13 Aug 2025 · 32 min
Chico Felitti investigates Margarida Bonetti, a woman accused of modern slavery who lived under a different identity in Campinas, Brazil. The episode includes interviews with people who knew her and explores the legal and social fallout from her case.
Se você está aqui, é porque se interessa pela casa abandonada mais conhecida do Brasil. Então, eu tenho uma notícia para contar. A história de Margarida Bonetti e sua família agora vai ser contada com muito mais detalhes. Estreia no Prime Vídeo, no dia 15 de agosto, a série documental A Mulher da Casa Abandonada. Na série, a gente vai mais a fundo nessa investigação. Além de imagens inéditas, a gente entrevistou pessoas que não participaram do podcast. Um agente do FBI, policiais e vizinhos da família Bonetti nos Estados Unidos. E esses são só alguns exemplos. E o que eles têm pra contar é uma história impressionante. Além disso, a série traz um ponto de vista que a gente não tinha ouvido até agora. Você vai ver e ouvir o depoimento inédito de Hilda, a mulher que viveu por anos com os Bonetti em condições comparáveis à escravidão. Chegou a vez do outro lado ser ouvido. A série A Mulher da Casa Abandonada estreia no dia 15 de agosto, com todos os episódios disponíveis já no primeiro dia. Novos assinantes têm 30 dias grátis para assistir esse e outros tantos títulos do Prime Video. Esse podcast é uma reportagem que se baseou em registros de um caso de notório interesse público. A reportagem procurou ouvir todos os envolvidos e deu espaço às versões de quem se manifestou. Essa série não é uma investigação policial nem um processo judicial. A Folha condena qualquer tipo de agressão contra as pessoas retratadas. E Gienópolis continua como sempre esteve. É manhã de domingo em um dos bairros mais ricos do Brasil. E o clima é de paz. O apartamento onde Jô Soares viveu os últimos anos da sua vida continua lá. Mas tem uma nova moradora. As ruas com nomes de estados brasileiros seguem verdes e silenciosas. A única coisa que eu escuto quando ando por ali é o canto de pássaros, o barulho de calçadas sendo lavadas e a conversa das poucas pessoas que andam pela rua.
E ainda.
Está lá uma casa abandonada, onde mora uma mulher. Uma mulher que chamou a atenção de muita gente nos últimos anos, mas que jamais deixou de morar na casa que virou sinônimo da sua história. Eu sou Chico Felitti e esse é A Mulher da Casa Abandonada, um podcast da Folha produzido pela Pachorra Felitti, áudios, livros e filmes que investiga a história de uma mulher, de uma casa em Pandarecos e de um crime que nunca foi julgado Episódio 8 – A Outra Casa Uma história é infinita, nunca termina de ser contada. Foi isso que eu aprendi em 20 anos de carreira. Toda vez que sai um podcast ou um livro novo, eu sou procurado por pessoas que também conheceram algum pedaço dessa história que eu contei e que querem compartilhar o que sabem. Então, é comum que eu mantenha contato com uma história que eu investiguei, mesmo depois que o podcast tenha acabado ou um livro já esteja publicado e na prateleira. Só que essa regra se aplica ainda mais para o caso da mulher da casa abandonada. Desde que o podcast foi ao ar, em junho de 2022, essa história virou parte do meu cotidiano. Não teve um dia, nos últimos mil dias, que eu não tenha ouvido uma pessoa que queria falar sobre o caso da senhora procurada pela UFBI que se refugiou numa mansão em Pandarecos. Uma senhora de 90 anos me chamou para tomar café na casa dela porque queria contar como foi a infância de Margarida Bonetti. As duas foram vizinhas décadas atrás. Um homem me escreveu um e-mail emocionado, dizendo ter certeza que era o irmão da pessoa que foi vítima desse crime. Não era. E uma jovem me escreveu dizendo que estava disposta a fazer uma denúncia de suspeita de trabalho análogo à escravidão Contra a avó dela, que há pelo menos 40 anos morava como empregada Só que a neta desconfiava que a funcionária não ganhava salário Mas teve uma mensagem de Instagram que chamou minha atenção Chamou minha atenção a ponto de eu retomar essa investigação E a ponto de achar que esse podcast merecia mais um episódio Três anos depois da série ter chegado ao fim Porque essa mensagem trazia a promessa de um pedaço importante para a história do podcast Quem me mandou a mensagem foi um homem jovem, do interior de São Paulo O nome dele é Fábio E a mensagem dizia o seguinte Opa, amigo, tudo bem? Não sei se isso pode te agregar, mas tenho informações sobre a Margarida Bonetti. Ela viveu aqui em Campinas por um bom tempo, justamente numa casa que meu pai alugava. E eu respondi pro Fábio como eu tento responder pra todo mundo que entra em contato. Em poucos minutos, ele me enviou um áudio.
