22 Jun 2022 · 36 min
Chico Felitti investigates how a Brazilian domestic worker was exploited and abused for nearly 20 years by a wealthy couple in a Washington, D.C. suburb. Vic Schneider helped expose the case, which reveals modern slavery hidden behind the silence of affluent communities.
A casa no número 10.600 da Seneca Ridge Drive não poderia ser menos abandonada. É um imóvel retangular e que ocupa meio quarteirão. As paredes dos dois andares são de tijolos pintados de cinza, com uma varanda de madeira branca, cinco janelas em cada um dos pisos e uma caminhonete gigante parada entre a entrada e a garagem, que fica com a porta escancarada. A frente da casa é um gramado suave como um tapete, de onde sai um único pé de carvalho que beira a calçada. Essa casa é um retrato da paz, inclusive na trilha sonora O único ruído ao redor dela num dia de semana é o som de pássaros Só falta um detalhe para ser uma casa americana de filme Uma seca de madeira branca E as casas de Gettysburg não têm seca porque elas não precisam de seca. Essa cidadezinha, que fica a uma hora e meia de carro de Washington, é um dos lugares mais seguros dos Estados Unidos. Gettysburg é uma cidade tradicional. Foi palco de batalhas na Guerra de Secessão que definiu a democracia americana como ela é hoje. O principal motivo dessa guerra era a batalha ideológica entre estados do sul, que defendiam a escravização de pessoas, e estados do norte, que acreditavam que todo ser humano nasce livre Essa é a única razão pro nome dessa cidade pequena aparecer em alguns livros de história Benjamin Gaither settled on property near the intersection of.
Diamond and Frederick Avenues before 1800.
Depois disso, muito pouco aconteceu em Gatesburg. Em 2022, a cidade tem dois pontos turísticos, ambos peculiares. O primeiro é o Lake Forest Mall, um shopping center de 100 mil metros quadrados que fez sucesso nos anos 80 e nos anos 90. Mas hoje em dia, é um morto-vivo. Ele continua abrindo todos os dias, por mais que não tenha quase nenhuma loja funcionando. Então, youtubers do mundo todo viajam até a cidade só pra fazer vídeos dos corredores do shopping. Tipo esse cara que a gente ouviu, que dirigiu horas até Gettysburg só pra visitar o shopping e fazer um vídeo com clima de suspense. Alamedas e alamedas de lojas vazias. Por mais que as luzes continuem acesas. É um clima de terror capitalista. O segundo ponto turístico de lá é um dos maiores brechós da Legião da Boa Vontade do mundo. Como já deu pra desconfiar, é uma cidade bem pra cá. No dia que eu chego lá, a manchete do jornal é a denúncia de um possível desvio de verba. 500 dólares que deveriam ter ido para a reforma de uma fonte, mas talvez tenham ido para uma festa do Departamento Histórico Municipal. É uma cidade sem muita notícia. A pasmaceira já começa na aparência dos bairros mais ricos. As ruas são pintadas de verde por árvores e gramados e têm casas de dois andares, e por isso parecem um labirinto de espelho. As vias são todas parecidas, as casas são todas parecidas, os nomes são todos parecidos. Tem três ruas na mesma vizinhança com um nome praticamente igual. A Seneca Ridge Drive se encontra com a Seneca Springway, e um quaterão depois, a Seneca Ridge Court. É que tem um parque estadual ali do lado que se chama Seneca Creek Talvez até as pessoas fossem parecidas ali Mas não tem ninguém na rua quando eu ando e ando por esse bairro americano Eu tento encontrar a casa onde aconteceu um crime Até que eu encontro. Checo duas vezes no mapa do celular e tenho certeza. Foi ali, naquele gramado, que começou o resgate de uma pessoa. Uma empregada doméstica brasileira que passou quase 20 anos dentro da casa, no número 10600 da Seneca Ridge Drive, trabalhando mais de 12 horas por dia, sem ganhar um centavo por isso. Sendo ofendida, humilhada e agredida por duas pessoas que faziam parte da elite do país dela. Até que um dia, ela conseguiu fugir. Eu sou Chico Felitti, e esse é a Mulher da Casa Abandonada, um podcast da Folha que investiga a história de Margarida Bonetti, uma brasileira que fugiu dos Estados Unidos depois de ser acusada de explorar e de agredir por mais de duas décadas uma empregada doméstica que tinha levado com ela para o subúrbio de Washington. Margarida hoje