Ambiente é o Meio #6: Apesar da degradação, boa parte da biodiversidade da Mata Atlântica ainda resiste, diz especialista
11 Aug 2021 · 28 min
Jean-Paul Metzger, ecólogo da USP, explains that despite degradation, the Atlantic Forest still holds significant biodiversity. Only 12-16% remains in larger fragments, but regeneration between 2009-2015 offset deforestation. Old-growth forests continue disappearing while young forests regrow, and coffee farms near forests see 10-30% productivity gains from pollination and pest control.
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Está no ar, Ambiente é o Meio.
Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia.
Ambiente é o Meio.
Olá, ouvintes da Rádio USP. O programa Ambiente é o Meio de hoje tem a alegria de conversar com o professor Jean-Paul Metzger, que é professor titular do Instituto de Biociências da USP. Vou chamá-lo de Jean, de uma forma mais informal, e peço para você começar a falar um pouquinho sobre a sua formação, o seu currículo é gigantesco, mas resume um pouquinho aí, Jean, sua formação e trajetória profissional.
Tá bom, obrigado Zé Marcelino. Obrigado pelo convite, pela oportunidade de falar com vocês. Eu sou biólogo formado pela USP, aqui em São Paulo mesmo. Eu sou franco-brasileiro, meu pai era francês, minha mãe é brasileira, e quando eu acabei biologia, acabei indo para a França, e lá fiz o mestrado, o doutorado, dentro de uma área que chamava manejo integrado de território. E aí eu conheci Ecologia da Paisagem, acabei tendo primeiros contatos com sensoramento remoto, com imagem. Eu sou uma pessoa muito espacial, geográfica, adoro mapas, imagens, fotos. E aí comecei a aliar essa questão de entender o espaço e como que o espaço afeta processos ecológicos, e aí eu caminhei dentro da ecologia da paisagem, me formei na França em 1995, no meu doutorado dentro de ecologia de paisagem, já numa área de fragmentação de Mata Atlântica, E aí eu voltei pra cá, com muita sorte, teve um concurso em 1996, entrei na USP novinho, com 31 anos, e aí desde então tô aí batalhando, trabalhando com fragmentação, com paisagem, a ecologia da paisagem despontou. Quando eu cheguei aqui, pô, as pessoas, muitas não conheciam, não sabiam o que que era ecologia da paisagem, muitas vêm me perguntar o que que é ecologia da paisagem, e hoje em dia, assim, tem gente trabalhando em todos os cantos, né, de UNG, empresa nas universidades, vários cursos. Então tive esse privilégio de ver essa área florescer junto com o desenvolvimento da minha carreira.
Muito bem, Jan. De um lado, floresce também porque as notícias não são boas. Tem alguns temas, às vezes, que crescem exatamente em função dos desafios ambientais. E hoje vamos falar bastante de Mata Atlântica. Então, vamos explicar um pouquinho para o ouvinte o que é um pouco, o que caracteriza, o quanto resta. Sempre a gente vê aquele mapa que vai mostrando a Mata Atlântica sumindo. Fala um pouquinho, então, dessa sua companheira de longa data.
