20 Jul 2022 · 55 min
Francisco Chico Felitti interviews Margarida Bonetti about accusations that she enslaved and abused a domestic worker for two decades. Bonetti denies the charges while Felitti presents contradictions with FBI evidence in this investigative audio documentary.
Esse podcast é uma reportagem que se baseou em registros de um caso de notório interesse público. Procurou ouvir todos os envolvidos e deu espaço às versões dos que se manifestaram. Essa série não é uma investigação policial nem um processo judicial. A Folha condena qualquer tipo de agressão e perseguição contra as pessoas aqui retratadas. Às 10h da manhã de 29 de maio de 2022, meu celular toca Do outro lado da linha está a Margarida Bonetti, disposta a dar uma entrevista pela primeira vez na vida Faz menos de uma hora que eu saí da frente da casa abandonada, onde a encontrei depois de dias à espreita Quando a gente se encontrou pessoalmente, a Margarida falou comigo por menos de 10 minutos Pediu para escovar os dentes dentro de casa, fechou a porta e não voltou mais Assim que eu atendo, Margarida pede desculpa pelo sumiço Diz que não me deixou sozinha porque tinha desistido de dar entrevista Só estava se preparando para falar com mais conforto Alô? Alô, Margarida?
Ah, esse número, né? Isso O caso é o seguinte, você me desculpa em primeiro lugar, porque como eu estava vestida com roupa mais quentinha e estava começando a fazer calor, eu fui trocar em tudo para ficar mais confortável, que ali onde a gente estava conversando bate sol, entendeu? E você então me desculpe pela demora. É só para poder ficar E depois.
Dessa desculpa, ela fala por mais de duas horas Eu sou Chico Felitti e esse é o episódio final de A Mulher da Casa Abandonada, um podcast da Folha que investiga a vida de Margarida Bonetti, uma brasileira que foi acusada de submeter uma pessoa a trabalho análogo à escravidão por quase 20 anos. Segundo uma investigação do FBI, ela agredia essa empregada, que trabalhava para a família dela desde que Margarida tinha 9 anos de idade. A empregada parou de ganhar salário em 1979 e ficou sem pagamento até 1998. René Bonet, que era casado com Margarida nesse período, foi condenado e cumpriu pena nos Estados Unidos Mas ela fugiu para o Brasil e nunca foi julgada Esse episódio é um pouco diferente. Até agora, essa série foi um documentário em áudio, um podcast narrativo, com cenas e com ação. O que você vai ouvir agora é só uma conversa, uma entrevista, a versão de Margarida. A conversa teve mais de duas horas, mas essa vai ser uma versão editada que contempla o lado de Margarida. Em alguns momentos, eu vou interromper a entrevista para trazer outras informações, ou para corrigir alguma coisa que ela tenha dito e que não é verdade. Isso porque existem contradições entre o discurso dela e as provas recolhidas pelo FBI. Muitas contradições. E a qualidade do áudio pode ter um momento ou outro de turbulência É que eu não esperava a ligação de Margarida Quando o telefone tocou, eu só tive tempo de colocar meu celular no Viva Voz com o gravador do lado E depois de semanas tentando falar com essa pessoa que jamais deu uma entrevista, eu não podia deixar passar essa oportunidade procurando um estúdio num domingo de manhã.
Episódio.
7 – A Mulher da Casa Abandonada A primeira coisa que Margarida faz, no segundo minuto de ligação, é pedir que eu adie o lançamento desse podcast.
Eu gostaria de saber se a gente pode adiar esse negócio todo, porque eu não tenho quantos mais de um momento. Mais pra frente um pouco, sim. Entendeu? Tudo bem com você?
Não, não posso. Eu preciso entregar essa semana a série estreia em breve.
Entregar a série por quê?
Eu preciso entregar a série em breve, essa semana, porque ela estreia em breve. Ela estreia agora em junho. Vale aqui lembrar que eu tô falando com ela em um dos últimos dias de maio, depois de semanas tentando entrar em contato, sem nenhuma resposta.
Então, como um bom jornalista, você tem que saber, e todos eles sabem, então você deve saber, eu só vou lembrar isso, tem que ouvir todos os lábios antes de publicar qualquer coisa, certo? É verdade, certo?
Isso que eu, claro, por isso que eu procurei a senhora e procurei tanto, né? Fui na casa mais de dez vezes nos últimos dias, liguei em vários horários, bati e hoje saí correndo na manhã de domingo pra falar com a senhora porque me avisaram que a senhora tá lá. Tudo isso em compromisso com o outro lado, em compromisso com permitir que a senhora conte a sua versão da história. Margarida, então, começa a se definir sem eu nem ter perguntado. É como se ela tivesse decorado um texto.
E eu quero que você saiba que a minha missão nessa vida, isso é importantíssimo pra mim, e tudo que eu faço, que eu falo, que eu penso, onde eu consigo estender minhas mãos pra agir, e as minhas palavras, as minhas ações, é pra fazer, pra avalecer o que é bom e o bem, o que é certo, o que é justo e o que é reto, o reto, entendeu?
Ela se embanana e tenta de novo.
Então, o que é bom e o bem? O que é certo? Ah, já sei. Desculpa que eu tô com sono ainda. Fazer prevalecer o que é bom e o bem, o que é belo, o que é justo e o que é certo.
É só então que ela confirma. A nossa conversa é sim uma entrevista que pode ser gravada e usada no documentário. E ela explica porque, depois de 20 anos de silêncio, decidiu falar.
Eu quero sim falar, porque esse homem não é meu marido. Eu me divorciei desse homem por causa dessa porcariada toda, dessa imundície toda, tá? Porque eles pensam que a pessoa que é casada com alguém que fez algumas coisas, que ela sabe do que ele tá fazendo e tudo, e eu não sabia de nada do que ele fazia, tá? Eu não sabia.
