Ambiente é o Meio #162: Projetos acompanham evolução da saúde da população de Brumadinho
12 Feb 2025 · 26 min
After Brumadinho's 2019 dam collapse, researchers began tracking the health of affected residents through two cohorts. They found manganese, lead, and arsenic in blood and urine samples, with depression rates among adults double the national average. Mental health and respiratory problems persist even as some metal levels declined.
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Está no ar, Ambiente é o Meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o Meio.
Olá, ouvintes do programa Ambiente é o Meio. O nosso entrevistado de hoje é pesquisador da Fiocruz Minas e professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Sérgio Viana Peixoto. E vamos discutir um estudo recente que trata exatamente da saúde da população de Brumadinho, seis anos após o rompimento da barragem da Vale. Boa tarde, Sérgio. Uma alegria grande tê-lo com a gente. Comece falando um pouquinho da sua formação e trajetória profissional.
Boa tarde, Zé Marcelino. Eu que agradeço o convite e a oportunidade de falar com vocês. Eu sou biólogo de formação. Fiz depois mestrado e doutorado na área de epidemiologia e saúde pública. E, na verdade, a minha trajetória é muito voltada para a área de epidemiologia e para o envelhecimento. até a ocorrência do desastre de Brumadinho, em que, na verdade, o Ministério convida algumas pessoas que tinham experiência nesse tipo de estudos, de acompanhar a população, a gente faz isso aqui no grupo, em relação aos idosos, e eu acabei assumindo, então, e inteirando, entrando mais nessa área de ambientes e desastres. Então, é um desafio, mas estou dentro desse trabalho da saúde coletiva, dia, com muito prazer, que a gente conduça apesar da tragédia que deflagrou.
A vida de um pesquisador é assim, nunca sabe que fator às vezes dá uma virada. O tema é, infelizmente, ainda estamos debatendo essa tragédia e sem ainda... Eu estava lendo recentemente, por exemplo, a rompimento de Fundão e Mariano, até hoje foram absolvidos no Tribunal Regional de de Minas, quer dizer, é preocupante. Mas comece situando um pouquinho para a gente o que foi a dimensão desse desastre, desse crime ambiental de Brumadinho e um pouco como é que foi pensada essa pesquisa que vocês fizeram, Sérgio.
Como você comentou, o desastre de Mariana já havia sentido, o que ocorreu lá com a Samarco, já havia sentido um alerta em Minas. Minas é o primeiro estado e segundo aí fica revezando em número de barragens de rígidos. Então, na verdade, a gente é uma bomba relógio. A gente tem, de fato, esse risco de explodir, de romper barragem e, por isso, contaminar o ambiente. A gente teve o desastre de Mariana, que a condução do processo de investigação não foi legal até hoje e isso está dando continuidade, como você mesmo mencionou. Então, por conta disso, em Brumadinho, com esse desastre dessa magnitude, nós temos 272 de duas vítimas. Então isso foi um impacto muito grande, a forma que aconteceu, o maior acidente de trabalho talvez já registrado no país. Então a gente tem aí uma preocupação muito grande de entender como que esse impacto ambiental de saúde mental para a população, como acontece nos grandes desastres, o que que isso ocasiona logo pra isso? Porque Mariana se distanciou muito e a gente não tem acompanhamento da população. Então com base nisso, nessa tragédia, nessa dimensão, o que aconteceu foi o Ministério da Saúde se mobilizar rapidamente e convidar um grupo de pesquisadores para discutir um pouco o que poderia ser feito. E entre as estratégias havia esse interesse em acompanhar a saúde da população. Exatamente pelo ineditismo disso, o Brasil não tem esse acompanhamento a longo prazo, é nenhum tipo de desastre. A gente tem outros, grandes enchentes, inundações. E o movimento de barragem também entra para o hall de desastres sem, de fato, uma clareza do que isso leva para a população. Então a ideia foi um estudo mais estruturado, que pudesse acompanhar de forma mais perto essa população, não apenas com dados secundários, mas coletando dados, fazendo exames, e que a gente pudesse verificar essa modificação das condições de saúde ao longo do tempo. Então com base nessa ideia, que foi discutida por esse grupo de especialistas, eu recebi o convite. Como você falou no início, pesquisador é assim, a gente tem que ser adequado. para conduzir esse processo. E é claro que a gente tem vários parceiros, enfim, conta com uma equipe muito grande, porque eu digo que é um desastre extremamente complexo. É uma situação em que nós conseguimos, digamos, uma pecinha de um quebra-cabeça, mas a gente precisa de outras iniciativas para entender melhor. Então, com base nessa ideia de acompanhamento, nós planejamos dois projetos. que é o que a gente chama de Salô de Brumadinho, que acompanha a população a partir dos 12 anos, e o Bruminha, carinhosamente