Ambiente é o Meio #45: Distúrbios climáticos fazem desaparecer espécies do rio Amazonas ainda nem descritas pela ciência
6 Jul 2022 · 26 min
Biologist Gabriel Soares de Araújo discusses how the Amazon River's freshwater plume creates a barrier that shapes marine life off Brazil's coast. Genetic analysis found at least 15 fish species unknown to science in this region, but climate change and rising sea levels threaten to erase them before we even know they exist.
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Está no ar, Ambiente é o Meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o Meio.
Boa tarde, ouvintes da Rádio USP. Estamos iniciando mais um programa Ambiente é o Meio. Hoje recebendo o biólogo e pesquisador Gabriel Soares de Araújo. Gabriel, muito obrigado por ter aceito participar da nossa prosa ambiental aqui no Ambiente ao Meio. E o nosso assunto vai ser o deságue, a chegada do Rio Amazonas no mar. Vamos conversar sobre isso. Gabriel, para iniciar a nossa conversa, gostaria muito que você, de uma maneira bastante sucinta, contasse um pouquinho sobre essa trajetória profissional.
Legal. Boa tarde, Marcelo. Boa tarde a todos os ouvintes. É eu que agradeço o convite para poder falar um pouquinho desse trabalho. E, bom, sobre a minha trajetória, ainda está bem no comecinho, né? Eu sou formado em licenciatura em biologia pela UFRJ e, em 2016, eu entrei no mestrado no Museu Nacional. mestrado em zoologia. Comecei a trabalhar com peixes recifais, que hoje é o foco principal da minha linha de pesquisa. E aí no doutorado eu continuei na UFRJ, só que fui para um polo destacado em Macaé, que é o Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade no PEM. E estou lá desde 2019 como doutorando. Passei um período de sanduíche lá em São Francisco, na California Academy of Sciences. E voltei agora, estou na reta final do doutorado, no último ano agora.
Pois é, você realmente é novo, no sentido de idade também, de academia, e já está fazendo tanta coisa importante. Isso é muito bom a gente conhecer pessoas assim. Parabéns aí, Gabriel. Bom, o nosso tema vai ser o Rio Amazonas chegando no mar. Para a gente ter uma noção da dimensão de tudo isso, Gabriel, Gostaria que você comentasse conosco um pouco daquela beleza que é a parte histórica, que foi aumentando com o decorrer dos milhões de anos, e que tamanho é isso? Porque é assustador o tamanho do Rio Amazonas e esse impacto positivo, claro, é um deságua no ar, é um impacto positivo que ele traz ali. Vamos conversar um pouquinho dele, das dimensões, desse processo histórico, por favor.
O Rio Amazonas, como a gente conhece, hoje em dia, ele começou... É porque é interessante, antes de eu falar um pouco desse processo de desenvolvimento, o que a gente conhece ali da região amazônica, da bacia amazônica hidrográfica, ele corria para o outro lado, ele ia lá para o Pacífico. Então, quando a gente teve os movimentos tectônicos, que os antes começaram a subir, lá em 10 milhões de anos, 11 milhões de anos, que o seu rendimento foi maior, então essa água que ia para o Pacífico, ali perto do Caribe, começou a vir para cá. Então, esse rio transcontinental que a gente conhece como o Amazonas, desaguando lá no norte do Brasil, ele começou a partir de 9.4 a 9 milhões de anos atrás. Só que ele não, assim como ele desaguava por outro lado no começo, ele também não era tão caldoloso, tão gigantesco como ele é hoje. Ele foi crescendo aos poucos em conjunção com o levantamento dos Andes. Quanto mais os Andes cresciam, mais ele conseguia jogar sedimento e nutrientes para o Amazonas. Então, a evolução do Amazonas é dividida em três fases. A primeira fase foi lá no comecinho, o Amazonas ainda recém-nascido e ela durou alguns milhões de anos. A gente fica falando disso, mas todas as escolas são em milhões de anos. Desde o seu início, de 9,4 até 5,6 milhões de anos, Ele ainda era um rio, já era um rio transcontinental, mas a taxa de sedimentação de água doce que ele jogava aqui no Oceano Atlântico, lá em cima, ainda era modesta. Ele conseguia criar uma camada de 5 centímetros a cada mil anos ali no assoalho do Atlântico. Segunda fase, começou antes a subir um pouco mais e aí mais sedimentos vão vindo para o Amazonas. E aí você tem um aumento de 6 vezes nessa quantidade de sedimentos. Então o que ele gerava 5 centímetros de sedimento foi para 30 centímetros. Essa fase durou de 5,6 a 2,4 milhões de anos. 2,4 milhões de anos, ele começou a ser o que a gente entende que é o Rio Amazonas hoje. Esse rio gigantesco, esse colosso que a gente tem no Brasil. E ele começa a jogar muito sedimento, muita água doce, que consegue gerar até 1,2 metros de sedimentos, de camada sedimentária a cada mil anos. Então ele começou a descer para o Atlântico, ainda de forma modesta de sedimento, mas ele foi criando força, foi criando o corpo até o que a gente tem hoje, esse rio gigantesco.
