Ambiente é o Meio #150: Malefício de agrotóxicos é maior em áreas com mais plantação, aponta estudo
23 Oct 2024 · 25 min
Pesquisadora da Fiocruz Tatiane Moraes de Sousa apresenta estudo que liga agrotóxicos a mortes fetais e malformações. Municípios com 5% ou mais de área agrícola em estados como Mato Grosso e Rio Grande do Sul têm risco 20 a 30% maior. Exposição ocorre por pulverização aérea, contaminação de água e até 20% de agrotóxicos contrabandeados.
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Está no ar. Ambiente é o meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o meio.
Olá, ouvintes do programa Ambiente ao Meio. Hoje vamos conversar com Tatiane Moraes de Sousa, que é pós-doutoranda na USP e pesquisadora da nossa estimada e valorosa Fiocruz, Fundação Oswaldo Cruz. E o tema é discutir os impactos dos agrotóxicos na saúde infantil. Boa tarde, Tatiane, é uma alegria tê-la com a gente aqui na Rádio USP. Comece falando um pouquinho da sua formação e trajetória profissional, tão eclética, que é tão importante para um pesquisador.
Primeiro, obrigado pelo convite. Eu que agradeço, é um prazer estar aqui com vocês. Eu sou ecóloga, minha graduação é em ecologia pela UNESP de Rio Claro. E acho que isso está bem presente, por mais que a gente transite, sempre tem uma abordagem que a gente traz lá de trás. Eu fiz o mestrado e o doutorado em saúde pública na Fiocruz, trabalhando com a relação saúde e meio ambiente. trabalhando desde com uma abordagem mais clássica de saneamento e doenças diárias ricas, mas também com doenças sensíveis ao clima. Então, trabalhei com doenças negligenciadas e sensíveis ao clima, principalmente doenças infecciosas, né? E o que a gente chama de determinantes sociais e ambientais da saúde. Então, como eles trabalham juntos, né? Esses determinantes. e faço pós-doc, sou pós-doutoranda no Departamento de Ciência Política. Então, tenho aprendido bastante sobre como governança e ciência política é transversal sobre todo esse tema. Então, meu pós-doutorado é sobre resposta, principalmente sobre resposta e preparação para emergências sanitárias. Então, eu trago um pouco dessa questão ambiental que é tão urgente hoje nas emergências em saúde pública que a gente tem. Acho que hoje está bem vivo isso para todo mundo.
As emergências, na verdade, estão virando a rotina, infelizmente, né, Tatiana? Bom...
Na verdade, eu acho ótimo esse seu comentário. Vou começar por aí, porque eu acho que é exatamente isso. Acho que a gente precisa virar um pouco a chave de não olhar para emergência. Porque quando a gente fala de emergência, sabe aquela história de trocar o pneu com o carro andando? A gente está precisando olhar que não é o pneu furado. Eu preciso fazer essa manutenção constante. Então tem algumas coisas que são emergências e tem algumas coisas que a gente precisa pôr na nossa rotina de vigilância, de monitoramento.
É isso aí. E agora o tema que a gente vai trabalhar um pouquinho tem a ver com a relação, como os alimentos são produzidos e de que forma isso acaba afetando a saúde da população em geral e das crianças em particular. Quer dizer, aquela ideia de que a saúde vem pela boca é verdade, mas depende também de como os alimentos são produzidos, não é Tatiana?
Eu acho que mais do que os alimentos, é a gente pensar em agropecuária. Porque quando a gente fala de alimentos é uma parcela dessa produção, do agro. E quando a gente fala de agro não é só agricultura, é também pecuária. Então a gente tem que olhar para esse setor. Qual é a relação desse setor com o meio ambiente e a gente coloca aí nessa tria de saúde. Então, como que tá ligado, como que a gente faz, que são escolhas, escolhas econômicas, escolhas políticas, como que a gente produz, quais são as decisões desse setor e como influencia na saúde humana e no ambiente. Tentar não fazer essa separação.
Com certeza, até porque o grande agronegócio que menos produz é alimento. Mas vamos entrar no tema. Estamos no tema, na verdade, já. Mas fala um pouquinho assim, como é que surgiu o interesse de pesquisar um pouco essa relação entre o uso dos agrotóxicos, a saúde infantil, como é que foi essa ideia, como é que se desenhou essa pesquisa?