chamado de Bruminha, que é um projeto que acompanha as crianças que tinham de 0 a 6 anos à época do rompimento. Então a gente segue com essas duas iniciativas, sendo o Bruminha coordenado pela professora Carmen Froes, da UFRJ, que tem competência com crianças, não era o caso do nosso grupo. E também é uma toxicologista que tem larga experiência. Então a gente na verdade tem uma coordenação dupla, conjunta. para ir acompanhando desde 2021. A ideia seria iniciar a coleta de dados logo após o rompimento, mas a pandemia também nos impediu de ir a campo. Eu digo hoje que Brumadinho vive uma dupla carga. Você tem um rompimento seguido de uma pandemia, com todos os seus problemas. Então a população de fato sentiu um impacto muito grande, possivelmente isso está tudo misturado no nosso projeto, nas coisas que a gente avalia nessa população.
E aí como vocês desenharam a pesquisa? O que vocês mediram? Que trabalho de campo foi feito?
A gente combinou a pesquisa com entrevistas. É uma ampla entrevista de condição de saúde, uso de serviços, uso de medicamentos. Então a gente tem várias questões que são abordadas junto com algumas com o analisando físico, no caso dos adolescentes e adultos. Apenas peso, altura e pressão arterial para ter algumas medidas mais diretas. e coleta de sangue e urina. Então essa coleta de sangue e urina entra em exames de rotina, além das dosagens de poluentes ambientais, no caso os metais que são interesse da população. E no caso das crianças, além da entrevista com as mães ou responsáveis, a gente tem um exame clínico para neurodesenvolvimento, neuropsicomotor, então existem fisioterapeutas, psicólogas, nutricionistas que vão ali acompanhar essas crianças e também é coletada a urina das crianças para dosagem Então a gente tem uma combinação de exames físicos, de entrevistas e também a coleta do material biológico que nesse caso é importante para entender como esses poluentes ambientais vão se comportando.
Bom, então vamos falar um pouquinho da questão da coleta, do sangue, da urina, quer dizer, foram encontradas coisas preocupantes, Sérgio?
Nós incluímos cinco metais, que são metais que estão no Hall de Interesse para a Saúde Pública. Essa escolha, na verdade, não é aleatória. Então, na verdade, a gente trabalhou com chumbo, mercúrio, cadmium, chumbo mercúrio, cadmium, arsênio e manganês. O manganês não é um metal considerado de risco, ele na verdade é um metal essencial, a gente precisa do manganês no nosso organismo, mas quando ele está em níveis muito elevados ele também pode causar transtornos, principalmente neurológicos. Então a gente impunhou o manganês porque um exame na lama feito logo após o rompimento mostrou que a concentração na lama de rejeitos era 27 vezes maior do que no solo do município. Então a gente achou que fosse uma preocupação e incluiu. Então desses metais é que a gente encontrou uma concentração muito elevada de manganesa em 2021, exatamente o que era esperado pela lama ter uma concentração muito elevada. E também encontramos concentrações altas de chumbo e arsênio. chumbo principalmente em crianças e adolescentes. Então se esses foram os três metais que nos chamaram a atenção, embora o cadmium e o mercúrio também apresentem taxas de detecção elevadas, ou seja, ainda que não esteja em níveis muito altos no sangue e na urina, esses são presentes no ambiente. Se a gente consegue detectar no sangue e na urina das pessoas um metal que não brota de dentro do organismo, digamos assim, então significa que está havendo um contato, uma injeção ou inalação desses metais. Então significa que eles estão presentes naquele ambiente. E especificamente a preocupação maior foram esses três que eu citei. Aproveitando a sua pergunta, quando a gente compara 21 com 23 em relação aos metais, nós percebemos uma queda de maneira geral na carga de exposição, principalmente manganês e chumbo. Chumbo nem tanto, manganês foi uma queda bem importante, ele quase desaparece, o que mostra também o distanciamento da população em relação ao contato com o lâmina, isso vai se resolvendo. mas o arsênio se mantém como um metal muito importante pelos nossos estudos. Cerca de um quinto da população adulta permanece com o arsênio acima dos limites de referência. E em relação às crianças a gente chega até 70% em algumas comunidades. Isso foi importante porque no caso das crianças a gente percebe uma diferença em relação quando a gente compara 21 com 23, ou seja, aquelas comunidades que são próximas da lama de rejeitos ou que vivenciam o processo da mineração, elas passam a apresentar níveis mais elevados. Então isso sugere que de fato esse processo produtivo ele tem a responsabilidade sobre essa disponibilização do arsênio de sulfato no ambiente. Então, é um metal preocupante em relação a danos para a saúde e, portanto, ele chama mais atenção quando a gente compara esses três primeiros anos do nosso estudo.
