13 Jul 2022 · 46 min
This is a podcast episode titled "Um Fim que Não É Bem um Fim" released in July 2022. It is a journalistic investigative report by Chico Felitti and producer Beatriz Trevisan, focusing on the story of Margarida Bonetti, a Brazilian woman accused of maintaining a domestic worker in conditions analogous to slavery in the United States for nearly 20 years. The episode explores the legal complexities, international cooperation failures, family inheritance disputes, and Margarida's reclusive life in a dilapidated mansion in Brazil. The content is a detailed narrative with interviews and on-site reporting, but it is a monologue-driven documentary style rather than a multi-speaker conversation.
Esse podcast é uma reportagem que se baseou em registros de um caso de notório interesse público. Procurou ouvir todos os envolvidos e deu espaço às versões dos que se manifestaram. Essa série não é uma investigação policial nem um processo judicial. A Folha condena qualquer tipo de agressão e perseguição contra as pessoas aqui retratadas. Eu estou na Praça Vila Boim numa madrugada do fim de maio. A produtora Beatriz Trevisan está comigo. Cada um está sentado em um banco de madeira, os dois de frente para uma muda de árvore. Esse pé-de-pé foi plantado no lugar em que ficava uma árvore derrubada na antivéspera do Natal de 2021, sob os protestos de uma mulher com o rosto coberto por pomada branca.
Eu acho muito legal passar por esses lugares e falar e reconhecer.
Me lembrando é, a árvore era ali ó a árvore era exatamente ali eu mostro para a Beatriz os lugares que aparecem no primeiro dia em que eu conversei com Margarida Bonetti aqui é o Louveira, aqui é a farmácia que ela entra aqui é o ponto de táxi que ela pega sempre que eu entrevistei o taxista Faz exato cinco meses que eu encontrei Margarida ali, lutando contra a derrubada de uma árvore. Em 150 dias, o lugar que ela ocupa na minha mente migrou. Foi de uma ex-socialite excêntrica que morava numa mansão caindo aos pedaços, a uma pessoa acusada de um crime impensável, de submeter alguém a trabalho análogo à escravidão por 20 anos e, segundo relatos da justiça americana, de agredir essa pessoa. Eu e a Beatriz voltamos à praça no fim de maio porque a gente precisa ouvir essa mulher, deixar registrado que estamos fazendo um documentário sobre a história dela e oferecer a chance de contar a versão dela dos fatos. É o que chamam no jornalismo de outro lado. Ela nunca deu uma entrevista sobre o caso. E parece que não vai ser dessa vez. A mulher da casa abandonada nunca mais apareceu. Faz meses que ela me ignora. Não atende mais quando eu ligo e foge quando eu passo na frente da casa e tento conversar com ela. Então, a gente decidiu esperar o tempo que fosse até ela sair de casa pra falar com ela. Eu sou Chico Felitti e esse é o sexto episódio de A Mulher da Casa Abandonada, um podcast da Folha que investiga a história de uma brasileira acusada de manter uma empregada doméstica em trabalho análogo à escravidão nos Estados Unidos por quase 20 anos. Essa mesma mulher, Margarida Bonetti, se esconde há duas décadas numa mansão abandonada em um dos bairros mais ricos do Brasil. Episódio 6 – Um fim que não é bem um fim Depois de cinco meses, eu estou na esperança de dar um fim a essa história É uma expectativa modesta, bem mais micha do que os planos de meses atrás Quando eu descobri que a mulher da casa abandonada era uma foragida, talvez tenha brotado em mim a expectativa de resolver alguma coisa de ligar para o FBI e dizer, tá aqui essa pessoa que vocês procuram E que um helicóptero, então, fosse descer do céu e apreender uma pessoa procurada pela polícia A justiça estaria feita, o arco da história estaria completo Mas eu já adianto, dou um spoiler mesmo, isso não vai acontecer Porque essa história é real e não uma ficção escrita por um estúdio de Hollywood Acontece que eu escondi uma coisa de vocês até agora De propósito, e eu peço desculpa, sem realmente sentir culpa, porque era importante para a história que eu deixasse para contar só agora. Vocês lembram da Mari Muradas, a dola que mora perto da casa abandonada? A vizinha que primeiro pensou em ajudar a senhora que morava na mansão em Pandarecos, até descobrir que ela era acusada de ter mantido uma empregada em condições análogas à escravidão por quase 20 anos? Pois é. A Mari é cidadã americana. E no auge da indignação dela ao descobrir quem era a mulher da casa abandonada, ela entrou em contato com a FBI.
Eu mandei e-mail para a FBI, para falar que essa mulher estava aqui.
