29 Jun 2022 · 46 min
Neste quarto episódio da série investigativa "A Mulher da Casa Abandonada", o apresentador Chico Felitti narra a história de abuso e trabalho análogo à escravidão praticados pelo casal brasileiro René e Margarida Bonetti nos Estados Unidos entre o final dos anos 1970 e 2000. O relato inclui a descoberta da situação pela vizinha Vicky Schneider, a investigação do FBI, o julgamento em Maryland, a condenação de René Bonetti a seis anos e meio de prisão e multa, e a fuga de Margarida para o Brasil. O episódio também aborda as tentativas do governo brasileiro de revogar a nacionalidade de René, sua posterior carreira como diretor de carga útil na Northrop Grumman, e a reação do Congresso americano que, inspirado no caso, aprovou mudanças legislativas para proteger trabalhadores migrantes. Felitti visita a empresa de René, tenta localizar seu endereço, e entrevista Vicky sobre o destino da vítima, que recebeu um passaporte humanitário, pensão e apoio de amigos. O programa encerra com uma reflexão sobre a persistência da escravidão moderna, especialmente no trabalho doméstico, destacando dados do IPEA sobre a vulnerabilidade de mulheres negras de baixa renda no Brasil.
Chapters
Eu estou no saguão de uma empresa de tecnologia na cidade de Dulles, no estado americano da Virgínia. O piso desse prédio térreo é uma imitação de granito. A recepção é despida de móveis, a não ser por dois foguetes de quase dois metros que ficam encostados numa parede do lado da recepção. Sim, foguetes, como os que são enviados para o espaço. Ou maquetes de foguetes, no caso. Eu não deveria estar aqui. Tem uma placa na parede avisando em inglês e em espanhol que o lugar é uma área de segurança nacional, onde é proibido gravar, fotografar e até mesmo entrar, se você for uma pessoa avulsa que nem eu. Mas eu cruzo o saguão e vou até a bancada da recepcionista.
Oi!
Olá! Estou procurando por o Sr. René Bonelli.
Você está visitando?
Sim, mas ele não está me esperando. Eu digo para a recepcionista que estou ali para ver René Bonetti, que talvez seja funcionário. Ela pergunta se ele está me esperando. E eu sou sincero, digo que não. Mas não digo que estou lá para descobrir se o ex-marido de Margarida Bonetti de fato trabalha lá. Se depois de ser condenado por submeter uma pessoa a trabalho análogo à escravidão e ter ficado preso, ele voltou a ter um cargo de chefia numa empresa de renome. Ela só me olha com cara de dúvida. Então, saco o telefone. Eu sou Chico Felitti e esse é o quarto episódio de A Mulher da Casa Abandonada, a investigação da história de um casal de brasileiros que levou uma empregada doméstica para os Estados Unidos no fim da década de 70. Quase 20 anos depois, uma vizinha descobriu que essa empregada era submetida a agressões e a trabalho análogo à escravidão. O engenheiro René Bonet foi acusado desses crimes pela justiça americana no começo dos anos 2000 Enquanto isso, a suspeita Margarida Bonet fugiu dos Estados Unidos e se mudou para uma mansão decadente em São Paulo, onde mora até hoje E não há registro de onde esteja a vítima
Quarto
episódio Uma mulher e um homem livres Voltamos à casa de Vic Schneider, em Gatesburg, no estado de Maryland. A vizinha que se aproximou da empregada dos bonete e a ajudou a procurar justiça. No começo do ano 2000, René e Margarida foram oficialmente acusados. Eram três as acusações. A primeira, de ter mantido uma empregada doméstica em regime análogo à escravidão por quase duas décadas. A segunda é que René teria conspirado com Margarida para manter uma imigrante legal no país Afinal, o visto de trabalho da empregada passou quase 15 anos vencido A terceira acusação era de tê-la submetido a maus tratos e colocado a vida dela em risco Foi no começo do ano 2000 que o caso veio a público, por mais que o FBI tivesse passado os dois anos anteriores investigando e por mais que a ex-empregada já tivesse vivendo escondida em uma igreja. A vizinha Vicky teve de seguir a vida por esses dois anos como se não fosse ela a pessoa que fez a denúncia. Algumas vezes por mês, ela cruzava com René, mas conforme o tempo ia passando, cada vez mais os vizinhos brasileiros tinham certeza de que ela estava envolvida na denúncia. Até que um dia, no estacionamento da igreja, René deu uma prensa nela. E Vicky disse a verdade.
Eu estava no meu carro e ele
passou e disse, ô Vicky, como vai? E eu disse, estou bem. Ele perguntou, você tem visto a empregada? E eu disse que sim. Você pode dizer pra ela que eu mandei um oi? Dá pra imaginar isso?
Vicky vivia com a pressão de ser a única pessoa, além do FBI, a saber onde estava escondida a mulher que por anos morou na casa dos Bonetti. E também vivia com outra espada imaginária sobre a cabeça dela. A possibilidade da empregada não querer denunciar os antigos patrões.