Meu querido, eu vou mandar em áudio, que eu acho que foi mais fácil, mas qualquer coisa depois eu posso mandar escrito. O que você achar melhor, tá? Meu nome é Fábio Andrade Afonso, tá? Eu moro aqui em Campinas. Hoje eu moro no centro de Campinas, mas eu vivi basicamente 20, 22 anos morando em Carlos Lourenço, na casa dos meus pais lá, né? Quando eles eram vivos e tudo mais. Hoje eles são falecidos, mas também se precisasse de qualquer informações ou provas das informações, que eu estou passando, muitos vizinhos que vivem lá são antigos ainda, né? Então, tem vizinhos, amigos de infância, pessoas que tem vivência e elas lembram dessa margarida. Na verdade, ela se chamava Maria, né? Era o nome que ela dava lá quando ela alugava a casa.
Então, eu peguei um carro e fui até Campinas para encontrar com o Fábio e saber se era possível que aquela história estrambólica tivesse acontecido de verdade. Que no começo dos anos 2000, Margarida Bonetti tenha vivido por anos no fundo da casa de infância dele, num bairro periférico de classe média. Depois de uma hora e meia na estrada, a primeira parada é no centro de Campinas, porque é ali que o Fábio está na hora do almoço de um sábado.
Opa, tudo bem, Chico?
Como você está?
Como você está, Leandro?
Bem também.
Prazer!
Foi difícil achar por aqui?
Não, foi bem tranquilo. A gente chegou antes. O Fábio trabalha numa loja que vende videogames antigos, gibis e bonequinhos. É um cara de cabelo encaracolado e óculos, que fez faculdade de psicologia e que gosta de acompanhar podcasts de crime, mas que jamais esperava ter uma informação que ia justamente ajudar na investigação de um podcast.
Eu sigo bastante podcast, vejo bastante casos criminais, de outras coisas. E esse caso eu já tinha visto, acho que quando começou o mistério da mulher da casa abandonada, eu vi a foto dela ali no casarão e falei assim, essa aí é a Maria. Porque é inconfundível a cara dela justamente pelos cremes que ela tinha Então era uma feição que eu já olhava e desde criança era assustador Quando viu a.
Foto da mulher da casa abandonada, Fábio teve uma lembrança de infância Era a mesma mulher que tinha morado no fundo da casa dos seus pais Mas alguma coisa não batia com a memória dele Porque no começo dos anos 2000, ela não chamava Margarida Bonetti Ela chamava Maria Ou, pelo menos, era assim que ela se apresentava na periferia de Campinas E o Fábio topa mostrar a casa onde ele diz que Margarida morou 20 anos atrás Quer ir atrás ou eu vou na frente?
Qual que fica melhor pra você?
A gente vai conversando, a gente também não precisa ir... Pode jogar essa blusa no chão, é minha, desculpa Dá espaço.
Aqui.