A Mari Mouradas passou o nome completo e o endereço de uma foragida. Isso faz mais de dois anos. E por mais que a gente não saiba o que a Polícia Federal americana fez com essa informação, a gente sabe de outra coisa. O que ela não fez. A Margarida não foi presa. Ela continua num exílio autoimposto na casa abandonada. Ela não foi julgada pelos crimes. Ela continua livre para ralhar com os funcionários da Prefeitura de São Paulo, que estão podando uma árvore na antivéspera do Natal. É uma mulher que sai pouco por escolha, não porque teve a liberdade revogada pela lei. Depois de investigar o caso, encontrar a pessoa que reconquistou a liberdade dela e chegar perto do ex-marido de Margarida, que cumpriu a pena dele, resta uma dúvida para essa história. Uma dúvida enorme, tatuada na minha mente. Por que a justiça perdeu Margarida Bonetti? Para começo de conversa, nunca existiu a possibilidade de Margarida ser levada de volta aos Estados Unidos para ser julgada. É uma questão constitucional. O inciso 51 do artigo 5º da Constituição brasileira é claro. Nenhum brasileiro será extraditado. Ou seja, o governo brasileiro não ia colocar Margarida em um avião com destino a Maryland, onde ela seria julgada. Mas existia, sim, uma possibilidade dela responder aqui pelos crimes de que era acusada. E é para entender esse jogo de cooperação entre países que eu procuro um dos advogados que mais entende de direito internacional no Brasil.
Alô?
Boa tarde, professor João?
Sim, tudo bem?
O Chico Feliz da Folha de São Paulo, tudo bem com o senhor? João Mestiere é professor adjunto da PUC do Rio. É também o advogado que ocupa a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras Jurídicas. Foi consultor de tribunais americanos durante décadas.
Mas tem.
Outro motivo para eu ter ido atrás do professor João Mestiere Uma entrevista que ele deu 20 anos atrás para o site Consultor Jurídico, um dos mais respeitados sobre direito Nela, ele fazia essa previsão, lida pela Magê Flores Margarida.
Bonetti, patroa da empregada escravizada nos Estados Unidos, fugiu para o Brasil, mas não escapará da lei. Segundo o professor Jevon Mestieri, consultor de alguns tribunais federais americanos, e o defensor público Franklin Dorr, ela não escapará da prisão. Mesmo que o governo negue sua extradição, a ex-patroa será processada aqui pelos crimes cometidos no exterior, de cárcere privado e de escravidão. O Código Penal Brasileiro prevê sua punição com um mínimo de dois anos de prisão e um máximo de oito anos para cada crime.
A previsão do professor Mestieri não se confirmou. Em 2022, Margarida acumula meia dúzia de processos. Todos ligados à herança dos pais dela. Nenhuma ação criminal pelo que ela foi acusada de fazer com a empregada. Como todo bom professor, João Mestieri começa do começo. Ele analisa primeiro se o caso poderia ter sido trazido à justiça brasileira.
Primeira coisa, qual é a competência brasileira? Se ela é brasileira, qual é a competência? Se o crime é cometido no Brasil, é competente. Se o crime é cometido contra brasileiro, é competente. E por aí vai.
E a resposta para a maioria dessas perguntas é sim. Ela é cidadã brasileira e o suposto crime foi cometido contra outra cidadã brasileira. Isso facilitava a transferência do caso para a justiça brasileira. Se uma das duas fosse americana, por exemplo, já seria mais complicado.
É crime no Brasil também ou não? No caso, poderia ser um ato selvagem, um ato absurdo, um ato imoral, imoralíssimo, mas...
Outro sim aqui. O que Margarida fez é crime, segundo a lei brasileira. O artigo 149 do Código Penal diz que reduzir alguém à condição análoga de escravo quer submetendo-o a trabalhos forçados ou à jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto.
Como a extradidão não é mais oficial, você tem um crime de reduzir alguém à condição análoga à verificação. Análoga, parecida. E ela estava submetida pela prova, esse promotor conseguiu fazer, a essa extradão. foi interrogada e tal, como sempre, e ela expôs com simplicidade peculiar, mas ela admitiu e descreveu todos os pontos essenciais.
Desse crime Tá, então Margarida poderia ter sido julgada aqui pelos crimes de que era acusada nos Estados Unidos, que também eram crimes no Brasil Além disso, o advogado afirma que havia um corpo de provas que podia compor um caso Então, com tudo isso, era só a promotoria americana ter mandado uma carta rogatória para o Ministério da Justiça, em Brasília, pedindo que a justiça brasileira abraçasse o caso Porque geralmente, pela lei, seria isso, né? A justiça americana pediria a colaboração do governo brasileiro e o governo brasileiro colaboraria Simples assim. Uma carta rogatória é um documento de duas, no máximo três páginas Mas algo aconteceu no meio do caminho Porque Margarida não foi processada por esses crimes Então, a gente tem duas possibilidades. A primeira é, a promotoria do Estado americano não mandou essa carta. E a segunda é, o judiciário brasileiro não respondeu com ações a esse pedido.
Agora, sem a cooperação de Brasília, é impossível adivinhar o que aconteceu E Brasília.
Não cooperou Eu escrevi para o Ministério da Justiça com todas as informações sobre o caso e perguntei se havia registro de uma carta rogatória pedindo que a justiça brasileira abraçasse o caso de Margarida A resposta foi a seguinte O Ministério.
Da Justiça e Segurança Pública não se manifesta sobre pedidos ou processos migratórios de determinada pessoa. Em cumprimento à legislação vigente, o MJSP presta informações sobre processos individualizados somente aos respectivos titulares ou pessoas autorizadas por lei.