Ela diz que desde 2007 os dois não são mais casados. A data coincide com o fim da pena de René Bonetti. É o mesmo ano que ele saiu da cadeia. E ela afirma que não sabia o que o ex-marido dela fazia com a empregada do casal enquanto eles moravam nos Estados Unidos. Mas o inquérito do FBI, agora partindo do que a senhora falou, o inquérito do FBI atribui a senhora as agressões à então empregada da casa, como puxar cabelo e arrancar a mecha de cabelo dela, jogar sopa quente, sopa fermentada no rosto dela, dar sapatadas e bater com o punho fechado na cara dela. Isso não aconteceu?
Olha, eu vou explicar uma coisa pra você, Francisco. eles criaram um personagem. Esse pessoal todo, todos eles que criaram esse rolo aí, eles tinham um interesse. E eu gostaria que você pesquisasse isso até. Seria muito, muito, muito interessante pra ver a cidade dessa situação e pra saber no que deu esse negócio. E sabe porque que tudo isso começou, essa história? Eles pegaram dois bobos, três bobos. Que era ele, eu e a moça lá, a senhora, né?
Logo mais, ela vai explicar quem são eles e o que foi essa conspiração que ela diz ter descoberto. Antes, ela pergunta da senhora. A senhora é a mulher de 85 anos que foi empregada da família Bonetti por quase seis décadas. A pessoa que acusou Margarida e René de explorarem o trabalho dela e de agredi-la. Ao contrário do que ela disse para o Francisco, o zelador do edifício Joia, Margarida não é amiga dessa mulher. Ela nunca mais soube onde estava a antiga empregada. Tanto que Margarida pergunta dela.
Ela prefere que eu não fale nada.
Sobre a vida dela para a senhora. Ela, inclusive, me pediu. Porque ela não quer ter contato com a senhora. Nenhum. Jamais.
Nem eu quero. Porque ela foi uma mentirosa e uma traidora. Eu não quero falar nada com ela. Mas como eu gostava muito dela, ela era uma amiga pra mim. Eu via ela como uma amiga. Uma amiga de infância. Então, eu gostava dela. Então, eu tenho uma pura curiosidade de saber se ela está bem. Se ela está bem de saúde, está sendo bem tratada. Está bem, de uma forma geral. Será que isso daí você pode me contar?
O que eu posso dizer é que eu encontrei ela e ela está bem de saúde. Depois de querer saber como está a mulher que a acusou de agressões, Margarida volta a dar a versão dela do que aconteceu nos Estados Unidos.
De que fosse aprovada uma lei para que as empregadas que viessem do Brasil e de outros países, porque na época eles criaram outros assuntos, outros problemas com outras empregadas de outros países, para conseguir fazer isso. Eu não posso dizer sobre os detalhes, mas eu sei deste. E aí, eles criaram essa coisa toda, esse índice. Inventaram um monte de coisas e é por isso que eu faço questão de falar com você, porque eu quero que... Você sabe o que foi inventado?
Essa lei aí que ela cita é o projeto que dava às empregadas estrangeiras o direito de ficar nos Estados Unidos mesmo depois de denunciar patrões ou patroas por trabalho abusivo ou por agressão. O projeto de lei que foi aprovado depois que o caso dos bonetes veio a público. Mas ela acredita que esse projeto de lei não veio para beneficiar as trabalhadoras domésticas. Veio para achacar dinheiro dos patrões. É uma lógica parecida de quando eu a conheci protestando contra o corte de uma árvore. Ela dizia que os funcionários da prefeitura tinham formado uma máfia para derrubar árvores saudáveis e assim ganhar dinheiro.
Existia, não sei se ainda existe, como se fosse uma máfia, uma organização de advogados que queriam ganhar dinheiro através do caso das entregadas que iam para os Estados Unidos e queriam se desvincular dos seus patrões. Então, eles precisavam que fosse aprovada uma lei para que isso fosse possível, entendeu? Para que elas pudessem se desvincular legalmente dos patrões sem ficar ilegais lá no país. Você entendeu isso?
Margarida defende que a vizinha Vicky Schneider tinha antipatia por ela. Diz que uma amiga de Vicky queria ter comprado a casa onde Margarida morou, mas ela e o marido passaram na frente. Por isso, a vizinha nunca a perdoou. E acabou se juntando a essa máfia que ela acredita existir, uma máfia que envolve o FBI, congressistas e advogados que defendem empregadas que dizem ter tido seu trabalho explorado.
Eu nunca fiz nada. Eu não sou essa pessoa que inventaram. Eles inventaram uma pessoa, porque essa Bitch Snyder, por vingança, ela começou a fazer as coisas de raiva da gente. E depois, porque ela queria a amiga dela pertinho dela. Ela é uma pessoa voluntariosa, essa Beat Snyder. Ai de quem passe na frente dela e faça o que ela não quer, que é o que aconteceu com a gente. E nós compramos a tal da casa, ela não queria, porque ela queria a amiga dela lá. Durante.
A conversa, Margarida começa a falar de si mesma como a Margarida, como se fosse uma outra pessoa, e não ela mesma A senhora fala da margarida na terceira pessoa, por quê? Por que a senhora não fala, e eu? Por que a senhora fala da margarida?
Você sabe por quê? Por quê? Porque aquela margarida lá, não é eu. Eu não sou aquela pessoa, eles inventaram uma pessoa. Por isso que eu falo na terceira pessoa. Imagina uma artista qualquer que tá fazendo. O Leôncio, por exemplo, lá no Pantanal. O artista não é o Leôncio. O Leôncio é o Leôncio na novela Pantanal, certo? Mas o artista é ele próprio. Da mesma forma, eles criaram essa personalidade falsa, entendeu? Que era essa margarida aí que você tá falando, que você tá reclamando, que eu devia achar que aquela pessoa sou eu. Aquela pessoa não é eu. Eu não sou assim. Eu sou uma pessoa da paz, do bem. Eu nunca fiz nada de ruim pra aquela senhora, que eu até gostava demais dela.
