Ambiente é o Meio #7: Florestas transformadas em pastagens geram bactérias resistentes
18 Aug 2021 · 25 min
Neste episódio da série “Ambiente é o Meio”, o apresentador Marcelo Pereira entrevista o biólogo e pesquisador Lucas William Mendes, do SENA/USP, para discutir as consequências do desmatamento da Amazônia sobre o microbioma do solo e a emergência de bactérias resistentes a antibióticos. Lucas descreve sua trajetória acadêmica e seu foco em microbioma de solos agrícolas. Ele explica que a diversidade microbiana do solo, essencial para ciclagem de nutrientes e saúde das plantas, é drasticamente alterada quando florestas são convertidas em pastagens ou áreas agrícolas, levando à perda de bactérias benéficas como as fixadoras de nitrogênio. Usando metagenômica, seu grupo constatou que essas mudanças de uso do solo aumentam a abundância e a diversidade de genes de resistência a antibióticos (ARGs). Embora ainda não haja evidência direta de transmissão desses ARGs à cadeia alimentar humana, o risco de disseminação via alimentos e gado é apontado como uma preocupação de saúde pública. Além disso, a alteração do microbioma influencia emissões de gases de efeito estufa, como metano e óxido nitroso, porque a composição de bactérias produtoras e consumidoras desses gases muda. Lucas propõe estratégias baseadas em microbiologia para mitigar esses efeitos: uso de inoculantes, agroflorestas, rotação de culturas, manejo que preserve a saúde do solo e reduza insumos artificiais. Ele também discute políticas públicas e incentivos de mercado, como selos verdes e certificações sustentáveis, que poderiam estimular práticas agrícolas menos impactantes e a recuperação de áreas degradadas. O diálogo enfatiza a necessidade de maior investimento em pesquisa, parcerias entre academia e setor privado, e comunicação eficaz dos benefícios econômicos da ciência para a sociedade.
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Está no ar, Ambiente é o Meio. Uma conversa sobre as questões do nosso dia a dia. Ambiente é o Meio.
Boa tarde, ouvintes da Rádio USP. Estamos iniciando mais um programa Ambiente é o Meio. Hoje, temos o prazer de receber o biólogo e pesquisador Lucas William Mendes. Vamos conversar sobre os matamentos na Amazônia e as bactérias resistentes a antibióticos identificados. Lucas, muito obrigado pela sua participação, sua disponibilidade em conversar conosco. Para a gente começar, conte de maneira bem sucinta, bem rápida, a sua trajetória profissional, que você já andou fazendo e fez bastante. É moço, mas já fez muita coisa.
Olá, Marcelo. Olá, ouvintes. Obrigado pelo convite, primeiramente, por participar, discutir um pouco aqui dos trabalhos que tenho desenvolvido. E, rapidamente, sou biólogo formado pela UNESP de Rio Claro. Logo depois, então, eu fui para o mestrado na USP em Piracicaba, ali no campus de Piracicaba de Exalca, mas é mais especificamente no SENA, que é o Centro de Energia Nuclear na Agricultura. Fiz meu mestrado, meu doutorado, fiz parte do doutorado na Holanda. Aí fui partir pro pós-doutorado, fiz pós-doutorado também na Europa. E atualmente eu sou responsável por um auxílio de jovem pesquisador da FAPESP. Então eu sou pesquisador colaborador ali no centro. Então tenho minha linha de pesquisa, tenho meus alunos pra desenvolver. E eu trabalho basicamente com microbioma. Que é estudar os microorganismos de solos ligados à planta e agricultura no Brasil. E é basicamente isso que eu tenho feito.
E já é muita coisa, Lucas. Lucas, vamos conversar um pouco sobre um trabalho de vocês que acabou de ser publicado e tem gerado bastante discussão, que é a respeito do aumento dessa diversidade de bactérias resistentes a antibióticos, a partir do processo de desmatamento da Amazônia. Ele tem um fluxo contínuo de desmatamento, infelizmente. Como é que é isso? Você pode começar iniciando essa explicação para a gente?