E eu também fui perguntar para a promotoria do estado americano em que a Margarida foi acusada. Também não tive resposta. Ou seja, não dá para dizer se os Estados Unidos não pediram ajuda da Justiça brasileira ou se foi a Justiça brasileira que ouviu o pedido e não agiu. O professor resume o que a gente sabe sobre esse caso.
Sabe-se que ela não sofreu nada. Ela veio para o Brasil e se livrou disso. Bom, para por que ela se livrou disso?
Eu gostaria muito de saber. Mas parece que a gente vai enguiçar nessa dúvida. Quem foi que não agiu? A justiça americana ou a justiça brasileira? É um beco sem saída, porque essa informação não é pública. Essa história de colaboração jurídica internacional pode parecer uma operação complicada demais para ser colocada em prática. Eu sei, pode parecer o tipo de coisa que só existe no papel, mas acontece com alguma frequência E há casos de brasileiros que foram julgados aqui por crimes que cometeram do outro lado do mundo Um dos mais notáveis parece ter saído de um romance policial Em 2001, dois brasileiros foram recrutados em São Paulo pela Yakuza, a maior máfia do Japão, para matar um comerciante em Tóquio Um homem que não estava pagando a taxa de proteção da Yakuza A máfia escolheu os assassinos brasileiros por pensar que eles não seriam presos Os dois viajaram, entraram na casa do homem e dispararam contra ele e a esposa. Ela sobreviveu. Ele, não. Os dois brasileiros então fugiram. Conseguiram cruzar o mundo e voltar para casa, onde pensavam que estavam fora do alcance da lei. Cada um recebeu pelo crime 3 milhões de ienes, o que na época valia 71 mil reais. A justiça japonesa emitiu uma dessas cartas rogatórias, um pedido de cooperação, e o caso foi trazido para a justiça brasileira. A polícia daqui abriu uma investigação e... eles foram presos. Tudo bem que só foram encontrados em 2011, 10 anos depois do crime, mas foram. E o julgamento levou mais cinco anos para acontecer. Rolou em 2016. E eles foram responsabilizados por um crime que tinham cometido do outro lado do mundo 15 anos antes. Foram condenados os dois brasileiros que mataram um comerciante japonês a mando da temida máfia Yasuka, Yakuza, aliás. Máfia Yakuza, perigosíssima. Acompanhe comigo a reportagem de agora. Cristiano da Silva Severo Ito foi condenado a 22 anos e um mês de prisão. A pena de Marcelo Cristian Gomes Fucuda foi de 23 anos e sete meses de prisão. Algo parecido poderia ter acontecido com Margarida Bonetti. Os Estados Unidos, inclusive, têm um acordo de cooperação jurídica com o Brasil. Só que não aconteceu. E provavelmente não vai acontecer mais. Professor Mechere explica que os crimes de Margarida não podem mais ser punidos, porque as justiças não agiram há tempo.
Ela é brasileira, voltou para o Brasil, território nacional e tal, etc, etc. É crime aqui também, lógico. Não aconteceu. Por que não aconteceu? Provavelmente deveria estar prescrito pela lei brasileira.
Crimes prescrevem. É como se tivessem uma data de validade. Se o Estado demorar além do prazo previsto para processar um cidadão, ele perde esse direito. Ou seja, por mais que tenha cometido um crime, uma pessoa não pode mais ser punida por ele. Por exemplo, Se a possível pena do crime fica entre 1 e 2 anos de cadeia, o crime dessa pessoa vai prescrever em 4 anos. Se a pena prevista for maior do que 8 anos de cadeia, mais menor que 12, o crime prescreve em 16 anos. Se a pena abstrata for maior do que 12 anos, o crime deixa de ser passível de punição depois de 20 anos. E sabe quanto tempo faz que o crime de margarida foi investigado e denunciado? 22 anos. Como diria o professor Mestieri?
Em 20 anos, prescreve tudo.