Esse estudo, não tem como falar desse estudo sem falar de duas jornalistas, da Silvia Lisboa e da Carla Ruas. São duas jornalistas gaúchas que se interessam pelo tema e viraram estudiosas do tema. A gente fala que tem aquele estudo formal e tem aquele estudo que acaba sendo formal da pessoa mergulhar. Então, elas idealizaram boa parte, a gente desenhou junto, E nesse exercício de como tornar isso importante, tocar o grande público, trazer, que é diferente do que a gente faz às vezes em ciência, que é muito mais fechado e se preocupa com a publicação acadêmica, em conversar com os pares, o mundo dos pares amplia quando a gente fala com jornalistas. Então, a ideia inicial partiu de um conhecimento que a gente já tem, que é dado, que é da relação entre agrotóxicos e saúde humana. A gente sabe que tem um impacto, então isso já tem inúmeros estudos mostrando isso, e com grupos que são mais vulneráveis, como os trabalhadores na terra, como mulheres, grávidas e crianças. Então a gente sabe que os trabalhadores rurais são mais expostos, tem um impacto específico sobre a saúde reprodutiva de homens e mulheres e sobre o desenvolvimento fetal. Então, a partir do momento que isso a gente já conhecia, vamos investigar como que isso acontece no Brasil, nos estados brasileiros, que não tem uma exposição igual. Então, daí foi um outro momento de identificar quais são os estados onde essa exposição é maior. Um problema que a gente tem entre vários, falando de agrotóxico, é que a gente também sabe que boa parte dos agrotóxicos brasileiros que são usados no Brasil, eles não são brasileiros, eles são contrabandeados. Então, quando a gente trabalha como um indicador de exposição, o agrotóxico, o volume comercializado que tem um registro, que o Ibama disponibiliza ou que o Mapa disponibiliza, A gente tem um problema que tem uma proporção considerável. Alguns estudos mostram que até 20% é contrabandeado. E eles podem ser adulterados também. E a gente já sabe que grande parte das monoculturas brasileiras são dependentes do uso de agrotóxico. São diretamente associadas ao uso de agrotóxico. O Brasil é campeão de comercialização de agrotóxico sem mapear o contrabandeado. Então imagina se a gente é campeão.
Quando você fala campeão, é uma diferença grande em relação ao segundo colocado?
Praticamente o dobro do segundo colocado que é os Estados Unidos. Então a gente tem um estudo do grupo da Universidade Federal do Mato Grosso, que é um grupo que estuda muito agrotóxicos e saúde, essa relação, tem um estudo que eles mostram que aumentou a proporção de uso de agrotóxico em área plantada, aumentou quase 10 vezes na última década. Então, em 10 anos, em menos de 10 anos, a gente teve uma aprovação recorde de agrotóxico, inclusive alguns que são proibidos na União Europeia, uma ampliação das áreas de plantio, uma sucessão muito forte das monoculturas e essa ampliação é o que a gente estava falando lá no começo. Ela é de monocultura, ela não é de sistemas agroflorestais, ela é principalmente de monocultura. Então a gente decidiu nesse estudo fazer um recorte um pouco diferente. A gente decidiu olhar a área plantada. Qual é a proporção da área plantada nos municípios, dados do MapBiomas de imagem de satélite. Então a gente calculou a proporção de área dedicada à agricultura e a gente fez uma análise tentando comparar quais são Entre alguns estados que têm uma dedicação maior, mais de 50% dos municípios, tem uma área superior a 5% dedicada à agricultura. Então, são os principais estados do agronegócio no país, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso. entre outros, mas esses são os principais, e comparar qual é a exposição, tendo a exposição à área plantada, e qual é a chance, o risco de óbitos fetais e malformações. E para alguns estados a gente achou essa associação. A gente achou essa associação e identificou que tem um risco maior em municípios que têm uma área maior plantada. Daí eu vou falar só um pouquinho mais sobre essa exposição, que eu acho que é importante, que não é só a área plantada, o uso na plantação. Então eu tenho aqui do meu lado, eu moro num sítio, ou eu sou um pequeno produtor, ou eu trabalho aplicando esse agrotóxico, então eu tenho a exposição daquela fazenda, naquela produção. Essa é uma exposição, mas também tem a exposição por pulverização aérea. por pequenos aviões, por drones. Então, a gente está falando de uma tecnologia de espalhamento do agrotóxico que é muito maior. E a gente tem já vários estudos que mostram contaminação no solo e na água. Então, quando a gente pensa ambientalmente, eu tenho uma exposição que está ali no meu território, que é uma exposição direta, mas eu tenho uma exposição que está na minha base hidrográfica. Eu tenho uma exposição que, de repente, está num município amontante, que a gente fala, e eu estou aqui, ajusante, sofrendo com essa exposição, porque está sendo listiviado, porque está me atingindo de diferentes maneiras. Então, a gente acabou olhando essa exposição da área, mas ela é sistêmica.