Por exemplo, no período que ela passou no hospital, tudo que o FBI sabia vinha do que eu contava a partir do que ela tinha me contado, certo? Mas o FBI queria ouvir dela diretamente, para conseguir estruturar um caso e levar para a justiça. Então, ela ainda estava internada quando eu disse, eles vão vir te entrevistar e você vai dizer a verdade. Tudo que você me contou, que eles
te batiam, tudo, Mesmo já tendo saído da Casa dos Bonete há meses, a empregada brasileira ainda tinha medo de falar Em várias conversas, ela dizia à Vicky que não seria capaz de prestar depoimento
Você vê como uma pessoa numa situação dessas passa por uma lavagem cerebral? Então, ela tinha tanto medo. É o que acontece com pessoas que são ameaçadas. Eu não sei se a mesma coisa acontece no Brasil com os empregados, sabe? Essas ameaças de, ah, se você se queixar, nós vamos fazer tal e tal coisa com você. E a pessoa fica tão assustada que não quer abrir a boca.
Por mais que tivesse conseguido ajudar a amiga a fugir da casa onde era abusada, não era garantido que elas iam conseguir mover uma ação na justiça. Vicky, então, passava boa parte das visitas à brasileira tentando persuadi-la a falar com a polícia federal americana.
Eu disse pra ela, você vai ter que contar. E ela respondeu, Senhora Vick, Dona Vick, mas eu... eu já estou bem. As pessoas daqui querem cuidar de mim. Eu não quero que ele vá para a cadeia. E eu falei, se você não contar para eles, tudo que eu tiver dito até aqui vai ter sido uma mentira. O motivo de você estar aqui, tudo terá sido mentira. Eles não vão acreditar em mim. Eles querem acreditar no que você disser.
Em alguns momentos, a brasileira parecia querer prestar queixo. Depois, voltava atrás e ficava hesitante. E a situação do possível processo era esse pêndulo de vai, não vai. Até que agentes do FBI avisaram que não tinham todo o tempo do mundo, que precisariam de uma comprovação da suposta vítima para apresentar o caso à promotoria e a investigação virar um processo jurídico.
Ela dizia. Eu não sei. Eu não sei. Então eu disse a ela. Amanhã eles vão vir aqui, ok? Amanhã de manhã. E é melhor você falar.
O FBI visitou a empregada no hospital sem que Vicky tivesse presente. A vizinha ficou aflita, sem saber se ela contaria o que tinha vivido nos últimos 20 anos. Ou se optaria pelo silêncio. Depois que os agentes saíram do hospital, Vicky foi até lá. E ela teve uma surpresa.
Ela estava sorrindo de orelha a orelha e disse, Dona Vicky, eu falei. E eu respondi, você falou? Que ótimo! Ai, minha querida. E ela disse, mas você não sabe o que aconteceu. E eu perguntei, o quê? Ela falou, ontem, depois que você foi embora, chegou uma freira do grupo da Madre Teresa para me ver, preta como eu. Também lá do Brasil. E ela me disse, eu já estive na sua situação. Eu também fui empregada no Brasil, mas meus patrões não me batiam. Meus patrões eram gente boa e eles me incentivaram a virar freira. Você deve fazer o que a dona Vicky te aconselhou, porque não cabe a você, cabe a Deus fazer a justiça. Nem a você, nem a dona Vicky. E isso fez ela mudar de ideia.
O primeiro depoimento da brasileira foi o suficiente para os agentes do FBI levarem a investigação adiante. Semanas depois, a empregada se sentaria de novo com o FBI e com o Ministério Público americano. E resumiria 20 anos da vida dela em um depoimento que alguém escreveria em inglês com a ajuda de um tradutor. Ela contou tudo. Da geladeira trancada, dos murros e das sapatadas na cara, dos puxões que arrancavam mechas de cabelo e deixavam o couro cabeludo minando sangue. Do tumor que crescia enquanto ela implorava por ajuda. No dia seguinte, ela recebeu o depoimento. Como não sabia ler, nem falar inglês, ela mostrou o documento pra Vic e pra advogada que elas tinham contratado.
Daí, no dia seguinte ao depoimento, eles entregaram para ela um papel. E eu li e perguntei, foi isso mesmo que você falou? E ela disse, sim. Você tem certeza que falou tudo isso mesmo? E ela repetiu, sim. Então vamos mandar esse documento para a juíza.
Era um passo importante, porque sem o depoimento da vítima, o caso dificilmente iria pra frente. Afinal, os advogados contratados por Renée e Margarida Bonetti afirmavam que a história de exploração e de violências era uma grande mentira. Diziam que a empregada havia sido influenciada por amigas que queriam ajudá-la a dar um golpe na família.
Então foi assim que... foi assim que aconteceu. Foi muito interessante, muito, quer dizer, quando eu olho para trás hoje e vejo o que aconteceu, às vezes consigo até dar risada, mas naquele momento eu tremia de medo, porque eu não sabia o que ia acontecer.
O julgamento foi marcado para fevereiro de 2000. O caso iria para o tribunal do júri, ou seja, 12 cidadãos escolhidos ao acaso iam decidir se aquela pessoa tinha sido escravizada e agredida ou não pelos bonete, depois de ouvir as testemunhas e o relatório da investigação do FBI. Um rápido parêntese aqui. No Brasil, o Tribunal do Júri, o júri popular, só é convocado para crimes bem específicos, tipo homicídio e infanticídio. Mas em Maryland, o estado em que os Bonetti moravam, o Tribunal do Júri é bem mais comum. Até caso de roubo pode acabar nesse tipo de julgamento. E essa denúncia acabou em uma decisão pública. No começo de 2000, o julgamento foi anunciado. Era a primeira vez que a informação dessa investigação sigilosa vinha a público. Foi nesse momento que o mundo soube de um casal rico brasileiro acusado de manter uma pessoa em situação análoga à escravidão no coração da maior democracia do mundo, em pleno século XXI. A notícia pipocou em todos os grandes veículos brasileiros. A Folha, inclusive, mandou uma repórter para cobrir o julgamento pessoalmente. Durante o julgamento, René Bonetti deu uma entrevista a Malu Gaspar, então repórter da Folha, que foi cobrir o caso no tribunal de Greenbelt. O título dessa reportagem beirava um tratado de antropologia da elite brasileira. Ela era da família, diz Bonetti. A Magê Flores vai ler um trecho dessa entrevista.