Margarida afirma que nunca explorou ou agrediu a empregada, que as evidências são criações do FBI. E eu passo a questioná-la com cada uma das provas de que aquela pessoa vivia em condições análogas à escravidão. E o tumor que ela tinha? Porque ela tinha um tumor do tamanho de uma bola de futebol que obrigou a retirada do útero por falta de atendimento médico. Isso também foi uma criação do FBI?
Não, vou dizer o que aconteceu sobre esse tumor, que é uma imbecilidade total nessa história e você vai ver por que que é. Esse tumor, como é que é o nome dele mesmo, você lembra?
Não.
Mas é uma coisa, é uma coisa benigna que dá, e o médico que viu ela já aqui no Brasil e lá, sabia que é uma coisa benigna, que agora esqueci o nome, esse tumor se alimenta pelos vasos sanguíneos e pelos hormônios da pessoa, entendeu? Então, uma mulher, principalmente as negras, isso foi medido. negra, elas têm maior tendência a ter esse negócio, entendeu? Na barriga. E ele é alimentado, então, pelos vasos sanguíneos, pelos hormônios femininos da mulher. Quando a mulher entra na menopausa, aquilo regride e vai embora sozinha. Mas o caso dela, negócio de atendimento médico, isso daí é fundamental, é importantíssimo. Você vai ver o absurdo da história. Ela foi atendida medicamente lá, foi levada no médico lá pra ver isso direitinho. E ela não queria se operar de jeito nenhum. Por mais que se falasse pra ela pra operar, ela não queria. Devido a esse fato que eu acabei de te contar, que quando a pessoa fica mais velha, os hormônios param de alimentar, o tal do tumor, ele emigride e ele era benigno. Não era um câncer, não. Isso eu sei que não era. Mas esse tumor, ele emigria.
O que ela fala não é verdade. O tumor que a empregada tinha era um fibroma ulterino, um tumor benigno, que de fato não é câncer, mas é formado por células que crescem descontroladamente. A justiça americana afirma que eram sete tumores, e o maior deles tinha chegado ao tamanho de uma bola de futebol. Por mais que não sejam câncer, esses tumores podem causar dor, anemia, infertilidade e hemorragia. A pessoa que trabalhou para a Margarida relatava todos esses sintomas. E em casos em que um tumor benigno provoca dor, incômodo ou um inchaço que parece uma gravidez, os médicos recomendam, sim, a retirada do tumor. Eu ouvi dois médicos que afirmaram que um tumor do tamanho de uma bola de futebol não sumiria sozinho. Margarida também nega a outra evidência do processo. Ela afirma que a funcionária foi, sim, levada ao médico, ao contrário do que a empregada disse em testemunho. O FBI também não encontrou nenhum registro de que a funcionária tenha sido levada ao médico para tratar os tumores. Vale lembrar que, anos antes, ela ficou com um corte na perna por meses e só foi levada para o hospital quando a ferida tinha infeccionado e as bactérias já chegavam ao osso. Contrariando a investigação da Polícia Federal americana, Margarida diz que a funcionária recebeu, sim, tratamento médico. Mas que os prontuários sumiram porque o advogado do ex-marido dela os entregou para o FBI. E ela acusa a Polícia Federal americana de ter dado um fim nessas evidências.
Ele deu todas as provas para o FBI, e o FBI pegou e fez isso. Sumiu com tudo e depois disse que não existia, o que é uma grande mentira. Outra coisa importante que eu comecei a falar, e você começa a fazer pergunta, interrompe, isso não dá certo.
Eu a interrompo porque às vezes ela fala por mais de sete minutos sobre o mesmo assunto, se repete e diz coisas que me parecem improváveis, como que o FBI se uniu a uma máfia de advogados para inventar que uma dona de casa brasileira agredia empregada. E eu a interrompo porque tem perguntas claras que precisam ser respondidas. A senhora agredia a... Oi? A senhora agredia a... Nunca na minha.
Vida eu agredi a... Nunca, jamais, em tempo algum. Eu gostava demais dela. Quando eu era pequenininha, tinha 9 anos de idade, ela era mais velha, ela brincava comigo. Eu gostava dela, eu tinha carinho por ela.
Margarida diz que nunca foi citada pela polícia ou pela justiça. E isso não é verdade.
Eu nunca fui citada.
A senhora foi citada e procurada. A senhora ficou na lista de procurados do FBI. Agora eu quero saber porque a senhora veio para o Brasil e nunca voltou para responder por essas acusações nos Estados Unidos.
É isso que eu vou te contar. Eu quero te fazer essa pergunta aí que você acabou de colocar uma novidade pra mim que eu nunca soube. Você acabou de dizer assim, a senhora foi procurada pelo FBI e ficou aonde? Numa lista? Que lista? Fala pra mim.
Ela afirma que não fugiu do julgamento, que veio para o Brasil em 1998 porque sempre voltava ao país.
E um tempo antes, lá pelo dia 10, 6 de dezembro, varia, né? Variava dependendo do ano. E eu vinha passar o Natal com a família, porque o Natal era muito, vamos dizer assim, movimentado. Tinha muitos lugares pra ir. Entre o dia 24 e o dia 25 era uma delícia estar com a família. Aí, eu passava de seis a oito meses aqui no Brasil Eu ficava desde o Natal até julho, agosto, setembro e.
Ficava aqui Ela diz que, enquanto isso, a empregada ficava sozinha com o René na casa americana Eu ficava aqui no.