Ou seja, mesmo que houvesse uma movimentação em 2022 para que Margarida respondesse às acusações dos Estados Unidos, é muito, mas muito improvável que a Justiça pudesse fazer qualquer coisa a respeito. Na avaliação do professor, ela não será mais punida pelos crimes de que foi acusada. Tá, eu entendo a sua frustração. Até porque eu vivi uma frustração parecida. Vivi durante os cinco meses em que eu tive debruçado sobre essa história. Ela nasce porque a gente acredita na justiça. Se uma pessoa cometer um crime, ela vai ser julgada por ele. Se for considerada culpada, vai ter que cumprir uma pena, que pode ser uma multa ou tempo de reclusão. Mas nesse caso, houve denúncia de crimes. Houve uma investigação que levantou provas. Houve até uma condenação unânime do marido de Margarida no tribunal do júri Mas com ela, não houve nada Durante semanas, eu não conseguia pensar em outra coisa Falar de outra coisa Ficava mastigando a palavra prescreveu enquanto andava na rua Até que numa madrugada, eu estava conversando com meu marido em casa E ele me perguntou Mas vem cá, qual é a diferença de ela estar presa numa cadeia e ela estar presa numa casa abandonada? Ela já está presa faz mais de 20 anos E eu nunca tinha pensado nisso Então, eu precisei de uns dias para elaborar uma resposta E como acontece sempre, eu só fui pensar em uma resposta boa semanas depois que a conversa já tinha acabado O que eu deveria ter respondido é o seguinte Tem sim uma diferença entre estar isolada numa casa abandonada e estar na cadeia Porque não é essa a regra do jogo. Muito do que o mundo se tornou nos últimos anos é porque a gente deixou de acreditar nas instituições. A partir do momento que a gente não crê mais na justiça, na democracia, nos direitos humanos, acabou a seca invisível que divide a civilização da barbárie. É como se a gente fosse até o contrato social e apagasse nossa assinatura. Agora a gente sai do mundo das ideias e volta para o mundo real Nada aconteceu juridicamente com a mulher da casa abandonada Mas, em breve, deve acontecer algo de prático com ela É provável que, num futuro próximo, a mulher não more mais na casa abandonada Mas o motivo não tem nada a ver com a lei Lá no segundo episódio, eu tinha dito que a herança da família do pai dela, um médico muito rico, era um verdadeiro ninho de mafagafos, né? Tá na hora da gente entrar nesse ninho A Margarida tem duas irmãs com quem compartilha a herança deixada pelos pais. Eu procurei as duas, mas elas não toparam da entrevista. Quando o pai morreu, em 1998, Margarida se mudou dos Estados Unidos para a casa abandonada. Foi morar com a mãe e nunca mais saiu de lá. Com a morte da mãe, em 2011, as três irmãs herdaram uma porção de imóveis. E a casa abandonada passou a ter três donas. Mas não só ela. O pai e a mãe de Margarida deixaram mais de 10 imóveis para as filhas. São dezenas de milhões de reais em herança. Uma herança a que elas não tiveram acesso ainda, porque as três nunca conseguiram se entender. Até que a justiça intercedeu.
Tendo em vista o elevado grau de litigiosidade que se verifica no feito, a necessidade de finalização do processo que foi distribuído em 3 de dezembro de 1998, bem como a correta administração de bens do espólio no meio inventariante dativa.
Em 2009, a juíza decidiu colocar uma curadora adativa para cuidar do espólio dos pais de Margarida. Isso acontece quando o juiz ou a juíza considera que a família não vai conseguir resolver o embrólio sozinha. É como se fosse uma intervenção do Estado, que diz, eu vou contratar uma profissional para fazer isso, porque se depender de vocês, a coisa não anda. Não venha ao caso dizer o que são esses problemas, porque eles envolvem o resto da família, pessoas que não são foragidas da justiça. Mas basta a gente ler uma linha do processo para ter noção do tanto de treta que nasceu entre essas três irmãs. É o sumário de todas as acusações feitas entre elas. e elas se espalham pelo processo. Então, na página 325, 361, 367, 368, 370, 371, 373, 375, 377, 451, 454, 513, 516 e na página 533. Acontece que essas brigas impedem que os imóveis sejam vendidos, porque todos os herdeiros precisariam assinar um documento concordando com a venda. Enquanto isso, esse patrimônio está gangrenando. E como ninguém paga as contas, tipo condomínio e alguns impostos dos imóveis, eles vão virando bolas de neve de dívidas. Então, nos últimos anos, a Justiça começou a autorizar a venda dos bens da família em leilão. Ou, como diz o processo, É necessário.
Para venda em leilão de bem do espólio para enfrentamento dos impostos devidos há mais de década. Intime-se.
Em fevereiro de 2019, foi a leilão um conjunto de salas comerciais na frente do Copan, o prédio mais famoso do centro de São Paulo. Era um conjunto com sete salas, onde funcionava um laboratório de análises clínicas, mais cinco salas que estavam vazias. Somadas, essas 12 salas comerciais foram avaliadas em mais de R$ 1,2 milhão. Em 1 de março de 2021, foi autorizada a venda de um apartamento no encontro das avenidas Higienópolis e Angélica. Até novembro de 2020, a dívida do imóvel era de R$ 5.300,82 de condomínios não pagos e de multas. Os apartamentos do mesmo prédio têm entre 120 m² e 300 m² de área e são vendidos por mais de R$ 1 milhão. Podem custar até R$ 3 milhões. Não que a herança esteja perto de acabar. Além da casa abandonada, Margarida ainda tem uma fatia de dois imóveis na Rua Tinhourão, uma viela de Genópolis e mais uma fazenda em Itajubá. Ou seja, a mulher