René Bonetti afirma que ele e a mulher mantiveram a funcionária vivendo com eles nos Estados Unidos porque ela era considerada um membro da família e que não podia ser considerada uma empregada por trabalhar menos do que qualquer pessoa na casa. Abre aspas. Mesmo que ela fosse ineficiente, numa família você não mede isso porque é afeto, fecha aspas. Afirmou ontem enquanto esperava o resultado do julgamento. Bonetti diz que a ex-funcionária mais atrapalhava do que ajudava na casa, e acusou-a de roubar alguns objetos da família, mas sustentou que a doméstica e a mulher dele, Margarida, tinham um bom relacionamento. Como prova, mostrou um coelho de pelúcia que tinha sido dado pela empregada, a Margarida, dois meses antes dela deixar a casa do casal, ao final de 1998.
Essa era a tese da defesa. A de que o casal Bonetti, na verdade, fazia uma caridade para aquela mulher idosa, preta, brasileira e analfabeta. Que ela tinha o intelecto de uma criança de 5 anos, por mais que já marcasse 65 anos no passaporte. Segundo um dos advogados de defesa, os Bonetti só tinham levado a empregada para os Estados Unidos porque, no Brasil, ela estava jurada de morte pela esposa de um homem com quem tinham um caso. John McGuinness afirmou ainda que a doméstica era incapaz de cuidar de si própria. O advogado que defendeu René Bonetti diz que a família a manteve em casa por 20 anos por caridade. Eles também tentaram desqualificar o depoimento da vítima. Disseram que, como a empregada era analfabeta e não falava inglês, ela não entendia o que era um julgamento e, portanto, não poderia depor. Segundo os registros do processo, o advogado John McGuinness disse, se ela não entende que está depondo sob juramento, o testemunho não tem valor. De acordo com a reportagem da Folha, a juíza Deborah Chastanot ouviu a frase, sorriu olhando para a vítima e encerrou a discussão dizendo E sabe quem reforçou essa tese da defesa? Uma testemunha que foi do Brasil até Maryland só para depor, apesar da idade avançada. Maria de Lourdes, a mãe de Margarida, pegou um avião e foi ser testemunha de defesa aos 85 anos de idade. Dizer que a mulher um dia foi empregada dela, mas que foi para os Estados Unidos com o casal Bonetti no fim da década de 70 como uma amiga, não como uma funcionária. Maria de Lourdes também afirmou que o gênero René era um homem respeitado na sociedade paulistana, de reputação ilibada. Disse que ele jamais cometeria um crime, mas não falou uma palavra sobre onde estava a filha, foragida. Note que a mãe morava com Margarida na casa abandonada há quase dois anos, quando foi ser testemunha da defesa. E essa visita de Maria de Lourdes teve um desfecho que fica entre o inusitado e o surreal. A gente vai falar dele mais pra frente, no sexto episódio. Por enquanto, a gente precisa voltar pro processo, que do lado da acusação, tinha quatro testemunhas. Além do depoimento da empregada, Um outro depoimento de peso foi o de Vick Schneider, a única vizinha que foi a público dizer sob juramento que sabia das coisas que aconteciam na casa dos Bonetti, que a empregada narrou a violência e as condições precárias de trabalho muito antes de decidir sair de casa, que ela passava fome no país mais rico do mundo. Vick teve de depor duas vezes. Como era testemunha, não podia ir às outras audiências. O marido ia no lugar dela. Mas dentro da casa deles subia um muro de silêncio. Ele não contava o que ouvia nas audiências, porque a justiça determinou que ela não poderia ser influenciada pelos outros depoimentos que seriam dados na corte. Tá, aqui pode parecer que o julgamento foi uma guerra de narrativas. Uma disputa de versões. A empregada e uma vizinha amiga contra os dois patrões e as famílias tradicionais deles no país de onde eles vieram. E poderia ter sido isso mesmo, não fosse por uma trilha de evidências que o FBI levantou. O passaporte da empregada, com visto que tinha vencido em 1984 e que jamais tinha sido renovado. As correntes e cadeados trancando armários e a geladeira da casa. O quarto da funcionária, que na verdade era um canto de papelão do porão. E acima de tudo, havia provas físicas do que realmente tinha acontecido no número 10.600 da Seneca Ridge Drive. A cicatriz de uma ferida na perna que levou meses para ser tratada, e os tumores que cresceram por anos sem que a empregada fosse levada ao médico. O crime tinha deixado um rastro na casa, e na pessoa que foi escravizada dentro daquela casa, o que fez o julgamento ser relativamente curto. O júri levou três dias para chegar a um consenso. E a tese da defesa não se sustentou. Em 10 de fevereiro de 2000, saiu o resultado, noticiado pela Folha.