A gente segue na direção do bairro Carlos Lourenço, que fica a mais de 20 minutos do centro O lugar onde o Fábio cresceu é um bairro só de casas Um imóvel de três quartos ali no bairro custa R$ 400 mil Um valor distante dos apartamentos de Genópolis, que custam milhões E o Fábio diz que lembra de quando uma mulher com pinta de madame chegou num carro preto importado, trazido por uma parente. Ninguém sabe de onde. A gente para o carro na frente da casa onde o Fábio cresceu. É um sobrado de tijolinho à mostra, chão de azulejo e portão de metal. E ele me explica como é a estrutura do imóvel.
Essa casa era dos meus pais, né? Hoje em dia meu irmão mora. Na casa dos fundos vai ter uma casa com três cômodos ali, mais um banheiro na parte externa.
Era essa edícula que foi alugada por uma mulher que se apresentou como Maria. E era só isso que o Fábio sabia sobre ela na época.
Eu não interagia muito porque assim... Maria é uma pessoa um pouco assustadora para uma criança, se você for parar para pensar, né? Porque, imagina você dar uma olhada na sua... Por exemplo, na casa dos fundos tinha... Tem, né? Ainda, né? Três janelas. Uma do quarto, uma da sala e uma da cozinha. Daí, do nada, você vê a janela da cozinha aberta ali, ou a frestinha, você vê aquela cara branca, cheia de creme, das coisas ali. Cara, é assustador aquilo para uma criança. Então, você fica mais desconfortável. E também era uma pessoa que a gente via que não era uma pessoa de muito diálogo.
Não era só ele que estranhava. A vizinhança toda fofocava. Fábio lembra que alguns dos moleques do bairro começaram a chamar a mulher misteriosa de Michael Jackson e de fantasmão. Fábio diz que Maria passou quase 10 anos na casa da família, do começo dos anos 2000 até o fim de 2009 E que ele mesmo nunca entrou na edícula, onde ela morava com dois poodles e um pai de gatos que ela tinha trazido com ela de São Paulo Mas ele conseguia ver pela janela o estado do anexo da casa Você.
Encontrava a pia com pratos de comida apodrecendo, você encontrava ração velha Na pia era bem comum você encontrar, tipo, quando você via ali Mesmo que você não invadisse, se abrisse a janela, o cheiro era muito forte da casa que vinha para a casa de baixo, que era da minha mãe Então era um local bem salubre, por assim dizer Os pais.
Do Fábio alugavam a edícula para complementar a renda da família As contas ali eram apertadas e não era a primeira vez que eles dividiam o imóvel com alguém que eles não conheciam Mas foi a primeira vez que eles tiveram uma inquilina que criava tanta encrenca Com o tempo, Maria começou a viajar cada vez com mais frequência para São Paulo. Ia de ônibus. E, segundo Fábio, muitas vezes deixava o aluguel de Campinas sem pagar.
Eu acho que foi uns 3 meses que ela ficou sem pagar aluguel. O meu pai falou assim... Cara, vamos entrar lá para dar uma olhada. Ver se tipo... Se a gente encontra o endereço. Daí tipo... Tinha chave porque realmente era por questão de emergência. Eu não sabia quem você colocava lá no fundo. Quando entramos era muito comum você encontrar tipo... Fezes de animal em cima das coisas. Papel antigo.
É...
Móveis antigos. Eu acho que ela tinha uma geladeira azul, se eu não me engano. Que era tipo... Cara... Uma das coisas mais sujas que eu vi na minha vida foi aquela geladeira.
Ele conta que Maria chegava a dever meses de aluguel Mas, depois de um tempo, aparecia um carro preto importado e uma mulher que vinha no banco do passageiro fazia um cheque e pagava com ele todo o valor que estava em aberto Fábio desconfia que essa mulher é uma das irmãs da Margarida, que mora em Campinas, inclusive Então, era uma convivência difícil entre a família e a inquilina, mas nunca houve uma briga explícita Tanto que, quando ela saiu da casa em Campinas, foi por vontade própria. Perto de 2010, Maria foi embora. E ninguém mais da rua ouviu falar nela. Até 12 anos depois, quando viram aquele rosto nas redes sociais. E aí se deram conta de quem realmente era a inquilina da Edícola. Quando a Maria, ou Margarida, foi embora, ela deixou na casa um gato, um felino preto que virou a paixão da vida do Fábio. Tirando isso, o que ficou para trás não foram boas lembranças.
