você me deu o telefone, né?
Não, não dei. Você pegou só o meu endereço.
Ah, então vamos pegar o telefone. Não, o que aconteceu vai demorar. Porque eu larguei tudo que eu tinha que fazer pra tratar desse assunto e pra salvar essa árvore. Tem que salvar hoje. Amanhã eles terminam, ele falou. Eu sei, eu sei. Tem que mandar interromper. Eu vou tentar. É Francisco.
Isso, 11. E eu passo meu número de telefone pra ela, me despeço das duas mulheres e vou embora. É bem provável que você já esteja se perguntando por que eu estava com o gravador ligado na manhã da antivéspera de Natal, documentando os sons da derrubada de uma árvore em um dos bairros mais ricos de São Paulo, enquanto uma moradora excêntrica tentava impedir funcionários públicos de trabalhar. E tem um motivo pra isso, eu juro que tem. Porque faz meses que eu já quero conversar com essa mulher, e minha curiosidade nasceu por causa da casa onde essa mulher mora. Uma mansão. Uma casa de tijolos aparentes que atravessa um quarteirão inteiro. De frente, dá pra uma rua. Os fundos da casa desembocam em outra rua. Além do imóvel, que tem mais de 20 cômodos, a casa abandonada ainda tem um quintal do tamanho de um campo de futebol, cheio de abacateiros carregados. É um dos últimos terrenos sem prédio em um bairro de São Paulo dominado por edifícios. Onde um apartamento de dois quartos custa 2 milhões de reais. E eu, contaminado pelo espírito incorporador de imóveis que paira sobre São Paulo, via a casa abandonada e só pensava em uma coisa. Como é que ainda não levantar um prédio aqui? Quanto será que custa esse terreno? Uns 10 milhões? 20? E tinha também toda a atração simbólica de uma mansão caindo aos pedaços. Uma casa abandonada é o maior clichê que existe. É a alegoria mais óbvia de filme de terror. O assassino de psicose mora numa casa abandonada. A bruxa de Blair mora numa casa abandonada. Até a família Adams mora numa casa abandonada. No momento em que eu me mudei pra Engenópolis, inclusive, eu tava lendo sobre uma... casa abandonada. O livro chama As Coisas que Perdemos no Fogo, da argentina Mariana Henriquez, e tem um conto que se chama Casa de Adela. Nele, três crianças ficam obcecadas por uma casa abandonada do bairro. Eu convidei a dramaturga e atriz Renata Carvalho para ler um trechinho desse conto.
Aí vai.
Adela e Pablo não falavam de outra coisa. Tudo era casa. Perguntavam no bairro sobre a casa. Perguntavam na banca de jornal e no clube. A Dom Justo, que esperava o entardecer sentado na porta de sua casa. Aos galegos da feira e a verdureira. Ninguém lhes dizia nada importante. Mas vários coincidiram no fato de que a estranheza das janelas tapadas e do jardim ressecado lhe dava calafrios, tristeza e às vezes medo. Especialmente à noite.
E eu não vou estragar o fim do conto se eu disser que as crianças entram na casa, e que algo de sobrenatural acontece ali. Mas agora vamos voltar pro mundo real. Daí, um belo dia, eu tava andando com a minha cachorra pela rua, perto das 11 da noite, e tomei um baita de um susto. Tinha um rosto sorrindo em meio às plantas que cercam a casa abandonada Um rosto brilhante, que parecia uma lua refletindo a luz dos postes E era a cara da Mari, besuntada de pomada branca, de pé, no jardim da casa, olhando para quem passava por fora Nessa época, eu ainda não sabia o nome dela Nem que alguém vivia na casa abandonada E aquela aparência atiçou ainda mais a minha curiosidade As roupas desgranhadas, a camada de substância oleosa que sempre cobriu o rosto o tom de voz fino, sempre entre o gentil e o imperativo E eu decidi que queria descobrir quem era a mulher, porque eu queria contar a história dela Foi daí que eu passei a andar com o gravador e ligá-lo toda vez que cruzava com ela 2 de janeiro, 10 da manhã, chegando na casa E a gente começou a conversar Oi, boa noite! Tudo bem? Tudo! A senhora lembra de mim? Atafou! A maior parte das vezes, ela tá com a cabeça pra fora da cerca da casa. E a maior parte das vezes, a gente fala sobre cachorros. O meu assunto predileto e, aparentemente, o assunto predileto dela também. Ele é bravo?
Ela, as duas. São grandonas, bravas, feras.
Eita, preciso me preocupar ou é que tá segura?
Não, você tá segura. Elas são perfeitamente treinadas e obedientes.