O Mata Atlântica é essa mata que está aí junto com a gente, que os portugueses chegaram aqui, encontraram esse maciço, um maciço florestal, para subir, procurar ouro, que eles queriam, tinha essa grande dificuldade, mas enfim, é É um conjunto de florestas, aí você tem florestas mais ombrófolas, onde chove muito, tem as mesófilas semidescidas mais para o interior. um... A gente tem um conjunto de formações florestais mais secas, mais úmidas, de altitude ou de baixadas, enfim. e que vai ao longo de toda a costa, então é uma área bem importante, onde a gente tem 60, 70% da população brasileira, também um equivalente em termos de PIB, boa parte da população brasileira vive, produz aqui, então é a mata que a gente convive, Então, em São Paulo, olho a minha janela aqui, vejo pedaços de mata atlântica, remanescências de mata atlântica. Enfim, é, bom, pelo fato da gente, dos portugueses chegarem e a gente se ocupar o espaço, sim, foi a primeira mata que a gente degradou, que a gente desmatou, que a gente fragmentou. Então, tem essa questão, essa preocupação muito grande do processo de degradação num ambiente que é muito rico, que é muito biodiverso. Mas, assim, tem notícias ruins, né? A gente vê esses mapas da Mata Atlântica reduzindo substancialmente, mas a gente também sabe que boa parte da biodiversidade ainda permanece e boa parte da minha pesquisa ao longo desses últimos 20 anos foi justamente de entender em que condições espaciais essa biodiversidade consegue permanecer, mesmo a gente estando dentro de paisagens funcionais, paisagens agrícolas. Então, o fato, por exemplo, de você ter ramanessintes conectados por corredores ou de você ter uma cobertura no total, mesmo considerando pequenos fragmentos de mais de 30%, a gente sabe que essas condições de conectividade, de cobertura de 30% são condições adequadas para você manter a biodiversidade. o que dá um alento, no sentido que, bom, então posso usar 70% do território para produção, para ocupação, para urbanização, e manter 30%. Quer dizer, tem soluções, a gente consegue, digamos, manter parte da biodiversidade com áreas produtivas. O quanto fica de Mata Atlântica é uma questão bem interessante. Acho que muitas das pessoas que devem estar ouvindo aqui falam que tem 7, 8% de Mata Atlântica. Esse é um dado que a SOS Mata Atlântica divulgava, que é um monitoramento histórico extremamente importante que eles fazem, fizeram. Mas esse 7, 8% equivale a fragmentos com mais de 100 hectares. e bem preservados. Então é uma parte do bioma Mata Atlântica, uma parte da cobertura. Na realidade a gente tem muito mais Mata Atlântica. Quando você começar a incluir fragmentos menores, esse valor aumenta muito. Então quando você passa, por exemplo, um linear de 3 hectares, E mesmo considerando matas boas, a gente já sobe para um patamar de 12% a 16%. Ou seja, a gente tem ainda 12% a 16% da cobertura original mantida hoje em dia em fragmentos de 3 hectares ou mais, com uma estrutura boa. E aí muito recentemente, uns 2, 3 anos atrás, a gente lançou um outro estudo que foi feito com imagens de alta resolução, com um metro quadrado, a gente conseguia ver as copas das árvores, até detalhe da copa das árvores, e com esse maior detalhamento e considerando também áreas mais degradadas, florestas mais degradadas, essa porcentagem subiu para 27%. Então a gente tem ainda, considerando tudo, matas boas, matas ruins, matas jovens, velhas, tudo, a gente tem aí 27% do bioma com cobertura nativa, mesmo que degradada em grande parte e fragmentada. O que é um alento porque a gente, através de pesquisas, trabalhos de fragmentação de muito tempo, a gente mostrou que existe um limiar de manutenção da biodiversidade em torno de 30%. Ou seja, quando você tem 30% ou mais de cobertura florestal, independentemente do grau de conservação dessa floresta, você consegue preservar espécies endêmicas, espécies que são específicas da mata atlântica ou espécies mais ameaçadas de extinção, a gente consegue mantê-las dentro da paisagem, tendo as unidades de conservação como grandes mantenedores dessas espécies. Ou seja, do 26 ou 27% para o 30% não tem um caminho tão grande assim, então acho que tem uma luz no fim do túnel. pensando, principalmente, que a gente tem que implementar o Código Florestal. O Código Florestal, que é a lei de conservação de áreas nativas em propriedades particulares, ela é muito antiga, desde 1965. A gente tem um código de 1934, de 1965, estava valendo até recentemente, e aí, por volta de 2009, 2010, foi feita toda uma discussão e reformulação desse código. Em 2012, a gente teve a uma nova lei, lei de proteção da vegetação nativa, que inclui florestas e todos os outros tipos de vegetações nativas, e