Então, parte das minhas pesquisas de doutorado e também no laboratório que eu faço parte da professora Tsai, nós estudamos bastante o efeito desse desmatamento, dessa mudança do uso do solo para a comunidade de bactérias do solo. Por que é importante a gente estudar isso? Porque a diversidade microbiana do solo, ela é a mais abundante em relação a qualquer outra diversidade que existe. E ela é importante para quê? Ela é importante para a ciclagem de nutrientes, para a metabolização de alguns compostos. Então muitas coisas, muitos serviços ecossistêmicos que tem relação com saúde e crescimento de planta, passa pelos micro-organismos do solo. Então a gente falou, o que acontece quando a gente tem uma floresta E a gente desmata essa floresta e transforma numa área de pastagem e numa área de agricultura. Então, esses foram os primeiros trabalhos. A gente conseguiu observar, por exemplo, que há uma diferença na diversidade. A gente muda a estrutura das comunidades ali. A gente perde algumas bactérias importantes que existiam na floresta e agora nessas áreas não tem mais. Eu posso citar um exemplo, Marcelo? Bem prático. Por exemplo, as plantas, para crescer, precisam de nitrogênio. E o nitrogênio, 70% da nossa atmosfera é nitrogênio. Só que as plantas não conseguem captar esse nitrogênio da atmosfera. Elas captam através de uma forma de amônia ou nitrato no solo. E quem transforma o nitrogênio atmosférico atrás do ar e coloca ele no solo são as bactérias. E a partir do momento que a gente desmata de qualquer forma uma floresta, a gente começa a perder essa diversidade. a gente diminui a abundância desses micro-organismos que fazem essa fixação natural. O que a gente tem que fazer então para crescer uma agricultura? Colocar um nitrogênio artificial, fazer a fertilização. Então entender esse processo, como a gente pode trazer essa comunidade benéfica da floresta para as áreas de agricultura e pastagem para promover uma agricultura mais sustentável é uma ferramenta muito importante que vai ser usada com certeza no futuro.
Seguramente, seguramente. Lucas, então vocês nessa próxima etapa além dessa identificação, dessa seleção natural de micro-organismos a partir do desmatamento, e, portanto, com a perda de alguns que você mencionou, extremamente importantes nesse processo de funções ambientais, vocês identificaram que nesse desmatamento, nesse processo todo de desmatamento, queimada, seleção e etc., houve o processo de diversificar ou melhor, de aumentar o número de bactérias resistentes aos antibióticos. Como é que foi isso? Como é que vocês chegaram a essa conclusão? O que você pode nos contar?
Exatamente. Então a gente fez todos os trabalhos, a gente avaliou o que muda, quais bactérias aumentam, quais diminuem, a gente consegue acessar também as funções dessas bactérias através da metagenômica e biologia molecular, e atualmente esse aumento de genes de resistência antibiótica se tornou um dos três principais pilares de problemas de saúde pública mundial, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. E a gente sabe que as bactérias tem esses genes. E a gente pensou, o que será que acontece? Já fizemos todos os trabalhos, mas nós temos os dados para poder analisar o que acontece com essas bactérias quando a gente desmata essa floresta e transforma em área de pastagem e agricultura. Então só para explicar, o que são esses genes de resistência antibiótico? Então vamos imaginar que as bactérias estão no solo sobrevivendo e tem milhares delas. Elas precisam brigar umas com as outras para conseguir seu espaço ali e seu alimento. E uma das ferramentas que elas usam é a produção de alguns compostos como antibiótico para tentar matar a outra bactéria. Algumas delas se defendem com genes que quebram esse antibiótico. Esses são os genes de resistência. Então a partir do momento uma bactéria vai soltar um composto químico, a outra vai quebrar e ela não vai ser acetada. Esses são os genes de resistência antibiótico. É o mesmo mecanismo que acontece na saúde humana. Quando a gente está infectado com uma bactéria, a gente toma um antibiótico e não