Ou seja, ele é um indicador indireto de outros fatores que estão associando. E aí, quer dizer, você diz que acharam uma associação, mas aí quantificaram um pouco, quer dizer, o que apareceu mais.
A gente identificou exatamente que em alguns estados, como Mato Grosso, municípios com 5% ou mais da área são mais expostos, apresentam um risco maior de 20 a 30%, em alguns casos, maior de óbitos fetais e malformações congênitas do que outros que não estão expostos. Eu acho que o grande desafio agora é o próximo passo. Quantificamos agora como que a gente faz isso melhorar a política pública. Como que a gente melhora? Porque a intenção também é melhorar o sistema, as pessoas que vivem no campo, a vida das pessoas, a renda dessas pessoas, diminuir a vulnerabilidade. Porque uma coisa que é importante é que esses desfechos também são associados à vulnerabilidade. A gente sabe que não é só a exposição agrotóxico. O acesso à assistência, atenção primária, um pré-natal de qualidade também são fatores protetivos. Então, como que a gente melhora a vida dessas pessoas e reduz essa exposição? Eu acho que esse é um desafio nosso.
É, até porque o coronel do agronegócio está morando em São Paulo, ele vai ter poluição de outro tipo, quem está sofrendo são os trabalhadores. A gente vai chegar em política pública, porque esse é um programa sobre política pública, mas eu queria ainda assim, talvez, explorar um pouquinho O Mato Grosso foi onde a questão é mais crítica, outro Rio Grande do Sul, e também se tem alguma relação, por exemplo, o Sul tem aquela coisa da indústria do fumo, da produção de fumo, que historicamente é crítica. Então, não sei se o estudo entrou nesse detalhamento ou ele deu realmente esse primeiro panorama mais geral.
Então, a gente tem uma dependência muito grande dos dados, mas é importante você falar isso. Realmente, tem a produção. A gente sempre fala da soja. A gente sabe que a soja é uma produção que usa agrotóxicos, mas a gente separou a partir dessa área total, que a gente não fez por cultivo, a gente olhou de uma maneira um pouco mais granular para soja, algodão, milho, e cana. O que acontece com o fumo? A gente não encontrou uma base de dados para a área delimitada do fumo, embora a gente saiba que use. E tem uma característica de algumas regiões, e eu acho que isso acontece muito no Rio Grande do Sul também, que é a sazonalidade. Então, essa alternância de cultivo. Então, quando eu estou plantando soja e fumo, eu alterno. e eu uso agrotóxico nas duas. Então, eu não tenho um período em que eu não tô contaminando esse ambiente, eu não tô expondo essa população. Ela é contínua e isso tem um aspecto cumulativo, se a gente pensar num período gestacional, muito forte. Essa gestação tá sendo exposta o tempo todo por diferentes fontes. Então, acaba que a nossa análise fica limitada aos dados que a gente tem, Mas a gente tem encontrado, eu comentei isso antes, que a gente está trabalhando na publicação do artigo agora, e na publicação a gente vai trazer esses dados por cultivo. Eu acho que é importante também a gente ver que alguns cultivos isolados, que às vezes vão aparecer como uma área menor, também tem associação. O milho a gente encontrou em alguns estados, a soja a gente encontrou em alguns estados. Mas o que a gente também não encontrou, o que a gente não conseguiu fazer, também sinaliza o dado que a gente precisa ter. O do fumo eu acho que é um bom exemplo. Se a gente não conseguiu fazer o do fumo por não ter dado, tudo indica que também possa ter uma associação para algumas populações e alguns municípios. Pode ser uma exposição importante. Então é um dado que a gente tem que correr atrás para ter.
E a gente sabe que não há um vilão, a lógica do sistema, a lógica do tipo de produção, mas vamos falar um pouquinho do direto, que é o agrotóxico. Quais são os mais críticos, os que estão por todo lado? A gente fala do glifossato, mas como é que é isso? Você falou também do que entra clandestino, que muitas vezes a gente nem sabe.