Ah, que bom.
Você tá vendo o que eu falei com ela? Ela ficou quietinha.
Ficou tranquila. As minhas não obedecem. As minhas já estariam latindo aqui e a gente não conseguiria nem conversar.
O que é essa de você?
Ah, vira-latas, duas.
Duas?
Duas. A Mari me mostra as duas cachorras. São vira-latas pretas e enormes, com traços de Doberman e uma pitadinha de Rottweiler. São cães de guarda. E ela apresenta os bichos.
É ebony, porque ela era preta. E essa é uma branca chamada ivory.
As cachorras chamam ebony e ivory. Se não deu pra ouvir, é porque ela tava lá dentro do jardim e eu tava do lado de fora, gravando. Mas, quando ela diz os nomes ebony, que significa ébano em inglês, e ivory, que é mais afim, ela fala com um sotaque americano perfeito. A mulher pode morar numa casa que é um pouco mais do que escombros, mas parece ser culta. E sabe qual é o arquétipo da mulher culta que mora sozinha numa casa decadente? Ah, sim, eu já vi ela, sim. Desde que eu sou criança eu vejo ela na rua. O pessoal chama de bruxa, não é ela? Não é essa pessoa? O seriado da TV do Chaves tem a dona Clotilde, que é a bruxa do 71. Nós aqui também temos a bruxa da casa da vizinhança.
Há aquela mulher daquela casa? Aquela mulher é bruxa?
Foi o que eu descobri logo que eu comecei a perguntar para os vizinhos se eles conheciam a mulher da casa abandonada. Quando eu soube que tinha uma mulher morando ali, numa casa abandonada, eu imaginei que a história fosse de alguém também abandonado. Uma mulher excêntrica. Depois que eu encontrei com a Mari, a desconfiança só aumentou. Pensei que pudesse ser a história de uma mulher excêntrica e discriminada pelos vizinhos. É o tipo de história que me interessa. Em 2018, eu escrevi o perfil de uma pessoa excêntrica do centro de São Paulo, um homem chamado Ricardo Correia. Ricardo era um artista de rua que havia injetado silicone no próprio rosto até ficar com as bochechas enormes que renderam o apelido de Fofão da Augusta. O apelido pelo qual ele foi conhecido por décadas, como Mária conhecida por décadas como a Bruxa. Enfim, eu pensei que tinha uma história pra contar ali dentro da Casa Abandonar. E, em seis meses de investigação, eu descobri que naquela mansão decadente morava mesmo uma história. Mas não era a que eu previ. Nem de perto.
Como.
Tinha prometido na antivéspera de Natal, a Mari volta. Demora um pouco mais do que tinha previsto, mas volta. É meia-noite em ponto do dia 2 de janeiro de 2022. Eu acho que eu venci o primeiro dia do ano quando meu telefone toca. Uma ligação a essa hora da noite não costuma ser boa notícia. Então, eu saio da cama num sobressalto. Até eu conseguir pegar o celular na cômoda, a ligação já foi pra caixa postal. Eu vejo o número desconhecido e, por algum motivo, desconfio que seja a mulher da casa abandonada. Então, eu ligo imediatamente de volta pro número, coloco a ligação no Viva Voz e ligo meu gravador do lado do celular. Dito e feito. No primeiro toque, ela já atende.
Alô?
Alô, dona Mari?
Quem tá falando?
É o Francisco, a senhora acabou de me ligar.
Ah, é? Como é que você conseguiu fazer isso? Engraçada. Eu estava deixando um recado para você e você me ligou?
Eu explico que veio a ligação não atendida e, como ela estava para me ligar, imaginei quem pudesse ser Ah, que engraçado!
Que engraçado! Então, eu estava deixando um recado para você Aí você ligou e eu achei estranho É meia-noite e cinco.
Eu já estava na cama. Mas eu digo que não é muito tarde.
Que bom, é porque eu não consegui nem no dia 31, nem ontem, hoje eu esperava conseguir te ligar bem mais cedo, claro, mas eu tinha que fazer uma coisa, eu acordei bem cedinho e não consegui fazer, teve aquela chuva lá, eu ainda tomei chuva, fiquei toda molhada, foi agora a noite que eu fui trocar de roupa e jantar, tudo, e agora Eu queria te ligar, eu não queria deixar passar, né? O dia de hoje, mesmo não dando, eu queria te ligar. E aí não achava seu número no caderninho, porque aquele dia eu anotei e faz vários dias eu não lembrava que é tanta coisa no caderninho que eu não achava seu número. Enfim, eu não consegui, sabe, te ligar antes pra gente ir lá na... lá pra você me ensinar, né, o negócio do diário oficial. Então, eu queria me desculpar que eu não consegui ligar antes e só falar um oi pra você e perguntar. Eu não sei questão de horário pra você. Durante a semana, você pode ou só no fim de semana? Como é que é?