O engenheiro eletrônico brasileiro René Bonetti foi considerado culpado pela corte de Greenbelt, nos arredores de Washington, de ter mantido sua empregada doméstica como escrava por 20 anos nos Estados Unidos. Bonetti também era acusado de ter conspirado com a mulher Margarida para manter a doméstica como imigrante ilegal no país e de tê-la submetido a maus tratos e colocado sua vida em risco. Os 12 jurados consideraram por unanimidade que Bonetti é culpado de todas as acusações, mas a sentença só será expedida pela juíza em 15 de maio.
A pena, na verdade, só ia ser anunciada em agosto de 2000, seis meses depois da condenação. Nos Estados Unidos, é comum ter essa distância entre uma condenação e o cálculo da pena. É o tempo que um juiz ou uma juíza precisa para fazer uma equação, estudar as leis, entender a pena que se aplica a cada crime, somar agravantes e subtrair atenuantes. É só então que passa a régua e sentencia uma pena à pessoa condenada. Mas a juíza Deborah Chastanel tomou uma cautela extra nesse caso. Considerou que as chances de René fugir para o Brasil eram grandes demais, então ele deveria esperar a sentença preso. Quando saiu do tribunal em fevereiro, ele já estava algemado. A prisão preventiva era justificada por René manter laços suficientemente próximos com outro país. Além de Margarida já ter fugido, tinha um outro indício de que René pudesse ter planos de deixar os Estados Unidos antes de que a pena dele fosse determinada, e ele começasse a cumpri-la. A revista Veja publicou uma nota que revelava um plano de setores do governo brasileiro para resgatar um homem condenado por submeter uma pessoa à escravidão.
O Ministério da Justiça estuda a revogação da perda da nacionalidade brasileira do engenheiro paulistano René Bonetti, de 51 anos, acusado de ter escravizado sua empregada nos Estados Unidos.
Segundo a Veja, o Ministério da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso cogitava alocar René em um cargo da chefia do Sistema de Vigilância da Amazônia, um projeto de defesa do espaço aéreo da região.
Segundo o ministério, a revogação só depende da assinatura do ministro, que seria possível porque ele, René, não tinha antecedentes criminais.
Só que o ministério nunca assinou a revogação. Ou seja, René não voltou a ser brasileiro. E como cidadão americano, ele teve de responder aos crimes que cometeu nos Estados Unidos. Mas fica o registro de que o Estado brasileiro cogitou tirar René das mãos da justiça americana. A nota da Veja ainda dizia que Margarida poderia ser julgada em breve.
Margarida Bonetti foi para o Brasil no ano passado e está foragida da justiça norte-americana. Há uma ordem de prisão contra ela, mas o Brasil não expatria seus cidadãos. Seu processo ainda não foi a julgamento, mas ela poderá ser julgada à revelia.
Logo mais, nós vamos conversar com advogados para entender como a Margarida conseguiu fugir da justiça de dois países. Por enquanto, basta saber que essa fuga deu certo no primeiro momento. René já tinha se naturalizado americano, ou seja, tinha deixado de ser cidadão brasileiro. Já Margarida tinha preferido ficar com o passaporte brasileiro e se mudar para os Estados Unidos com visto de trabalho. Ou seja, ela ainda era cidadã brasileira. Ele não era mais. não tinha para onde fugir ou poderia ser deportado de volta para os Estados Unidos. Por isso, ficou. Foi julgado e condenado. Em 2000, Rene Bonetti foi para a cadeia, e a mulher dele continuou vivendo na casa abandonada. Enquanto isso, instituições brasileiras faziam um esforço para mostrar que estavam agindo. O Senado emitiu uma nota em que afirmava estar observando atentamente os desdobramentos do caso e que tinha destacado uma comissão para analisar tudo. Foi uma nota só, depois parece que essa tensão se dissipou. A embaixada brasileira em Washington só se manifestou publicamente um dia depois da condenação. Com essa nota aqui.
Nota à imprensa. A embaixada do Brasil em Washington tem acompanhado com grande interesse o processo movido pelo governo norte-americano contra o casal René e Margarida Bonetti. Ele, naturalizado norte-americano. Ela, brasileira. Eles são acusados de ter mantido a cidadã brasileira, sua empregada doméstica, trabalhando sem receber remuneração salarial e de forma ilegal neste país. Ao lamentar profundamente essa situação envolvendo nacionais brasileiros residentes neste país, diante da sentença proferida na tarde de ontem, cumpre-me salientar que as condições de trabalho e o tratamento alegadamente dispensado à vítima constituem exceções à realidade brasileira e contrariam as leis trabalhistas nacionais." Washington, 11 de fevereiro de 2000, Embaixada do Brasil.
Seis meses depois, em agosto, sairia a pena de René Bonet.
Seis anos e cinco meses de prisão sem direito à liberdade condicional. Essa é a sentença da justiça americana para o brasileiro que escravizou a empregada doméstica nos Estados Unidos. O engenheiro René Bonet vai ter ainda que pagar uma indenização à vítima. René Bonet respondeu ao processo sozinho porque a mulher dele fugiu para o Brasil.