mora numa mansão abandonada em um dos pedaços mais ricos de São Paulo. E a pessoa que ela explorou, ninguém sabe onde ela está. Terceiro episódio, uma rua em silêncio. Foi a esse bairro rico e pacato que um casal brasileiro chegou no fim dos anos 70. O ano era 1979 e René Bonetti tinha recebido um convite de prestígio. René, engenheiro da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, era considerado um prodígio pelos colegas do Departamento de Engenharia Elétrica. Até que decidiu romper com a universidade e dizer sim para uma proposta da Intelsat, uma das maiores empresas de satélites espaciais do mundo. A vaga de emprego era nos Estados Unidos e vinha com casa e passagens, tanto para o casal quanto para um funcionário que eles quisessem levar para o país. René e Margarida não tinham nem 30 anos de idade na época. Até pouco tempo antes de se casar e de em seguida se mudar para os Estados Unidos, ela ainda morava com os pais na casa em Higienópolis, que hoje eu chamo de casa abandonada. A mansão que leva o nome do pai dela. Quando os dois anunciaram que estavam de partida para o subúrbio de Washington, os pais de Margarida insistiram que eles levassem uma empregada doméstica que trabalhava na casa desde que era adolescente. Um empregado analfabeta, que nunca teve a oportunidade de ir à escola Uma amiga da família me disse que a empregada foi um presente de mudança Como se fosse possível dar uma pessoa de presente à outra Não era só possível, como foi o que aconteceu Essa era a mesma empregada para quem eles pararam de pagar o salário assim que ela entrou na casa americana. Essa história eu já saí do Brasil sabendo. Eu vim para os Estados Unidos na missão de descobrir detalhes. E o paradeiro do ex-marido e da ex-vítima de Margarida. Então, eu me boto a andar pelo bairro onde o crime foi descoberto, 20 anos atrás. Eu passo mais de 12 horas batendo bota Paro as poucas pessoas que encontro na rua, sempre caminhando com os cachorros E pergunto se eles se lembram da história que aconteceu ali, na rua em que eles moram E a mesma cena se repete Eu começo pedindo desculpa pelo incômodo, o vizinho diz que nunca ouviu falar de um crime ali perto, eu me desculpo de novo e a gente se deseja um bom dia e eu saio andando. Nada. Daí eu começo a bater nas portas das casas com luzes acesas quando a tarde cai. A maioria não me atende. Os poucos que atendem dizem nunca ter ouvido falar de um crime que aconteceu a passos de casa e que ganhou destaque nos principais jornais e revistas dos Estados Unidos. Um dos vizinhos diz que até acha que ouviu falar do caso, só que me aponta para outra das ruas com o nome Sêneca, ali do lado. Eu termino meu dia com uma dúzia de pessoas dizendo quase a mesma coisa. Crime? De exploração de uma pessoa? Aqui? Eu nunca ouvi falar. Então, eu parto do bairro rico pro hotel que eu reservei pra essa investigação. Uma biboca na beira de uma rodovia, atrás de um poço de gasolina. Eu chego com as mãos vazias, mas o peito cheio de angústia. No meu segundo dia na cidade, eu pego um carro até a comunidade Mother of God, um grupo católico que administra uma escola e toca uma igreja. Segundo reportagens da época, é a mesma igreja que a Margarida e o marido dela, René, frequentavam. Uma atendente da secretaria diz que a igreja não vai se pronunciar sobre o caso e pede que eu saia. Frustrado por essa parede de silêncio que a cidade construiu ao redor do caso, eu decido ir para o município vizinho, tentar achar o registro mais formal que existe desse caso. Eu visito o fórum da região, que fica na cidade de Greenbelt. Uma mulher sorridente abre um segundo sorriso quando eu digo a ela que estou ali para investigar um crime que aconteceu 22 anos atrás. Eu nem terminei de explicar qual é o caso que eu estou procurando, e ela me interrompe com... Aham. Em menos de cinco minutos, ela faz algo que não era sua obrigação. Ela me manda no e-mail um arquivo com quase 300 páginas. É o grosso do processo que tinha como réu René Bonet. E é só então que eu tenho certeza. Eu tô mesmo no lugar certo. E, de fato, ocorreu ali um crime que deveria ter entrado pra história da cidade. Só que não entrou. Eu volto pro hotel e abro o arquivo de texto. Um dos primeiros parágrafos é o resumo dessa ação.