Brasil a maior parte do tempo. Então, ela tinha saído da casa, entendeu? Ela ficava com a casa pra ela. Ela fazia o que ela queria lá dentro da casa, todos esses meses. Porque ele o dia inteiro fora, a única coisa que eu suponho que ela fizesse, porque eu não estava nem lá, era comida pra ele, certo? E lavar roupa, suponho eu. E porque ele mesmo lavava muito da roupa dele, que eu saiba.
Eu pergunto desde quando a ex-empregada trabalhou pra sua família?
Justamente ela começou quando eu tinha 9 anos de idade e a gente brincava de queimada, pega varetas... dominou, você entendeu? De bola no quintal. Ela era muito mentirosa. Então, já desde ela veio já muito mentirosa. Então, ela era supostamente que ia limpar a casa. Só que ela não limpava a casa. A gente ficava brincando. Quando a minha mãe perguntava, ah, você limpou a casa? Você fez isso e isso? Fiz. E eu só ficava olhando. Eu era pequena, né? O que eu ia fazer? Entendeu? Eu ficava só vendo aquilo. Mas a gente lembra. Entendeu? Ela tinha esse péssimo hábito da mentira. E isso continuou a vida inteira, por todo o tempo que eu tive contato com ela. Mas a gente brincava, ela era minha amiga. Sim, era. E o que eu posso dizer? Ninguém pode mudar o que aconteceu.
Então, quando Margarida e René se mudaram para os Estados Unidos, fazia mais de 20 anos que a empregada já trabalhava na casa dos pais dela, que hoje eu chamo de casa abandonada. Eu pergunto por que a funcionária se mudou junto com eles. Margarida disse que tinha reumatismo, que as dores limitavam sua capacidade de cuidar de uma casa e que, por isso, não queria se mudar para os Estados Unidos. Então, o marido convidou a empregada para ir junto, assim Margarida não precisaria fazer tarefas domésticas.
Então, eu falei, olha aqui, eu não quero os Estados Unidos. Eu não tenho condição de fazer coisa nenhuma e eu não tenho condições, não quero. Aí, ele queria demais, né, esse Renê? Queria muito. E aí, ele pediu lá, acho que pediu para os meus pais para que elas fossem.
Margarida afirma que teve outras empregadas no Brasil, e que todas tinham carteira assinada. Mas que quando foi para os Estados Unidos, a empregada dos seus pais foi mais no papel de amiga do que no papel de uma funcionária.
Eu enxergava ela como uma criança grande, entendeu? Sempre. Aí eu cresci e tudo. O sonho da minha vida era ter ela comigo sempre. E eu não tinha, porque ela não era minha empregada. E quando eu fui para os Estados Unidos, eu não queria ir para os Estados Unidos. Eu morava fora de São Paulo. Eu queria voltar para São Paulo para ficar com meus pais. Eu sentia muita falta dos meus pais, entendeu?
Ela insiste que não sabia se a empregada ganhava ou não o salário Diz que o pagamento era função de Renê e que ela estava no Brasil por coincidência quando a empregada saiu de casa e a denunciou Realmente, eu estava aqui.
Em abril, era 98, não é isso?
Isso, 1998 Eu lembro que eu estava.
Aqui Eu não lembro se ele estava ou não estava, mas eu lembro que ele estava Aí eu me lembro muito bem Porque ele voltou pra lá em algum momento, não sei qual, ele voltou pra lá. E aí ele ligou dizendo que a **** tinha ido embora, porque lá na frente dessa casa aí, dessa casa lá, Ela tinha na frente da porta, na porta, um buraquinho para o correio, entendeu? O caqueiro põe a carta e caia no chão, assim, logo atrás da porta, por dentro. Ela enfiou a chave da casa lá, entendeu? Quando ela foi embora. E deixou aquilo uma bagunça. Deixou uma bagunça a casa inteira, o quarto dela, as coisas dela. Eles disseram que tinha... Porque ela era gorda. E ela não... Quer dizer, ela não deveria comer muito doce. Mas ela era gulosa. Então tinha uma montarela de doce, de comida, sabe? De resto lá. Que ela largou lá. Porque ela tinha o porão inteiro pra ela. Ela tinha um andar inteiro pra ela, tá? E o porão lá nos Estados Unidos, que eles chamam de basement, é o lugar onde os jovens ficam. Os jovens têm seu quarto lá. Não é uma coisa que não é um porão qualquer. É um lugar que era acarpetado, arrumadinho, direitinho. E ela tinha que me dar inteiro pra ela. Então, desde ele, né? Porque eu não tava lá, eu tava aqui. Que ela fez essa bagunça enorme, tinha um monte de doce. E o que ele ouviu dizer é que ela tinha passado mal no estômago. E, sei lá, vomitado, sei lá o quê. E foi levada pro hospital. Mas ela passou mal porque ela comeu demais desses doces, entendeu? Pelo que ele contou ali, é uma coisa que a gente deduz, certo?
Não era o tumor que ela tinha crescendo há anos na barriga dela, então? Era doce que ela comeu demais?
O registro oficial do FBI é que.
A empregada estava vomitando sangue por causa do tumor. Era um tumor do tamanho de uma bola de futebol que obrigou os médicos a tirarem o útero dela inteiro. E ela ficou quase um mês internada depois dessa cirurgia. Não era uma coisa jocosa como a senhora da risada.
Eu não tô dando risada de forma nenhuma, porque eu gosto demais de coisa de saúde e eu tenho respeito por tudo que é coisa de saúde, inclusive ela, de jeito nenhum de loucosa. Nem por isso essa interpretação em mim, porque eu não tenho nada de loucosa, não, viu?
A entrevista fica tensa.
Por gentileza. Francisco, calma. Parece que você tá até brigando, coisa esquisita. Isso aqui não é casa de brigar.
É uma casa de contar a verdade. Isso é só uma conversa. Isso é só uma conversa, só que eu preciso apurar a verdade. Eu preciso apurar o que de fato aconteceu. E quando as coisas parecem se desviar da verdade ou se nega uma coisa que eu de fato já comprovei documentalmente, eu preciso confrontar isso. É só uma conversa. A entrevista é uma valsa, é uma conversa.