A casa teve que ser reformada na parte do fundo, teve que pintar a casa na parte do fundo, então foi, assim, fazer uma limpeza extremamente pesada porque Se for ver pelo terreno, meio que as casas são muito conjuntas, tanto da parte da quadra de cima Então, a casa não tinha os cuidados, então quando chovia também, a umidade que caía numa outra casa passava pra essa Então, cara, teve que ser mexido em tudo, tudo.
E essas memórias não são só dele Outros moradores do bairro também toparam falar comigo e confirmaram que a mulher que apareceu no podcast e na TV é a mesma mulher que tinha vivido ali, na rua deles Oi, Chico.
Eu falo sim. Sem problema nenhum.
Essa é a Marta, uma vizinha que era bem amiga dos pais do Fábio.
Então, assim, eu nunca tive contato com ela. Mas, assim, ela era uma mulher, pra dizer assim, não esquisita, ela era uma mulher sinistra mesmo, né?
A Marta desconfia que Margarida escondeu mais do que seu nome no período em que passou em Campinas. Pra ela, essa mulher tava ali disfarçada.
Sempre com a cara branca de pomada, e assim, ela andava com os cachorrinhos na rua. Mas quando ela ia pro ponto do ônibus, que ela... Hoje o ônibus passa aqui na rua de casa, né? Mas primeiro não, passava na rua de cima. E tem uma, da onde ela morava, quatro casas acima, tem uma viela que ela atravessava pra chegar na rua de cima. Ela ia com duas, assim, muletas debaixo do braço, sabe? Isso ninguém me contou, eu mesmo vi várias vezes. Quando ela virava a viela, ela pegava as muletas, colocava debaixo do braço, andava normalmente e ia pro ponto do ônibus.
Marta conta que viu Maria fingir que tinha dificuldade de locomoção. Que tomou um susto quando se deu conta que a pessoa com quem tinha cruzado ali no começo dos anos 2000 era a Margarida Bonetti.
Eu fiquei assim, horrorizada, sabe, da história dela. Eu falei assim, gente, ela morou aqui na rua de casa e a gente não sabia nada da vida dessa mulher.
Outra vizinha que topa conversar comigo é a Camila e ela confirma que Margarida morou por anos na mesma rua que.
Ela Gente, a mesma coisa, ela com essa touca marrom na cabeça, blusa, tênis, calça, esse cabelo preto e andava com essa pomada na cara Mesma coisa, gente.
Do céu Foi a Camila, inclusive, a primeira da vizinhança a se dar conta que os podcasts, jornais e TVs estavam falando de uma senhora que morou ali, no bairro deles.
Até quando apareceu a reportagem sobre a mulher misteriosa da casa de São Paulo, que valia milhões, que a mulher vivia numa casa deteriorada, caindo, e tinha, se não me engano, um cachorro dentro de casa, Aí que apareciam as fotos dela na janela, na sacada, a ficha caiu que eu conhecia ela daqui de Campinas.
Daí, a Camila chamou a atenção do Fábio para a nova identidade da mulher que eles chamavam de Mari Até passei.
Mensagem pro Fábio, falei, Fábio, sabe a Maria que morava lá no fundo da casa da sua mãe? Tá na televisão, eu vi falando na televisão que ela vive numa casa abandonada em São Paulo, deixou a mãe dela no microtério por três meses, não enterrou a mãe Aí que a gente se tocou que era ela, que era uma mulher procurada pela polícia fugitiva que estava no nosso convívio aqui, a gente conviveu com ela, né? E não sabia quem era ela Mas agora sabem.