funciona. Por quê? Porque ela é resistente, ela tem algum gene que vai cortar, vai quebrar esse antibiótico. Mas no contexto da Amazônia, o que será que aconteceria? Então a gente sabe que isso é natural das bactérias. Só que o que acontece? Quando a gente transforma a floresta em áreas de pastagem, a gente aumenta a competição, porque a gente tá tirando a mata de cima, a gente tá queimando o solo, a gente tá colocando nutrientes, fertilizando, e isso vai ocasionar uma competição maior entre as bactérias. Então nós pegamos o DNA das bactérias e começamos a olhar se elas tinham esses genes. E se elas tinham, se eram maiores ou diferentes daqueles da floresta. E o que a gente encontrou? Que quando a gente transforma áreas de floresta em pastagem e agricultura, a gente aumenta a diversidade desses genes e aumenta a abundância desses genes de resistência a antibióticos. Então a transformação da floresta promove um aumento, um enriquecimento desses genes de resistência. Qual é o problema disso, né, Marcelo? Qual seria o problema disso? Essas áreas alteradas servem para a produção de alimento. Seja para soja, cana, seja para gado. Então, de alguma forma, talvez, num futuro, esses genes de resistência podem chegar nos seres humanos. Uma bactéria que infecte o ser humano, que seja patogênica, e tem esses genes de resistência. E por que isso é um problema? Porque as bactérias fazem transferência horizontal. Diferente de nós humanos, que a gente só passa os nossos genes através dos nossos filhos, as bactérias podem passar para uma vizinha. Uma vizinha pode pegar um gene, pode proliferar esses genes, e a partir do momento que a gente está produzindo alimento, esses alimentos, esse gado, eles também carregam micro-organismos. E talvez, de alguma forma, esses genes de resistência podem chegar ao ser humano como um produto final.
Lucas, você menciona algo que tem sido recorrente para que os nossos ouvintes perguntarem sobre a interferência do desmatamento e interferência das atividades humanas, essa possibilidade de trazer patogênicos e causar infestações. Claro, em época de pandemia é natural essa preocupação. Eu poderia imaginar, o seu trabalho não chega a essa conclusão, mas é muito longe de imaginar que é possível, existe a possibilidade dessas bactérias entrarem em cadeia, por exemplo, pela soja, ou pior ainda, talvez pelo gado que é produzido ali, como é que você enxerga isso?
Uma boa colocação que você fez é uma possibilidade. A gente é bem cauteloso na escrita do nosso trabalho porque a gente não avaliou isso. A gente não avaliou toda a cadeia alimentar para ver se isso vai chegar. Mas outros trabalhos já publicados em outras partes do mundo falam que isso é uma possibilidade real. Principalmente porque as bactérias se multiplicam muito rápido e principalmente porque os higienes são trocados. A gente vê um exemplo grande de como uma infecção, um vírus lá na China se espalhou pelo mundo de forma muito rápida. Obviamente que esse sistema de resistência antibiótica é mais demorado e tal, mas existe sim uma possibilidade de que de alguma forma isso possa chegar ao consumidor, aos seres humanos, como o topo da cadeia alimentar e ser um problema de saúde pública, como por exemplo a gente ter bactérias que tenham genes de resistência e a gente não ter os antibióticos que consigam combatê-las. Não chegamos a esse ponto, precisa ser investigado, precisa ser estudado, e ainda não temos registro disso. Mas é uma possibilidade. Então a partir do momento que é uma possibilidade, e a gente tá enxergando isso antes, é importante a gente levar em consideração pra buscar metodologias que evitem isso, né?
É, porque uma vez entrando na cadeia, alimentar é um passo para encontrar o ser humano nesse processo, além de outros animais, claro, outros.
Com certeza.
Outras possibilidades e tal. Muito bem. Um trabalho como esse, em relação ao desmatamento de grandes áreas, etc. Vocês, como biólogos e como pesquisadores na área ambiental, o que vocês podem adiantar em relação ao perigo que a Amazônia está correndo e nós como consumidores nesse processo desenfreado de desmatamento?