Todos os dias, a vítima começava a trabalhar entre 6 e 7 da manhã, e seguia até 10 da noite, e ainda tinha que ficar de plantão caso os Bonetti quisessem alguma coisa durante a madrugada, muitas vezes até 1 da manhã.
Toda vez que você ouvia a voz da Magê Flores, que já conhece do podcast Café da Manhã, é porque tá ouvindo o conteúdo de um documento oficial. Uma transcrição de depoimento prestado ao FBI, um trecho de processo, uma fonte segura.
Durante quase 19 anos, a vítima trabalhou para os Bonetti em condições análogas à escravidão. A vítima trabalhava diariamente, sem nunca ter recebido pagamento pelo trabalho. Além de viver em condições deploráveis, a vítima foi agredida pela mulher de René Bonetti em incontáveis ocasiões.
O processo trata a Margarida como a mulher de René Bonetti. Ou a mulher do Sr. Bonetti. E aí não é uma questão de machismo. É porque ele era o único réu presente no julgamento. Então todos os fatos têm de ser ligados a ele, de alguma forma. Ela não chegou nem aí pro tribunal. E a gente vai descobrir o porquê bem em breve.
Uma vez por semana, a vítima lavava as janelas da casa, do lado de dentro e do lado de fora. A vítima também tinha que realizar trabalhos na parte de fora da casa, como tirar a neve da entrada, recolher folhas, passear com o cachorro do casal e lavar os três carros da casa. Quando os Bonetti precisaram instalar um novo duto de gás para casa, a vítima teve de passar quatro dias abrindo uma fossa no jardim com uma picareta.
A lista dos trabalhos da empregada doméstica é muito mais longa que isso. Ela tinha de levar o filho do casal na escola, lavar, passar e costurar roupas. Inserava o chão. Há uma passagem em que ela teve de ajudar a cimentar a calçada da casa. Se a lista de deveres consumia páginas e páginas, a de direitos não tinha nenhuma linha.
Por mais que a casa dos Bonetti fosse avaliada em 250 mil dólares e tivesse ao menos três quartos vazios no andar de cima, a vítima era obrigada a dormir no porão, um lugar sem janelas nem banheiro. Os Bonetti proibiam a vítima de usar o chuveiro. Ela tinha que carregar água em baldes, que depositava em uma banheira de metal que ficava no porão. Bonetti também colocou um cadeado na porta da geladeira para evitar que a vítima a usasse.
O processo não repete tantas vezes a palavra vítima. Fui eu quem substituí todas as menções ao nome completo dessa pessoa pelo mesmo termo. Na época, o nome e o sobrenome completos dela foram publicados em quase todas as reportagens que saíram sobre o assunto, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Mas nessa série, a gente não vai usar o nome dessa pessoa, porque ela não cometeu crime nenhum e por isso não é obrigada a ter sua existência ligada a essa história de dor e de exploração, porque ela tem o direito de seguir adiante.
Desde o momento em que a vítima chegou aos Estados Unidos, a esposa de Bonetti abusou dela fisicamente, às vezes com frequência diária. No primeiro momento, Margarida Bonetti batia na vítima com o punho fechado, mas depois passou a bater na vítima com um sapato. As violências eram tão frequentes que a vítima é incapaz de se lembrar quando começaram. Em uma ocasião, quando a senhora Bonetti não gostou do preparo de uma sopa, ela jogou sopa fervendo no rosto da vítima. Em outra ocasião, a senhora Bonetti arrancou chumaços do cabelo da vítima, o que causou sangramento, porque não gostou de como a vítima estava dando banho no cachorro.
Não tem nenhum registro de violência de René contra a funcionária. Todas as agressões que a justiça americana encontrou foram feitas por Margarida, mas ele está diretamente ligado a casos de negligência.
Um dia, a vítima estava limpando cacos de vidro no chão da casa e por acidente se cortou. A ferida na perna infeccionou depois de alguns dias. Margarida Bonetti comprou gase e uma pomada para a vítima, mas se recusou a levá-la a um médico, por mais que a ferida tenha piorado. Quando a vítima foi finalmente levada a um hospital, mais de um ano depois, ela foi diagnosticada com uma osteomielite, uma infecção óssea causada por bactérias, e teve de passar quatro dias internada. A infecção foi tratada, mas deixou a vítima com uma cicatriz na perna.