Esse relato dele serve como uma peça que faltava para contar essa história. Porque o período em que a Margarida morou em Campinas, com outro nome e uma muleta que usava sem precisar, coincide com um prazo. O prazo da prescrição do crime de trabalho análogo à escravidão no Brasil. É de 12 anos o tempo por uma pessoa não poder mais ser processada nem punida por submeter alguém a trabalho análogo à escravidão. E, como a denúncia do crime foi feita nos Estados Unidos em 1999, 2010 era bem a época em que o crime ia prescrever no Brasil. Essa informação talvez dê um novo sentido para Margarida Bonetti ter ido morar de aluguel nos fundos de uma casa de classe média num bairro da periferia de Campinas. E também talvez explique o fato dela ter ocultado o nome real dela por quase uma década. Nos Estados Unidos, esse crime não prescreve. Então, Margarida Bonetti ainda é considerada procurada pela justiça americana. Se ela pisasse em solo americano, inclusive, poderia ser intimada com parecer ao próprio julgamento. Lá, ao contrário do Brasil, uma pessoa não pode ser julgada se não estiver no tribunal. Mas é improvável que Margarida seja levada para os Estados Unidos contra a vontade dela, porque a Constituição brasileira veta a extradição de um brasileiro nato. Levando esses prazos em conta, a gente percebe que Margarida só voltou de vez para a casa abandonada quando já não podia mais responder pelas acusações do crime no Brasil. No momento em que estaria livre para voltar a morar na casa de Genópolis e andar na rua, sem mais possibilidade de ser julgada aqui. Não dá para afirmar que ela foi para Campinas com o intuito de se esconder, nem de fugir da polícia, mas as datas batem. E a descoberta desse endereço dela no interior também responde a uma pergunta que tinha ficado em aberto. Por que a polícia brasileira nunca encontrou a mulher, apesar de ter ido duas vezes até a casa abandonada? Agora a gente tem uma resposta. Porque a maior parte do tempo, Margarida não tava lá. Você sabia que A Mulher da Casa Abandonada virou uma série documental do Prime Video? Pois é. A investigação nesta série vai ainda mais fundo do que a do podcast, com depoimentos inéditos de um agente do FBI, policiais e de vizinhos da família Bonetti nos Estados Unidos. E, pela primeira vez, você vai poder ver e ouvir a versão de Hilda, a mulher que por anos viveu com os Bonetti, em condições comparáveis à escravidão. A série A Mulher da Casa Abandonada estreia no dia 15 de agosto, só no Prime Video. Tem uma coisa de diferente em Higienópolis, em 2025 O bairro pode parecer intacto desde que o podcast saiu Teve umas semanas em que a rua ali ficou coalhada de curiosos Teve a invasão da casa pela polícia. Teve também a entrada da ativista Luisa Mel, que retirou dos braços de Margarida uma cachorra. Essa pincher resgatada hoje em dia mora numa casa enorme. Foi adotada por uma protetora dos animais e ganhou o nome Pablita Escobar. Esse furdunço todo passou. E o bairro voltou à rotina. Só que uma coisa mudou entre as quatro paredes de uma mansão em Pandarecos. Depois que esse caso chegou na imprensa, Margarida Bonetti virou uma figura pública. E parte do público sentiu simpatia por ela. Margarida ganhou um fã-clube. E, no começo de 2025, uma pessoa me procurou. Ela dizia que tinha sido fã de Margarida, mas que queria contar sua história. Uma mulher que vende roupas no interior de São Paulo e que conheceu pela televisão a história da casa abandonada.
É verdade, esse grupo chamava assim, é obcecadas por Margarida Bonetti, como eu soube da existência, quando eu falei pra você que eu pretendia ir na casa dela, porque assim Chico, eu ia pra São Paulo, mas eu só conheci o Brás, tá, só o Brás, ali a região do Brás, nada mais.