Eu sei que não é o tema específico da entrevista, mas só para esclarecer ao nosso ouvinte, quer dizer, que tipos de danos à saúde esses metais podem provocar, particularmente na questão das crianças, dos adolescentes em fase de desenvolvimento.
Esse projeto Bruminha, a ideia da CAR, vai exatamente acompanhar o efeito desses fluentes no desenvolvimento infantil. Exatamente porque nessa fase a criança tem uma fragilidade maior porque ela está se formando, se envolvendo. a ideia seria ver se haveria esse impacto. De fato, havia um percentual muito alto de crianças em risco de neurodesenvolvimento em 2021, mas isso melhora substancialmente em 2023. Até porque as crianças passam a ser afastadas da escola por causa da pandemia e em 2021 isso começa a voltar. Então essa socialização, essa volta ao ambiente escolar, Isso favorece. Ou seja, como eu falei no início, é tudo misturado. Se tinha uma pandemia ali, que isso se resolve também de alguma forma. Até o momento a gente não encontrou uma relação direta entre o nível de metal e o nível do desenvolvimento. Mas a vida sim, a gente não pode estar só com 3 anos, a gente tem que acompanhar. Em relação a condições de saúde, o arsênio, por exemplo, ele está associado a diversos problemas de pele, renal, problemas urinários de maneira geral, pulmonares, gastrointestinais. Então a gente tem um arsenal de problemas que podem acontecer. A grande preocupação do arsênio é que ele é considerado cancerígeno pelos órgãos que sudam poluentes ambientais, mas em grumadinha a gente está falando de uma exposição em uma dose mais baixa por um longo período. Então é necessário a gente entender essa combinação. o tempo que eu preciso de exposição e qual a dose de exposição para gerar algum dano à saúde. De fato, isso não é uma intoxicação, não é algo que a população vai ser exposta e vai começar a apresentar sintomas logo, mas a gente precisa entender como esse processo se dá em Brumadinho. Não é nada de que todo mundo vai morrer, vai ser muito trágico, muito rápido, mas o mais importante é que, puxando esses níveis acima da da referência, essa população seja acompanhada pelo Serviço de Saúde, até para detectar questões gerais de saúde, não tem nada específico, mas qualquer alteração bioquímica, fisiológica que for observada, é importante acompanhar e também para a gente identificar a sua disposição. Acho que isso é muito importante, que fica a cargo da vigilância ambiental e a gente, na verdade, não tem retorno sobre isso. Então, se o ar sem ele está vindo de algum lugar, é da água, da poeira, do alimento, e a população fica perdida e com muito medo, porque na verdade essa resposta não chega. Então isso é importante de ser investigado.
Um outro ponto que eu gostaria que você explorasse, quer dizer, o estudo tem um certo cuidado também em dividir a população nas diferentes regiões do município. Município que até então era conhecido pelo nosso querido Instituto Nhotim.
Exatamente.
E de todo jeito a gente continua recomendando a visita, né Sérgio? Mas explica um pouquinho o que essa distribuição espacial mostrou também em relação a esses poluentes, essas substâncias químicas.