Os patrões, ou os exploradores, negavam o atendimento médico à doméstica. Foram meses no caso da ferida da perna que piorou com o tempo, e foram anos no caso de um tumor que crescia no abdômen da empregada.
A vítima também desenvolveu um tumor, do tamanho de um melão em seu abdômen, enquanto trabalhava na casa dos Bonetti. Ela pedia que René a levasse a um médico, mas ele se recusava.
Enfim, o processo é o relato mais completo dos crimes. E tá tudo lá. Mas eu não consigo encontrar resquícios daquela história no lugar onde ela aconteceu. Era como se esse processo só existisse no papel. Como se fosse uma história de ficção presa dentro de um livro, ou a narrativa de uma guerra que aconteceu antes de Cristo. E, portanto, ninguém mais se lembra. Mas foi um crime noticiado, que aconteceu só 20 anos atrás. A história tá contada nos autos. Mas um processo é só um recorte do que aconteceu. Por mais que os autos tenham centenas de páginas, eles não contam tudo o que aconteceu ali.
Durante esses 19 anos, os Bonetti alegaram falsamente que estavam pagando o salário da vítima em uma conta bancária. Quando ela perguntou se podia receber o salário diretamente, René Bonetti se recusou. A vítima nunca recebeu pagamento pelo trabalho.
Falta alguma coisa de humano. Falta saber de onde essa pessoa, explorada a vida inteira, tirou força para denunciar o que acontecia. E foi o que eu encontrei no dia seguinte. No meu terceiro dia nos Estados Unidos, alguma coisa rompe o silêncio. Não é uma das pessoas que eu abordo na rua. Nem uma das poucas portas que se abrem quando eu bato. É um e-mail. Um e-mail que botava fim a um pebolim de mensagens que eu tinha começado meses antes. Em janeiro, eu tinha mandado centenas de e-mails para todas as pessoas envolvidas nesse caso. Policiais, vizinhos, ativistas de grupos de imigração. E uma das mensagens que eu tinha escrito foi para a Dra. Mary Healy, uma das teólogas mais respeitadas dos Estados Unidos. É que no começo dos anos 2000, a doutora Hilley tinha chefiado a comunidade católica Mother of God, aquela mesma que o casal Bonetti frequentava e que não se pronunciou. Ela me respondeu e me encaminhou para um padre da região. O padre tinha me colocado em contato com a líder comunitária de uma associação de mulheres latinas na cidade. E foi essa pessoa que me falou. Eu conheço alguém que tem ligação com esse caso. E disse que, se a pessoa quisesse conversar comigo, ela me escreveria. No meu terceiro dia dos Estados Unidos, eu recebo um e-mail que arranha a redoma de silêncio sobre o caso. É uma mensagem bem curta. Pouco mais do que essa frase aqui.
Eu fui a testemunha principal do caso. Trabalhei ao lado do FBI durante um ano. Se quiser me encontrar, avise, por favor. Minha agenda é bem apertada. Obrigada. Vic Schneider.
A Renata Carvalho vai ser a voz em português de tudo que a Vic Schneider, que a gente tá prestes a encontrar, disse em inglês. A casa de Vic fica na mesma rua onde moraram os Bonetti até o começo dos anos 2000. Eles não são vizinhos colados. O endereço que a pessoa me passa fica a uns 50 metros do número 10600 da Seneca Ridge Drive, bem no fim da rua. É uma casa de madeira azul, a única da vizinhança que tem uma imagem de Jesus Cristo pendurada na porta. Eu bato. Uma mulher franzina, com óculos grossos e maiores que o rosto, abre. Ela tem os cabelos curtos pintados de acajú e usa um chale, mesmo estando dentro de casa. Ela me dá oi e a gente troca gentilezas até que ela me convida pra entrar Parece que eu tô entrando numa igreja Há imagens de santos em todos os cantos Uma Virgem Maria do tamanho de uma criança tá cercada por outras duas Menores Vi que me conduz até a sala de jantar Em cima da mesa, ela tem uma pasta preparada com documentos e recortes de jornal sobre esse caso Eu começo perguntando se a casa ali do lado é a mesma casa do crime E ela confirma Aquela.