Essa mulher de 40 e poucos anos não quer ser nomeada, então a gente vai chamar ela de Alessa. E também distorcer a voz dela. E a Alessa diz que se comoveu com essa história. Se comoveu quando soube que uma senhora tinha sido acusada de submeter uma pessoa a trabalho análogo à escravidão. Mas se comoveu por margarida, não pela vítima.
Quando aconteceu tudo isso, eu confesso pra você que eu me promovi muito Eu via ela como uma pobre coitada, uma vítima, entendeu? Mas daí eu ficava assim, ah, eu queria ajudar ela Fiquei assim, acho que uns dois, três dias eu pensava, principalmente na hora de eu dormir Eu falava, nossa, eu queria muito ajudar, até então eu falava a dona Mari, né? Eu quero muito ajudar ela, mas eu pensava, como? Como que eu vou ajudar? Eu nem moro em São Paulo, poxa.
E ficava Daí, a Alessa decidiu pegar um ônibus de mais de quatro horas pra ir até São Paulo e tentar ajudar a mulher que ela só conhecia pela TV e pela internet Até o.
Dia que eu falei, ah, eu vou pra São Paulo, eu fui num ônibus, nem foi de ônibus de linha, ônibus do sacolé Como eu vendo roupas também, então eu fui no ônibus do sacoleiro, mas eu nem precisava de mercadoria, tá?
Ela desceu no Brás, que é um bairro de comércio popular no centro de São Paulo, e pegou uma condução até Higienópolis Mas não foi de mãos vazias, levou com ela um presente Eu lembro.
Que eu comprei uma toalha também e mandei bordar o nome dela, Mari, e foi isso, né? Mandei a carta Na sexta, porque eu pensei assim, se eu escrever só uma carta, eu vou ter que colocar ali na caixinha, que ela nem deve mexer, ainda mais que ainda estava essa confusão Até então eu não tinha ouvido podcast também, eu fui ouvir muito depois Quando eu ouvi podcast eu já tinha amizade com ela, pra você ter ideia Eu.
Pergunto o que levou a Alessa a virar fã de uma pessoa que é acusada de um crime E ela prefere que eu não grave quando ela diz que viu em Margarida Bonetti uma figura familiar Que a mulher da casa abandonada lembrava uma tia ou uma parente dela E que sentiu vontade de ajudar de alguma forma Então, ela foi até a casa e deixou a cartinha junto com uma cesta de presentes E, lógico, a.
Primeira coisa que eu pensei foi, quem sou eu na fila do Pão? Eu moro a cinco horas de distância dela Mas assim, eu fui até São Paulo, eu deixei lá uma carta para ela com o meu telefone Me prontifiquei para ajudá-la, mas assim, nas minhas possibilidades, na minha maneira, né?".
Alessa disse que ficou muito surpresa quando, no mesmo dia, recebeu uma mensagem de texto E quem tinha mandado era a.
Margarida Bonetti E daí tá, então a gente começou a conversar e ela, poxa, eu falei, imagina, né E aí ela começou a falar, então, você parece uma pessoa muito boa, você veio aqui, você não ligou para o que estão falando de mim Daí eu falei, não, dona Mário, eu não liguei, ao contrário, me.
Compadeci E essa mensagem em pouco tempo virou uma ligação de voz, e outra, e outra Daí, as duas passaram a se falar por telefone todos os dias.
E a Juderrey, a gente foi ficando muito amiga, ela me ligava todos os dias, várias vezes no dia, a gente passava horas e horas conversando, dia e noite, madrugada, entendeu? Estava exaustivo pra mim? Estava, mas assim...
Ela disse que estava exaustivo porque Margarida começou a pedir mais do que a atenção dela. Passou a pedir favores.
No começo, sim. Eu me comovia. Tanto é que às vezes, vamos supor, ela me pedia determinadas coisas, eu ficava doida. Ai, meu Deus, como que eu vou fazer?