Então, são diversos agravamentos de a gente desmatar, tirar essas áreas de floresta nativa e transformar a agricultura, tanto para a biodiversidade de animais, de árvores, de plantas e principalmente para a diversidade microbiana. Só um exemplo clássico que a gente dá, por exemplo, o Brasil é um dos maiores responsáveis de emissão de gases do efeito estufa, que dá o aquecimento global, responsável pelas mudanças climáticas. No Brasil o maior responsável é que a gente chama de mudança de uso do solo, é converter áreas de floresta nativa em áreas de agricultura e pastagem. Então a gente já tem mensurações de que a floresta emite muito menos metano e óxido nitroso do que uma área de pastagem e agricultura. A área de pastagem e agricultura emite muito mais desses gases ruins para a atmosfera. Só que o interessante disso é que a emissão desses gases passa por processos microbianos. Então são conversões microbianas no solo que fazem com que esses gases são emitidos. Então se a gente está mudando a diversidade microbiana, então cortar a floresta. A gente está mudando a diversidade microbiana do solo e eles são os responsáveis por emitir esses gases. Principalmente o metano e o óxido nitroso. Na prática, um dado real de trabalhos publicados nossos, o que acontece? Tem bactérias que produz metano e tem bactérias que comem o metano. Eles sobrevivem comendo o metano. Então na floresta amazônica, as bactérias produzem e tem muitas bactérias que já comem. Então esse metano não chega a ser emitido. Quando a gente vai para uma área de pastagem, essa diversidade inverte. Tem muito mais bactérias que emitem o metano e muito menos bactérias que comem. Então o que sobra é emitido para a atmosfera. Então olha como é interessante que até se a gente pensar em mudanças climáticas, isso passa por atividade microbiana do solo e a gente está afetando elas através do desmatamento da floresta amazônica. Não é simplesmente a queima da floresta que vai emitir esses gases, mas a transformação desse solo vai mexer essa diversidade microbiana que vai fazer essa emissão dos gases.
Veja que interessante e complexo ao mesmo tempo, complexo ao mesmo tempo. Lucas, se nós imaginarmos, portanto, esse processo tão intenso na Amazônia e importante em escala planetária até, Imaginar que o antigo código florestal, em 2012, foi substituído por uma outra lei, claramente não é um código florestal, é um substituto do código florestal, mas nós temos uma perspectiva de manter em lei algo em torno de 80% da floresta. Portanto, nós estamos imaginando uma ocupação, você disse, uma mudança de uso do solo bastante mais com medida, cuidadosa, por princípios de prevenção e precaução, que a gente nem sabe direito as consequências de tudo isso, não é mesmo? Não te parece, nesse momento, nenhum exagero ou te parece exagero imaginarmos que a Amazônia, por todo esse complexo mencionado, deva ter a sua transformação de uso do solo parcimonioso pelo seu conhecimento microbiano e toda essa condição que você menciona.