É a casa onde ela morava. E acho bom que você saiba que eu sou católica. O Senhor me ensinou. Quer dizer, eu tive uma criação católica, mas nunca fui católica, católica de verdade, até que fui tocada pelo Senhor. É que a gente tem uma filha com deficiência. Eu vi os milagres serem operados. E também vi um milagre ser operado com ela. E foi aí que eu voltei à religião.
Esse milagre de que a Vicky fala começou meses antes dela denunciar o casal Bonetti ao FBI. Começou quando um dia, uma mulher que ela não conhecia bateu na porta dela. Era a empregada dos Bonetti, uma mulher simpática de quase 60 anos. As duas nunca tinham conversado, mas a brasileira disse que tinham uma amiga em comum. Era uma mulher que falava português e morava a uns cinco quarteirões dali. Era a única pessoa com quem ela conseguia conversar, já que ela não falava uma palavra de inglês. Um dia, essa mulher disse pra empregada, você sabe que tem uma vizinha sua que fala espanhol, né? Vocês podem conversar. Foi daí que a brasileira bateu na porta da Vick. E as duas viraram amigas. Sempre que podia, a empregada batia na casa de Vick, onde as duas passavam horas conversando em portuñol. Falavam de Deus, de comida e de limpeza. Mas aos poucos, começaram a falar também da vida da brasileira dentro de casa.
Quando eles saíam de férias e iam para o Brasil, ela vinha e me contava tudo o que eles estavam fazendo com ela.
Um dia, Vicky perguntou quantos anos a nova amiga tinha. A brasileira disse que não sabia. Vicky perguntou, mas como assim você não sabe sua idade? Foi então que ela disse que tinha documentos, mas que como ela não sabia ler, olhar pra papéis era como ouvir americanos falando. Ela não entendia nada. E que nunca tinha pegado na mão o próprio passaporte. Ele ficava com René e Margarida. A mulher também contou dos problemas de saúde e de como os patrões não a levavam para o médico. Foi então que Vicky deu um primeiro passo. Quando cruzou com René na igreja, o parou e perguntou, sorrindo, porque ele não estava ajudando a empregada a cuidar da saúde dela.
E quando eu a encontrava com ele na igreja, dizia, olha, ela está com esse problema e esse outro problema também. Ele só respondia, a minha mulher está cuidando disso. A empregada tem um médico no Brasil que passa os remédios que ela precisa tomar.
Era mentira. E Vick já sabia que era mentira, porque a própria empregada contava pra ela. Contava de como ficou meses com a ferida infeccionada na perna, e de como, há mais de um ano, pedia pra ir a um médico que pudesse ver por que a barriga dela inchava cada dia mais. Vi que passou a avisar a amiga que alguma coisa estava errada. Que eles não podiam tratá-la assim. Que ela tinha direito de ir ao médico. Mas ela desconversava. Até que, em abril de 1998, os Bonetti foram passar férias de alguns meses no Brasil. E a empregada começou a se abrir mais e mais.
Os bonetistas costumavam ir para o Brasil para vacacionar. Eles iam para o Brasil passar férias todo ano. E tudo começou quando eles estavam no Brasil. Quando ela foi resgatada de fato. E quando ela se mudou da casa. Eles estavam no Brasil.
Antes de procurar a polícia, Vick pensou que poderia encontrar apoio na vizinhança. Atravessou a rua e foi conversar com um vizinho, que trabalhava com questões trabalhistas no Banco Mundial, onde ela mesma já tinha trabalhado. Mas a resposta que ouviu dele foi um balde de água fria.
E ele me disse, você não vai chegar a lugar nenhum. Você pode até fazer isso, mas não vai conseguir nada. E eu respondi, ok, mas vou fazer assim mesmo. Eu tenho Deus comigo, então vou pensar em algo.
Mas a verdade é que ela não tinha pensado em nada. Voltou para casa sem fazer ideia de como proceder. Sabia que a amiga brasileira era explorada e agredida, que estava há quase 20 anos trabalhando sem ganhar um centavo. Mas não sabia como fazer para o mundo acreditar nisso.
E quando eu me vi diante dessa situação, eu disse, ó senhor, você tem que me ajudar.
Ela diz que foi nessa noite que aconteceu um milagre e que a ajuda veio na forma de uma carta aberta escrita pelo Papa.
Eu não queria falar nada. Eu não queria fazer nada, sabe? Mas na carta que João Paulo II.