da casa abandonada é herdeira de parte de pelo menos uma dúzia de imóveis. Todos esses bens estão parados, acumulando pó e dívidas. Só que isso pode mudar em breve, porque a casa abandonada acaba de receber um lance. Depois de meses insistindo, uma das pessoas envolvidas nesse processo da herança, que tem muitas partes, topa me encontrar, desde que o nome dela não seja divulgado. Ela me recebe munida de uma pasta que é quase tão grossa quanto a Bíblia. É o processo da herança. Em meio a decisões judiciais e avaliações dos imóveis, tem uma pastinha com duas imagens impressas por cada página. São fotos da casa abandonada por dentro, feitas em 2009, quando a justiça designou uma advogada para cuidar da herança porque o enrosco da família era grande demais. Um oficial de justiça foi autorizado a entrar no casarão, mesmo que Margarida não quisesse. A pessoa me estende as fotos e pergunta, você quer ver? Eu pego as folhas de papel e é como se eu tivesse passado pelo portão de metal fechado com uma corrente. Em cinco meses de investigação, eu não conseguia entrar na casa abandonada. Mas agora, eu entro. Mesmo que por imagens feitas uns 13 anos atrás. Cada foto mostra um pedaço de um cômodo. A casa abandonada é menos abandonada do que parece vista de fora. Ou pelo menos era. Essas fotos foram feitas 13 anos atrás. Então o tempo pode ter corroído tudo que tá lá dentro. Mas dá um sentimento estranho de ver a casa por dentro. É como encontrar alguém que você só conhece pela internet, mas que parece um velho conhecido da primeira vez que se tromba em carne e osso A primeira foto que eu vejo é da cozinha, com as prateleiras cheias de comida Há várias caixas tetrapaque de feijão pronto, três potes de achocolatado com 1,5 kg cada um e pelo menos 15 garrafas de 1,5 litro de suco de uva ocupando duas prateleiras de uma estante inteira. Do lado da prateleira, fica uma geladeira branca com aparência de nova. Encostadas em outra parede, estão mais duas geladeiras, uma verde-água e outra de cor creme, já com manchas de ferrugem. Depois, eu chego às imagens de uma sala coalhada de coisas. uma impressora ainda na caixa, um inalador de ar ainda na caixa, um grampeador ainda na caixa, calhamaços de papel impresso sobre a escrivaninha, onde também estão um coelho e um urso de pelúcia. Outra foto mostra um estúdio. Lá, tem um sofá em que o dicionário Ruaz está jogado em meio às cobertas. Encostado no sofá, tem uma mesa com um código civil ao lado de um código penal e um fichário com papéis rabiscados É como se alguém estivesse estudando o direito Em meio aos códigos jurídicos, se espalha uma planta de plástico que cobre parte de dois cogumelos de cerâmica e uma joaninha, também de cerâmica As fotos dos corredores mostram quadros. Muitos quadros. Uma reprodução da Mona Lisa, uma pintura das musas gregas inspirando um artista, a imagem de quatro querubins deitados na relva. Um outro quadro tem emoldurado um crucifixo que parece ser feito de marfim. Em cima de um piano de madeira invernizada tem porta-retratos com imagens em preto e branco de noivas. No meio das fotos, tem uma única imagem em que aparece um ser humano. É Maria de Lourdes Danço, a mãe de Margarida, que morreu em 2011 Ela está na cama do que deve ser um quarto, cercada por almofadas e sacos de supermercado No colo dela está um cachorro branco, que não é um dos dois cachorros que Margarida cria em 2022 Agora é hora de contar a história surreal de Lourdes no processo. Lembra que, no ano 2000, ela foi para os Estados Unidos depor a favor de René Bonetti? Pois bem. René foi condenado, saiu do tribunal já algemado, direto para a cadeia. E o que aconteceu com essa senhora de 85 anos? Três meses depois do julgamento, em 19 de maio de 2000, o jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o desfecho. O título era Brasileira de 85 anos é abandonada nos Estados Unidos.
Abandonada pela família no hospital de um subúrbio da capital americana e sem dinheiro para pagar a conta da internação, que já leva várias semanas, Maria de Lourdes Danço Vicente de Azevedo, de 85 anos, deve ser repatriada pelo Consulado do Brasil.
A reportagem contava como Maria de Lourdes tinha ido aos Estados Unidos testemunhar a favor do genro René Bonetti, que era acusado de ter mantido uma empregada doméstica em trabalho análogo à escravidão por quase 20 anos. Ela ficou sozinha na casa da família depois do julgamento, caiu e quebrou o quadril. O consulado brasileiro afirmava essa reportagem que tentou entrar em contato com as três filhas de Maria de Lourdes, mas nenhuma se responsabilizou por ir buscar a mãe. Tem duas frases que ela disse ao jornal O Globo que me chamam a atenção. A primeira é, E a segunda frase que chama a atenção é quando ela justifica porque a filha, acusada dos crimes, não foi com ela para os Estados Unidos. Semanas depois da reportagem ser publicada, Maria de Lourdes foi levada de volta ao país de origem pelo serviço diplomático e tornou a viver na casa abandonada com a filha Foi nesse momento que fizeram essa foto em que Maria está acamada Depois que eu vejo as fotos, faço menção de devolver para a pessoa que me mostrou. Mas ela diz, quer? Pode ficar. Então, eu levo essas imagens comigo. Eu agradeço e quando eu tô prestes a ir embora do escritório, ela me conta uma informação que muda tudo. Tudo. a casa abandonada está prestes a ser vendida. Já foi, diz essa pessoa. No começo de 2022, as irmãs de Margarida aceitaram uma oferta de compra. Uma associação cultural