Seis anos e meio de reclusão. Era quase a pena máxima prevista pela lei americana. E ela adicionou nessa equação uma pena por perjúrio, ou seja, por ele ter mentido no tribunal. Segundo a juíza, ele mentiu quando disse que não sabia que a empregada estava ilegalmente nos Estados Unidos depois que o visto dela venceu, no meio da década de 80. E também considerou perjúrio René afirmar que não sabia que Margarida batia e agredia a mulher, sendo que ele morava na mesma casa que elas. Depois que a sentença foi proferida, Paul Kemp, um segundo advogado que defendia René Bonetti, pediu clemência ao tribunal. Kemp afirmou que a culpa era toda de Margarida, que René não sabia dos abusos, nem que a empregada jamais havia recebido o salário, porque ele trabalhava e porque essas tarefas são todas da mulher do lar. Ainda de acordo com a nova argumentação da defesa, o salário da empregada era depositado em uma conta corrente no Brasil. Uma conta corrente que nunca foi comprovada, diga-se de passagem. O advogado terminou dizendo à juíza Chassano, a vida do meu cliente vai ser arruinada. Ele tem um PHD, e a vida dele vai ser arruinada. A clemência foi negada. Mas esse não foi o fim. Os advogados de René Bonetti recorreram da decisão, e o caso subiu para um tribunal distrital. O pedido era de revisão de todas as condenações, e os argumentos eram parecidos. A mulher não era uma empregada da família, e sim uma amiga a quem a família ajudava. René não sabia que Margarida agredia a vítima e era um homem importante demais para ter a vida destruída O Tribunal Distrital confirmou todas as condenações Todas não. A única mudança na sentença foi a favor da empregada. No novo julgamento, ela ganhou direito ao pagamento retroativo de todos os salários que não recebeu durante 20 anos. A nova corte obrigou René a pagar tudo que ela tinha direito. Ele teve de pagar 110 mil dólares de salários atrasados para a ex-empregada, o que na época não chegava a 200 mil reais. E René foi condenado de vez, transferido para uma prisão federal, e lá ficou por anos. Se René começou a cumprir pena em 2000, ele ficaria preso no máximo até 2007. Ou seja, já faz uma década e meia que ele está livre. Mas não há registro dele depois da condenação. Pelo menos, não na internet. Nada de notícia, nenhum perfil em redes sociais, nada. O que não quer dizer que ele tenha sumido. Só é indício de que ele não tem vida online. Mas em 2022, é impossível apagar todos os registros digitais de uma vida. Então, eu investigo pistas de onde ele possa estar. Visito cartórios e encontro três imóveis que já estiveram registrados no nome dele. Um é a casa onde o crime aconteceu, e eu sei que ele não mora mais lá. Conversei com uma das novas moradoras, e ela não quis dar entrevista, mas garantiu que desconhecia o crime que aconteceu dentro daquela casa. O segundo endereço de René também fica em Gatesburg, mas em outra vizinhança. É uma casa menor, e ela tá desocupada. Então, eu vou pro terceiro possível endereço dele. Esse fica em outra cidade, em outro estado. Haston fica na Virgínia, a quase 40 quilômetros de Washington. Então, eu vou até a capital dos Estados Unidos, e lá eu pego o metrô. E eu ando de metrô. E eu ando mais um pouco de metrô. e um pouco mais ainda Eu fico no trem até a última estação da linha prateada do metrô de Washington De lá, eu pego um carro de aplicativo e rodo meia hora Aí eu chego no último endereço de Rene Bonet. É uma outra vizinhança que parece ter sido feita em um laboratório de clonagem. São prédios e mais prédios de madeira escura com dois andares. Prédios idênticos serpenteando pra cima e pra baixo em quarteirões cheios de árvores que tem como vista uma pista de golfe. Eu tenho o endereço e o GPS do celular diz que eu cheguei ao meu destino. Mas eu não consigo distinguir o prédio certo. Depois de meia hora, eu tenho de pedir ajuda pra um carteiro que tá com um caminhão de entregas estacionado. Até o carteiro diz que não conhece o endereço exato, mas me aponta uma direção Daí, na ponta de um dos prédios mais distantes desse conjunto habitacional de luxo, eu encontro o prédio E subo as escadas Um site imobiliário estima que o apartamento de dois quartos custa quase 290 mil dólares, ou um milhão e meio de reais. Mas também registra que René pagou menos, 230 mil dólares, quando comprou o imóvel em 2013. Eu respiro fundo e bato na porta. Uma voz feminina responde, pede só um segundinho para abrir. Eu espero, com o gravador ligado na mão e meu coração dando coices no peito. Uma mulher jovem e bonita, com os cabelos castanhos escorridos nos ombros, abre a porta. A porta entra aberta, deixa eu ver um bebê engatinhando pelo carpete branco da sala. Estou procurando por o Sr. Rene Bonetti.
Não, não.
Não, não.
Não, não.
Não, não. Ela diz de imediato. Não. Rene Bonetti não mora mais aqui.
Alguém mais mora nesta casa, sim.
Desculpe.
Pena.
Esta era a última adressa que eu tinha.
Eu tenho certeza que uma pesquisa do Google pode nos enganar.