Confronta com calma, tá bom assim?
Eu sou calmíssimo. Eu respiro fundo e pergunto, objetivamente, por que a senhora não voltou aos Estados Unidos para responder à justiça que a procurava?
Eu falei, olha, então, já que eu não posso ir, eu tô com esse saneamento, e já que vocês não podem adiar essa coisa aí, Ele queria escutar, né? Aí eu falei, o senhor pode falar comigo agora no telefone. Eu respondo o que o senhor quiser. E aí ele me entrevistou por telefone e eu falei as coisas do jeito que era, entendeu? Falei. No final do telefonema... Esse senhor falou pra mim, olha, a senhora me surpreendeu, porque nunca vi ninguém que viesse atrás do FBI pra poder conversar como a senhora fez comigo. Porque todo mundo foge da gente, ele falou. Mas a senhora tomou a iniciativa, mesmo estando sangrando e tudo, explicar a situação, que não pode vir aqui nos Estados Unidos e tal, e a senhora me ligou.
E a senhora não voltou depois de uma melhora de saúde por quê? Porque a senhora nunca mais voltou e a senhora nunca respondeu às acusações.
Olha, eu vou te dizer uma coisa. Eu tenho a saúde, tinha e continuo tendo a saúde delicada, tá? Quando eu fiz... Esse negócio. Porque ela foi mesmo. A minha mãe foi para testemunhar no julgamento. Foi mais pessoa da família, que era advogada, que eu te contei e ela falou. Porque isso a gente guarda. Isso são cartas marcadas. Como dizendo, não importa o que se fala, eles vão dizer o que eles querem e cabu. É isso que vai ser.
Eu volto a perguntar se a empregada tinha salário e a liberdade respeitadas. Margarida ilustra a liberdade da empregada dizendo que ela podia entrar e sair de casa E que levava o cachorro para passear E ela recebia salário? Ela recebia salário?
Sim, sim. Sim. Eu falei, eu não vou fazer nada, não faço nada de nada Então o nada de nada incluiu não mexer nesse.
Assunto de empregada Margarida afirma que vivia com dor Ela passa mais de sete minutos falando de si, da doença dela De como tomar cortisona deixava o rosto inchado E eu tento voltar para o assunto da entrevista Então é um dos.
Efeitos colaterais dela, além de deixar com aquela cara de lua, uma cara gorda assim, sabe? Retenção de água.
E nesse período a senhora não sabia se ela recebia salário ou não, isso nunca foi dito.
Ah, então. Pois é. O que acontece que eu não sabia. Como eu não queria. Eu fui para os Estados Unidos com a condição. Eu estava peripetoriamente, e até hoje você está vendo eu falar, porque eu não falo do jeito peripetório. fórum, normalmente, mas eu tava peritoriamente, eu não queria fazer nada. Eu tava mal de saúde, eu ia cuidar da minha saúde, eu queria assarar do que eu tinha, que eu não aguentava mais de dor, eu não pude aceitar uma oferta de emprego, não só porque ele queria ir embora pra lá, como eu não tinha condições. de ficar trabalhando, que eu não aguentaria de dor, que eu não aguentava de dor. Era horrível, tá? Viver com dor de noite é ruim demais. É muito triste. Aí, eu não quero nada. Eu nunca serve nada. Eu ignorei tudo, tudo, tudo. É como se o Renê fosse meu pai. Para falar assim bem explicitamente, ele não era um marido, ele era como um pai. Ele mandava em mim, falava o que eu podia fazer, o que eu não podia fazer e ele me tratava como uma filhinha. E era isso a minha vida, tá?
Com esse senhor aí. Margarida afirma e repete que nunca soube se a empregada ganhava salário ou não.
Porque eles pensaram que porque eu era casada com o René, eu tinha obrigação de saber das coisas, o que ele fazia. Mas eu não sabia. Você entendeu? Eu não sabia. Exteriormente, aqui no Brasil, que eu gosto muito de televisão, inclusive, eu te contei, eu gosto muito da Globo e tal, eu percebi que tem muitos casos onde essas mulheres lá, mulheres desses caras ricos, né, que se metem, eles, os caras, se metem em confusão, elas não sabem de nada. E eu até acredito, porque eu não sabia de nada. A mulher vai viver a vidinha dela lá. Elas viviam a vida delas, sociais, sei lá o quê. Eu vivia a minha vida tentando melhorar a minha saúde. E pronto, ficava por isso.
Eu não sabia de nada. Mas eu preciso insistir aqui numa pergunta, porque a senhora conviveu 20 anos com uma pessoa que a senhora convivia desde criança e chamava de amiga. E durante 20 anos você nunca soube que essa pessoa era explorada e era submetida a condições análogas à escravidão.
O menino, o Francisco, ela não era. Ela era livre, ela fazia o que ela queria, ela tinha a chave da casa, ela ia onde ela queria. Não era nada de escravo, gente, não era. Isso daí foi tudo... Manufaturado. Foi inventado, entendeu? Esse treco aí.
Ela recebia salário? Volto a perguntar, ela recebia salário?
Olha, eu não sei porque eu nunca soube de nada o que acontecia na vida entre ela e o René. Ele que cuidava do dinheiro. Ele que trabalhava.
Mas a senhora convivia com ela. A senhora conviveu com ela por quase 20 anos. Nunca se importou de saber que essa pessoa não recebia salário.
Gente! Eu vivia com ela no dia a dia dentro de casa. Eu vivia com ela no dia a dia. Ela era, na verdade, a minha melhor amiga, se você quer saber. Naquela circunstância de morar lá fora, naquela ocasião, porque os americanos são muito fechados. E eu também não tinha, sabe, assim... Eu gostaria dela, o que que eu faço? Ela não era minha amiga de criança. A gente não brincava como criança. Não mudou nada. Era igual. Você entendeu?