O que a gente tentou foi compor a amostra para aquelas comunidades que são muito próximas à lama, onde ocorreu o rompimento, onde a lama passa pelas comunidades. E, ao longo do processo, a gente incluiu uma nova comunidade, que é a comunidade de Teju. Porque é uma comunidade que vivencia um processo de mineração. Isso foi uma demanda da população. Eu falo que o nosso contato com a população, com o Serviço de Saúde, ele foi desenhando a pesquisa. Eu acho que isso é importante. A gente estar junto, as pessoas demandarem, as lideranças comunitárias, de uma forma muito respeitosa, a gente conversando. Então, assim, a gente acabou criando mais esse estrago. Então, a gente tem aqueles grupos que estão próximos à lama, um grupo que vivencia um processo de mineração, que é um absurdo, quer dizer, uma comunidade pé de um morro que está sendo todos os dias minerado, é uma poeira, é uma coisa, é uma degradação assim que eles vivenciam e o restante do município. Pensando aí que existiriam diferentes graus, digamos assim, de exposição. No primeiro momento em relação aos metais, em 2021, o que a gente viu é uma ângua disseminação de metais. A gente não conseguiu ver absolutamente diferença nenhuma. Parece que o município inteiro sofre com isso. Por ser uma região de mineração, enfim. Ou até pelo trânsito de caminhões tentando lidar com aquela lama. Então acaba contaminando, poluindo, digamos assim, o município como um todo. Agora, passando de 21 para 23, parece que essas regiões começam a demonstrar uma carga maior dos problemas. Então eu tenho maiores percentuais de metal, eu tenho maiores percentuais de aumento de condições respiratórias e em algumas delas eu também tenho um aumento dos transtornos depressivos e ansiosos. Ou seja, parece que com o passar do tempo, essa carga do rompimento, ela se acirra um pouco mais nessas comunidades, o que merece uma atenção muito maior, porque pode dar, Zé Marcelino, uma impressão de que você se distancia do desastre, os problemas vão se resolvendo, isso não é verdade. população continua em sofrimento mental, vai piorando questões respiratórias porque a poeira não deixa de existir. Então assim, na verdade fica parecendo um processo produtivo muito perverso para aquelas comunidades. Então é um pouco isso que a gente tem visto ao longo desse acompanhamento. Então assim, se as coisas se resolvem em alguns locais que ainda sim tem um nível muito alto de metal, de problemas mentais, isso não está solucionado. Nesses locais de lama e de mineração, eles são piores de fato.
É um outro aspecto que eu gostaria que você desenvolvesse, que a gente viu muito isso também na questão de Mariana, como simplesmente dar dinheiro para a população fosse resolver, e aí os problemas mentais afloravam e afloram. Como é que foi? Que aspecto vocês levantaram nessas questões? Você citou rapidamente aí, mas quer dizer, o que você gostaria de chamar a atenção?
O que a gente fez foi uma... a gente faz uma série de perguntas se algum médico já deu o diagnóstico de algumas doenças. Entre elas a depressão. Então a gente vê que em Brumadinho a população adulta, 22% tem depressão diagnosticada. Isso é o dobro da população brasileira, que é 10%. Então de fato já é uma carga grande. Mas a gente também tem algumas questões sobre os sentimentos da pessoa, como ela lida com as coisas, para entender. Não é um diagnóstico clínico, mas a gente chama de transtornos depressivos e transtornos de ansiedade. E esses números estão aumentando. Ou seja, a população carrega esse transtorno depressivo, transtorno ansioso e ainda piora ao longo do tempo. Então o que a gente tem que prestar atenção é que essa condição mental, inclusive outras condições que são reportadas na literatura, elas na verdade vão levar a prejuízo para a condição geral de saúde. A população pode adoecer de outras questões, ela talvez se sinta ainda que aquela comunidade está esfacelada, a socialização não volta, não retorna. As ações de promoção da saúde são importantes, não adianta querer medicalizar tudo, disponibilizar só psicólogos e psiquiatras. A gente precisa que essa comunidade se aproprie de novo do seu entorno, porque aquilo foi devastado. Como é que você sai de casa e olha pra uma lama? para um corpo de bombeiro resgatando corpos. Então assim, é muito pesado isso. Então é preciso de outras estratégias para que essa população de fato volta a se apropriar do seu território. Porque eu acho que isso é importante. Então a longo prazo, o que a literatura internacional mostra é que esses grandes desastres levam 10, 15 ou até mais anos de impacto na saúde mental. Então de fato essa é uma preocupação que a gente tem que acompanhar. Até porque, como você citou, esses recursos que são injetados não vão durar muito tempo, daqui a pouco essa população vai viver uma depressão econômica porque não retira esse recurso. Então isso vai se configurando, os cenários de risco são dinâmicos. Isso vai mudando com o tempo e, portanto, esse acompanhamento da população pode ser importante para a gente entender como que a população vai respondendo a isso.