A gente tem o glifosato, o 2.4 dEQA também é muito usado, é usado maximamente no Brasil, mas a gente também tem outros e uma coisa que é importante é que muitos desses que são autorizados no Brasil são proibidos em outros lugares. Então, se eles são proibidos em outros lugares, poderia fazer com que a gente pensasse por quê, né? e olhar para isso de outras maneiras. Mas a gente já sabe que tem diferentes agrotóxicos, diferentes agentes químicos que atuam de diferentes maneiras. que tem impactos fisiológicos diferentes no corpo humano, mas que eles também podem atuar de uma maneira cumulativa. A trazina também. A trazina é também um outro agrotóxico que é muito presente nas culturas brasileiras. Então, eu acho que isso a gente tem mapeado, a gente tem mapeado essa cadeia também de diferentes, a Brasco, que é a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, tem desenvolvido alguns documentos nesse sentido de mostrar as diferentes, não só os diferentes agrotóxicos, mas qual é a população afetada e de que maneira, se é saúde reprodutiva, se é saúde reprodutiva do homem, da mulher, eu acho que esse olhar não só isolado, porque se a gente trabalha isso, qualquer questão ambiental, se a gente for para o laboratório, às vezes a gente não vai achar essa, se a gente for trabalhar com ratos, às vezes a gente não vai achar essa associação tão grande quanto no num produtor rural, num trabalhador rural que está exposto a diferentes tipos de agrotóxico ao mesmo tempo.
Tatiana, eu vou fugir um pouquinho do nosso roteiro, mas você falou um pouco assim, os países ricos que muitas vezes produzem, exportam para a gente ou produzem aqui porque lá não podem produzir. E você tem uma experiência internacional rica. Você esteve nos Estados Unidos, teve em Harvard, que sempre a gente fala com a boca cheia. Como é que é essa sensação? Quer dizer, você lá fora vendo essa questão, vendo o teu país, vendo o país que te recebe como pesquisadora, como... Como é que você vê isso? A questão lá é parecida com as que a gente coloca aqui?
Eu acho que muitas questões são parecidas. Eu acho que existe um movimento organizado também nos Estados Unidos de entender os agrotóxicos de resistência, o uso dos agrotóxicos de questionamento. Eu acho que esses estudos também acontecem lá. O que eu vejo aqui, a gente sempre fala, quando a gente fala em saúde, meio ambiente, não tem como não falar de vulnerabilidade. Então a gente, mesmo no Brasil, as populações vulneráveis não são as mesmas. E nos Estados Unidos também, e na Europa também. Então o que você falou, eu acho que na Europa existe alguns países que protegem mais, existe uma política da União Europeia de proteção em relação de preocupação com a pauta ambiental, de preocupação com a questão ambiental, que às vezes está muito centralizada. tá muito eurocêntrica, tá muito preocupada ali e ainda falta expandir um pouco mais essa ideia de saúde global que a gente tem de passar as fronteiras. Mas existe esse movimento também nos Estados Unidos, mas existe a indústria também. Da mesma maneira que a gente, que é muito forte, E eu acredito muito que a gente tem que sentar junto, eu acho que é trazer para a discussão, que não tem como não falar das queimadas hoje, o momento que a gente está hoje. A gente precisa trazer o agro também para a conversa, a gente precisa trazer o setor de saúde, precisa trazer o Ibama, precisa trazer o Ministério Público, a gente precisa trazer, virou caso de polícia, mas a gente tem que trazer o setor. A gente tem que trazer o setor também, que é um fator de exposição para a conversa. Eu acho que a gente tem dificuldade e os Estados Unidos também tem essa dificuldade.
Você já entrou agora no nosso fechamento, a gente vai para a reta final, que são as políticas. Eu me lembro, quando eu mudei para Ribeirão em 1990, o Ministério Público, doutor Marcelo Goulart, na luta contra as queimadas e os usineiros dizendo que queimar cana era essencial para dar emprego. E hoje a gente vê que as queimadas estão queimando os canaviais. demoraram para sentir na pele os efeitos. Quer dizer, há também um discurso parecido com antes, havia o discurso que a queimada era essencial, senão não teria emprego, com os agrotóxicos são essenciais, senão não teria alimento, senão não teria produção. É por aí ou... Quer dizer, a coisa é bem mais...