Era igualzinho quando eu era criança. melhor amiga, a senhora acabou de chamá-la de minha melhor amiga, que sua melhor amiga trabalhava sem ganhar salário por 20 anos e sem ter o documento legalizado depois de 1984 e em condições análogas à escravidão. É só isso que me parece improvável, por isso eu insisto nessa pergunta.
Tá, então deixa eu te dizer uma coisa sobre os documentos e sobre o FBI, porque eu acho que isso é importante. Quando foi... Quando eu soube que eu não estava lá e que o Renê foi citado pra ele ir não sei aonde lá dar umas informações, eu soube disso, eu estava tendo sangramentos vaginais, entendeu? Profundo. Eu estava de cama, muito fraca, não podia sair da cama. Mas eu, eu, Liguei pro FBI, eu fiz isso, tá bom? Liguei pro FBI e falei pra esse senhor aí, que é o que tinha me entrevistado lá, chamei ele, falei pra ele, olha meu senhor, eu não tô podendo ir aí agora, porque eu tô com esse sangramento. Será que vocês podem adiar? essa coisa aí, que agora eu não lembro o nome, entendeu?
Adiar essa coisa.
Eles queriam escutar o Renê e queriam escutar eu. E eu não lembro o nome da coisa. Vocês podem adiar isso. Que daí, quando eu melhorar, eu volto ali e falo o que vocês quiserem. Vocês podem perguntar o que vocês quiserem, não tem problema nenhum, falo.
No meio da entrevista, ela pede que eu faça uma previsão.
É especulação.
Não tem como saber. Porque eu não sei o que aconteceria se a gente não tivesse se cruzado aquele dia E se a gente se cruzasse em outro dia, e se minha curiosidade nascesse de outra maneira Eu já era curioso em relação à casa Então não dá pra dizer, não, isso não teria acontecido Eu não consigo especular um futuro que não aconteceu Eu digo que mesmo antes de encontrá-la protestando contra a remoção de uma árvore Eu já tinha curiosidade sobre a casa abandonada E por.
Que você era curioso em relação a essa casa?
Porque é uma casa abandonada no meio de um dos bairros mais ricos do Brasil com uma pessoa morando dentro É.
Só um pequeno detalhe, ela não tá abandonada, tá? Ela vai ser restaurada e vai ficar bonita, tá?
Quando?
Quando Deus quiser e permitir que isso aconteça É o que eu mais quero que aconteça, tá?
Eu pergunto para a Margarida se ela assinaria um documento de venda da casa Porque chegou uma proposta de 10 milhões de reais pelo imóvel Eu quero te.
Dizer uma coisa, meu querido. Esta casa pertence a mim, tá? E eu não vou vendê-la para ninguém, por nada deste mundo. Entendeu? Esse é o desejo do meu pai, é o desejo da minha mãe e eles sabiam que eu sou a única pessoa nesta família que vai manter essa casa exatamente como ela é. E é isso que eu vou fazer, tá bom?
Então ela tenta me demover mais uma vez de citar o nome dela na reportagem.
Por isso que eu gostaria, e estou te pedindo, por gentileza, se você pode me deixar fora, porque nem legalmente eu fiquei envolvida.
A senhora ficou procurada, a senhora ficou como foragida, a senhora é citada no processo e a justiça americana, um tribunal do júri, considerou o René culpado por todos os crimes e considerou que houve sim trabalho análogo à escravidão, houve sim agressão, houve sim tudo isso e a senhora só não foi julgada porque a senhora estava fora de território americano. Então não, não vou deixar de fora.
Eu não fui julgada.
Por estar fora do território americano, justamente por isso?
Claro!
Mas sim, houve denúncia, a senhora foi suspeita, a senhora ficou foragida, a senhora foi procurada pela polícia, então não é que a senhora não tem envolvimento, a senhora não pode dizer isso, não é verdade.
Vou dizer uma coisa, eu não fiquei foragida porque eu estava cuidando da minha mãe aqui e depois eu estava com problemas de saúde que me impediam de viajar. Eu não podia piorar a minha situação. Como é que eu vou testemunhar, fazer alguma coisa se eu não consigo nem ficar de pé? Eu não conseguia ficar de pé, eu estava sangrando muito.
Hoje em dia a senhora anda pela rua, hoje em dia a senhora tem autonomia, hoje em dia a senhora conseguiria pegar um avião e responder aos crimes de que foi acusada E na época também... E na época também... E na.
Época também... E na época também... E época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época.
Também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... E na época também... Margarida E na época também... E na época também... também... afirma que E quando René na época também... mudou E de emprego, na época também... E na época também... E na época também... também... em E na 1984, ela insistiu para que ele regularizasse o visto da empregada, o que nunca foi feito.
Porque pra mim isso é uma tragédia, porque inventar que eu era um monte de pessoas, fazer um monte de coisas que eu nunca fiz na minha vida, nem pensei em fazer isso, pra mim é uma tragédia. Tudo isso é uma tragédia. Tudo isso que aconteceu é uma tragédia, na minha opinião. É um tsunami, realmente. Aí eu falei pra ele, eu tive a oportunidade de falar pra ele. Você viu, eu te avisei, eu pedi, eu implorei pra você deixar a filha legal. E você se recusou e ela ficou ilegal lá. Olha tudo que aconteceu. Se você tivesse colocado ela ilegal, pelo menos isso, ele não ia ter que falar nada, porque ela tava legal. Ele falou é. Só pra você saber, ele era uma... não vou falar, ele era muito burro, muito imbecil, tá? Esse homem aí. Então é isso. Essa é uma coisa que, enfim, eu soube, falei, avisei, pedi, implorei. E ele não quis fazer. E eu não tinha eu como fazer. Então ficou sem fazer. E olha no que vem.