Escreveu, ele dizia Então, Vick declama de cor uma carta escrita por um papa.
O ano do jubileu foi concebido para restaurar a igualdade entre todas as crianças de Israel. Para lembrar aos ricos que virá um tempo em que os escravos de Israel voltarão a ser iguais a eles. e poderão reivindicar seus direitos.
Esse não é exatamente o texto do Papa, mas o sentido é o mesmo. Ele realmente fala sobre o ano do jubiléu ser o momento das pessoas escravizadas se tornarem iguais às pessoas livres. E ela sentiu que a carta tinha sido escrita não para ela, mas para a mulher que era escravizada na rua da casa dela.
Então, como cristã, eu senti que era minha responsabilidade ir em frente. Então eu, como cristã, senti que era minha responsabilidade ir adiante. E foi assim que comecei. Primeiro, eu entrei em contato com a igreja que o René Bonetti costumava frequentar. A mesma igreja a que eu ia todo dia de manhãzinha. E eu entrei em contato com um padre e contei tudo.
Enquanto os Bonetti ainda estavam no Brasil, Vicky decidiu agir. Procurou alguém da Igreja Mother of God, que ela e Margarida frequentavam, e pediu ajuda. Mas não foi acolhida na primeira tentativa.
E é claro que eles não acreditaram no que eu estava contando. Não pode ser verdade.
Em seguida, ela foi para uma outra igreja, menor e mais próxima da casa dela, e se encontrou com um segundo padre.
O padre disse, é verdade o que ela está dizendo? Ela não está... eu não conheço essa mulher. O que eles fizeram com ela? E eu disse, padre, é tudo verdade. Eu vi que eles batiam nela, eles queimaram ela com água fervendo e tudo mais.
E esse padre acreditou no que estava ouvindo e se dispôs a ajudar, mas já avisou a Vicky que a ajuda dele não bastaria, que ela precisaria de um advogado ou uma advogada que topasse apresentar o caso para a justiça.
Eu não conheço ninguém. Eu não tenho advogado. Quem vai me ajudar? Eu não sei. O senhor sabe?".
Até porque, no começo de 1998, nem a própria vítima queria colaborar. Ela tinha medo de falar sobre os crimes com qualquer outra pessoa que não fosse amiga Vick.
A gente acabou virando amigas. Viramos amigas. Mas ela estava numa lavagem cerebral tão grande e era ameaçada pelos Bonetti. Se falasse para alguém, eles ameaçavam mandar ela de volta para o Brasil ou até para a cadeia. Alguma coisa assim. Então ela defendia eles.
Ainda sem saber se conseguiria levar o caso à justiça, Vicky ligou para uma advogada famosa da região, um nome que ela via nos jornais. Da primeira vez que elas se falaram, era um sábado. A mulher ouviu as denúncias e disse que provavelmente haveria um caso ali, mas que ela estava ocupada demais para trabalhar nele.
O dia seguinte era domingo e ela me ligou, a mesma advogada. Ela disse, quer saber, eu repensei, eu vou pegar esse caso e vou entrar em contato agora com a promotoria pública para eles entrarem em contato com a senhora. E foi assim que tudo começou.
E com a ajuda da advogada, Vick formulou uma denúncia para o FBI, com informações que a empregada tinha passado, mas sem a amiga brasileira saber que a polícia iria se envolver. Poucos dias depois, agentes da Polícia Federal americana estavam na soleira da casa de Vick. Eles a ouviram por horas, antes de bolar um plano de investigação da denúncia, que naquele momento não passava disso. Uma denúncia de um possível crime, feita por uma vizinha.
As pessoas disseram que o FBI não ajudava em nada. As pessoas dizem, ah, o FBI não ajuda em nada. Mas eu tenho o FBI na mais alta estima. Eles são pessoas maravilhosas. Eles passaram quase dois anos aqui.
Primeiro, os agentes trabalharam na surdina. Iam à paisana para a vizinhança. Conversaram com o Vic e tentaram contato com outros vizinhos. Segundo o Vic, ninguém mais quis falar. Como ninguém quis falar comigo. Era uma rua em silêncio.
Algumas pessoas conheciam ela. E ninguém queria ajudar. Porque essa é a ideologia aqui nos Estados Unidos. Eu não quero me envolver. Ninguém ajudou ela. Eles não queriam ajudar.