E só assim, acho que para reforçar para o nosso ouvinte, quer dizer, agora com seis anos, acho que no fim do ano passado, que dois corpos foram identificados e dois ainda continuam desaparecidos, imaginar o que é o sofrimento dessas famílias. Bom, Sérgio, a gente está Fica à vontade aí para retomar, mas nós estamos caminhando um pouco, mas ainda temos um tempinho. Falar um pouquinho agora do ponto de vista das recomendações, que eu acho que esse programa sempre tem essa preocupação do ponto de vista das políticas públicas. Vocês estão aí no olho do furacão, não só do ponto de vista desse caso específico, mas o que o Brasil precisa fazer para que isso não volte a ocorrer.
Essa pergunta é sempre difícil, a gente reflete muito, recomenda, enfim. Porque o nosso foco é a saúde das populações. Eu acho que de maneira geral já há um movimento em relação a barragens, enfim, há cuidado, mas eu sinto ainda que o processo produtivo, o poder econômico e político se sobressaem. Então, infelizmente, a dependência econômica, essa transição, ela deveria ser mais bem pensada. E a gente não percebe muitos avanços, pelo menos aqui em Minas. Então eu acho que o licenciamento ambiental continua para poder explorar esse ambiente de qualquer forma. Então, de fato, essa questão econômica, eu acho isso muito perverso para as populações. Eu acho que isso é um ponto. Agora, em relação às condições de saúde, que é o nosso foco, eu acho que o SUS tem grande potencial, como sempre. O problema é que os grandes empresários destroem a natureza e a conta cai no colo do SUS. Então, eu acho que o SUS tem que se estruturar de forma melhor para atender as particularidades do processo produtivo. Então, por exemplo, numa região de mineração, os profissionais de saúde tem que receber treinamento para atender a população exposta. Essa é a nossa recomendação principal para que Minas Gerais tenha uma estrutura, um planejamento de saúde que acolha essas pessoas. Porque o profissional de saúde que está na ponta, ele se vê diante de um participante do nosso estudo chegando com um nível de metal mais alto no sangue. E ele não sabe lidar com isso porque não foi preparado, não é culpa do profissional de saúde. Então eles precisam de protocolos de treinamento específicos para essas regiões. O Estado tem que oferecer uma rede de laboratório. A vigilância ambiental tem que entrar. Não pode passar seis anos e a população não sabe se esse metal está na poeira, no solo, na alface que ele come. Isso é inadmissível. Então essa pesquisa tem que ser feita. Porque a medida no sangue e na urina é uma medida indireta da explosão ambiental. O ambiente está contaminado e é isso que a gente tem que correr atrás. Então essa estrutura do serviço de saúde precisa ser repensada e de fato melhorada para atender de forma adequada e mitigar esses impactos que a gente tem visto lá.
E é só saúde, Sérgio? Você falou das políticas ambientais, mas como é que fica a integração das políticas? Acho que vocês trazem muito a questão da educação também, da importância.
É como a gente vê, né, esse trabalho com as crianças. Eu acho que a escola, por exemplo, ela é um ambiente fundamental pra um trabalho, né, pra neurodesenvolvimento infantil, pra acompanhar a caverneta, pra saber se a criança tá evoluindo bem. Então, eu acho que isso tem a ver com a criança do ministério, eu acho que isso tem que ser preenchido.
Por quê?