E nós estamos falando de um rio, e você, por gentileza, me corrija. Inúmeros redondos, para dar ordem de grandeza, da magnitude, da dimensão dessa bacia toda, joga por volta de 300 milhões de litros por segundo. É a água que não acaba mais. Isso significa É muito, né, Gabriel? Isso significa por volta de 20% de todos os rios lançando no mundo, só o Amazonas lança por volta de 20% dessas águas no mar. Nós estamos falando de algo realmente monstruoso, enorme. Claro, se nós estamos imaginando que tudo isso seja já há 2,5 milhões de anos sendo lançado, a gente tem que esperar alguma sistemática de ecossistema, um ecossistema mais dinâmico nessa fossa, proporcional a esse gigantismo que ele apresenta. Então, por favor, fale um pouco o que significa esse colosso desse rio chegando com esse mundo de sedimentos, o que ele promove, não provoca, ele promove ali na fossa, e que certamente é fonte da sua pesquisa.
Em relação ao que você falou do tamanho dele em relação aos outros gírios, no nosso trabalho a gente chama de, como é chamado na nossa área, de a barreira do Amazonas e Orinoco. Só que como o Amazonas é tão maior, ele é tão mais importante, a gente acaba basicamente falando sobre a evolução do Amazonas, que o Orinoco ele fica secundário, mas ele faz parte ali desse processo, mas o grosso mesmo é o Amazonas. Então, a partir principalmente desses 2.5 milhões de anos, 2.4, que gera um rio muito forte, quando a gente pensa em barreiras biogeográficas, só para dar um contexto, se eu sou um organismo terrestre, por exemplo, e passa um corpo d'água largo, o Rio Amazonas, por exemplo, e eu estou de um lado do rio, de uma margem, esse rio vai ser uma barreira para eu conseguir me locomover e ir para o outro lado. Isso é chamado de barreira biogeográfica. No mar, quando a gente vê os oceanos que parecem ser ininterruptos, a gente pensa que as barreiras são pontes de terra, por exemplo, o canal do Panamá. Ele impede o Oceano Atlântico, os organismos marinhos do Oceano Atlântico, de irem para o Oceano Pacífico. É um pedaço de terra. Mas a gente tem as barreiras que também são porosas e sem-permeáveis, que nesse caso é o rio Amazonas. Com essa quantidade gigantesca de água doce de sedimento, ele cria um ambiente naquela região da foz, que se estende por mais ou menos 200km de mar pra dentro, que é totalmente diferente do ambiente marinho. tem muita turbidez, a salinidade é mais baixa, e como a água doce é mais leve do que a água salgada, além dos 200 quilômetros para o mar, também tem uma profundidade. Então, essa pluma de água doce, ela chega a mais ou menos 30 metros de profundidade. Então, entre a superfície e 30 metros de profundidade, a gente tem essa pluma de água doce que tem toda a característica diferente do mar. Então, é literalmente o rio dentro do mar. E os organismos marinhos que têm as suas condições ótimas para sobrevivência, quando encontram essa barreira de água doce, não conseguem passar. Ou eles voltam, ou acabam com a noção. Larvas ou ovos, em geral, não conseguem sobreviver. Então, ele cria uma barreira de dispersão entre os organismos daqui da costa brasileira e do Caribe, do Golfo do México, lá no norte do Atlântico.