Com certeza, Marcelo. Só que a gente sempre tem uma visão da floresta, né? E a gente tem que entender também que a gente é um país que depende muito do agronegócio, né? É um dos carros-chefes da economia do Brasil. Só que a gente, com ecologia microbiana, a gente consegue olhar também como transformar essas áreas de agricultura e pastagem de uma forma mais benéfica. Como isso? Através da manipulação do microbioma, entendendo o que as bactérias fazem, como trazer as bactérias benéficas, talvez a gente promova uma maior produção das plantas, necessitando menos da abertura de novas áreas. Então não vamos olhar somente para a floresta, mas vamos tentar melhorar as áreas de pastagem e agricultura que já existem. Porque se a gente consegue melhorar uma pastagem, a gente consegue colocar mais gado dentro de uma mesma área. Se a gente consegue melhorar uma área de agricultura, a gente consegue produzir mais dentro de uma mesma área. E assim a gente vai diminuir também a taxa de desmatamento. E com a biologia, com a ecologia microbiana, com a microbiologia, é possível fazer isso. Por exemplo, uso de inoculantes. Então a gente usar mais, descobrir mais bactérias que possam ajudar as plantas a obter nitrogênio, a solubilizar fósforo. A gente pode colocar isso nas plantações para que a gente use menos insumos artificiais. Que a gente use menos nitrogênio, menos fósforo, menos potássio. Usar a diversidade que está no solo para que ela promova a saúde e proteção das plantas. E assim a agricultura é mais sustentável, produz mais e como reflexo a gente diminui as áreas desmatadas. Então essas são umas das ferramentas que vão ser usadas no futuro, que é a microbiologia, para ajudar a nossa produção. Um exemplo clássico do Brasil, Marcelo, é a fixação de nitrogênio na soja. Então a Embrapa no Brasil nos anos 60 começou a desenvolver uma planta de soja que faz interação com uma bactéria, a bactéria entra na raiz e forma um monte de nódulos, um monte de bolinha na raiz. Então esses nódulos são bolsas de bactérias que fazem a fixação do nitrogênio. Então elas pegam o nitrogênio do ar e colocam na planta. Por causa disso, no Brasil quase não se coloca nitrogênio na soja. Isso dá uma economia de bilhões de dólares anuais por não usar nitrogênio na soja. Isso é uma tecnologia de microbiologia que foi empregada. Então imagine o potencial que a gente tem na frente de não só fixar nitrogênio, mas de solubilizar fósforo, de proteger contra doenças, de emitir menos gases do efeito estufa. Então a gente não precisa falar somente assim, ah, vamos produzir mais, mas vamos produzir mais emitindo menos gases. Então a gente consegue transformar a agricultura que já existe, muito mais sustentável. E como reflexo, então, para diminuir o desmatamento.
Você menciona várias questões nessa história toda, em políticas públicas e etc. Nós vamos voltar a essa história do desmatamento, mas eu quero explorar um pouquinho você nessa questão ainda dos micro-organismos que se tornaram resistentes aos antibióticos. Existe, Lucas, pelo que você mencionou, sim, mas eu queria passar limpo isso, soluções para que esse processo de resistência de antibióticos seja minimizado ou que isso não se propague posteriormente para as cadeias alimentares, Você mencionou eventualmente uma possibilidade de soja, gado. Existe solução para isso, curto prazo, médio prazo, com um manejo? O que fazer?
Eu acredito que a solução é manter um solo saudável. Com solo saudável você vai ter uma produção saudável. Então já existe, o Brasil é um dos pioneiros disso de, por exemplo, agrofloresta, uma diferente forma de manejo onde você integra a agricultura com floresta, com outras espécies e você promove o aumento da diversidade nesse solo. Você vai simular a diversidade que tem na floresta. A rotação de culturas também é algo que promove a diversidade do solo, deixando o solo mais saudável. Então já existem espécies vegetais que a gente sabe que vai melhorar o solo porque vai trazer mais fixadores de nitrogênio, mais espécies que solubilizam fósforo. Então, diferentes formas de manejo, a gente consegue promover mais saúde para esse solo. E não usar o solo extenuamente, depender de insumos artificiais, como o NPK, por exemplo, nitrogênio, fósforo e potássio, mas manter a diversidade do solo. Qual o grande desafio disso, Marcelo? Porque, às vezes, não é visto a curto prazo esse resultado. Então o produtor ele fica preocupado, ele quer produzir muito, só que no longo prazo ele pode estenuar o solo e acabar com a diversidade desse solo, deixar um solo não saudável, um solo doente. Mas se você faz alguns manejos, alguma estratégia, uso de inoculantes, uso de consórcios microbianos, compostagem, agrofloresta, tudo isso que eu mencionei, vai promover uma saúde do solo e isso vai levar a longo prazo. Então em muitos anos na frente a produção vai se manter com alta qualidade.