As pessoas já desconfiavam que algo tivesse errado na casa dos Bonetti. Mas preferiam ficar em silêncio. Vicky diz que os vizinhos se preocupavam mais com o bem-estar dos bichos de estimação da casa do que com a possibilidade de um ser humano ser vítima de um crime ali dentro.
Os vizinhos estavam mais preocupados com os gatos. É isso. Os gatos.
E depois da polícia tentar falar com todas as casas da rua, ela prestou depoimento. Tirando ela, a outra amiga da empregada, que morava a cinco quadras dali, também topou falar. Além delas, só mais um vizinho.
Você sabe, né? É assim. É infelizmente assim que são os americanos. A gente sabe.
Depois de semanas de investigação, o FBI decidiu entrar na casa da família Bonetti. Como a empregada estava lá, eles não precisavam de um mandato para isso. Foi então que Vicky convenceu a brasileira a deixar os policiais entrarem e mostrar como ela vivia. Ela relutou, mas acabou permitindo. Eu perguntei.
Eles vieram para ver a casa. Eu pedi que eles fossem até a casa. E foi aí que eles viram. Viram que a geladeira estava trancada com um cadeado. E eu não tinha visto que a geladeira estava trancada. Os armários estavam trancados. Então, eu virei para ela e falei, mas como você come?".
A brasileira respondeu para Vicky que não podia comer a comida da casa, mas que podia comprar comida fora de casa com o dinheiro que Margarida e René tinham deixado em cima do balcão.
Ele me deixou um dinheiro. Como ela era analfabeta, ela achou que era muito dinheiro, mas eram só 5 dólares. Sabe o que ela ia conseguir comprar com 5 dólares? Então, eles todos viram essa situação e eu disse, o que eu estou mais preocupada é que alguém examine a barriga dela. E também precisamos de alguém para ver a situação legal dela no país.
Depois de 20 anos quase sem atendimento médico, a empregada doméstica brasileira finalmente conseguiu ir para um hospital para descobrir por que a barriga dela estava inchada, como se ela estivesse grávida, por mais que ela já tivesse passado da menopausa. Os Estados Unidos não têm um sistema público de saúde. Ou seja, alguém teria de desembolsar centenas de milhares de dólares para que essa mulher pudesse fazer os exames e as cirurgias de que ela precisaria. E isso não era possível. Foi então que a amiga Vicky ajudou a criar uma rede ao redor dela. O padre da paróquia local entrou em contato com uma freira que os indicou para uma clínica de jesuítas. Os padres da ordem jesuíta podem estudar medicina. E há centenas de médicos jesuítas pelo mundo fazendo caridade com o jaleco branco em cima da batina. Semanas depois, ela passou em consulta ao lado de Vick. Depois dos exames, o padre, que não falava português, puxou a vizinha de canto pra conversar.
Daí o médico me disse... Você sabe que ela tem um sangramento? E eu disse, você está machucada? E ela me disse, sim, eu não queria te contar, para não te assustar. Eu andei sangrando. E o médico me disse, bom, amanhã vocês têm de voltar para ela ser atendida pela equipe de um dos melhores hospitais de Washington A mulher não queria.
Ficar, queria ir para casa Tinha medo que os patrões voltassem de viagem e não a encontrassem lá Mas Vicky perguntou para ela, não é o que você pede para eles há anos? Para que eles te levassem no médico? E ela concordou. Então nós vamos ao médico, disse Vic. E convenceu a amiga. No dia seguinte, elas voltariam para fazer mais exames.
A gente foi, sem saber o que ia acontecer. A gente foi para a clínica e o médico disse, ela não vai para casa. Ela vai daqui direto para o hospital.
Na hora em que soube que teria de ser internada, a brasileira ficou nervosa. Não queria dar entrada no hospital. Mais do que ter só medo, ela tinha uma outra preocupação. Com a casa que tinha que cuidar.
E ela me disse, eu não posso abandonar os gatos. E eu disse para ela, você me esqueça esses gatos.
A vizinha garantiu que tomaria conta dos bichos enquanto a brasileira estivesse internada e os Bonetti estivessem no Brasil. E assim foi feito. Ela fez uma cirurgia em que foram retirados sete tumores. Mas não era só isso. Ela teve também de tirar o útero, que já estava comprometido. Ficou quase um mês no hospital em Washington. Quando saiu de lá, não tinha pra onde ir, a não ser pra casa de René e de Margarida. Então o padre de uma paróquia de Washington se ofereceu pra ajudar. Disse que conseguiria improvisar um apartamento pra mulher se esconder enquanto o processo corria. E ela aceitou.