Vale lembrar que a Alessa mora a horas de distância de São Paulo e vive com um orçamento apertado. Ela não tinha dinheiro sobrando para ajudar uma milionária.
Por exemplo, eu ia no mercado. Ah, aproveita que você está indo no mercado, compra isso e isso e aquilo para mim. Às vezes ela me ligava. Ah, estou indo na farmácia. Ah, aproveita que você está indo na farmácia, compra isso e isso e aquilo para mim.
Alessa passou a ir para São Paulo uma ou duas vezes por mês. Ia até Higienópolis só para ajudar a mulher que tinha conhecido na televisão. Fazia mercado e ia até restaurantes para comprar comida para ela.
É só coisa cara, é amêndoas, é castanha, disso, daquilo, entendeu? E assim, não podia ser a granel, porque a granel fazia mal, que não sei o quê, não sei o quê.
Com o passar do tempo, começou também a fazer tarefas domésticas para Margarida Bonetti.
E assim, ela me fazia trazer roupa dela lá para lavar, entendeu? Daí eu já ficava mal porque eu ficava de novo, ai meu Deus, eu acabei de ir Agora eu não gosto de ficar com coisa dos outros, fora que ela deve estar precisando Então eu já tinha que pensar de novo em voltar Mas assim, eu fui levando, entendeu, Chico?
A amizade começou a ter dois custos para Alessa Um financeiro e o outro.
Emocional Eu cheguei a me endividar constantemente, porque passagem, né, tudo caro Então eu tava indo pra São Paulo com muita frequência e gastando muito Então eu tinha que comprar essas passagens no cartão, daí se chegava a fatura eu não conseguia pagar E daí eu tinha que ir pagando o mínimo, enfim, né E fora que ela pedia muitas coisas mesmo, coisa cara, mas ela nunca perguntava Ah, você tem dinheiro? Ou você pode? Não. Ah, você vai vir?".
Essa fã afirma que foram dois anos de convívio próximo E ela tem dezenas de mensagens que trocou com Margarida Mensagens que mostram como a relação das duas.
Existiu de fato E eu.
Procurei entrevistar a Margarida Bonetti para esse episódio Mandei mensagem e bati no portão da casa Mas ela não respondeu aos pedidos de entrevista Então, aqui, nós vamos ter a.
Perspectiva da Alessa Então, Chico, eu tentei fazer muito pra ela e por ela Assim, vamos dizer que o impossível, né? Eu cheguei ao ponto de tirar de mim pra poder fazer pra ela Porque eu não moro em São Paulo, né?
Essa afirmação de que ela abdicou de coisas dela pra dar pra Margarida É ilustrada por uma história que a Alessa conta Fazia anos que a família dela queria ter um cachorro pinch, mas era um sonho que não se concretizava nunca.
O meu pai, ele sempre teve o sonho de ter um cachorrinho pincher, né? Bem pequenininho. E assim, nunca dava certo. Por quê? Às vezes, quando aparecia, é caro. Ou quando tinha dinheiro, não aparecia. Enfim, de repente, no final... É, foi em 2022 mesmo. Ele foi fazer uma entrega, né? Que ele é motorista. E a pessoa tava lá vendendo. Ele me ligou todo feliz, né? Enfim, eu lembro que a pessoa falou, ah, eu parcelo pro senhor. Ah, ele ficou feliz. Falei, que bom, né?
E, finalmente, a família D'Alessa conseguiu comprar um pincher Parcelado, mas conseguiu Daí, ela contou a boa notícia para a amiga Margarida E ouviu um pedido Me dá o cachorro? E ela deu Colocou o filhote numa bolsa e trouxe ele escondido para São Paulo, dentro do ônibus Foi uma saga.
De ter que levar, e assim, como eu disse, são cinco horas, né? A cachorra foi dentro de um ônibus, tadinha, praticamente escondida. Então eu penso assim, pra quem ama animais, né? Sabe que são cinco horas dentro de um ônibus, mais do que depressa ela tinha que estar ali me esperando pra receber essa cachorra, que nada.