Ela para de falar da história dela e questiona o quanto eu vou ganhar por fazer esse podcast.
Mas olha, eu tô muito triste. Você vai ganhar quanto pra ficar publicando essa coisa horrorosa de novo?
A senhora tá perguntando meu salário?
Não, só que você vai ganhar da folha, né, pra esse caso aí.
Não é o caso, não é o caso de eu compartilhar essa informação com você. Por que a senhora quer saber disso?
Por causa do seguinte, eu quero te dizer uma coisa, você tá chutando o cachorro morto, basicamente, tá? Porque, no caso, é uma coisa triste, horrorosa que aconteceu, e você tá revivendo. E é muito triste que você esteja fazendo isso. Realmente é muito triste. Eu realmente, sei lá, gostaria de pedir pra você desistir disso, por favor. Arruma dinheiro de uma outra forma boa. Qualquer coisa boa que possa estar acontecendo por aí afora. Mas não com uma tragédia que já aconteceu há 22 anos.
Essa história fala muito do Brasil. Essa história fala do Brasil até hoje. Essa história não morreu. Essa história é muito maior do que só a senhora. Essa história fala de um país inteiro. E é por isso que eu vou contar essa história mesmo você tentando me dissuadir de contar. A conversa chega à segunda hora e, de tanto em tanto tempo, Margarida frisa que é inocente.
Nunca foi tratada semelhantemente a escravo. Olha, eu só espero que você seja honesto e realmente fale a verdade no que se refere a mim, porque eu não soube de nada disso, eu não sabia nada sobre ordenado, nunca entrei nisso, o que eu soube é o que eu te contei sobre ela ser ilegal, que eu implorei muitas vezes pra ele, cheguei a brigar com ele por causa disso e a ele não fazer Agora, eu sei que aqui no Brasil existem esses bolivianos, essas coisas aí, triste, que eles tratam mal como escravos. Não era o caso dela de forma nenhuma, tá? Eu te afirmo com toda a veracidade que não era o caso dela. Ela era tratada bem. Ela tinha um... O andar inteiro só pra ela, ela tinha a chave da casa, ela saia. Esses escravos que tem aí, os bolivianos, né, que a gente escuta, os que costuram, não sei o que, eles ficam presos no lugar. Eles trabalham lá nas nas máquinas de costura, dobem, colhem, ficam presos ali. É totalmente diferente. Ela comia no andar-terro, né, como todo mundo comia no andar-terro. Ela tinha os aposentos dela lá, como todo mundo nos Estados Unidos. Os adolescentes têm, se você foi lá, você deve saber, porque você é um cara informado, que os adolescentes gostam de ficar com privacidade, né? Eles ficam no basement.
A geladeira era trancada com cadeado e os armários de comida da casa eram trancados com cadeado?
Não. Isso era mentira. Não tinha nada de cadeado.
O FBI constatou isso, tem documentação, tem inclusive imagem.
O FDI, eu não te falei que o FDI pegou os documentos de saúde dela?
Tudo bem, não, tudo bem. É informação da Polícia Federal Americana contra a versão da senhora. As duas versões vão estar contempladas, pode ficar tranquilo.
Você não assiste filme, não? Eu não assisto filme, eu gosto de filme de ação. E muitos desses filmes de ação mostram muito bem o FBI, que eles fazem acordos com pessoas, porque eles têm interesse, eles e as pessoas, de conseguirem alguma coisa, que no caso era tal da lei, que realmente eles conseguiram passar. Eles conseguiram o que eles queriam. Eles tinham esse interesse de acordo com o FBI. O FBI não é uma pessoa, um pessoal, ai maravilhoso, super honesto, não é. Se você tá na Globo, se você assiste as coisas de FBI e filmes de ação, você sabe muito bem que o que eu tô falando é mais pura verdade, porque os filmes nada mais são, muitos deles, do que a representação da realidade. Depois de expor a versão dela dos.
Fatos, que muitas vezes entra em conflito com o que foi apurado pelo FBI e apresentado à justiça americana, Margarida me faz um pedido.
Continuam pedindo, tá? Por favor, pelo que há de mais importante pra você, não faça esse trabalho. Deixa passar. Ela não vale a pena. Eu fiz toda essa investigação, é verdade, mas eu recompenso vocês da Folha por outra coisa, faço outro trabalho, o que seja. Se você Botar a mão na sua consciência e ver que realmente foi uma coisa criada, ou você simplesmente não faz e não apresenta, ou você se apresentar, conta a verdade que eles tinham esse interesse em passar essa lei, que realmente, de fato, você investigou, eles passaram, eles criaram essa situação toda, nesse caso, pra conseguir subvídeos. para passar essa lei. Era o interesse de muitas pessoas lá nos Estados Unidos. Pessoas diferentes, de grupos diferentes, entendeu? E aí eles conseguiram passar tal da lei e usaram esse caso que é brasileiro, assim como usaram outro.
Eu digo a ela que o podcast vai sair e que a entrevista dela vai ser um episódio, para que o lado dela seja contemplado, por mais que a versão seja contraditória. Depois de duas horas e meia de conversa, meu celular está prestes a morrer por falta de bateria. Eu preciso desligar porque minha bateria tá acabando. Margarida Bonetti, agradeço por essa entrevista. Ela foi gravada e eu vou usar trechos dela na série. Se tiver mais informação, peço que você me procure até sexta-feira. Tô com essa abertura, tô à disposição. Mas agora eu preciso desligar porque eu realmente não esperava essa ligação e agora minha bateria tá em 1%. Ela vai acabar a qualquer momento.
Tá, tá, tá. Tá bom.
Obrigado. Um abraço. Um abraço.
Um abraço pra você também. Tchau, tchau.