Gabriel, e essa barreira é um muro de água, né? É um muro de água. Gabriel, essa barreira criada pelo rio Amazonas, ele faz, claro, nós estamos falando de 9 milhões, 2,5 milhões, ele deve fazer diferença nas espécies e também derivando dessas espécies, diferenças. E se ela é tão grande, 200 quilômetros por 30 metros, deve ter a turma de cima, a turma de baixo e a turma do meio também. Conte para a gente um pouco dessa riqueza toda biológica vindo do Rio Amazonas do Mar.
Uma coisa que foi interessante que a gente conseguiu descobrir no desenvolvimento desse trabalho é que ela afeta de forma diferente. Sempre que eu estiver falando sobre o trabalho que a gente desenvolveu é sobre peixes, porque os outros organismos podem se afetar de forma diferente. Mas em peixes jessifás, que são peixes costeiros, ela afetou de forma diferente ao longo da sua evolução. Então naquela primeira fase, que ainda não era um rio tão caudoloso, apesar de ainda ter pouco desse sedimento, os bichos pequenininhos, os peixinhos pequenininhos, já começaram a não conseguir passar. Então você gera o evento de especiação. A galera lá de cima durante a evolução, o tempo evolutivo, se transformou em uma espécie e a galera aqui de baixo se transformou em outra espécie. Isso começou com os pequenininhos, os peixinhos pequenininhos. Ele foi criando força, foi criando força até o momento que até peixes grandes, peixes de 40, 50 centímetros, também não conseguiram passar. Primeiro ponto, ele promoveu uma diversificação muito grande aqui no nosso Oceano Atlântico OAS. Grande parte dos pares de espécies que a gente avaliou surgiram muito provavelmente pelo Amazonas. O Amazonas promoveu essa diversificação, então promoveu a existência de pares de espécies. E além disso, para outros organismos que vivem no fundo, logo abaixo da pluma, existe aquele ambiente que é tão único que tem diversas espécies que são endêmicas dali. Isso falando para organismos que são mais césseis, que não têm tanta mobilidade. Esponja, alga ára. Existem vários organismos por serem um ambiente tão único que só existem ali. Não existem nem no Caribe, não existem nem no Brasil. mas falando que ela fez essa promoção de diversificação aqui no Oceano Atlântico.
Sim, você começa dessa pluma e a gente fica imaginando que ela deva ser bem dinâmica. É um muro que mexe, né? É um muro que mexe. Então eu queria que você contasse um pouco dessa barreira dinâmica que acaba se formando e também que você explorasse um pouco mais sobre essa diversidade, não apenas da do endemismo existente na pluma, mas também dessa diversidade, fruto dessa pluma toda, provocou nessa região.
Além dela ter essa profundidade de 30 metros, uma coisa que influencia a porosidade dessa barreira, dos organismos conseguirem passar ou não, é o nível do mar. A gente sabe que durante os últimos milhões de anos tiveram várias flutuações no nível do mar e nos últimos 2,5 milhões de anos, que é exatamente esse período que o Amazonas ficou mais forte, a gente teve mais variação no nível do mar. Então o que acontece? Se o nível do mar está alto, essa pluma vai estar nos 30 metros da superfície até os 30 metros, só que pode existir um corredor E aí o organismo consegue passar nesse corredor por baixo. Vai ter essa parte de cima de água doce, da pluma, mas ali embaixo ele consegue passar. E aí vai lá pro caribe. Só que quando o nível do mar tá baixo, a pluma também vai tá baixo. Então ela vai ficar próxima ao fundo oceânico. Então esse corredor não existe mais. Se esse corredor não existe, a dispersão dos organismos vai ficar mais difícil e vai promover ainda mais diversificação. O que a gente achou só para peixe recifal e só para os organismos que a gente conseguiu avaliar, que foram 110 espécies, é que a gente conseguiu detectar através da genética que existem pelo menos 15 espécies aqui no Brasil que são diferentes do Caribe, mas ainda não foram descritas, ainda não foram formalmente descritas pela ciência. Então, isso são as que têm dados disponíveis, fora as inúmeras espécies que a gente ainda não tem dados disponíveis aqui do Brasil, que provavelmente também foi separado pela Amazônia. Então, ainda é uma grande diversidade subestimada, principalmente aqui no Brasil, que foi promovida pela barreira Amazônia.
Quinze espécies, não são duas.