E na igreja, eles tinham tipo um apartamentinho do lado da igreja, que eles reformaram para ela poder morar ali. Ninguém ia saber onde ela estava, porque inclusive no hospital deram um novo nome para ela. Ela não estava registrada com o próprio nome, porque eles iam voltar a qualquer momento.
Os Bonetti voltaram do Brasil e não encontraram em casa a mulher que explorava. Assim como eu, eles deram de cara com uma parede de silêncio. Os vizinhos diziam não saber de nada, não ter visto nada. Até que um dia a René cruzou com a vizinha Vicky e perguntou se ela sabia onde estava a empregada doméstica.
E eles sabiam que ela vinha me ver. Então o Bonetti veio me perguntar, você sabe onde ela está? E eu, não.
Ela mentiu por medo de que René e Margarida pudessem achar a brasileira e convencê-la a voltar. E poucos meses depois, o casal foi envolvido na investigação. A ex-empregada viveria escondida durante dois anos. No começo dos anos 2000, o inquérito virou um processo e a informação de que um casal rico estava sendo acusado de escravizar uma pessoa em Gatesburg veio a público. Saiu nos principais jornais do Brasil e do mundo. Mas a saga jurídica a gente vai acompanhar no próximo episódio. Antes dela, basta saber que uma das pessoas acusadas fugiu quando o caso ainda era tratado com sigilo. Em setembro de 1998, o pai de Margarida morreu. E ela conseguiu sair dos Estados Unidos sem ser barrada pelo FBI. Alegou que vinha pro enterro dele. Afinal, eles ainda não tinham sido indiciados. Eram apenas investigados por causa de uma denúncia. René, que tinha abdicado da cidadania brasileira em nome de um passaporte americano, ficou em Gatesburg. Não está claro se ele achava que a mulher ia voltar depois do velório do pai, ou se ele sabia que enfrentaria sozinho um processo judicial que começaria em breve e consumiria a próxima década.
Assim que a investigação começou, ela fugiu. Ela era tão esperta. Pegou as malas e zarpou.
Margarida partiu. Para nunca mais voltar ao país onde morou por 20 anos. Margarida pegou um avião para o Brasil e se mudou para uma casa. A mesma casa em que tinha crescido. A casa que já tinha visto dias melhores. A casa que dali por diante seria conhecida na vizinhança como a Casa Abandonada. No próximo episódio de A Mulher da Casa Abandonada, depois de duas horas conversando, Vic e eu fazemos um intervalo. Ela me serve um copo d'água. E eu insisto, será que depois de anos de uma relação criminosa e doentia, não é possível que essas duas mantenham contato? A Vicky não ri aqui porque ela acha engraçado. Ela ri porque ela acha esse tapa fúrdio. Um absurdo. E diz que outra pessoa também daria risada se ouvisse que a mulher da casa abandonada anda dizendo que é amiga da pessoa que maltratou por tanto tempo.
Sabe quem daria muita risada disso?
Eu pergunto quem e ela diz o nome da amiga brasileira e propõe de ligar pra ela Pergunta se eu quero falar Eu digo que sim, que seria um prazer Ela vai até a cozinha e some por alguns minutos Ela volta com um telefone sem fio do tamanho de um tijolo branco já colado no ouvido Passa pra mim e tem alguém do outro lado dali A Mulher da Casa Abandonada é um podcast da Folha. Eu sou Chico Felitti, criador, roteirista e apresentador. A Renata Carvalho faz a versão brasileira da entrevista com Vicky Schneider. A produção desse episódio é de Beatriz Trevisan, com pesquisa adicional de Andrea Leon, da Universidade de Nova York. A edição do som é de Luan Alencar. A coordenação de A Mulher da Casa Abandonada é de Magê Flores, que nesse episódio também narra trechos de documentos jurídicos. Esse episódio usa áudios da National Public Radio e dos canais de YouTube Gatesburg Television e Sal. A gente se encontra na quarta que vem. Nesse meio tempo, porque senão aproveita pra seguir o podcast no seu tocador e dar uma nota. Obrigado, e até breve.