Ok, obrigada. Tenha um bom dia. Desculpe perdoá-lo. Eu peço desculpa pelo incômodo, e ela tenta me ajudar. Sugere que eu tente buscar o homem que eu procuro no Google, porque no Google eu certamente vou encontrar. Eu rio por dentro dessa ironia, me desculpo mais uma vez, viro as costas e desço as escadas. Quando eu já tô no estacionamento dos prédios baixos, um homem coloca a cabeça pra fora da janela. É o vizinho de baixo do apartamento que já foi de René. Ele faz um sinal pra que eu me aproxime. Então, ele diz. Você sabe onde ele trabalha, não sabe? Eu acho que o homem ouviu minha conversa com a vizinha de cima. E respondo que não. Eu não sei onde Bonetti trabalha. Esse homem não permite que eu grave nossa conversa, mas me explica por onde anda René. Ele é um dos diretores da Northrop. É o emprego dele. Eu abro o celular e descubro que a Northrop Grumman Innovation Systems é uma empresa de tecnologia 20 quilômetros dali, numa cidade vizinha Eu peço um carro de aplicativo e vou direto pra sede da empresa, que no mapa parece ser maior do que a cidade de Stirling, onde ela fica O carro me deixa em um complexo de prédios baixos e colados à rodovia Há uma cancela fechando cada uma das ruas particulares Menos um. Um prédio maior que fica no meio dos outros. E que tem cara de ser a portaria. Eu desço e entro no que penso ser a recepção.
Oi!
Olá! Estou procurando por o Sr. Rene Bonelli.
Você está visitando?
Sim, mas ele não está me esperando. É o trecho que abre esse episódio. A recepcionista pergunta se René Bonet está esperando a minha visita. E eu, que não posso mentir, digo que não. Que ele não está me esperando. Que minha visita é uma surpresa. A mulher pergunta, se ele não está te esperando, por que você não entra em contato antes? Eu explico o que é um assunto pessoal. Digo que sou brasileiro e que o procuro para falar da família dele, nada a ver com foguete e com satélite A mulher começa a digitar enquanto olha para a tela do computador Ela diz que não encontra no sistema ninguém com o nome René Bonetti Eu sou letro de novo N-E-T-T-I. Bonetti. Dessa vez, ela parece achar um funcionário com esse nome. Liga direto para um ramal e deixa o telefone no viva-voz.
A ligação
toca até cair na caixa postal. Pelo menos, a visita serviu para confirmar. René Bonetti trabalha lá mesmo. Ela diz que não pode gravar um recado para a René Bonet, porque a caixa postal dele está lotada, e que não pode me passar o número de telefone dele. Ela me mostra na tela o nome dele, ao lado do cargo Payload Director. Então, eu sou convidado a sair da empresa. O segurança vem me acompanhar até o estacionamento, que é cheio de BMWs, Volvos e Mercedes. Durante esse tempo todo, o gravador estava ligado na minha mão, escondido atrás do celular. Se eu fosse flagrado gravando ali, com certeza seria expulso. Mas poderia acontecer uma coisa pior. Antes de sair do prédio, eu tinha visto na parede uma placa avisando que a empresa é uma área de segurança nacional, porque presta serviços para a NASA. Quando eu volto pro hotel, eu vou pesquisar o que é um Payload Director. Descubro que o título em português é Diretor de Carga Útil. O cargo, no jargão, é pro engenheiro que cuida das informações mais essenciais que são transmitidas a um foguete ou a um satélite. Tem um site na internet que chama Glassdoor, onde as pessoas contam anonimamente o quanto ganham, para que os colegas e as colegas possam ter uma noção de se tal empresa paga bem ou paga mal. Eu encontro o cargo de diretor de carga útil na mesma empresa onde Bonetti trabalha. Segundo esse site, o salário de alguém com um cargo como o dele é de 220 mil dólares por ano, ou seja, mais de um milhão de reais. Isso sem contar os bônus. E eu descolo o e-mail de René Bonetti, mando uma mensagem pra ele me apresentando e avisando que tô fazendo uma série pra Folha de São Paulo sobre a ex-mulher dele e sobre o crime pelo qual ele foi condenado. Convido pra que ele dê a versão dele de tudo o que aconteceu, pra que essa história contemple todos os lados. Mas ele não me responde. Mando também uma mensagem pros advogados que o defenderam na época. Tampouco recebo resposta. Então é isso que sabemos sobre René Bonet. Ele foi condenado, cumpriu pena e hoje em dia tem um cargo executivo em uma empresa respeitada nos Estados Unidos. Ganha muito dinheiro. E eu entendo que esse desfecho possa causar insatisfação ou até uma pontada de revolta. Mas é preciso frisar que ele pagou pelo crime. A justiça fez o que a justiça se propõe a fazer. O Departamento de Justiça americano afirma em um documento que um cidadão é preso com quatro intuitos. Primeiro, retribuição, ou seja, punir a pessoa por fazer algo errado. Segundo, reabilitação. Corrigir um comportamento problemático. Terceiro, segurança. Manter ameaças fora da comunidade. E quarto, dissuação. Garantir que o criminoso e outras pessoas tenham medo de infringir a lei no futuro. Para a justiça americana, René Bonet cumpriu todos esses requisitos. Mas isso não impede de ficar com perguntas na cabeça. Será que o desfecho teria sido igual para uma pessoa que não tivesse um PHD? Um criminoso que não fosse branco, como é René? Um ex-presidiário que não fizesse parte da elite cultural e financeira de um país? São perguntas para as quais eu não tenho resposta. De volta à casa de Vic Schneider, ela conta como foi o dia em que a sentença foi anunciada. Ela saiu para jantar com a família. Todos comemoraram com um drink, menos ela, que não bebe. Quando chegou em casa, tinha um recado na secretária eletrônica. Era da empregada brasileira que ela ajudou a libertar, depois de anos de abuso.