Eu desligo o telefone e vou descansar depois de 72 horas rondando a casa abandonada em busca da entrevista que acaba de terminar. Agora, um intervalo. A gente já volta.
Oi, eu sou a Magê Flores, editora de podcasts da Folha. Talvez você se lembre da minha voz daqui mesmo. Bom, se você está aqui, é porque gosta de podcasts. Você sabia que a Folha tem vários outros programas? Assinando a Folha, você incentiva a produção de conteúdo como a mulher da casa abandonada e tem acesso ilimitado às análises e notícias do jornal. Em folha.com.br, barra Assine Podcasts, tem uma oferta especial para os ouvintes deste episódio.
Horas depois da entrevista, meu telefone toca de novo. É Margarida. Eu não atendo. Depois de três dias na frente da casa abandonada e de uma entrevista de duas horas e meia, eu me dou o resto do domingo de folga. Penso em retornar a ligação no dia seguinte, segunda-feira, em horário comercial. Mas ela prefere não esperar. Liga cinco vezes seguidas e deixa um recado de voz para cada ligação.
As configurações da sua caixa postal? Digite jogo da velha. Você tem cinco novos recados. Aqui vai ser o primeiro recado. Oi, Francisco. Eu decidi gravar, porque já que você gosta de gravar as coisas, eu tô com muita dor no corpo. E a dor de tristeza está te estressando fisicamente, entendeu?
Ela continua falando por mais de cinco minutos sobre como relembrar o passado fez mal fisicamente a ela, até que o recado é cortado por alcançar o tempo máximo permitido.
Próximo recado.
No próximo recado, ela diz que ligou por uma razão prática, para enfatizar quatro pontos da entrevista.
Eu estou te ligando porque tem quatro pequenos pontos que eu acho que são muito Importante o seu desejo de falar com você, porque são rápidos, dá para falar rapidamente E por isso eu estou.
Te ligando Ela divide cada ponto em um recado de voz O primeiro ponto é que ela não sabia que a mulher que chamava de melhor amiga e com quem viveu por 20 anos vivia em condições análogas à escravidão O primeiro.
Ponto é o seguinte, ele era como um pai para mim, como eu te contei E a gente não fica perguntando para os pais sobre a vida, as coisas monetárias, entendeu? Não perguntou nada, ele não perguntou nada. Eu nunca perguntava para ele nada. Ele me dava dinheiro e eu sei que ele dava dinheiro para ela porque eu via ela com o dinheiro, entendeu, na mão. Se quiser apagar esse recado, digite 5. Próximo recado.
O segundo ponto é sobre lealdade canina.
E por que eu gosto de cachorro? Os cachorros são bons, honestos, fiéis Eles não traem ninguém, como essa mulher fez Pela mesma, uma grande traição O terceiro.
Ponto é um pedido, que eu não devo incluir a casa abandonada nesse podcast.
Se você quiser dessa forma, por isso que eu estou te pedindo para não fazer, por favor, por gentileza pelo que você é mais preza da sua vida, que seja importante, não relaciona essa casa com esse caso horroroso dessa... Por quê? Porque, primeiro que a coisa nem aconteceu aqui, aconteceu lá longe. Mas se você relacionar com essa casa, você vai estar jogando o peixe na casa. Você está sujando a casa. Entendeu? Então, você vai estar tornando muito mais difícil eu permanecer nesta casa defendendo essa casa. Eu estou defendendo ela. Ela está sendo defendida por mim, com os residentes, para que ela continue, ela, íntegra como é, seja restaurada e continue como é, bonita como é. Próximo recado.
O quarto ponto é a máfia que ela acredita ter descoberto, formada por advogados e congressistas americanos. Ela tenta me convencer a contar uma história diferente. Em vez de falar sobre a brasileira que foi acusada de crimes nos Estados Unidos e fugiu, ela acha que o tema dessa série tem que ser a máfia que ela diz existir.
Porque esse caso aí é o caso velho, é o caso requetado, tá? Isso é a verdade dos casos. Mas a ideia, a coisa nova que eu quero te falar, se você realmente quiser fazer esse podcast, que eu ainda tenho esperança que você desista disso, é o seguinte, esse fato de que eles queriam passar aquela lei que você me contou que conseguiram, eles usaram os três o casal e ela para conseguir isso, usaram e conseguiram e fizeram uma manipulação tremenda, começou com uma vingança da tal David Schneider e grandes interesses e não era pouco dinheiro, era muito dinheiro e muito interesse, era coisa de cachorros grandes ali. Próximo recado.
Depois de expor os quatro pontos, ela diz que é a última vez que vai falar sobre esse assunto. Sobre os crimes de que foi acusada, mas pelos quais nunca foi julgada.
Pra minha própria, como eu vou dizer assim, sanidade mental e tentável, porque me deu muita tristeza falar de todo esse assunto, tá? E também fazendo mal fisicamente, com dor no corpo todo. Eu vou tentar esquecer tudo isso. Eu vou desligar o telefone aqui e vou tentar tirar todo esse assunto da minha cabeça e não pensar mais nisso. Acabou. Você não tem mais recados novos?
Se você sabe ou desconfia que uma pessoa tem o seu trabalho explorado, denuncie. Dá para fazer uma denúncia anônima à Secretaria Especial da Previdência e do Trabalho em um site. É um formulário simples. Só precisa do endereço da ocorrência e de um relato breve do que está acontecendo. Assim, fiscais podem ir até o lugar e avaliar a situação. O site para fazer a denúncia, que pode ser anônima, é ipe.sit.trabalho.gov.br. Eu vou repetir, ipe.sit.trabalho.gov.br. O link também está no texto de descrição desse episódio. A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha. Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador. A produção desse episódio é de Beatriz Trevisan. A edição de som é de Luan Lencar. A coordenação de A Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores. Obrigado por ter ouvido essa série e até breve.