ofereceu cerca de 10 milhões de reais pela casa, mais o terreno onde ela está. A família toda, menos Margarida, já disse sim. A curadora dativa da herança disse sim. Só falta a juíza do caso autorizar a venda, com ou sem o sim de margarida. É provável que, em breve, a casa abandonada mude de mãos. E que, com o tempo, ela seja reformada. Deixe de ser uma casa abandonada. E quando a venda for concretizada, a mulher que mora lá dentro vai ser despejada. Por bem ou por força de polícia, garantem as partes envolvidas no processo. Até lá, eu continuo passando na frente da casa abandonada quase todos os dias. Uma mansão que já viu dias melhores. E hoje tá ruindo. Mas eu nunca mais vejo Margarida. É fim de tarde de sexta-feira, dia 27 de maio. Mas eu tô longe de cestar. Tô andando pela rua da Casa Abandonada com a Beatriz Trevisan, produtora desse podcast. A gente tá lá pra fazer plantão em frente da Casa Abandonada até que Margarida apareça. Faz semanas que eu tento falar com ela, mas nunca mais a vi. As janelas estão sempre fechadas. Eu desconfio que ela tenha ficado sabendo que eu estou fazendo uma reportagem sobre a história dela e, por isso, tenha ficado ainda mais reclusa Então, a tática é vencer pelo cansaço Uma hora ela vai ter que sair para alimentar os cachorros, que ficam do lado de fora, ou para ir ao mercado, ou para tentar impedir que uma árvore seja derrubada Eu e a Beatriz nos sentamos num banco, a metros da entrada da casa, e a gente passa horas parado, esperando. Plantados na frente da árvore que foi plantada, onde ficava o pé-de-pê podado na antivéspera do Natal. O tédio deixa a gente em banho maria. A gente precisa ficar atento o suficiente pra caso ela apareça, então nem olhar pro celular a gente pode muito. É, pois é, daí eu tô falando com o Bonfá e não ia, porque ele mora ali, ele mora na Santa Ifigênia, na rua Ele falou, ah, vem aqui, deixa o seu celular em casa e a gente vai a pé, porque é na Praça das Artes, o Getúlio e a Abelha A gente passa horas olhando para a casa abandonada e jogando conversa fora com amigos por áudios de WhatsApp Eu não sei se eu tô muito frivo lá ou adormecida, ou ingênua, mas eu não treino essa pegada. Não sei se é porque eu moro aqui, tipo, é aqui embaixo, sabe, que vai ser o palco. E o centro já vai ter os.
Dois palcos que vai ter no centro.
Até que a fome bate. Será que eu vou lá ver a pizza? Você grita, qualquer coisa? Ou me manda mensagem? Eu atravesso a praça pra pegar uma pizza. Oi, eu consigo pedir pra levar? Sim. Tem essa promoção dos 50 reais?
Vem.
O que é? Calabresa, margarita, praga e feijão e mussarela. Já era. Eu volto com a pizza. A gente come. E espera. E olha pra casa. E espera. Mas ela não sai mais da casa. Já é quase meia-noite quando eu vejo uma figura na rua. Não é a Margarida. É um homem alto de terno. Um homem que eu já conheço. Sim, é ele. O João. O João, que prefere ser identificado só pelo primeiro nome, é segurança da rua onde fica a casa abandonada. E foi uma das dezenas de pessoas que eu entrevistei pra essa série. Por mais que a gente ainda não tivesse ouvido a voz dele até aqui, o João me deu informações importantes pra essa investigação. E ele já me conhece há meses, por mais que insista que eu tô escrevendo um livro, não fazendo um podcast. Então, ele não estranha nem um tico de me ver ali, parado na calçada, no meio da noite Em vez disso, vem puxar papo Ele diz que nunca mais viu a mulher sair da casa abandonada E me dá uma sugestão de como fazer Margarida colocar a cabeça pra fora de casa Você quer ver ela sair logo, sabe o que é? Você faz barulho, piscar com o lato e vai piscar alguém invadir, né? É? A casa não tem campainha E eu não quero gritar, porque eu imagino que a Margarida já saiba que eu tô atrás de uma entrevista Então a tática de fazer os cães chamarem sua dona pode funcionar Eu atravesso a rua e vou até o portão Começo a dar batidinhas na placa de metal que cobre todo o portão E o João tinha razão Os cachorros começam a latir imediatamente Eu espero um pouquinho e bato no portão de novo. E de novo. O João a subia do outro lado da rua, avisando que viu algo. Eu também vi. O vidro da porta virou um filme do Hitchcock porque apareceu o vulto de uma pessoa olhando de frente para a rua Não dá para ver o rosto nem nada Só o contorno do corpo de uma pessoa, parada, rente a porta.
Só.
Mora uma pessoa lá dentro Então é a Margarida que está ali A sombra fica três ou quatro segundos parada e então sai da frente da porta Um segundo depois, a luz do térreo se apaga A casa fica em silêncio. Enobreu total. Eu ando até o João, que pergunto o que aconteceu. Já passou da meia-noite. Não existe mais esperança de que ela saia. O João ainda sugere outra tática. Mas eu não tenho mais energia para tentar de novo. É quase uma da manhã quando a gente desiste de falar com a mulher da casa abandonada. No dia seguinte, eu acordo e vou para a Praça Vila Boen sem nem tomar café da manhã Fico mais de seis horas parado, plantado, sentado, sozinho, esperando alguém sair da casa E ninguém sai Eu me dou conta que essa tática pode levar semanas ou meses até funcionar Na noite anterior, o João me disse que nunca mais viu margarida na rua O único sinal de vida da casa abandonada nos últimos meses foi uma entrega de supermercado Ou seja, minhas chances são ralas E eu apelo para a política da boa vizinhança Escrevo para uma pessoa que Margarida conhece melhor do que eu e que ela talvez atenda A Mari Moradas chega na praça depois do almoço Tudo bem?