que é um novo marco, digamos, não vou entrar nessa discussão, eu ainda preferi o marco de 1965, mas o de 2012, de qualquer forma, a gente precisa se adequar a esse código 2012, e no caso da Mata Atlântica, para nos adequarmos ao código 2012, a gente precisa ainda restaurar cerca de 6, 7 milhões de hectares. Então, considerando que hoje em dia a gente tem 28 milhões de hectares de cobertura, mais ou menos, a gente possivelmente vai chegar nos 35 milhões. E se a gente implementar de fato o Código Florestal e não ultrapassear de novo, como ultrapasseou em 2012, a gente tem essa perspectiva de profissionais acima do Linhar, pelo menos parte das nossas paisagens de Mata Atlântica acima do Linhar de 30%. De fato, é a mata que está aí, que embeleza a nossa vida, que a gente convive há tanto tempo, que a gente degradou há muito tempo, mas que eu acho que nesse momento a gente está numa tendência de reversão. E a gente sabe que se a gente quiser manter a diversidade biológica da Mata Atlântica, não basta conservar o que tem, a gente precisa ir além, a gente precisa restaurar. E esse é o grande desafio que a gente tem para a Mata Atlântica, é a restauração dessa mata, a recuperação ou estímulo à regeneração natural em muitos locais, não precisa ter um investimento financeiro pesado, restauração custa caro, mas se você estimular a regeneração natural através das sementes, chuva de sementes, o fluxo dos animais que levam essas sementes e que criam a mata novamente, pouco a pouco, a gente consegue recuperar boa parte dessa Aí
você trouxe vários elementos muito ricos. Às vezes basta uma cerca já ajuda, não deixar o gado pisotear. Esse código a gente critica muito, mas pelo menos que se cumpra, já que ele está aí, e que se avance. Mas o ponto que eu queria colocar é que você participou e coordenou um estudo recente que mostra que uma parte dessa Mata Atlântica, com a boa notícia que já estamos falando num patamar das dezenas, no percentual de quase três dezenas, e não no 7%, mas tem muita mata recuperada, muita mata mais recente. Então eu queria que você explicasse um pouquinho o que é uma mata antiga, como se diz lá em Minas, o que é uma mata velha, o que é uma mata mais recente e por que essa diferenciação é importante.
O Zé Marcelino, a gente tem imagem de satélite, satélite norte-americano, Landsat, com resolução de 30 metros, desde 1985. Então, de 1985 para cá, a gente consegue ter imagem todos os anos, ou até várias imagens por ano. Então, a gente consegue acompanhar detalhadamente a evolução da cobertura florestal de 1985 para cá. E aí, olhando essas imagens anualmente, a gente começou a perceber que tá tendo regeneração. E principalmente de 2005 pra cá, tá tendo muita regeneração. A gente inclusive fez um cálculo, não vou lembrar os números de CORE, mas se não me engano, de 2009 a 2015, mais ou menos, com uma faixa de 5, 6 anos, a gente teve 500 mil, 600 mil hectares de regeneração. Quer dizer, é um valor substancial. E isso, o monitoramento da SOS Mata Atlântica, que é o mais tradicional, que é extremamente importante, não estou criticando, eles não olhavam a regeneração, eles só olhavam o desmatamento. E, no entanto, a gente tem notícias ruins, mas a gente tem notícias boas. Então regenera. A questão é que regenera e desmata. E no balanço, atualmente a gente está em um balanço líquido zero. A gente desmata tanto quanto regenera. Então, claramente, a gente tem que ter uma estratégia de conservação, de redução do desmatamento, muito grande parte do desmatamento é ilegal, e de estímulo à regeneração e à restauração. O problema que a gente mostrou nesse artigo da Science é que a gente está perdendo matas mais velhas, matas que já estavam desde 1985 ou anteriores, matas centenárias, que são as matas com mais biomassa, que são as matas com maior biodiversidade, que são as matas mais importantes para a estabilização do solo. Então elas prestam um conjunto de serviços ecossistêmicos, de estabilização climática, de proteção da biodiversidade, de garantia de recursos hídricos, que é mega importante. As matas mais jovens, elas também têm essas funções, só que num nível menor. Elas têm menor biodiversidade, menor biomassa. Então, a gente precisa que essas matas jovens envelheçam. E o que está acontecendo? A gente está desmatando tanto quanto regenera. Só que a gente está desmatando matas boas, mais velhas, e regenerando matas mais jovens. A gente está perdendo uma coisa boa para uma coisa não tão boa. Tem que regenerar. E outro problema que a gente está vendo é que essa regeneração muitas vezes é interrompida depois de 5, 6 anos. O proprietário, que é esperto, ele conhece a lei, ele sabe que depois de um certo estágio de desenvolvimento