Ao menos quinze.
Quinze, quinze. É um número assustadoramente alto. Você mencionou desse dinamismo, com muita propriedade. Agora, Gabriel, nós estamos em processo de mudanças climáticas, então se fala em aumento do nível dos oceanos, se fala em alteração de temperatura de água, como é que você, como pesquisador, entende que isso possa afetar esse processo todo do rio Amazonas chegando no Atlântico?
A primeira coisa que eu penso em relação à mudança climática, desmatamento, quando eu relaciono com essa barreira amazônica, tem a ver com duas questões. A temperatura do oceano, que a temperatura vem aumentando e vem sendo relatada em vários pontos do mundo. Então o evento caracterizado como tropicalização, então organismos que geralmente estão mais associados aos trópicos, a temperaturas quentes, eles estão conseguindo chegar em locais com água mais fria, como por exemplo Santa Catarina, vários organismos que não chegavam lá, estão chegando por lá. E a outra questão que também está relacionada a isso, se a gente pensando nessa barreira dinâmica de sobe e desce com o nível do mar. Aquecimento global de gelo das calotas polares aceleradíssimo. Se a gente tem esse aumento do oceano, esse corredor vai estar mais aberto, e aí eu posso usar um caso emblemático que a gente está vendo ocorrendo hoje em dia, que é do peixe-leão. O peixe-leão é um peixe do Indo-Pacífico que invadiu o Caribe, está todo difundido no Caribe, fez um estrago importante no Caribe, e ele começou a vir. para cá para o Brasil. Os gelados são desse ano, de dois anos atrás. Só que a corrente brasileira que flui mais do Brasil para o Caribe segurava um pouco ele, junto com a pluma do Amazonas. Só que ele consegue passar por baixo da pluma. Se esse corredor estiver mais largo, esse corredor de água salgada, vai ter mais facilidade ainda. Isso eu só estou citando um exemplo. Então todos esses distúrbios que estão acontecendo podem infelizmente ter problemas drásticos no mundo, principalmente falando aqui da costa brasileira.
Bom, Gabriel, isso a gente já está em curso, né? Agora, o que se precisa sempre levar em consideração é que as mudanças que estávamos falando no início são de milhões de anos, 9 milhões de anos, 2 milhões de anos. Essas mudanças climáticas farão com que alterações ocorram num período para a maior parte das espécies, ao menos é da sua área, mas eu leio a respeito, num período muito mais curto do que a capacidade de adaptação. Portanto, haverá perdas de espécie apenas pela modificação do ambiente, e também por essa nova correlação de organismos existentes. É uma loucura pensar nisso.
É o desequilíbrio, que é exatamente o que você falou. Os organismos naturalmente têm um tempo para se adaptar. O que a gente está fazendo em 100, 150 anos, até 20 anos, organismos não conseguem. Então, um ambiente que Foi se equilibrando durante tantos milhões de anos e você tem um distúrbio tão rápido, a chance de ter desequilíbrio e a gente ter extinções de espécies é altíssima. Inclusive espécies que a gente ainda nem conhece.
Era isso que eu ia comentar. É uma condição muito crítica, porque eu vou... Não apenas na pluma, que certamente tem um endemismo enorme, mas também, próximo, você relatou o desconhecimento dessa biodiversidade de maneira acentuada. Nós vamos extinguir sem nem saber que existiu. E com isso, todo um distúrbio, toda uma alteração nesse ecossistema. Muito se fala, apenas um passeiozinho fora dos peixes, Gabriel, mas muito se fala da possibilidade, inclusive, de muitos organismos presentes, notadamente no solo, mas também na água, provocarem epidemias, pandemias, não previstas anteriormente, exatamente por essa alteração existente. Me lembro que nós entrevistamos, Gabriel, um pesquisador da Fiocruz, e ele narrou o desastre que foi o rompimento da barragem Mariana no Rio Doce, exatamente em mosquitos e insetos que se criaram fora de controle, porque os predadores se foram. Se você guardar as proporções, é exatamente o que nós estamos provocando. Há uma mudança drástica em um período de tempo muito curto, que os organismos não têm capacidade de alteração. Mas o ser humano tem caprichado nisso, não apenas a modificação do clima global, mas especialmente na bacia amazônica, modificações drásticas. Claro, essas modificações farão com que o rio carregue segmentos diferentes, alterados, para essa pluma de 2,5 milhões de anos. E como é que isso vai ser? Esse endemismo na pluma, a própria proporção, as diferenças de temperatura que você narrou de uma dessas alterações climáticas, e mais as plumas, como é que você vê esse cenário?