Eu falo pra ela que não tem problema, que eu posso ensinar a abrir o Diário Oficial do Município no computador. Ela quer ficar de olho nas publicações oficiais porque, antes de podar ou retirar uma árvore, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente precisa fazer um anúncio no Diário Oficial. Ela quer poder prever quais vão ser as próximas plantas do bairro que vai defender. Então, eu digo que posso passar na casa dela em um dia de semana, durante a tarde, ou no começo da manhã. Que é só a gente combinar.
Ah, então pode ser qualquer dia a gente... quer dizer, eu te ligo o dia que eu consigo e aí a gente combina um horário mais ou menos, de acordo com o que você quiser, é isso?
É isso.
Tá ótimo. Beleza. Então a gente faz desse jeito aí. Eu vou tentar essa semana. Amanhã eu sei que eu não consigo. Talvez terça ou quarta, não sei. Mas tá ótimo então, tá combinado.
Sem problema, tô por aqui. Boa semana e bom ano pra você. Eu desejo a ela um bom ano.
Nossa ligação.
Dura 3 minutos e 59 segundos.
Imagina. Obrigada a você. Boa noite.
Boa noite. Tchau, tchau.
E feliz ano mais uma vez. Um ótimo 2022.
Pra nós.
Tchau.
Tchau, tchau. Eu desligo o telefone e vou ouvir o recado de voz que ela tinha deixado no meu celular.
Oi, tudo bem? Aqui é a Sandy. Sim, eu mesma. Quero te convidar para assistir ao meu programa de culinária.
Eu passo por uma caçamba de entulhos sonoros de propagandas até chegar à mensagem de voz.
Oi, Francisco. Aqui fala a Mari. E é bem.
Nesse momento que ela atendeu o telefone para falar comigo Se.
Quiser ouvir o recado novamente, digite 3 Para detalhes do recado, digite 4 Se quiser apagar esse recado, digite 5.
Eu aperto a tecla 3 três vezes, ouço e repito o recado da mulher excêntrica que mora numa mansão abandonada num dos bairros mais ricos do Brasil. E então, eu coloco o celular no modo silencioso e vou dormir. Só que o encontro no café nunca vem. A Mari não me liga nunca mais e, quando sou eu que ligo, ela não atende. É como se estivesse fugindo de mim. Eu passo na porta da casa abandonada quase todos os dias. Às vezes, eu mudo a minha rota só pra passar pela rua dela, pra ver se cruzo com a mulher da casa abandonada. E isso acontece só duas vezes. Eu chego na frente da casa e ela tá no jardim, com o rosto coberto pela pastoleosa e com um lenço no cabelo. Eu tento falar com a Mari. Ela olha pra mim, mas não sustenta a olhada. Vira as costas e entra na casa. Fecha a porta sem dizer uma palavra. Dona Mari? Dona Mari? Eu não sei o que aconteceu. Só desconfio que, em algum momento, Mari tenha descoberto que eu sou jornalista e que preferiu tomar distância de mim. Por isso, eu começo o ano indo atrás do que já existe de história sobre essa pessoa. E não demora muito pra eu descobrir. Porque a casa abandonada é famosa. Eu descubro isso na primeira busca que eu faço no Google. O casarão é tradicional. A casa abandonada foi construída na década de 30. O imóvel tem três andares e 24 janelas. E ele é tão famoso que tem até nome próprio. A casa foi batizada com o nome de um médico famoso, pai da mulher que hoje mora nela. Originalmente, a casa tinha vitrais com imagens náuticas, como barcos e mares revoltos. A casa é uma sobrevivente. É a única que resta nessa rua, em que pelo menos outras 20 caíram para dar lugar aos prédios que estão lá hoje. Mas não é só a casa que tem história, não. Eu descubro que a mulher da casa abandonada tem uma história que poderia estar num filme de terror. Encontro um site de arquitetura que lamenta o estado deplorável da casa. E os comentários ecoam a lástima que é ter um imóvel importante jogado às traças em uma rua rica de São Paulo.
Que lástima. É tanta beleza deixada no relento? Lamento a infiltração nos beirais. Pena que hoje o casarão tá abandonado, precisando de reformas urgente.