sucessional, ele não tem mais direito de usar aquela área se tiver uma mata formada. Então o que os proprietários muitas vezes fazem, quando eles estão presentes no terreno, eles deixam, eles abandonam algumas áreas para garantir a possibilidade de uso futuro daquela área e eles acabam desmatando aquela mata jovem. Então a mata jovem nunca envelhece. A gente perde mata boa, ganha mata jovem, que nunca envelhece, o que não é bom. Então, na realidade, a gente tem vários desafios. O desafio número um é de manter essas matas mais velhas, e é incrível que numa faixa mais envolvida do país, onde a gente tem instituições bem estabelecidas, a gente tem secretarias estaduais, de meio ambiente, a gente tem muitas vezes prefeituras bem estabelecidas também, ou seja, a gente tem um sistema de governança e de fiscalização que deveria evitar, a gente não tá lá nos confins da Amazônia, a gente deveria evitar esse desmatamento e infelizmente Não, a gente está perdendo e está perdendo matas boas, então alguma coisa de errada está acontecendo. E por outro lado, como falei para vocês, a gente tem que estimular a regeneração e o nosso instrumento maior é a lei de proteção da vegetação nativa, o novo código florestal, que precisa ser implementado. O pior que ele tenha sido, comparado com o 1965, e por mais perdas que a gente tenha tido, a gente tem que implementar. Ele tem coisas boas, tem mecanismos, mecanismos de pagamento do serviço ambiental, a gente tem o cadastro ambiental rural, então a gente tem mecanismos de controle e de estímulo financeiro para que essa regeneração aconteça.
Uma dúvida que me apareceu é a seguinte, e essas matas mais recentes, quer dizer, quanto tempo elas levariam, se é que levariam para recuperar uma biodiversidade? Isso é possível? Eu queria que você comentasse também, porque a gente vê muito críticas às vezes à questão da fragmentação, porque a gente vê muito, eu moro aqui em Ribeirão Preto, eu e o Marcelo, E assim, são aquelas matinhas isoladas, muitas vezes sem os corredores. Isso também é um problema, professor?
Matas pequenas são importantes. Acho que a gente não deve... Obviamente que matas grandes, com idades mais avançadas, são os hotspots da biodiversidade e são prioridades número um. No entanto, a gente não vive só dessas matas, que em geral estão em termos de unidade de conservação. A gente precisa que essas grandes matas, bem conservadas, mais velhas, sejam conectadas via fluxos gênicos. E esses fluxos gênicos só vão acontecer através de fragmentos menores, através de corredores. Então, essas matas têm uma importância de ligação, de manutenção de partes da biodiversidade, de oferta de serviços ecossistêmicos. A gente tem dados agora, estou trabalhando em Minas Gerais, no sul de Minas, região Oceana, onde tem muito café, a gente mostrou que as abelhas e alguns predadores que estão na mata provêm serviços de polinização e de controle de praga, que são extremamente importantes, que aumentam a produtividade de 10 a 30%. Não é pouca coisa, é muita coisa. Então, tem um benefício muito grande de você manter a mata para além da conservação da biodiversidade. O quanto tempo demora é muito tempo, infelizmente é muito tempo. Então a gente consegue ter uma estrutura florestal, depende, né? Está degradado, a condição do entorno, da paisagem e tal, mas a gente consegue ter uma estrutura florestal depois de uns 10, 15 anos, recuperação parcial da biomassa em questão de 20, 30 anos, a biodiversidade pode levar muito mais. A gente recentemente também conseguiu mostrar que matas de menos de 20 anos não contribuem tanto com polinização no café, quanto matas mais velhas, o que é mais um indicativo aí que a gente precisa deixar essas matas envelhecerem. Se tornar velho é bom nesse caso. Mas, enfim, eu não quero tirar o mérito e a importância, não quero que um proprietário diga que uma mata fragmentada, com efeito de borda, degradada, não. Ela tem a sua importância no conjunto. Ela isoladamente, se fosse só ela no meio de um canavial, pode ser que não tivesse tanta importância. Mas um conjunto de pequenos fragmentos que fazem com que os gaps, os intervalos entre os fragmentos sejam reduzidos, isso torna a paisagem mais permeável aos fluxos gênicos. A gente precisa desses pequenos fragmentos, mesmo que degradados, mesmo que sob efeito da fragmentação, a gente precisa deles, eles são importantes. E eles podem ser fontes de regeneração. Ilhas a partir das quais a gente tem a regeneração no entorno dessas áreas. Então tudo que a gente tem, independentemente do grau de conservação, é importante. O esforço é de manter o que a gente tem e ir além através da implementação do Código Florestal e da restauração e regeneração.