Numa região dessa, em que eu posso ter influência no desenvolvimento infantil, esse acompanhamento é fundamental. A escola é um ambiente importante para fazer isso. E como eu disse anteriormente sobre a vigilância ambiental, que a gente tem percebido, sabe Zé Marcelino, nesse período que a gente está lá, é uma falta de integração, como você está comentando então. A área da saúde, a Secretaria, tanto de Estado quanto Municipal de Saúde, tenta de tudo para dar conta. Mas é uma questão intersetorial que não tem sido respondida bem. Então, por exemplo, o ambiente, a Secretaria de Meio Ambiente, outros órgãos, ele está completamente afastado das nossas discussões. Isso a gente tenta, a gente chama, convida, a gente não tem nenhum retorno. Então, assim, é como se fossem dois construtos diferentes, saúde e ambiente. Está faltando essa integração para de fato chamar as outras secretarias, outras responsabilidades, porque a degradação é ambiental. Isso repercursos na saúde das pessoas, é o que a gente está medindo. Então, de fato, essa integração a gente sente isso como uma fragilidade enorme das organizações, das gestões. Principalmente os dois níveis estão mais próximos aqui, o nível municipal e o nível do ensino de Minas Gerais.
E próximos passos, Sérgio? Quer dizer, você trabalha com envelhecimento, você quer ver essa população velhinho, assim como eu já estou aqui nos meus 65, estou caminhando. Quais são os próximos passos que vocês estão pensando? Volta o fortalecimento da pesquisa após esses períodos meio obscurantistas. Quais são os próximos passos?
Seria muito bom discutir o envelhecimento saudável e impromadinho, né Zeman Serena? Não é o que a gente espera pelos nossos resultados, com cargas importantes de problemas de saúde mental, físico, respiratório, enfim. Então, isso seria o ideal para aquela comunidade, para aquela população, como você já mencionou Iotini, é uma população, uma região extremamente linda de meio ambiente, de tudo, eu acho que isso a gente tem que pensar. Bom, a nossa ideia é, esse financiamento a gente tem até para concluir a pesquisa esse ano, então a gente tem cinco anos de coleta de dados, mas é claro que a ideia é tentar acompanhar essa população a médio e longo prazo, até para a gente entender melhor esses impactos. Então, a ideia é dar continuidade a isso, entender melhor esses impactos e até se essas recomendações vão sendo implantadas, o próprio projeto consegue verificar o que está melhorando ou não. Então a gente consegue ser, digamos, um indicador do que está conseguindo dar boas respostas ou não e a gente vai ajustando isso no serviço. Essa foi a proposta do Ministério da Saúde. Vocês investigam a população, informam os gestores, eles fazem intervenções e vocês continuam monitorando para saber se isso está se resolvendo, o que está piorando, o que está melhorando. Essa é a nossa proposta, sempre servir como instrumento para que o SUS se prepare de forma mais adequada para esses atendimentos. Espero que a gente consiga, ao longo do prazo, com a colaboração da população, que tem sido muito importante para nós, mas também para eles verem mudanças, que eu acho que a gente já está lá há cinco anos e eles estão sentindo pouca melhora. Então, acho que isso também a gente tem que conversar e pensar em como avançar.
Muito bem, o programa Ambiente é o Meio de hoje conversou com o pesquisador da Fiocruz, Minas e professor da UFMG, Sérgio Vianna Peixoto. Esperamos reencontrá-lo, Sérgio, daqui a um ano ou dois com dados que as políticas estão dando resultado e para isso nós usamos de política. Gostaríamos de agradecer a nossa equipe de produção que torna possível esse programa que já está indo para 19 anos, Gabriel Soares na coordenação a Beatriz Pavan na produção das entrevistas e a Beatriz de Oliveira na divulgação. Então agradeço muito, Sérgio. A equipe nossa é José Marcelino, Marcelo Pereira de Souza e Débora Piotto. E deixo esse minuto final aí para a sua despedida. Obrigado.
Obrigado, Zé Marcelino. Eu que agradeço o convite. Parabéns à iniciativa. Não conheci o programa, confesso. Então, eu estou engateando na área ambiental. Eu estou aprendendo muita coisa e fico à disposição para mostrar os seus dados de fato e a gente discutir e avançar um pouco nisso e também o papel de conscientizar a população como um todo desse nosso ambiente. Obrigado pela oportunidade.
Você acabou de ouvir, Ambiente é o Meio.
Produção e apresentação, José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema, Evandro Navarro. Sonoplastia, Mario Valdo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br.
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