Então, aí nós podemos cair para essa segunda questão. Então hoje o solo, aliás desde que o Brasil foi ocupado, não foi descoberto, foi ocupado, havia pessoas aqui, o solo é visto apenas como um substrato inerte, eu vou suprir esse NPK, esse nitrogênio, fóssil e potássio que você mencionou, e aí vou produzir indefinidamente. É o seu definitivo. Então, arranco tudo, não largo nada e mando bala. Esse substrato inerte, você está nos mostrando muito claramente que ele é uma furada. É um barco furado, não é por aí a questão. E você menciona, portanto, que a agricultura, que é algo importante, um país desse tamanho, com tanto solo, só faltava não ser importante. Mas o modelo dele é que é meio estranho, porque a gente produz para exportação. É sóia, tudo é exportação. O Brasil não vai alimentar o mundo, vai alimentar quem consome sóia, o gado do mundo. O mundo eu não sei não. Essa é outra questão, como é que eu posso, nesse exercício, Lucas, fazer uma política pública para melhoria, para reparação, para recuperação de áreas que você mencionou, do pastagem, sem dúvida, elas são as principais, como é que eu faço isso? Que política é essa que eu posso, você que vem lá do Exalc, do Sena, do Sena tão importante, Como é que eu posso virar a chavinha aí? Porque o rolo compressor está aí, a boiada, sai o ministro, mas a boiada continua passando.
Com certeza, existem algumas metodologias que a gente vê já acontecendo em alguns lugares. Por exemplo, pedir um selo verde para uma produção. Então, sei lá, eu sou um país europeu, eu quero comprar carne do Brasil, eu falo, só vou comprar se você provar que você está produzindo de forma mais sustentável, diminuindo a emissão de gases do efeito estufa, se você está mantendo as áreas de proteção permanente. Então, um selo verde, eu acho que isso vai ser cada vez mais comum, principalmente para exportação. E daí você vai ter que ter uma certificação de que realmente a sua soja, o seu gado, o seu alimento sendo produzido está sendo produzido de forma mais sustentável. Você está cuidando do seu solo e você está cuidando do ambiente. Eu acho que é nesse sentido que realmente os grandes produtores vão começar a tentar mudar essa visão. E assim, Marcelo, e a gente também não tem que colocar que realmente tudo está degradando o ambiente. A gente conseguiu ver também nas nossas pesquisas que, por exemplo, o que acontece na Amazônia? Eles usam, por exemplo, uma pastagem por 7, 8, 9 anos e fica completamente degradada. E eles abandonam. Abrem outra área e partem para outra área. Com o tempo, de forma aleatória, a floresta começa a se regenerar, que é o que a gente chama de floresta secundária. E a gente comparou o microbioma dessa floresta secundária com a área de floresta. A gente viu que as funções e os micro-organismos benéficos também estão voltando aos padrões da floresta. Então a gente vai conseguir recuperar essas áreas degradadas usando alguma forma de manejo, manipulação de microbioma também. Então, além de diminuir as áreas de desmatamento, a gente pode melhorar as áreas que já existem e recuperar as áreas já degradadas. E para a política pública é isso, é alguma forma, alguma política, alguma norma que regulamentarize, que diga assim ó, se você tem que produzir de forma sustentável, você tem que recuperar áreas que você já usou, você tem que manter suas áreas de prevenção permanente e você tem que usar um manejo que emita menos gás do efeito estufa. que diminui o uso de insumos artificiais. E com isso a gente vai começar a produzir e criar uma agricultura mais sustentável. Eu te digo que o Brasil tem chance de ser pioneiro nisso. Com as pesquisas que temos feito, com a produção de alimento que o Brasil tem, já tem exemplos legais de pessoas usando novas tecnologias baseadas em microbioma, baseado em algo mais sustentável para produzir. E vai manter a produtividade com certeza. E no futuro, quem sabe, Marcelo, isso vai agregar valor. Talvez você produza um pouco menos, mas tem um valor agregado que vale mais do que uma produção extenuante do solo.