E aí? Veio um sinal?
Veio um sinal Ela topa fazer um experimento. Como Margarida parece estar fugindo de mim, a Mari vai até o portão da casa abandonada tentar conversar com a mulher que mora lá dentro. Por mais que as duas tenham tido confrontos, elas não são inimigas. A Margarida ainda fala com a Mari quando as duas se cruzam, ainda mais se a Dola estiver passeando com a cachorra, Banana. Caso Margarida saia, eu apareço e digo para ela que estou fazendo uma reportagem sobre a história dela e peço uma entrevista. No caminho até a casa, a gente passa pelo edifício Joia e o zelador Francisco está no portão Ele é o Francisco que se considera amigo da Margarida e que apareceu no segundo episódio E, ao contrário de mim, ele tem visto a vizinha com frequência Os avacados estão caindo direto, então ela mudou de canto, ela fica até certo, mas às vezes tudo escuro A gente derrubou o leite e ela estava só clarando o computador Porque do fundo do prédio, ele vê a mulher no quintal da casa abandonada Diz que ela se senta em frente ao computador e lá passar horas Mas que ela parou de trafegar na parte da frente do imóvel, na parte que dá pra rua Ela se escondeu nos fundos da casa Tá frio, ela fica com o computador ali atrás, come suas pernas, toca e fica até às sete.
Horas, seis, sete horas.
Francisco diz que vai me mandar uma mensagem de WhatsApp caso veja a Margarida de novo E Mari Moradas e eu seguimos até o portão da casa A Mari fica de pé na frente da porta Eu saio do campo de visão Ela bate palmas Ela bate no portão Os cachorros acordam e vêm para perto da rua Mas não acontece nada Mari Muradas então chama a Margarida pelo pseudônimo que ela adotou desde que fugiu dos Estados Unidos para o Brasil. Nada. A não ser a raiva cada vez maior dos cachorros. Eu desisto de me esconder. Levanto com o peito contra o portão e começo a chamar também. Só o silêncio responde. Depois de meia hora, a gente desiste. Mas eu fico ali o resto da tarde, sozinho. Quando o sol tá se pondo, uma mulher me vê parado no meio da calçada e pergunta se eu tô bem, se eu tô perdido. Eu digo que não, que eu tô só esperando uma conhecida. E eu desisto de novo. Mais um dia que eu passei inteiro na frente da casa abandonada e que não rendeu em nada. Nem uma sombra do outro lado da sala. O sol mal nasceu no domingo, dia 29 de maio, e eu já tô na rua. Vou passar mais um dia de plantão na porta da casa abandonada Mas antes, eu me permito um luxo minúsculo Levo o jornal até a padaria e me sento para tomar um café enquanto eu leio São sete e pouco da manhã quando meu telefone toca A tela mostra que é Mare Muradas do outro lado da linha Eu atendo e ela não diz alô Ela só diz uma palavra Corre! E eu corro. Saio sem pagar minha conta e deixo o jornal pra trás. Levo 7 minutos para correr o quilômetro e meio que fica entre a padaria e a casa abandonada O Google Maps estima que uma pessoa levaria 18 minutos para se deslocar entre esses dois pontos Mas a velocidade vem com um preço Eu chego à casa botando os bofs para fora E lá está ela, margarida, de costas, barrendo o jardim E eu chamo, com fiapo de fôlego, o que me resta. Oi! Tudo bem?
Tudo bem, e você?
Tudo bom. Você lembra de mim? Eu sou o Francisco.
Lembro. Você tá bom, Francisco?
Tô, e a senhora?
Eu também, obrigada.
Que bom. Ela se vira. O rosto tá coberto pela pasta branca. Eu precisava falar com a senhora.
Oi?
Eu precisava falar com a senhora.
Fala. É rápido, porque eu tô correndo aqui.
Ela deu dois passos em direção à entrada da casa. Eu tenho medo que ela vá fechar a porta na minha cara, como fez das últimas vezes que a vi. A senhora topa me dar uma entrevista? Porque eu sei que a senhora é a Margarida Bonetti, eu fui para os Estados Unidos, eu encontrei o René, eu encontrei a ****. Eu tô fazendo para a Folha de São Paulo uma reportagem sobre o seu caso. É um caso horroroso. Eu só consigo repetir, é um caso horroroso. Mas, pelo menos, ela admitiu que sabe do que eu tô falando. Admitiu que é Margarida Bonetti, e não Mari, como se apresenta para os vizinhos. Que são de... Eles podem até pré-escrever, exato, eles podem até ter pré-escrito como pré-escreveram.
A arte dele é uma coisa. Agora, eu quero fazer outra coisa. Então, para que ressuscitar esse ato?