Eu não sei onde eu botei, mas
eu tinha um recado gravado numa dessas fitas cassete de 60 minutos. Mas eu não sei onde eu coloquei, não consigo pensar agora. Mas ela me agradeceu e disse alguma coisa do tipo, Dona Vicky, a senhora me resgatou. E foi tão bonito.
Vicky fica com os olhos cheios d'água quando lembra do recado. Então, eu pergunto se ela sente que a justiça foi feita nesse caso, com René cumprindo menos de sete anos de pena e com Margarida fugida, vivendo na mansão da família, num dos bairros mais ricos do Brasil. Os olhos de Vicky secam e ela esboça um sorriso. Ela pega uma folha de papel no meio do calhamaço de documentos que tinha preparado para o nosso encontro. E ela me estende o papel, que é o xerox de uma notícia do jornal Washington Post.
O Congresso agiu em relação ao abuso de trabalhadores estrangeiros. E por causa desse caso, eles até chamaram ela até o Congresso. Você sabia?
Ela, no caso, é empregada brasileira que foi escravizada nos Estados Unidos por quase 20 anos. Eu não sabia. E eu leio a notícia.
Um grupo de congressistas dos dois maiores partidos americanos, o republicano e o democrata, se juntou para mudar a legislação dos Estados Unidos em relação ao trabalho escravo contemporâneo. A ação ocorre depois da constatação de que Washington tinha uma questão crescente, a exploração de serventes trazidos aos Estados Unidos por organizações como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
O grupo bipartidário fez até uma conferência para discutir o projeto de lei e convidou pessoas da sociedade civil para falar. A plateia estava repleta de mulheres que tinham sido forçadas a trabalhar em esquemas análogos à escravidão. Uma das principais mudanças da proposta de lei é que ela passaria a garantir que uma trabalhadora que denunciasse os patrões por exploração não fosse deportada dos Estados Unidos enquanto a ação corresse. O que acontecia até então é que as pessoas escravizadas fugiam de casa e, quando chegavam até a polícia, já estavam com o visto vencido Em vez de ouvir as denúncias, muitas vezes o Estado americano as colocava em um avião e as mandava de volta Uma das pessoas que falou na audiência foi Dora Morti, uma professora de 28 anos de Ghana Ela tinha ido aos Estados Unidos para trabalhar na casa de um funcionário do Banco Mundial chamado Amarquai Armar. E assim como aconteceu na casa dos Bonetti, ela trabalhava até 16 horas por dia sem ganhar um centavo. Ela disse que era constantemente humilhada por essa família e que não tinha deixado um trabalho de professor em Ghana para ir aos Estados Unidos ser tratada como um cachorro ou como uma escrava. A equatoriana Elizabeth Iguago também subiu ao púlpito para contar a história de como foi levada aos Estados Unidos para trabalhar na casa de um funcionário do FMI. Só que meses depois de chegar lá, foi vendida para um casal americano. Sim, o verbo é esse mesmo. Vendida. E sabe qual foi o caso que mobilizou os congressistas a agir? O caso de uma família brasileira de sobrenome Bonetti. A empregada brasileira assistiu à sessão da plateia. Não falou nada. E recusou qualquer tipo de reconhecimento. Mas estava lá. A lei foi aprovada em 2001. Vi que conta essa história enquanto folheia páginas e mais páginas de documentos legais.
Agora, quando um funcionário de uma organização internacional traz uma funcionária para os Estados Unidos, a empregada tem direito a plano de saúde e a férias, o que elas não tinham até então. Elas têm o dever de receber pelo trabalho delas, o que não tinham até então. Então, foi isso que saiu dessa história toda.
É um avanço na direção dos direitos humanos. Mas tem outro desfecho que me aflige desde o começo. Um desfecho mais pessoal. Onde está a terceira pessoa envolvida no processo? A pessoa que estava do outro lado da história, no banco da vítima. Desde que jornais e revistas noticiaram o caso, nunca mais se publicou uma linha sobre a empregada que foi escravizada e agredida pelos Bonetti. Essa é a pergunta que eu deixo para o fim da entrevista, depois que a gente já cobriu todo o périplo. Depois de duas horas conversando, Vi que eu fazemos um intervalo. Ela me serve um copo d'água. E eu tomo coragem para fazer a pergunta mais importante. A dúvida que me levou aos Estados Unidos. Eu pergunto se ela sabe onde está a mulher que costumava ser vizinha dela. A empregada doméstica que passou 20 anos a metros de onde estamos, sendo explorada e sofrendo violências. Do we know where she is nowadays?
Vicky
diz que sabe que o governo americano a ajudou, que ela ganhou um passaporte humanitário e que está bem Hoje em dia, ela está legalmente em território americano e ganhou uma pensão do governo
Ela está viva e está bem. Nem Covid ela pegou.
Eu fico surpreso por ela estar viva. Afinal, se eu fiz as contas certas, hoje essa pessoa está com 85 anos. Porque ela tinha 40 anos quando se mudou para os Estados Unidos e 60 e poucos quando começou o processo.
Ela está muito bem e tem muita fé. E tem um coração cheio de fé. Um coração inacreditável. Inacreditável.
Além da fé, eu pergunto se ela tem quem a auxilia a viver num país cuja língua ela não domina. E Vicky garante que sim. Ah, não.
Ela tem gente ao redor dela. Ela é muito amigável. Ela tem muitos amigos.