Isso é muito importante o que você está mencionando, Lucas. A tecnologia avança bastante. Você cita a Embrapa, uma instituição extremamente importante no Brasil nesse sentido, você participa da USPES-ALP, uma das quatro melhores escolas de agricultura do mundo, portanto, nós somos o topo do mundo, é isso mesmo. Eu sempre fico, não de maneira pessimista, ao contrário, bastante otimista. Porém, imaginando como é que eu viro a chavinha, esse modelo avassalador de passar boiada, quando é que ele vai perceber que a boiada pode ser melhor qualificada ao invés de ser simplesmente passada? A Amazônia experimenta outros segmentos, como o desmatamento por madeira, por especulação imobiliária, é política pública, Lucas, as pessoas têm que parar de deixar esse processo seguir sem nenhum tipo de controle e investir em tecnologia, investir em qualidade, seria isso. E você mencionou, só para cutucar você mais um pouquinho, nosso tempo está terminando, num primeiro momento é apelar para o próprio mercado. Então seria como se exigir desses mercados um comportamento da cadeia alimentar de todos os fornecedores. Talvez seja essa uma solução viável para o momento. Como é que você enxerga?
Eu acho que sim, porque não importa, nós estamos fazendo pesquisa, tentando entender e fornecer metodologias, mas o que move é o mercado, né Marcelo? Então é o mercado que vai mover, é o mercado que vai ajudar a tomada de decisão. Mas eu acho que seria importante também um investimento maior em pesquisa. que parte disso, que faça algumas parcerias, que as empresas venham e entrem na academia para que a gente possa juntos desenvolver metodologias baseadas em ciência que ajudem isso e que ajudem na produção, que ajudem no ganho, que ajudem no lucro e que ajudem na preservação do ambiente. Eu acho que o futuro é a integração entre todas essas etapas, mas obviamente que a gente está abaixo das regras do mercado, né Marcelo?
Lucas, somos um pouco suspeitos para falar que em pesquisa não é gasto, é investimento, e cada cruzeirinho, cada realzinho, cada centavinho, cruzeirinho do meu tempo de antigamente, fazendo uma homenagem ao José Marcelino aqui, cada centavo que você coloca lá reverte, cada pesquisa dessa que vocês realizam e aplicam, nossa, isso... É uma economia em escala, portanto é um envolvimento financeiro.
E você sabe que às vezes, Marcelo, é um erro nosso como pesquisador não mostrar isso para a população, mostrar como isso é retornado em economia. Também é um erro da academia não mostrar isso, é um erro dos pesquisadores. Você mais divulgar melhor a parte científica para mostrar que isso realmente é importante investir em ciência.
Olha o programa aí, Lucas, querendo tentar, pelo menos estamos tentando fazer um pouco essa transformação de resultado e levar para a população. Lucas, uma prosa tão adequada e tão oportuna, é muito, extremamente oportuna, mas, infelizmente, o nosso tempo se esgotou. Haverá, certamente, novas ocasiões para a gente conversar desses e de outros temas que você proporcionará para nós. Então, quero agradecer imensamente o pesquisador e biólogo Lucas William Mendes, do SENA, Centro de Energia Nuclear da Agricultura, que fica lá nessa AUC, Tiracicaba. Quero agradecer imensamente também a participação da Suyane, Luiza Zenia e da Natália, Stephanie Silva, que são nossas batalhadoras aqui no programa. O Trabalhos Técnicos, o Gabriel Soares e a Marceline e eu, o Marcelo Pereira, aí na condução dos trabalhos. Lucas, muito obrigado mais uma vez e até uma próxima, então.
Eu que agradeço, Marcelo, a José Marcelino pelo convite. É sempre um prazer, estou à disposição. Um abraço.
Você acabou de ouvir Ambiente é o Meio. Produção e apresentação, José Marcelino e Marcelo Pereira. Música tema, Evandro Navarro. Sonoplastia, Mário Ovaldo Avelino. Ouça também este e outros programas em www.ribeirão.usp.br
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