Mas, no meio dos comentários de pessoas curiosas para conhecer o imóvel por dentro, e de vizinhos fulos com o cheiro que a casa emana, tem um comentário que se destaca. Um comentário anônimo que parece uma mensagem cifrada. Em 2018, uma pessoa não identificada escreveu no site de arquitetura. Ela é procurada pelo FBI. Margarida Bonetti. eu leio e uma luz amarela se acende na minha mente. Eu vou pra internet e encontro a combinação dos termos FBI e Margarida Bonetti no site da Newsweek, uma revista semanal que existe há quase 100 anos e é uma das mais respeitadas do mundo. Eu clico. Na tela, abre uma reportagem de 21 anos atrás com a manchete Slavery's New Face. A nova cara da escravidão. O texto narra a história de René e Margarida Bonetti, um casal brasileiro que se mudou para o subúrbio de Washington em 1979. O marido foi convidado a trabalhar numa empresa que faz satélites para a NASA. E o casal se mudou para os Estados Unidos na virada dos anos 80 com uma empregada doméstica. Assim que chegaram, Margarida e o marido pararam de pagar o salário dessa funcionária brasileira, que era analfabeta, e mantiveram a mulher em cárcere privado por quase 20 anos. O texto conta que René foi preso nos Estados Unidos, e que Margarida é procurada por ter submetido uma pessoa a condições análogas à escravidão, uma pessoa de quem tirou direitos e dignidade, a quem negou atendimento médico por anos, até que um tumor chegasse ao tamanho de uma bola de futebol e ela fosse resgatada por vizinhos. A reportagem tem uma foto. É um retrato de René e de Margarida. A mulher na foto é Margarida Bonetti, uma mulher morena e baixa, os olhos amendoados e o rosto redondo. Eu olho para a foto e vejo nela alguém que eu conheço. Por mais que esse rosto tenha mudado com duas décadas e que hoje carregue uma camada de substância oleosa. Margarida Bonetti é Mari. Margarida Bonetti é a mulher da casa abandonada. E a mulher da casa abandonada é foragida da justiça americana por ter cometido um dos crimes mais impensáveis que existem.
No.
Próximo episódio de A Mulher da Casa Abandonada, Acho que na primeira ou.
Terceira semana que a gente estava morando lá, um dia eu passo e eu vi a luz acesa da casa, e daí eu comecei primeiro, né, adoro uma história de espírito, adoro, comecei, nossa, tô vendo coisa, imagina, imagina que tem alguém que tá morando nessa casa, nesse estado, não é possível E a janela entra aberta, uma luzinha, daí passou uns dias, teve um dia que tava chovendo muito, mas aqueles, assim, temporais E eu passo de guarda-chuva e vejo uma senhora jogando um balde pra fora Dessa janela bondada de cima, que era a que eu tinha visto a luz E daí eu entrei em casa e falei pro Fábio, meu Deus, não é possível que tenha alguém... Não é espírito, então eu vi de novo, se vir o espírito não ia estar preocupado com a posta, né que tem alguém morando lá, naquele estado, e que deve estar caindo muito aos pedaços a casa E fiquei muito sensibilizada na época por ela, falei, nossa, preciso ajudar essa velhinha Como que pode? Ela tá ali morando sozinha E aí eu travessei a rua, fiquei junto com o segurança do outro prédio, tipo, o que que tá acontecendo? Ela tá machucada? Aconteceu alguma coisa grave? E nisso passou uma moradora que a gente sempre se encontra, hoje em dia ela é irmã de uma das vizinhas aqui do prédio, então a gente conversa, até conversei com ela na semana passada, porque eu falei, nossa, Eugênia, foi você que me contou a história. Porque o segurança não sabia nada sobre a história dela, e eu falei, gente, que dó dessa mulher aí, olha a situação que ela tá morando, né? Por que que tava com o oficial de justiça, polícia, um descarcel. E essa mulher passou com um cachorro e falou, dó? Dó? Dó nenhuma! Daí é gente muito ruim, você não sabe o que ela fez no passado. Ela tá aqui foragida porque eles escravizaram uma empregada nos Estados Unidos. Você não tem ideia o quanto essa mulher é ruim! Então me irritei, eu falei, como a senhora chama? Daí ela falou Maria, eu falei, a senhora não chama Maria, a senhora chama Margarida. E eu sei muito bem o que a senhora fez, então, ou a senhora deixa a prefeitura entrar aqui, Ou sua vida vai ficar muito pior do que.
Ela já tá A.
Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador A produção desse episódio é de Otávio Bonfá e de Beatriz Trevisan A edição de som é do Luan Alencar E a coordenação de A Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores A gente se vê na quarta que vem Enquanto isso, aproveita para seguir o podcast na sua plataforma predileta Até lá.