Eu acho que a primeira coisa que a gente tem que fazer é dissociar no Brasil a ideia de agrotóxico e produção de alimento. Eu acho que quem usa agrotóxico não é quem está produzindo alimento. A gente viu uma ampliação, essa ampliação que o estudo mostra da área plantada, ela não é da área plantada dedicada à segurança alimentar. No mesmo período, nos últimos anos, a gente viu o aumento da insegurança alimentar. A proporção de brasileiros passando fome aumentou. Então, essa linha de raciocínio é a primeira coisa que a gente tem que, essa relação causal, essa lógica, a gente tem que romper. Quem está ampliando o uso de agrotóxico não é quem está produzindo alimento. Então, a gente precisa falar de segurança alimentar e quando a gente fala de segurança alimentar em geral no Brasil, a gente não está falando dessa produção. A gente está falando de produções que são ambientalmente muito mais saudáveis para as pessoas, para a fauna, para a vegetação, para o solo, para a água. Então, políticas que pensem em agrofloresta, que pensa em produções que são mais saudáveis ambientalmente, elas são urgentes. Porque quando a gente fala de monocultura, a gente fala de espaços que queimam mais rápido, de redução de biodiversidade, eu acho que até são assuntos que já foram cobertos aqui no podcast. A gente investe em biodiversidade, a gente expõe a população a outros riscos, e infelizmente a gente está escolhendo uma lógica há algumas décadas de uso de agrotóxico de modo massivo.
E aí, nós temos aí, como você disse bem, o Brasil virou o país das commodities, quer dizer, o setor tem um poder de barganha no Congresso, que é gigantesco, junto ao Executivo, que dizem que trazem dólares. Como você disse, tem que sentar na mesa com esse pessoal. É uma agricultura que, negavelmente, modernizou, mas, aparentemente, mantém um discurso e uma postura política retrógrada. Como é que você vê o caminho? Realmente, o alimento é o pequeno, é a agricultura familiar, que, na verdade, tem muito pouco apoio. Mas o dano vem exatamente desse grande, que tem um enorme poder político, um poder econômico. Por onde passam essas políticas?
Eu acho que passa pela legislação. A gente teve esse ano uma discussão grande que infelizmente não teve o resultado esperado que foi da pele do veneno, com fragilidade da regulamentação dos agrotóxicos no Brasil. Mas teve uma época que a gente achava que legislação bastava. Acho que hoje a gente já sabe que não basta. Eu acho que a gente ter uma legislação que regula, que propõe a regulação, não significa que vai ser feito. Eu acho que é uma vigilância política, um monitoramento político e uma atuação política que é urgente. Então, a gente não pode mais falar que não existe. A gente sabe que existe uma bancada com interesses, existe lobby. Eu acho que é colocar na mesa. Um primeiro passo é não tratar isso de uma maneira simplesmente ideológica. Ela é econômica, ela tem lobby, ela tem, da mesma maneira que os planos de saúde financiam campanhas de deputados, o mesmo ocorre com o agro, financiam campanhas. Então, é esse esforço que tem que sair da academia, eu acho que tem que passar pelos movimentos sociais, tem que passar por movimentos organizados, e políticos e pautas políticas e política pública e discussão de política pública para além da academia, porque estudo de associação a gente tem. Eu acho que tem muitos pesquisadores que têm feito esse esforço, inclusive muitos em relação ao agrotóxico, de trazer para a mesa, trazer os movimentos sociais, trazer essa discussão, mostrar que muita coisa que a gente acha que é uma dependência para a produção de alimento é lobby. tem interesses e a gente sabe de usar.
Muito bem, conversamos nesse papo rápido, agradável, sobre um tema não agradável, né? Quer dizer, eu tenho que trazer todos à mesa e tirar os agrotóxicos da mesa, né? Mas conversamos com Tatiana Moraes de Sousa, que é pós-doutoranda da USP na Ciência Política e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz. Gostaria de agradecer os trabalhos técnicos do Gabriel Soares, o apoio na produção imprescindível da nossa querida Beatriz Pavan, a nossa nova bolsista também de apoio na divulgação que é a Beatriz Oliveira, estamos com duas Beatriz. Tatiane, muito obrigado e fica esse minuto final aí para sua mensagem.
Agradecer, agradecer o espaço é exatamente isso. O assunto é pesado, mas a gente tem que conversar, estudar e pensar política, a gente tem que ter fôlego. Então, acho que a ideia também é essa, é compartilhar. Então, agradecer. Agradecer a você e a equipe, a sua equipe também.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio. Produção e apresentação José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema Evandro Navarro. Sonoplastia Mário Ovaldo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br
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