Eu tento explicar para ela que esse assunto nunca morreu, que ela nunca respondeu à justiça, nem foi confrontada com as acusações, que ela só se escondeu. E um crime não morre de velho. Por isso, não seria ressuscitar um assunto, seria resgatar um assunto. Mas eu ainda estou exausto dos dias passados em vão, na frente da casa, e esgotado da corrida até ali.
Eu tô ansioso.
E agitado. Faz semanas que eu tô tentando falar com a Margarida. E ela tá ali, calma, ouvindo que uma pessoa investigou a vida dela. Os crimes que foi acusada de cometer. E ela continua calma quando responde.
Então.
Ela parece se lembrar de algo.
Foi.
Para tentar falar com a senhora, porque eu já estou tentando ligar há muito tempo. Eu vim aqui, bati... Ah, três semanas Sim, eu tinha ligado para a Margarida cedinho Faz três semanas que eu tentava falar com ela em horários diferentes Já tinha ligado do meu celular, do celular do meu marido e do celular da minha mãe Mas ela nunca atendeu, nem respondia os recados Mas agora ela tá ali, sabe que eu vou fazer uma reportagem e tem de dar uma resposta É isso que eu queria ouvir da senhora, a sua versão A senhora pode falar que é uma armação, tá? Mas ela não explica nada. Em vez disso, ela faz uma pergunta. Questiona se quando a gente conversou na antivéspera do Natal, eu já estava interessado no passado oculto dela.
Deixa eu te fazer uma pergunta. Como eu te conheci? Você me pareceu uma pessoa muito focada sobre o assunto da arte.
Ela respira fundo e levanta a mão. Dá a impressão de que vai falar. Margarida nunca deu uma entrevista sobre o caso. A TV Globo tentou falar com ela. A Veja tentou falar com ela. A própria Folha tentou falar com ela.
Mas em vez de começar a me.
Contar a versão dela, Margarida pede um favor. Ela quer se preparar pra entrevista. Se preparar fisicamente, eu quero dizer.
O que eu quero te perguntar é o seguinte, como tá incomodando muito, que já faz um tempinho que eu comi coisa doce e tudo, você pode esperar a sua mãe? Não tinha pra escovar o dente e voltar pra falar com você?
Tô aqui.
Com gentileza.
Tô aqui. Qualquer coisa eu tô na praça, tá?
Não, não, fica aqui.
Ela fecha a porta. Eu espero por uma hora e ela não volta. Esperando na frente da casa faz quase uma hora que ela entrou, dizendo que ia escovar os dentes. Eu vou embora da casa abandonada. É o fim. Ou melhor, é um fim, por mais que não seja o fim que eu esperava. Essa mulher tem direito de negar uma entrevista, de fugir de mim. Eu pelo menos consegui chegar até ela e oferecer a oportunidade de dar a versão dela da história. E ela não quis. Eu volto pra casa pensando em como terminar essa série, que foi prevista pra ter seis episódios. E a seguinte frase me vem à mente. Essa é a história de uma mulher que se esconde numa casa abandonada em um dos bairros mais ricos do Brasil E que esconde o passado atrás de uma camada de pomada branca no rosto E também de um nome que não é o dela Uma história que nunca tinha sido contada, mas que agora existe Não que isso vá mudar alguma coisa, mas pelo menos a história existe E a frase quase me satisfaz. Como esse final quase me satisfaz. Mas, de novo, a realidade não é um filme de Hollywood. Então, eu sento para escrever o último episódio do podcast. Mas o que eu pensei ser o fim era só um falso fim Uma hora depois que eu cheguei em casa, meu telefone toca E do outro lado da linha tá Margarida Bonetti, a mulher da casa abandonada, disposta a dar a primeira entrevista da vida dela Se você sabe ou desconfia que uma pessoa tem o seu trabalho explorado, denuncie. Dá para fazer uma denúncia anônima à Secretaria Especial da Previdência e do Trabalho em um site. É um formulário simples. Só precisa do endereço da ocorrência e de um relato breve do que está acontecendo. Assim, fiscais podem ir até o lugar e avaliar a situação. O site para fazer a denúncia, que pode ser anônima, é ipe.sit.trabalho.gov.br. Eu vou repetir, ipe.sit.trabalho.gov.br. O link também está no texto de descrição desse episódio. No próximo episódio de A Mulher da Casa Abandonada... Alô? Alô, Margarida?
Ah, esse número, né?
Isso.
Tá, o caso é o seguinte. Você me desculpa, em primeiro lugar, porque como eu estava vestida com roupa mais quentinha e estava começando a fazer calor, eu fui trocar e tudo para ficar mais confortável, que ali onde a gente estava conversando bate sol, entendeu? E você, então, me desculpe. Ela demora. É só pra poder ficar mais confortável um pouquinho pra conversar com você.
Não, sem problema. A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha. Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador. A produção desse episódio é de Beatriz Trevisan, que também me acompanhou nas tentativas de entrevista com Margarida Bonetti. A edição de som é de Luan Alencar. A coordenação de A Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores. O próximo episódio do podcast chega na quarta que vem. Nesse meio tempo, eu posso pedir que você assine A Mulher da Casa Abandonada no seu tocador e dê uma nota pra série? Muito obrigado e até breve.