É imprevisível, né? Mas eu só vejo como com produtos negativos, infelizmente. É um ambiente tão importante pra gente, o rio, a floresta amazônica. e está sendo consistentemente agredido, pesada a imprevisibilidade, porque a gente não tem como saber, mas certamente serão produtos negativos, consequências negativas em toda essa região. E aí a gente pode pensar, mais uma vez sobre peixe, quantas cidades, quantas pessoas, quantas populações precisam e necessitam dos recursos pesqueiros. E o que que a gente pode, o que que pode acontecer com essa quantidade de mudança? Então, quando a gente biólogo vem falando, a preocupação é com os organismos, é com o meio ambiente, mas também afeta diretamente o ser humano. Então, são consequências imprevisíveis e certamente serão consequências negativas.
Você menciona bem, nós estamos aqui destacando esse ecossistema riquíssimo, desconhecido, mas essa alteração modifica de maneira substancial a maneira pela qual o ser humano vive, a parte econômica afeta muito, sim. Você enxerga a possibilidade de melhorar esse cenário caso houvesse, e a gente espera que haja, um refrear desse desmatamento na Amazônia e com isso o Brasil consiga equilibrar um pouco o efeito estufa? Haverá um momento que o ser humano vai falar assim, ok, barbárie, nós temos que alterar isso porque a barbárie está instalada. Eu sempre penso que sou otimista. A barbárie pode levar a uma nova situação em função da criticidade que as coisas acontecerão. E aí você, conhecedor dessa fósfora do Amazonas, entende que essa nova configuração de manutenção de floresta, aquecimento global, um pouco mais controlado e tal. Eu quero fazer isso com uma outra barbárie que ocorre, que é a abertura de novas frentes de exploração de petróleo. E na bacia do Amazonas nós temos ali uma pretensão de exploração de petróleo. Primeira alteração, Repetindo, em duas, o Rio Amazonas permanece como está, não haverá uma alteração significativa na pluma de qualidade e quantidade. E a exploração de petróleo, como você enxerga essa alteração substancial, metano saindo para todo lado? Como você enxerga essa possibilidade de impactos do ser humano?
com muito medo. Se realmente foi explorado lá e sem... Primeiro que eu acho que não deve ser explorado. A gente tem várias fontes alternativas hoje em dia de energia e afetar um ambiente desse que a gente conhece muito pouco, um ambiente que é de suma importância, eu acho muito temerário. Sobre as perspectivas eu tenho Eu tenho que acreditar, eu tenho perspectivas, apesar das nossas lideranças hoje em dia não darem muita esperança pra gente, eu tenho perspectiva que o mundo sabe o que tá acontecendo, isso de forma global. E essa mudança vai ter que ocorrer. A gente tá chegando num momento de inflexão, o mundo inteiro, e a gente vai ter que mudar, vai ter que melhorar o nosso meio de vida e o nosso hábito com o meio ambiente, porque da forma que dá, vai sobrar pra gente. Já tá sobrando pra gente, né? Só vai piorar.
No fundo, esse capitalismo é meio paradoxal, é capitalismo predatório. É predatório, mas ele tem que se rever, não dá. O sistema de produção e organização social, da maneira que está, chegando à área ambiental apenas como algo a ser utilizado para ganhar dinheiro, não dá para continuar. Não dá para continuar. E eu concordo, pois não?
E você pode ser verde, você pode ter uma forma de ganhar dinheiro sustentável, como a gente vê várias empresas hoje em dia. Uma das empresas que são mais valiosas do mundo é a Tesla, que apesar de toda a controvérsia em relação ao dono, ela prima por questões ambientais. A gente vê os carros elétricos, tudo isso. Então, não são caminhos dicotômicos. Ou você tem sustentabilidade ou você ganha dinheiro. Não, você pode fazer os dois. Ser sustentável e ganhar dinheiro.