Até porque uma árvore no meio de um canavial pelo menos é um pozo, não é, professor? Um passarinho que esteja em busca de uma companheira. Esses dias eu passei aqui, não era nem uma árvore direito, mas tinha um tratorista debaixo pegando um pouquinho de sombra, que era o que sobrou. Mas agora, eu queria que você comentasse um pouquinho nesse caminho que você já abriu aí, nessa vereda, que é a ideia das políticas de recuperação. A gente vive um momento no Brasil que parece até falar de outro mundo, falar em políticas de recuperação. Mas acho que você tocou num ponto, quer dizer, que hoje é o próprio setor privado que está percebendo o impacto fundamental. Eu venho de Minas Gerais, antigamente toda fazenda tinha sua mata, que o fazendeiro se orgulhava, ali tinha sua mina d'água, aquele palco. que ninguém mexia, quer dizer, você acha que existe alguns sinais, quer dizer, você disse que já tem algumas estatísticas já estão apontando, mas poderia haver algumas políticas no sentido, a gente já discutiu em área urbana, desconto de IPTU, poderia pensar algo no ITR, mas o ITR no Brasil não é cobrado mesmo, então não ia resolver muito, mas quer dizer, você vê alguns caminhos nesse sentido, é mais uma questão de conscientização, além de cobrar o Código Florestal com suas limitações, teria algumas políticas de indução?
Eu acho que tem vários caminhos e eles não são excludentes. Então tem o top-down de você exigir a implementação do Código Florestal, existem as políticas de incentivo, no sentido de você fazer um pagamento para o serviço ambiental para a pessoa manter, ou restaurar parte da sua propriedade, mas eu, pessoalmente, acredito muito que, através da conscientização que os proprietários têm da importância, do valor, do benefício que eles têm da mata, é que a gente vai conseguir ter mais resultado. Eu digo isso, pode ser que eu seja otimista demais, então, só contando uma história, A gente tem esse dado do 30% de aumento da produtividade do café, que é um dado robusto, a gente replicou, a gente tem uma estatística por trás, não é um local assim, são vários locais, várias condições. Enfim, eu fui apresentar esse dado em Minas Gerais, em Poço de Caldas, para os produtores de café. Os caras não acreditavam. um proprietário em mim. Não, não é possível. Então, obviamente que é muito difícil, assim, quem traz essa notícia tem que ser uma pessoa que trabalha, né, de assistência técnica rural, que tá junto com esses proprietários, então tem uma parte de convencimento que é institucional, que não é, sei lá, um pesquisador que vem, traz um dado que vai convencer um proprietário que aquela mata é importante. Mas assim, quando o proprietário percebe que a mina secou porque ele desmatou, ou quando, digamos, ele percebe que a mata influencia na produtividade do seu cultivo, eu acho que a gente começa a ter uns elementos que são relevantes. Atualmente, eu estou com um aluno de doutorado que está fazendo um estudo do custo da implementação da restauração versus o benefício que a pessoa tem através dos serviços acustêmicos, desses benefícios que os proprietários têm. E muitas vezes esses benefícios não compensam totalmente os custos, mas está ali, sabe? Então se a gente consegue mostrar que o proprietário vai ter benefícios de manter a sua floresta, na sua propriedade, através do aumento da sua produção, eu acho que esse é um caminho dos mais promissores, no meu entender. Mas obviamente que isso é um processo relativamente lento, né? E por isso que a gente precisa ter várias estratégias, né? Então, desde comando-controle, que é o top-down, de você impor uma lei, de você impor um conjunto de regras, desde o incentivo financeiro, que eu acho que é legal, desde ICMS ecológico, o fato de você ter, também em alguns casos, quando você tem exportação, café de certificação, e na certificação você impõe alguns critérios de restauração, de manutenção, de cobertura. Então a gente tem vários caminhos, e a gente tem, em função do proprietário da