Tem amigos e tem uma casa. Uma casa dela, não um lugar em que ela precisa ficar de favor, se escondendo.
Ela está bem.
Ela tem apartamento próprio, subsidiado pelo governo, sabe?
Alguns desses amigos, inclusive, se uniram para criar uma previdência privada para a brasileira. O dinheiro que ela ganhou de indenização está investido, e ela tem acesso a uma parcela dele todos os meses. Assim, vai conseguir viver por décadas.
Tem
uma pessoa ajudando ela com o dinheiro. Ajudando ela a manter o dinheiro controlado e guardado. Ela recebe uma quantia por mês. Eu não sei exatamente como isso é feito. Só sei que ela recebe o dinheiro dela todo mês. Foi o que ela me disse.
As duas amigas mantêm contato, por mais que não se vejam pessoalmente.
E ela me liga todo Natal, toda Páscoa, essas coisas assim.
Aliviado, eu faço outra pergunta que só a mulher que viveu esse inferno vai saber responder. Margarida disse para pessoas no Brasil que mantinha contato com a mulher que um dia foi empregada dela. Chegou a dizer que as duas são amigas. Eu questiono o Vicky se isso é possível.
Faça-me um favor.
E eu insisto. Será que depois de anos de uma relação criminosa e doentia, não é possível que as duas mantenham contato? A Vicky não ri aqui porque ela acha essa possibilidade engraçada. Ri porque acha estapafúrdia. Um absurdo. E diz que outra pessoa também daria risada se ouvisse que a mulher da casa abandonada anda dizendo que é amiga da pessoa que maltratou por tanto tempo.
Você sabe quem teria um grande sorriso?
Sabe quem daria muita risada disso?
E eu pergunto, quem? E ela diz o nome da amiga brasileira e propõe de ligar pra ela. Pergunta se eu quero falar. Eu digo que sim, que seria um prazer. Ela vai até a cozinha e some por alguns minutos. Volta com um telefone sem fio do tamanho de um tijolo branco já no ouvido. Passa pra mim e tem alguém do outro lado da linha. Eu tô fazendo uma série sobre a Margarida, eu encontrei a Margarida em São Paulo A mulher fica em silêncio enquanto eu explico que sei onde tá a Margarida, a pessoa que lhe agrediu por anos E depois de alguns segundos, ela responde que não, que jamais voltou a falar com a Margarida Vocês ainda se falam? A senhora ainda fala com a Margarida? É mentira. As duas não são amigas. São o contrário de amigas. Ela diz que essa criminosa, que por décadas ela foi obrigada a chamar de patroa, não é boba, nem tonta. Dias depois, eu volto a falar por telefone com essa ex-empregada brasileira, perguntar se ela concorda que eu conte essa história de novo, porque essa também é a história da vida dela. Ela diz que não tem problema. Que eu também posso usar a gravação da nossa conversa por telefone. Só não quer ser achada. Nunca mais. Enquanto a gente ainda estava no telefone, na casa da Vicky, ela puxou um assunto. Aqui ficou um pouco baixo, mas ela diz que já faz muito tempo, que foi o grosso da vida dela, mas que essa vida ficou para trás. Hoje, ela não olha para esse passado. Aqui ela disse, eu não quero recordar nada. Então, ela me manda um abraço, Um grande abraço. E desliga.
No
próximo episódio de A Mulher da Casa Abandonada, você já deve ter se perguntado como é que ainda existe escravidão ou uma prima e irmã dela em 2022.
A gente tem uma história que remonta à escravidão, a ideia de que essas mulheres estão ali para servir permanentemente, quase, em alguns momentos, como uma propriedade daqueles que empregam, essas trabalhadoras.
Isso é só um sintoma de uma sociedade que foi estruturada pela escravidão, que sobrevive na forma do racismo estrutural.
Tudo que a gente sabe do trabalho doméstico é que são mulheres negras, sempre mulheres negras e de baixa renda, de famílias de baixa renda, de baixa escolaridade. É deste universo de pessoas que a gente está falando.
Dados de 2019 do IPEA mostraram que, de um total de 6 milhões de pessoas ocupadas em trabalho doméstico, 92% eram mulheres, em sua maioria negras, de baixa escolaridade e de famílias de baixa renda.
O trabalho doméstico está sentado em três grandes desigualdades da nossa sociedade que eu acho que ajudam a gente a entender. Porque ele é tão vulnerável, de forma geral ele já é uma ocupação vulnerável.
Essas três desigualdades são a racial, a de gênero e a de renda.
E aí aquelas que estão em condições análogas de escravidão vão ser um grupo ainda mais vulnerável desse grupo de mulheres, que são as mulheres negras e de baixa renda e escolaridade. São essas mulheres que fazem trabalho doméstico no Brasil ainda hoje.
A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha. Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador. Renata Carvalho faz a versão brasileira da entrevista com Vicky Schneider. A produção desse episódio é de Beatriz Trevisan, com pesquisa adicional de Andrea Leon, da Universidade de Nova York. A edição de som é do Luan Alencar. A coordenação de Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores, que também faz a leitura de documentos oficiais e reportagens sobre o caso. Esse episódio usa áudios da TV Globo. Nos encontramos na quarta que vem. Nesse meio tempo, por que você não aproveita pra seguir o podcast no seu tocador e dar uma nota pra gente? Obrigado, e até breve.