É um caminho escorregadio esse. O capitalismo é insustentável na sua gênese. Ele vai ter que se reinventar um pouco, essa história de acumulação. Mas, enfim, não é o nosso objeto também, né, Gabriel? A gente só está aqui dando uma especulada. porque eu quero entrar exatamente nesse ponto, e você já mencionou, do perigo que é num ecossistema riquíssimo, desconhecido, único no mundo, nós estamos falando de um ecossistema único no mundo, as pessoas resolverem, vamos explorar petróleo e colocar tudo isso, é um perigo, uma ameaça enorme nesse processo como um todo. Sendo que tem milhares de pontos para explorar petróleo no mundo todo, E é meio como assim, o petróleo não vai dar mais para acontecer. Nessa mudança que você acredita, e eu faço coro, também acredito. Então, não há mais como ficarem novas fontes de exploração de petróleo. Tem que parar, isso não tem mais jeito. E agora, imagina, novas fontes de exploração de petróleo num ecossistema tão rico como esse. Realmente é muito... É quase inaceitável, né, Gabriel? Nesse sentido. Gabriel, algo que você queira, nessa pesquisa, destacar, sim, em primeira mão, falar. Nós estamos aqui com a conclusão, com um reparo diferente no olhar, porque ela é muito rica essa pesquisa, é um grupo bastante grande que você integra. É um privilégio participar de um grupo como esse. Parabéns ao grupo todo. Eu queria que você destacasse para a gente finalizar a nossa conversa.
Esse trabalho começou, a gênese dele foi há 10 anos atrás. Durante 10 anos, eu comecei assim que eu comecei o doutorado, mas a ideia surgiu 10 anos atrás. E aí foi desenvolvendo, o trabalho foi criando novos caminhos durante esse desenvolvimento. Eu acho que a coisa mais bacana aqui, as duas coisas mais bacanas para citar, É exatamente essa questão do dinamismo da barreira, que ela afeta os organismos de forma diferente e o tamanho é uma característica crucial para isso. Se você é pequenininho, você não consegue passar, é muito difícil de você passar e isso vem aumentando até afetar os grandes. E no ponto prático, principalmente falando de conservação, é sem dúvida a quantidade, a grande quantidade de espécies que a gente ainda não tem escrita e a maioria para o Brasil. Se você pega uma fração das espécies que foi o que a gente pegou, 110 espécies, você encontra 15, ao menos 15 espécies novas, eu fico imaginando o que a gente ainda tem de espécie nova para conhecer aqui no Brasil. Hoje, o Brasil é um grande gap de conhecimento, porque esse foi um estudo que foi feito baseado em genética. Genética ainda é cara no Brasil. Então, quando você procura nos bancos de dados genéticos, que foi o cerne do trabalho, A maioria da comparação que faltava era aqui no Brasil. Então, o que a gente conseguiu comparar já achou essa diversidade que eu acho muito grande, muito subestimada. Então, imagino o que a gente ainda tem para descobrir aqui no Brasil. E é importante citar que várias dessas 15 espécies são organismos conhecidos, que a gente consegue pescar, a gente tem contato com esse organismo, mas a gente achava que era a mesma espécie do Caribe, mas não, são espécies diferentes. Então, mesmo organismos que são fáceis de acesso, a gente tem essa diversidade. Imagina os organismos do mar profundo, os pequenininhos que são negligenciados. Então, a gente tem uma diversidade absurda ainda para catalogar e descobrir.
Muito bem, Gabriel. Infelizmente, nosso tempo se esgotou. O Programa Ambiente, ao meio de hoje, teve o privilégio de conversar com o biólogo, pesquisador Gabriel Soares Araújo, Gabriel, eu preciso agradecer muito a Suyane Azenha, nossa super assessora e estagiária, os trabalhos técnicos do Sr. Xará, Gabriel Soares também, sem ele nada é possível, e agradecer mais uma vez, em nome do Zé Marcelino e eu, Marcelo Pereira, bastante você, sua equipe toda, a equipe que você participa, parabéns a todos, um trabalho sensacional, maravilhoso, e agradecer a sua participação aqui conosco.
Muito obrigado, Marcelo. Foi muito legal falar um pouco do trabalho e fiquei muito honrado de poder participar com você.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio. Produção e apresentação José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema Evandro Navarro. Sonoplastia Mário Ovaldo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br
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