situação, do contexto, inclusive social e cultural, a gente tem que usar uma combinação desses caminhos. Não é só o pagamento por serviço ambiental que vai solucionar, mas o pagamento por serviço ambiental mais o novo Código Florestal funciona. Essas duas coisas combinadas. Então acho que é essas combinações de políticas públicas que a gente tem que estudar, entender melhor e ver o que funciona. A biologia da conservação ela esteve durante muito tempo olhando apenas as notícias ruins, o desmatamento, a fragmentação, a degradação. as perdas, né? E a gente está caminhando agora para um novo olhar, um novo momento, uma mudança de paradigma assim, no qual, ao invés de olhar apenas o processo de degradação, a gente tem que também olhar as políticas de recuperação, como que a gente consegue reverter esse processo e como a reversão desse processo também pode gerar emprego, pode fazer a economia local girar. Então, enfim, acho que o desafio nesse momento é muito mais pensar, entender, estudar, pesquisar essas políticas positivas, agenda positiva, no qual você tenta otimizar e melhorar a efetividade das políticas públicas em termos de conservação e restauração.
Enquanto você estava falando, eu me lembrei muito das políticas de financiamento também. Eu lembro que em Minas, por exemplo, os produtores de café, para conseguir financiamento no Banco do Brasil, eles tinham que fazer curvas de nível, quer dizer, dá para pensar, quer dizer, hoje a gente vive num mundo do crédito, então, quer dizer, poderiam se pensar também políticas de financiamento exigindo contrapartidas, porque na verdade o benefício seria global. Infelizmente o tempo voa aqui, né? Então eu queria deixar esse minuto final aí para os seus comentários, né? Se quisesse falar um pouquinho, talvez seja quase outro tema, mas pelo menos no monitoramento também. Eu acho que hoje não tem mais, mesmo querendo acabar com o INPE, quer dizer, hoje dá para monitorar bem esse processo, né, Jean?
Zé, eu vou usar esse minuto final, na verdade, para fazer um gancho na sua fala final. Essa questão de você associar o crédito agrícola com algumas condicionantes de conservação, isso é extremamente importante. E isso mostra como é importante que haja um movimento governamental. vai ser muito difícil a gente ter política pública de conservação e de restauração sem que haja uma articulação governamental. O momento que a gente está vivendo nesses últimos três anos é o momento negro, nesse sentido, porque a gente tem um desmonte de tudo, não é só INPE, é tudo, é ICMB, enfim. é o Konama, é toda a participação da sociedade civil na tomada de decisão. A gente tá vivendo, pelo menos o que eu lembro, um dos piores momentos da nossa história em termos ambientais. Agora, tudo isso pode ser revertido. E se não for revertido, a gente tá... Três pontinhos, vai ser difícil a gente recuperar, porque degradar é muito rápido, desmatar é muito rápido. A regeneração, como a gente falou, demora 20, 30, 100 anos. Então, para cada passo atrás que a gente está dando atualmente, a recuperação é muito mais longa. Então, acho que essa questão de reforçar as instituições governamentais, que vão dar a base dessas políticas públicas, isso é importantíssimo. E isso vai passar pelo bom voto no ano que vem.
Muito bem. O programa Ambiente é o Meio de hoje conversou com o professor Jean-Paul Metzger, que é professor titular do Instituto de Biosciências, que a gente agradece muito nos trabalhos técnicos, o Gabriel Soares, na produção a Suyane, a Zenia e a Nathalie Stefani, meu companheiro Marcelo Marini Pereira de Souza, que acompanha aqui a nossa conversa. Muito obrigado, Jean. Foi um grande prazer.
Obrigado a todos vocês pela oportunidade.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio.
Produção e apresentação, José Marcelino e Marcelo Pereira.
Música tema, Evandro Navarro.
Sonoplastia, Mário Ovaldo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br
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