Alessa diz que Margarida fez ela esperar por horas na calçada, com o filhotinho no colo E que quando finalmente ela apareceu, pegou a cachorrinha e levou para dentro da casa abandonada A Alessa diz que nunca mais ouviu falar da cachorra E se pergunta até hoje o que pode ter acontecido com o bicho Então.
Nesses dois anos praticamente de amizade, eu fui fazendo isso E estava dando resultado, ela se animava E esse caso do.
Cachorro foi só um dos vários desgastes na relação das duas Aos poucos, a Alessa começou a se ressentir. Ela fala que Margarida não pagava de volta as compras que ela fazia no supermercado, que reclamava da comida que ela fazia e que passou a falar mal das suas roupas. Até que, depois de dois anos de amizade, Alessa decidiu se afastar.
Faz meses que as duas não se falam. Mas assim, não me arrependo, porque eu fiz o bem, entendeu? Então eu me viro comigo mesma. Assim, eu só fiquei muito... tem essa mágoa da ingratidão dela, tá?
Alessa diz que, por ora, ela prefere ficar longe da mulher que um dia admirou. E pra quem trabalhou, de graça. E que aprendeu uma lição com essa vivência de dois anos.
Infelizmente, ela não é uma pobre coitada, ela não é bozinha.
Uma dúvida que o podcast tinha levantado em 2022 e que tinha ficado no ar era a seguinte Como Margarida Bonetti escapou da justiça americana, mesmo que os Estados Unidos tenham pedido a cooperação do Brasil? E essa resposta parece ter aparecido agora, em 2025, com a revelação da casa de Campinas De resto, tudo continua igual a antes do podcast A mulher continua morando na casa abandonada Em 2025, submeter uma pessoa a trabalho análogo à escravidão não é um crime hediondo na lei brasileira. E por isso, Margarida Bonetti jamais deve ser julgada no país onde ela nasceu. Mas existem dois projetos de lei para transformar em crime hediondo o ato de submeter alguém à condição de trabalho análogo à escravidão. Cada um deles tramita em uma casa. O Projeto de Lei 734, de 2023, está esperando a formação de uma comissão da Câmara dos Deputados para avaliar o texto antes de levá-lo, ou não, para votação. E o Projeto de Lei 4.371, de 2019, está estacionado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, faz três anos. Hoje, ambos estão parados. Se você quer saber mais sobre esses projetos de lei, ou quer se manifestar sobre eles, pode encontrar essas informações e esses caminhos nos sites da Câmara e do Senado. Os links para essas páginas estão na descrição desse episódio. Se explorar um ser humano e impor a ele um regime similar à escravidão virar um crime de hondo, esse crime vai deixar de ter um prazo de prescrição. Ou seja, mudar de cidade por um período e adotar um nome fictício não ia ter sido suficiente para garantir a liberdade de uma pessoa que foi acusada de explorar uma empregada doméstica por décadas. Mas, mesmo que um desses projetos vire uma lei, essa lei só vai valer a partir do momento em que for aprovada. Ou seja, nada vai mudar no bairro de Genópolis. A mulher que foi acusada de escravizar uma pessoa não vai responder por esse possível crime no Brasil. Vai continuar morando na mansão da família, no coração do bairro, pelo tempo que quiser. Ou pelo tempo que puder. Mas talvez casos como o de Margarida fiquem mais difíceis de acontecer de novo. A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha produzido pela Pachorra Felice Áudios, Livros e Filmes. Eu sou Chico Felice, criador, apresentador e roteirista. A edição e a trilha são do Luan Alencar. A supervisão desse podcast é da Magê Flores e do Daniel Castro. A produção é da Beatriz Trevisan. E a imagem de capa do podcast é da Catarina Pinhato.



